No dia do “Pão por Deus”

Andei, com outros rapazes, ao “Pão por Deus”.

Na verdade, pelo menos na primeira vez e durante algum tempo, não sabia bem por quê, quais as razões, “faz-se assim”, diziam os rapazes mais velhos e as mães e avós, sobretudo elas, as mulheres das nossas casas, das nossas vidas, porém, a tradição (nem nisso se falava, tradição) estava no calendário e, uns dias antes, nunca me lembrarei quando e como, mas recordo-me do onde (no Rio das Patas, ou seja, uma parte do Vale de Santarém por onde corria um ribeiro, todo o ano, a que chamávamos “rio” e, “das patas”, também só muitos anos depois soube por quê, diziam, e pronto, era assim…) ribeiro com nascente mais a oeste, pró Cabralão, mais ou menos, e então lá nos entregaram, as mães (no meu caso a avó Alexandrina) a cada um o saco para irmos ao “Pão por Deus”, o da minha avó era às riscas amarelo-torrado, verticais, com o atilho em cima, e ela explicou: vais por aí, a todas as ruas, bates à porta, e dizes “Pão por Deus”, e ficas à espera. Se abrirem a porta voltas a dizer “Pão por Deus” e abres o saco, pode ser que dêem alguma coisa, se derem diz obrigado, se não… vem-te embora, e bates a outra porta. Perguntei-lhe: e o que é que vão dar? E ela: se derem, pode ser marmelos, uvas, nozes, amêndoas, castanhas, rebuçados, o que calhar. E alguns tostões… Muitos? perguntei eu. E ela, a rir francamente, depois disse: se te derem um cruzado já tens muita sorte. Um cruzado… eu já sabia, da Escola Primária, era quatro tostões, em duas moedas de dois tostões.

Foi comigo até à cancela de madeira, de acesso à rua, íngreme, de terra batida e buracos tapados com pedras e bocados de madeira e outros materiais inconcebíveis para tal, as enxurradas abriam crateras, e lá fui, ao encontro dos outros rapazes, mais ou menos da mesma idade, pois tínhamos falado dias antes sobre aquela coisa do “Pão por Deus” e a equipa estava formada. Começámos a subir a rua e a bater às portas, umas abriam outras não, a estas jurámos voltar pela tarde. Dada a volta à rua, até ao topo, lá conseguimos algumas colheitas, também sorrisos, perguntas, além de lamentações, “há pouca coisa, o tempo estragou os marmelos”, dizia uma velha enfarruscada, os dentes era mais buracos, muito tristinha, “pró ano é melhor, filhos, vamos a ver, come diz o outro”…

Por ali andámos, até descermos para outras ruas, os saquinhos a encher, até que encontrámos um grupo de rapazes mais velhos, vindos da parte mais a oeste do Rio das Patas, onde dominava o João Ferreira, ás na bola e na atiradeira e ratoeira de apanhar pássaros, que nos disse que nas casas onde não dessem nada nós devíamos rogar uma praga, raistabrasem ou pior, e atirar pedras pró quintal, que era assim que se fazia, de modo que, no preceito de fazer o “Pão por Deus”, que ouvira da boca da avó Alexandrina, estava agora a ser introduzida a novidade do castigo a quem não desse nada, e logo pelo João, filho do Sabino, tão amigo do meu pai, aquilo era coisa muito forte, a lei dos mais velhos. Os outros entreolharam-se, e como para mim era a primeira vez, mostrei, à ordem do João, o que já tinha no saco, o mesmo acontecendo aos do meu grupo. Chegando à zona da “Senhora Gorda”, no Casal de Santo António, o João disse “Oh canitos (ou seja, pequenitos) práli na vão, ca gente já fomos a todas as casas, ouviram?”, e assim foi, achámos que era melhor voltar para trás, ordem do João, estava feita a viagem.

Como rescaldo do meu primeiro “Pão por Deus”, a satisfação de o ter feito, com os meus amigos, o trazer o saco quase cheio, com marmelos, nozes, figos passados, amêndoas, uvas de pendurar, três romãs e dois tostões, quer dizer, meio cruzado, e rebuçados de mentol, que vendia o Gimbrinhas, na farmácia, dádiva de uma velhinha rouca e com o lenço negro tão puxado pra diante que quase só se via a ponta do nariz adunco, a sobressair.

A minha avó quis logo saber como tinha corrido o “Pão por Deus”. Satisfeito, entreguei-lhe o saco e, perante a expectativa do silencioso avô Alfredo, ela deu uma gargalhada de admiração por tanto ter conseguido, e logo quis coscuvilhar sobre quem tinha dado o quê, mas mesmo que eu quisesse explicar não podia, que estava tudo misturado, só lhe falei de quem tinha dado os dois tostões, de quem por sinal não sabia o nome, disse-lhe do pormenor de a senhora ter tirado a moeda do lencinho que tinha no bolso do avental.

A tradição do “Pão por Deus”, também um ritual de passagem que, para mim, aconteceu assim. Andava eu na segunda classe, em 1 de Nov. de 1954, no Rio das Patas, Vale de Santarém. Haveria de vir o tempo em que ficaria a saber, afinal, a raiz e o fim do “Pão por Deus”.

Hoje, no Vale de Santarém, a Comissão de Pais da Escola EB1 está a recuperar o “Pão por Deus”, com a parceria das Associações, uma tradição portuguesa. Em boa hora, bem melhor do que as invasões das culturas dominantes que, a nível universal, nos impingem “halloween’s” e quejandas práticas, que nada têm a ver connosco, a nossa cultura, onde o objectivo comércio/lucro, é que domina e o marketing massivo promove. Enfim…

1 de Nov 2025

DIAS FELIZES

Dias Felizes…

Por cá vamos estando, desde que do ventre materno saímos e, na sucessão dos dias e do que eles vão sendo, para cada um de nós e os nossos familiares e amigos, e para o país, deles colhemos: momentos, horas, períodos, fases, acontecimentos para recordar. Normais, difíceis, tristes, exaltantes, felizes, muito felizes, enfim… a vida.

O que os dias da nossa vida nos vão dando, é isso. E também o que nós vamos dando à nossa vida e à vida de outros: sim, aos familiares, aos amigos, à comunidade, ao País, ao Mundo.

Foi bom, tem sido bom, ou antes, por vezes, pelo contrário? Ou seja: de que natureza será o saldo? O saldo, pela avaliação dos outros em relação a nós; a nossa avaliação, em relação aos outros, a maioria das vezes arrasadora; a nossa avaliação, a nós mesmos, julgadores em causa própria, talvez quase sempre benevolentes, outras vezes talvez severos.

Nós, seres humanos carregando o enorme saco de passado, de bom e mau, de positivo e de negativo, muito bom, de assim-assim… um saco que muitas vezes, muitos de nós gostaríamos de largar em qualquer lado, porém ele de nós não se despega. Temos de o carregar, até ao fim da caminhada.

Contar-se-ão pelos dedos das mãos, dizem, os dias felizes das nossas vidas. Ao fim e ao cabo, a felicidade é passageira, rápida, fugaz, esvai-se na vertigem da sucessão dos dias vividos, e nós sempre sempre na mira de “amanhã poderá ser melhor”, pelo menos os que olham o futuro com esperança, com confiança, com alma de quererem melhorar o Mundo. À sua volta, ou mais além. Triste iludido… oiço um grilinho sarcástico, aqui ao lado, a rir-se de mim… Vai-te, grilinho!…

Dias felizes. Sim, tive-os. Tenho-os tido. Os da conclusão das minhas etapas escolares e académicas, desde os tempos da primária, e foram muitos. Como os dos jogos e brincadeiras em que saí vencedor, ou não sendo, os vivi intensamente, pelo puro prazer de estar ali, com outros. Os das aprendizagens sucessivas, acumulando-se, dos pequenos nadas do ser vivente, enquanto rapaz, adolescente. Os dos êxitos dos irmãos. As descobertas, o princípio de algumas amizades para toda a vida. O primeiro dia da minha actividade profissional, aos 18 anos, que durou quase mais 40, e além disso, mais dez como empresário em nome individual. E depois, as actividades associativas, o primeiro livro, o continuar a aprender, voluntário, militantemente. E a errar. E a acertar. E a errar outra vez, e por aí fora. Até hoje. E assim vai ser.

Dia Feliz, o do primeiro amor, como o do casamento. Os do nascimento dos meus filhos e netos. Os do regresso da guerra colonial, a bordo do Vera Cruz, ao cabo de 27 meses em Angola, no total muito mais de três anos de vida militar forçada, de interrupção da vida profissional e pessoal. Dias da guerra colonial, que marcaram e marcam dias: pelas memórias, pelos regressos ao teatro da guerra, a perseguição dos sonhos na mata, as emboscadas, a náusea do cheiro a pólvora, a cada passo o imprevisto, o medo.

E o dia 25 de Abril! E o 1º Primeiro de Maio!

Esse 1º Primeiro de Maio, depois da tal e inesquecível “madrugada que eu esperava, O dia inicial inteiro e limpo, Onde emergimos da noite e do silêncio, E livres habitamos a substância do tempo”, como a poeta Sophia de Mello Breyner Andresen deixou dito, para sempre, sobre esse seu/meu/nosso Dia Feliz, do 25 d’Abril de 1974. Da Liberdade. Do caminho para a Democracia. De um futuro para construir, e por construir, e ainda o é, mas não já dos negros dias de um passado tenebroso, a que não quero voltar.

Enfim, 1º de Maio, pela primeira vez em Liberdade! Do mais brilhante e imenso sorriso, do grito à lágrima da Felicidade individual, colectiva. Do coração cheio de vibração e de sentimentos de gratidão enorme, eterna, aos que escancararam as portas da Liberdade e semearam caminhos de espanto, para abraços, ideias e obras novas.

Todos os dias, em todo o Mundo, milhões vegetam na mais terrível desgraça. Todos os seus dias são dias infelizes: pela guerra, pela extorsão, pela rapina, pela fome, pela sede, pelas doenças, pelo abandono por parte do resto do Mundo.

O meu 1º de Maio, como sempre, é um Dia Feliz. Desde 1974.

O meu 1º de Maio é um dia em que sempre esse saco de passado dos infelizes volta à minha mente. Eles não têm dias felizes. O resto do Mundo (e sobretudo alguns países donos do Mundo e seus yess) assim querem que aconteça. A História do Mundo é um amontoado gigantesco, descomunal, de ossos e cinzas. E lágrimas, que formaram oceanos e secaram, sem esperança.

O saco que o Mundo opulento e rico traz às costas é hediondo.

Porquê? Até quando?

Viva o 1º de Maio!

1º de Maio de 1974 – Lisboa – Estádio 1º de Maio

NOS 50 ANOS DO 25 D’ABRIL

Quem sabe o que foi a vida em Portugal antes do 25 d’Abril não pode esquecer esta data gloriosa do nosso país, proporcionada pelos capitães que, num golpe militar, pôs fim ao regime ditatorial, caduco, isolado do Mundo, que se mantinha por aqui, há mais de 48 anos.

Embora com dificuldades, com muitas interrogações, nada do que hoje vivemos se compara com esse tempo, onde até a expressão pública das mais simples ideias e interesses das pessoas estavam sujeitas às acções pidescas e de outros informadores locais, alguns até dentro das famílias, servindo para alimentar esse regime de medo, que tinha os dias contados, mas continuava mandando jovens para a guerra colonial, onde muitos milhares perderam a vida, muitos outros ficaram com incapacidades para sempre, físicas e psicológicas.

A fome, o atraso de quase todas as regiões do país, a falta de assistência médica (as pessoas hipotecavam-se se havia operações cirúrgicas ou internamentos a fazer) não havia segurança social, a escolaridade não era garantida, o ensino académico era essencialmente para ricos, a censura existia em tudo o que era comunicação social, espectáculos, música, livros, cinema, teatro; a vida pública, as colectividades e associações eram controladas por bufos e pides; nas prisões políticas eram encarcerados todos os que, através de processos judiciais fantoches eram vistos como inimigos do regime, muitos deles pagaram com a morte, nesses locais horrendos, a ousadia de se manifestarem contra a tirania, a miséria e a fome.

Só quem não viveu esses tempos, ou quem, tendo sabido o que acontecia, agora quer negá-los, poderá não dar Vivas ao 25 d’Abril. Há até quem diga que “éramos felizes e não sabíamos…”. Triste gente, que tem tais sentimentos…

Viva o 25 d’Abril! Sempre!

Foto de mural ao 25 d’Abril. feito no Vale de Santarém, há umas décadas.

João, soube hoje que te foste…

Soube hoje, João, que te foste. Desta vez, não numa daquelas surtidas, silenciosas, por entre árvores ou erva, quando perseguias os pássaros, de fisga na mão, ou, com a caçadeira, em busca de perdizes, coelhos, lebres e tudo o que viesse… Ou quando, no campo, fintavas, fintavas, e atiravas à baliza, ou voavas, testa na bola, e ela lá dentro, com aquele som único, nas redes, e tu na euforia, na glória, no meio do aplauso vibrante. Ou quando percorrias as vinhas, em cata do que fosse, a caminho do bornal.

Desta vez, foi assim: o teu corpo quebrou, afinal acontece a todos, até mesmo a ti, filho da “Gineta”, mulher de grande fibra. Só que quase nunca estamos à espera que aconteça aos outros, ou a nós. Mas virá um dia… virá um dia.

Grandes amigos, como bons Irmãos, os nossos pais. Haveríamos de ficar ligados, também por isso, mas foi muito mais o que nos uniu. Por isso, estás no que escrevi, e fica para sempre. É a homenagem, que aqui faço, e recordo, com o que está num dos meus livros.

No Vale, no nosso Clube, sucessor dos “Águias”, como no Operário e n’Os Leões de Santarém, tu fizeste história: o João, João “dos pardais”, o filho do Sabino, o filho da “Gineta”, o João “do Vale”, o João Ferreira…

E aqui vai, meu amigo, a homenagem.

“Eu tinha no Vale grandes amigos, rapazes da minha bugalhada: o Reinaldo, o Azenha, o Orlando, o Joaquim Rafael, o Hélder, os Mendões, o Joaquim Júlio, o João Ferreira, o Celestino, o Zé Neves… Uns eram adeptos do Benfica, outros do Sporting.

Ensinou-me a vida, bem cedo, que as rivalidades clubísticas não podem, nunca, estragar as amizades e, felizmente, assim foi, sempre. Não sei como, mas aconteceu: da parte deles e da minha.

O João Ferreira foi, e é, um desses amigos. Benfiquista, íamos jogar numa pequena área aberta, num pinhal, que era da quinta de Rebello da Silva, junto à levada, da parte de cima das hortas, as mais das vezes com uma grande bola de trapos, pois era difícil arranjarmos uma de borracha e, uma de “catchumbo”, com pipo e tudo, isso então era uma miragem.

Esse nosso campo era uma maravilha: plano, com alguma erva, parecia que era relvado, até gastarmos a erva toda com as nossas jogadas, de pé descalço. Tinha duas oliveiras, que faziam de baliza, numa das pontas e, pelo meio, outra oliveira, mais pequena, que dizíamos ser o defesa da equipa contrária. Tínhamos de a rodear, mas algumas vezes batíamos contra ela, uma vez caí redondo e fiquei esfolado, andei dois dias de mão na cara, para os meus pais não verem os estragos, mas eles tinham olhos de lince e tive de contar que… o defesa central da equipa adversária não se tinha desviado, para eu continuar a jogada, e pronto…

Juntávamo-nos lá, com o Celestino, a quem a minha avó Alexandrina chamaria de “Cestrino”. Por vezes, aparecia também o “Ganilha”, mas esse era mais tipo ave de arribação: dava uns toques, uns remates, depois ia à vida. E o Vassalo, outro sportinguista.

Fazíamos ali grandes jogos: o Celestino centrava, sempre da esquerda, que era o forte dele, passes bem medidos, em arco ou tensos, o João aparecia no hipotético centro da área, havia um ou mais defesas, além da oliveira pequena, a tentarem contrariar o poder finalizador do João, um “matador” em potência. Eu, à falta de mais recursos, ficava na baliza, entre as duas oliveiras a fazer de postes, saltando como um gato, a tirar a bola da cabeça do João, ou arrojando-me ao solo, a ir buscar a bola aos seus pés e, algumas vezes, não era golo…

Mas havia uma coisa notável: era o relato do que ia acontecer, do que estava a acontecer, ou do que tinha acontecido, há segundos.

O Celestino, sportinguista, enquanto corria com a bola, junto à extrema esquerda imaginária do nosso campo, preparava os passes para o centro da área, punha nele o nome de jogadores do seu clube, e a jogada que ele iniciava e levava por diante, relatava-a, em voz alta e a preceito: na sua boca, a bola podia passar pelo Peres, pelo David Julius, ou por outro grande jogador do Sporting e depois eu ia relatando também, até a bola chegar à zona de acção do João, benfiquista, mas não fazia mal, para aquele caso punha nele nome de jogadores do Sporting, e eu aparecia a defender, com o nome de Costa Pereira, guarda-redes do Benfica, pois claro, e por aí fora, tardes inteiras.

Era assim, a não ser que nos desse na cabeça para, desanuviando, irmos aos pássaros, arte em que a estrela era também o João e, por isso, ficou com a alcunha de “João dos pardais”.

Outros entreténs, poderiam ser o banho no ribeiro, ali mesmo ao lado, ou irmos ao dinheiro: procurar moedas, nos locais onde as mulheres iam lavar, arte que poderia dar-nos umas moeditas, para comprar os “caramelos” da bola e quem sabe, sair-nos o número da bola, de catchumbo, que era o nosso sonho…

Haveria de chegar o tempo dos jogos “dos de cima” contra “os de baixo”, que podiam ser no espaço amplo, de erva rasteira, razoavelmente plano, junto ao Pinheiro das Areias, que até podiam dar em zaragata, e cada equipa recolher de imediato ao seu reduto: os “de cima”, da Fonte das Três Bicas até à Torre e ao Rio das Patas; os “de baixo”, da Fonte de Uma Bica até ao Cabeço da Mesquita e Cadima.

Este sempre provável conflito, durante o jogo da bola, era ainda uma reminiscência de outros tempos, em que havia forte divisão entre aquelas duas zonas, separadas por um espaço do tipo “terra de ninguém”, entre as duas fontes, no qual se afoitavam “os de baixo” ou “os de cima”, mas sem consolidarem ali, uns e outros, qualquer domínio territorial.

No meu tempo, lembro-me de, no jogo da bola, pertenceram ao grupo dos “de baixo”, o Sebastião, o Abiça, o Manuel João Carvalho, os Pirralhas, o Martelo, o Ângelo Sardanico, os irmãos Ramos, o Valente e, ao grupo dos “de cima”, o João Ferreira “dos pardais”, o Celestino, o Zé Tomé, o Orlando, o Ganilha, o Vassalo, e eu próprio, além de outros.

Mais tarde, o João e o Celestino haveriam de jogar nos Leões de Santarém, na equipa de seniores. O Manuel João Carvalho, que já era estrela nas camadas jovens dos Leões, alcunhado de “Albano”, haveria de ingressar n’Os Belenenses”. Eu joguei dois anos nos juniores dos Leões. Mas a arte deles era bem superior, sem dúvida, e eu gostava muito de os ver jogar.”

Até um dia, João.

Na foto, e da esquerda para a direita, de pé: João Cunha, Francisco Monteiro (Chico Abiça) , Foguete, Manuel Gomes (Martelo), Valente, Artur Fandinga Bernardes, Joaquim Monteiro (o capitão de equipa). À frente: Manuel João Carvalho, Fernando Monteiro (da Mari’ Joaquina) João Ferreira, Fernando Madeira, Manuel João Sá. O treinador era o Sr. Policarpo. Foto de um jogo, contra os Pescadores da Costa da Caparica, no seu campo, no Verão de 1962. Nesta altura, o nosso clube tinha o nome de Associação Juventude e Desporto do Vale de Santarém, só mais tarde passou a Atlético Futebol Clube do Vale de Santarém.

SETENTA ANOS DEPOIS

7 de Outubro de 1953. Quarta-feira.

A manhã correu depressa. A minha mãe preparou tudo para o primeiro dia de escola, naquele edifício onde, também ela, em 1928, dera entrada para a primeira classe, e o meu pai quatro anos antes.

Depois de almoçarmos, foi tempo de vestir a bata branca e voltar a ver o que já estava na mala de cartão e correia ao ombro: um caderno de duas linhas, um lápis, uma borracha, uma caneta de molhar, uma pedra de ardósia e a pena, também de ardósia, para nela escrever.

Descemos pelo carreiro do costume, seco, a areia seixosa a fazer-me escorregar, até chegar à regueira do brasileiro, depois a subidinha onde ouvia o canto dos rouxinóis, o pinhal, o olival, a curva e a quinta das “Rebelas”, o ribeiro, o pombal e a rua onde ficava a escola.

Esperámos. Outros rapazes, outras mães, rostos desconhecidos, vozes novas, conversas alegres, elas numa algazarra, até que veio a senhora professora, de bata branca, radiosa, e estava aberta a porta para o início da mais encantadora fase da minha vida de criança.

Naquele dia, passam hoje 70 anos, a entrada num mundo novo, rumo ao futuro, cuja base primeira e decisiva começou a construir-se nesse inesquecível dia que a memória me traz, felizmente, com regularidade.

Na primeira fotografia, “à la minuta”, lá estou eu, na fila de baixo, o segundo a contar da direita, mais os outros da primeira classe (nomes, rostos e vozes que me surgem, de imediato: Orlando, José Mendes, Inocêncio, Marcelo, Garcês, Rui Sá, Joaquim Júlio, Figueiras, Isaac, Formiga, João, Armando, Prazeres, Reinaldo, Caeiro, Celestino, Manuel João “Negro”, Chiquinho “do Correio”, Ângelo Carvalho), e os da terceira (Manuel “Jeirinhas”, Vítor “Bolas”, Chico “Abiça”, Avilez, “Martelo”, José Leirião, Sebastião, António Abreu, José Ricardo, Pedro Cristiano, Mário Vieira, Ângelo “Sardanico”, Manuel João Libório”) e outros mais, cujos nomes a memória já não guarda, e que a professora, Dona Augusta, de Almeirim, dirigia com o seu imenso saber, com um sorriso na voz, o carinho a comandar a autoridade.

Como hei-de, sem resquícios de passadismos estéreis, deixar de me emocionar ao lembrar esse tempo, da minha vida?… De modo que, serenamente, com o olhar de hoje, agradeço que a memória me presenteie com as imagens desse tempo único, que procurei deixar descrito no livrinho que disso fala, lançado em 2018.

Às raparigas e rapazes do nosso tempo (e já tantas e tantos partiram) um fraterno abraço.

Manuel João Sá, em 7 Outubro 2023.

Edifício da Escola Aristides Graça, do Vale de Santarém,
inaugurada em 1915. No 1º andar funcionava a escola para raparigas, no r/chão funcionava
a escola para rapazes.
Alunos da 1ª e da 3ª classes, da Escola Aristides Graça do Vale de Santarém,
ano lectivo de 1953/1954
Publicado em 2018

Na partida do amigo Zé Neves

Naquele tempo, meu amigo, não pensávamos em partir, a não ser para perto, e Lisboa era o horizonte mais natural, iríamos de comboio. E fomos, era de manhã, muito cedo, no “texas”, o comboio de portas verdes, um pouco onduladas e com puxadores como se fossem de portas de entrada para divisões de uma casa de gente com posses, mas a primeira classe era mais requintada, já se vê, nada de misturas. Nesse dia de 14 de Dezembro de 1964, eu a caminho do Banco, pela vez primeira, para começar a trabalhar lá, e tu já habituado a essas viagens, ias para Moscavide, com Lisboa tão perto, para lá ias de autocarro, um dos verdes (como o teu Sporting) de dois pisos. Mas antes de tudo isso, lembras-te, houve um tempo em que ainda não nos conhecíamos, e éramos da mesma terra, o nosso querido Vale, tu com mais um ano do que eu, mas andámos sempre desencontrados na primária; exactamente do meu tempo eram o Reinaldo, o Garcez, o Norberto, o Joaquim Júlio, o Azenha, o Joaquim Rafael, o Daniel, o Orlando, o Ângelo Carvalho e mais uns quantos (se ainda cá estiverem eles vão desculpar-me pelo esquecimento dos seus nomes) e por isso, só quando andava no 3º ano da escola de Santarém, da qual foste um dos fundadores, é que ouvi dizer que havia um tal “Catitinha”, que era do Vale, e esse eras tu, já tinhas então essa carinhosa alcunha… Viajavas de comboio entre o Vale e Santarém, dado que o teu pai era da companhia, e assim não nos encontrávamos noutros transportes, eu a maior parte das vezes à boleia, que apanhava na avenida frente ao hospital velho, um dia o condutor enfiou-se pela valeta junto à Quinta da Bica, à entrada no Vale, estava um anoitecer terrível de chuva e vento, e lá fiquei encafuado no Renault de motor traseiro, eu a gritar “tirem-me daqui”, sacaram-me pela porta de trás, o condutor ficou inanimado, tiveram de lhe dar uns estalos para vir a si, e veio, e só perguntava “e o rapazito, o rapazito?…” e eu já a correr, de pasta na mão, para a farmácia do Gimbrinhas, ilusão minha, “só no hospital, só no hospital rapaz!” gritou-me, e assim foi, a cicatriz ainda cá está, cozida a frio, junto ao olho… Foi depois disso que mais nos abeirámos um do outro, e fui sabendo das tuas questiúnculas de peso com o Neves, lá na Escola Industrial e Comercial, mas quem as não tinha, se a bruteza dele não parava e a cada ano até parecia que requintava?…

Foi então que, nas férias, começámos a conviver, íamos a tua casa, formou-se um grupo de quatro (tu, o Reinado, o Helder e eu) o quintal era generoso e deixámos nascer e partilhar sonhos de todos os tipos, como formarmos um conjunto musical à moda dos de lá de fora – ainda não se falava em Beatles, vê tu bem, e tu a deixares crescer o cabelo, de modo que imitavas os The Everly Brothers, o Reinaldo a imitar o Elvis – e nós na miragem de algo conseguirmos, até era bom para mais fácil aproximação às miúdas de fora, acreditávamos nós; na falta de barba, ainda, não deixávamos de usar o Floid, que vinha de Espanha, pelas mãos do teu irmão António; viríamos a combinar formarmos uma espécie de clube, para encontros e matinés dançantes, que aos poucos foi ganhando o nome, que lhe demos, de Big Ten, e, nos espaços onde funcionávamos, o gira-dsicos girava, girava toda a tarde, até ao anoitecer, chegava a deitar fumo, e o Nuno a gerir aquilo, com saber na escolha dos poucos discos que havia, ele fazia milagres. Além das colegas e amigas do Vale, milagre era também a vinda de miúdas de Lisboa, nas férias, e daí tudo o que de único e irrepetível podia acontecer, pelas tardes dançantes e de convívio franco, aberto, muito diferente do que era permitido na Sociedade Recreativa Operária, outros ventos soavam já no nosso horizonte… Era na adega das irmãs Catrinas que tal acontecia a maior parte das vezes, o Big Ten a funcionar em pleno, e, durante a semana, em tempo de férias, os nossos paraísos junto à vala, na pesca, a nadar, a fumar, a ler, a sonhar… e o teu irmão Horácio a trazer cigarros de Lisboa, ovais, com letras a doirado, eram turcos, dizia ele…

Depois de nos fazermos à vida, com os empregos e os filhos que tivemos e os netos que nos deram, e disso fomos falando, concluímos que correram depressa demais os anos, meu amigo. Tão depressa, que agora já estamos de novo de partida. Não há como parar esta corrida, bem sabemos. Ainda há bem pouco falávamos nós da partida da nossa Mari’ Ilda, e, depois, da Tilinha, e já hoje estamos a falar de ti. Estas notícias, para as quais devemos estar preparados (dizemos) são sempre brutais. Vou recordar-te com a tua afabilidade, o teu sorriso, a tua voz, a tua amizade. Enquanto vida houver… E vou pôr-te aqui, naquela foto de 1964, na estrada para a Fonte Boa, lembras-te?… aquela em que tu estás com a viola, que era do Reinaldo, ficámo-nos por ali quanto ao instrumental para formarmos o tal conjunto, pá… Alguns, desta foto, também já partiram: Mário Vicente e sua irmã Glória Vicente; Mari’Ilda Lanceiro; Nuno “grande”; José Paixão; Hélder Ferreira. É assim a vida, amigo. Até um dia…

MAIS DE 160 NO 10º CONVÍVIO ANUAL DA ESCOLA ARISTIDES GRAÇA, DO VALE DE SANTARÉM

Após dois anos de paragem, devido à pandemia, foi um regresso cheio de alegria, num convívio bem-sucedido. Foram 161, os participantes.

De manhã, com a presença de um grupo de antigos alunos e familiares, estivemos na romagem no cemitério, em sentida homenagem aos colegas e professores falecidos, a que se seguiu a missa, por sua intenção.

No CAR-Fonte Boa decorreu o resto do convívio, onde, além do almoço e do bolo de aniversário, houve a tarde de música, que muito agradou.

Terminado o almoço, o Grupo de Cantares Chãs d’Ourique cantou e encantou, e por isso os convivas lhe tributaram ovações a cada canção popular que apresentaram. Uma óptima surpresa.

Nesse período houve mesmo quem dançasse, e, depois, foi mesmo tempo de dançar, podendo “fazer o gosto ao pé” todos aqueles que, gostosamente, estão sempre a aguardar este período, e foram muitos pares.

Entretanto, será editado e publicado o vídeo completo desta nossa festa anual.

Daqui por um ano, mais ou menos, voltaremos ao nosso convívio anual.

Saudações fraternas da Comissão de Organização.

DIA 1 DE OUTUBRO, O REGRESSO AO CONVÍVIO ANUAL DA ESCOLA ARISTIDES GRAÇA

Estimadas Amigas, Estimados Amigos,

A Comissão Organizadora do Convívio Anual, que se realiza há vários anos, retoma este evento, interrompido durante o tempo da pandemia, e é com toda a disponibilidade e alegria que o faz, correspondendo ao desejo de alunas, alunos, familiares e pessoas amigas. Será o X Convívio anual.

 Embora tendo-se iniciado com grupos de alunas e alunos que andaram na Escola Aristides Graça, o nosso convívio anual já passou a considerar que nele se engloba quem andou na Escola que lhe sucedeu: a Escola Nº 2.

Esta mensagem destina-se a dar informação, também por esta via, reforçando a divulgação feita pelo facebook e pela via directa, pelos membros da Comissão, em contactos pessoais.

No último que realizámos, em 2019, tivemos a participação de 180 pessoas. Agora, a pergunta é: será que vamos chegar a esse número? A resposta só pode ser dada por vós.

Abaixo, o cartaz de divulgação do evento, com a ementa do almoço e outras informações. O preço é o mesmo de 2019.

Pedimos que contribuam para a realização do convívio, partilhando esta mensagem. Obrigado.

Saudações fraternas,
Manuel João Sá

LANÇAMENTO DO MEU LIVRO “PÁTRIA DOS ROUXINÓIS”

Com a presença de mais de 50 participantes, fiz o lançamento do meu 2º livro, “Pátria dos Rouxinóis”, na SRO do Vale de Santarém, no passado dia 3 de Set., no meio de um ambiente muito positivo, de carinho e incentivos para comigo, que não vou esquecer. Pessoas do Vale, como de outras origens, deram-me o imenso gosto da sua presença, que muito agradeço.

A apresentação do livro coube ao meu amigo Reinaldo Ribeiro, igualmente valsantareno, com obra publicada, há anos, e a quem fico imensamente grato por mais esta colaboração.

Relevo sobremaneira a interessada participação, de muitas pessoas que quiseram manifestar palavras de apreço e de incentivo, pessoal ou publicamente, as quais muito agradeço, bem como a atenção com que a sessão foi seguida, sem arredar pé, apesar da longa duração que teve, até ao período final dos autógrafos que me foram solicitados, e a que correspondi com todo o gosto e com o mais profundo agradecimento.

Na mesa, e além do meu amigo Reinaldo Ribeiro, estiveram também Jorge Roxo, representante da Junta de Freguesia, à qual havia dirigido o Convite, e também Manuel Neves, Presidente da Sociedade Recreativa Operária, colectividade anfitriã da sessão. Aos dois, muito agradeço a presença e as palavras que, na ocasião, proferiram.

Por fim, a presença de muitas pessoas da minha família, bem como as mensagens que me chegaram, antes, durante e após a sessão, às quais respondo com: MUITO OBRIGADO!

Às pessoas que, não tendo estado presentes, manifestaram interesse no livro, peço que me enviem o seu contacto telefónico pelo messenger (se estiverem no Facebook) a fim de combinarmos a melhor forma de atender o pedido.

Outra hipótese:

Havendo no dia 1 de Outubro o convívio anual dos antigos alunos da Escola Primária, no Vale de Santarém, vou levar exemplares do livro para satisfazer os pedidos que lá me forem apresentados.

Para quem vive em Lisboa e arredores: haverá uma sessão em data, local e hora a indicar.

Para encomendas através do endereço de correio electrónico, por favor contactem-me pelo manuelpsa@gmail.com

Saudações fraternas, com votos de boa saúde e amizade,

MJSá.

Lançamento de “Pátria dos Rouxinóis”, de Manuel João Sá. 3Set2022-SRO-Vale de Santarém. Apresentação de Reinaldo Ribeiro.
Lançamento de “Pátria dos Rouxinóis”, de Manuel João Sá. 3Set2022-SRO-Vale de Santarém. Participantes(1)
Lançamento de “Pátria dos Rouxinóis”, de Manuel João Sá. 3Set2022-SRO-Vale de Santarém. Participantes(2)
Lançamento de “Pátria dos Rouxinóis”, de Manuel João Sá. 3Set2022-SRO-Vale de Santarém. Aguardando o autógrafo(1)
Lançamento de “Pátria dos Rouxinóis”, de Manuel João Sá. 3Set2022-SRO-Vale de Santarém. Aguardando o autógrafo(2)
Lançamento de “Pátria dos Rouxinóis”, de Manuel João Sá. 3Set2022-SRO-Vale de Santarém. Aguardando o autógrafo(3)
Lançamento de “Pátria dos Rouxinóis”, de Manuel João Sá. 3Set2022-SRO-Vale de Santarém. A presença da família.

SÃO QUASE CINCO DA TARDE…

Em memória de Maria Ilda, minha amiga.

São quase cinco da tarde

tarde de Verão.

Na curva da estrada

há um nadinha

passou rente ao muro a motorizada

amarela

e nela o diabo

o corpo todo deitado

a cabeça negra

os olhos como os da serpente

a espreitar por cima do guiador

de modo que quem olha

mesmo que de repente

já não vê o que passou

e pergunta

quem foi que voou?…

Foi o Vassale

diz o Carreca

e tudo volta ao normal

carros, camionetas,

poucas carroças, algumas bicicletas

mulheres quase nenhumas

homens dois ou três

rapazes nem por isso.

… Era uma vez

num dia de Verão…

no largo da Fonte

Duma Bica chamada

onde

chegam turistas

vejam bem?!

num Simca Aronde.

Sem pressa

bebem água

a mulher limpa os lábios

vermelhos

com lencinho branco

vestido aos folhos  

o homem mete as mãos na pia

depois olha em volta

e acena

p’rá a Mar’Ilda que passa

solta

vestido às riscas azuis

(ou seriam ramagens?

…como vai longe o dia).

Os turistas a quererem saber

(o diabo motorizado volta a rosnar na curva

desta vez em sentido contrário)

Os turistas a quererem saber

se aquela é a estrada

(o diabo motorizado

no seu rosnar tudo abafa

em volta todos com olhos nele

a turista curva-se um pouco

estica a pele

faz avançar a cabeça,

fica à mostra o farto peito

espeta para trás o traseiro)

Os turistas

em francês a quererem saber

se aquela é a estrada certa

(o diabo amarelo

faz ziguezague entre uma carroça e uma bicicleta

esfuma-se desta vez

a caminho da estação

ou até ao xaboco

da Ponte Vale

diz o Carreca

“eu sei lá parra aonde o diabo foi”

rodeia os turistas e diz

“não me perreguntem a mim não”)

E os turistas

de mapa na mão

a quererem saber

o caminho p’rá fronteira…

A Mar’Ilda

Je peux vous dire, etc. etc.

(aproxima-se o Franco

nos grandes sapatos que Deus lhe deu)

A Mar’Ilda

de mapa diante dos olhos

(o Franco aproxima-se mais

agiganta-se e

tão devagar que vai

quase que fica parado ali

a enorme figura de andrajo

por todos conhecido

por fora

por todos desconhecido

por dentro)

Os franceses

(ou seriam belgas?)

olham o mapa

mas não vêem o mapa

só fixam o Franco

a Mar’Ilda

oui, c’est vrai, oui, oui, plus au moins,

oui,

Santarém

ici

oui, etc., etc.

(o Franco

de negro na roupa

de negro no olhar

nas rugas sulcando a pele

cada ruga um profundo vale

negro no rasgão das calças, nos pés, nas unhas

o Franco de negro

por dentro

negro por fora

irradiando negrume em volta

negrume plantado descalço

sobre o negro escaldante do alcatrão

segura na ponta do pau

ao ombro

um ridiculamente minúsculo

molhinho de erva

para quê

ninguém sabe)

Os franceses

(ou seriam belgas?)

oui

très très merci

vous êtes très gentille, etc. etc.

a Mari’Ilda sorri

(o Franco

que um dia me disseram chamar-se Luís

mas não o tal

que era Sol  

agora a demorar

a boca na bica

como cavalo sedento

a sorver

lento

com ruído de animal)

E a francesa

(ou seria belga?

a olhar

com cara de vomitar)

A Mar’Ilda

de sandálias

de vestido às riscas azuis

(ou seriam ramagens?)

A Mar’Ilda a sorrir

o corpo a gingar

a acenar

Bon voyage… bon voyage

E os franceses

(ou seriam belgas?)

Os franceses a abalar

Num Simca Aronde

(ou seria numa 4 L?)

E o barbeiro

de janela aberta

(“pouco que fazer

então deixa cá ver

o que vai na rua”)

O barbeiro

como numa moldura

na janela da taberna do Hortelão

a observar

(“isto é que está um calor, hein?!”)

O barbeiro a fumar

a desfrutar

(mãos nos aros da janela)  

A desfrutar o quadro

a Mar’Ilda a acenar

os franceses

(ou seriam belgas?)

A abalar

(e o Franco-que-afinal-não-era-Luís

lento

esgalgado

enorme

agora rente à parede

vida negra

em fundo branco

sem mapa

para o seu caminho não se sabe de onde

para onde

silencioso até no caminhar

como silencioso mas visível

o calor a dardejar

até os olhos é preciso semicerrar

para com a vista

o longe alcançar)

Enquanto a Mar’Ilda

vai à loja regressar

o corpo a saltitar

nas sandálias

no vestido às riscas azuis

(ou seria às ramagens?)

O barbeiro a sumir

quando vem o Nuno

a chegar

no seu caminhar

(lento-estilo-girafa

pés enormes

p’ró enorme corpo suportar

rosto redondo comprido)

O Nuno

(tique de piscar os dois olhos ao mesmo tempo

e fungar permanente

a voz cavernosa a sair

do odre ventral

e aquele sorrir

de criança grande

sorrir que ia e vinha

ao ritmo natural

do gaguejar)

O Nuno a sorrir

inclinando-se do alto do seu comprimento

A Mar’Ilda a sorrir

a regressar à loja

(ligeira no andar

como que a saltitar

nas sandálias

no vestido que liberta o corpo

preso pelas alças

folgado no seio

ele próprio

vestido

o corpo a afagar)

O Nuno a sorrir

do alto do seu comprimento

a querer saber sobre os turistas

não se soube se belgas

se franceses

(enquanto à porta da loja

assoma o Lanceiro

e da oficina em frente

sai e volta a entrar

o Latoeiro)

Mas os turistas já passaram da curva do choupo

(local certo p’rá boleia apanhar

e trocos amealhar

pouco a pouco)

E um homem sentado

no marco que diz

Castelo Branco 176 km

(ali plantado

decerto somente para alguém lá estar sentado)

olha o alcatrão a derreter

e as moscas pousadas nas mulas

das carroças que passam

esvoaçam

quando a Zundap volta

de rompante

atroando os ares

(quando o Nuno

lentamente

caminha p’rá bica

e por instantes ali fica)

a Zundap faz tangente entre duas carroças

espantam-se as mulas frente ao Lanceiro  

as moscas

aturdidas

refugiam-se na taberna

o Baeta vem à porta no seu andar

sempre devagar

de pernas pequeninas

a arquear  

de boné

anafadinho

quando as moscas pousam no balcão

num restinho de capilé

o Baeta dedos enfiados no colete

olha p’rá esquerda

p’rá direita

volta p’ra dentro

pr’a taberna

(que é praça dos homens se há trabalho)

quando as moscas retornam às bestas

a trotar a traquete

e o diabo de Zundap já sumiu há muito

dobrou a curva do Tendeiro num farete

as moscas fazem as bestas tremer a pele

movimentos reflexos

na tentativa

(vã)

de as enxotar

de súbito

e as bestas

inquietas

soltam fedorentos

redondos

esverdeados excrementos

cada qual no seu trajecto

uma frente ao chalé

(por detrás dos vidros coloridos

as estilizadas

manas Cunhas

ficam agoniadas)

A outra besta estaca

quase frente ao Direitinho

onde o calor vai grudar ao alcatrão

a mistura de castanho e verde

que lhe sai das entranhas

em profusão.

E nisto

devagarinho

sai de casa o João

(como o avô Vítor

e também o Franco,

quem havia de dizer)

Vasco

que está em Lisboa

que no Vale está

no Verão

mais do que em qualquer outra estação

(o João

direito, compenetrado

agora apressado

de risco e marrafinha

a caminho da casa do Pedro Cristiano

ali ao lado

p’ra jogar pingue-pongue

com o Manuel João

Carvalho

mas que trabalho

se ele por acaso

o Carvalho

não ganhar

vão andar raquetas e bolas pelo ar)

Então a besta da carroça

(João Padeiro, Direitinho, Manel Serranho já ficaram

para trás)

bem aliviada da abundante carga intestina

frente à casa da Dina

(a Maria João aparece

fugaz

junto ao muro)

Frente à casa da Dina

a besta toma o freio nos dentes

(razão de animal

que cabeça de racional desconhece

mas certamente há-de ser razão fundamental)

O homem toma o chicote nas mãos

levanta-se puxa as rédeas

(calcanhares firmes nos taipais)

Mas a besta é besta demais

não pára

antes parece que voa

a carroça aos solavancos

desencontrados

desconjuntados

escangalhados

desordenados

o homem roda roda roda roda roda

a toda a pressa

o travão

a carroça afrouxa

mas a besta não

e nisto aparece a Dina à janela

(olhos de espanto

perna fina)

Logo vem a tia atrás dela

e lhe toma a dianteira

mais a mana lampeira

(em sabrinas

pé que pisa

mas até parece que não pisa

no chão

está uma labareda no pino do Verão)

E a carroça

de arrastão

faz sulcos no alcatrão

(o Franco, que afinal é João,

em sentido contrário

entre carros

camionetas

carroças

bicicletas

vai cumprindo o seu horário

negro

negro cada vez mais nítido

retrato a negro

projectado no branco das paredes)

E é quando volta o diabo em forma de Zundap

na estrada que vai para a Estação

(a carroça continua a avançar

por arrastão)

e zás!

o Vassalo faz um e mais outro pião

e a derrapar

(agora dir-se-ia “a Zundapar”)

duas vezes seguidas

sem parar

faz 360 graus

e a besta estaca

a carroça empina

o homem voa

e cai de traseiro num molho de paus

que saltara da carga

desgraçada

à beira da estrada

e esbaforida

a deitar ventos pelas narinas escancaradas

a besta solta peidos

em dose descomunal 

um despropósito

julga quem ouve

e quem vê

o desplante do animal

enquanto a Zundap se cala

o Vassale

(como diria o Carreca)

roda a manete

mas a manete já nada acelera

oh! afogou-se o motor

num excesso de gasolina e emoções

(diria num ápice

o Eduardo das Bicicletas

para os seus botões

se por acaso ali estivesse)

Enquanto a Maria Adelaide

de férias

sorridente

corte de cabelo sobre a testa

em redondo

sem a bata colorida

do Colégio de Santa Margarida

saía da oficina

só por segundos

não mais

sob o olhar atento dos pais.

São quase seis da tarde

Está um calar danado

E há encontro marcado

Com o Reinaldo e o Zé

(Zézinho, Catitinha,

perna alta

anca p’ra diante

a comandar

o andar

popa quase à Everly Brothers

ou Elvis

ou coisa parecida)

Há um encontro marcado

lá no quintal

do chefe Neves

jogamos às cartas

pela tarde adiante

esfregamo-nos de floid

(do irmão António)

que serve de perfume

de after shave

e desinfectante

ali mesmo a jeito

(fica a memória para sempre

do frasco do rótulo do cheiro)

e o Reinaldo

entre os cabelos do peito

a encontrar borbulhas p’ra tratar  

enquanto mantém aquele jeito

da perna direita

(ou seria a esquerda?)

a tremelicar

(tique e entretém

quem sabe se ainda o mantém)

Lá no quintal do chefe Neves

chega o Hélder

peitudo barbudo

a perguntar como vão as coisas

se é canja ou quifimafi

que tem selos para a troca

ou então

vamos a um poker

é p’ra já

vou ganhar tudo

eu seja cão

pá!… 

Lá no quintal do chefe Neves

(mas podia ser no do mestre Rafael

com a mãe Luciana a sorrir

e a partilhar

da azáfama do pessoal

ou podia ser no quintal

do João barbeiro

debaixo da amoreira

ali mesmo ao pé do ribeiro)

Lá no quintal do chefe Neves  

temos um encontro marcado 

é onde se prepara com afinco

a matiné de domingo

(no casal das Catrinas)

É onde se fala das miúdas amigas

presenças prováveis

mas por mais que se conte e reconte

o número é sempre insuficiente

vai daí nem já os discos chegam

o melhor é pedir a toda a gente

há o gira-discos que talvez aguente

apesar da idade

e da tarde quente

(e umas colunas roufenhas

de tão velhas)

o gira-discos roda que roda

nas mãos grandes

do Nuno grande

que sabe da poda

(dali sai música ou sai fumo

é sempre assim

vai passar num frenesim

delirante

do Marino Marini para o Pat Boone

do Paul Anka para os Shadows do Clif

ou para o Chuby Checker

dos Beatles para os Jumpin Jack

da Petula para o Bil Haley ou o Halliday

do Elvis para os Everly Brothers  

e até Rita Pavone e Richard Antony caem no prato

e depois tangos de enfiada

a girar na adega

para tudo serenar

e poder sussurrar

ao ouvido de alguém

palavras de sonhar

de súbito a valsa comprida

naquele piso de terra batida

um rodopiar só por graça

mas que não interessa

e o Nuno a rir a rir

põe mais uma remessa

no gira-discos ao pé do lagar

de onde hoje sai música

amanhã mosto

das vinhas das Catrinas

a espumar)

É a pensar em tudo isso

nas sandes de chouriço

nos bolos que alguém fará

e nas gasosas e laranjadas

que vêm a crédito do Manel Sá

É a pensar em tudo isso

que se mete pés ao caminho

p’ra ir convidar as miúdas

a mana Salomé

logo ali

(que caminha como quem salta

e sorri)

é fácil

E perto a Nélita

(sorridente, despachada,

perninha gorda

saiazinha a dar a dar

pequeninas sardas

são uma graça

pelo rosto semeadas

como se fora por mão de pintor

olhar vivo em redor

olhos negros a vibrar

vem à janela uma e outra vez

ao domingo quando menina

a procurar ver quem vai passar

porém agora como é difícil

a ti chegar)

A Nélita e a prima

que num Verão

lá no Vale

cai nos braços do Vassale

(como diria o Carreca)  

E as manas padeirinhas

mais a Nela

e o mano Carlos

(que vêm ao Vale de férias

com um sorriso

de encantar

trazem o gira-discos na malinha

e as novidades do saber dançar

do rock ao twist,

nada falta

para ensinar a malta)

E em frente a Anjos

ali vizinha

(sorri e fica coradinha

na sua concha de timidez

porém diz

falem com a minha mãezinha

lembram-se da outra vez?…

e continua a acariciar

a longa trancinha)

vale a protecção da Dina padeirinha

e do Zé Catitinha

para a libertar

do controlo familiar

E mais abaixo as manas Tilinha e Pi

(afogueadas no rosto

cor-de-rosa a brilhar

mais uma que outra

maçãs camoesas

a mostrar a sua cor

no calor

do dançar

quando lento lento lento

meneio leve

insinuante

afinal tudo tão breve

como um raio de luz suave

que passa pela fresta  

na tarde tão rápida

o calor tão nítido

dos corpos juvenis a vibrar)

No quintal do chefe Neves

onde as moscas impertinentes

desafiam nossa ira

mais que as cigarras irritantes

(há no entanto silêncio

na rua do Noronha

onde a Maria Helena já não mora

agora

só a fugaz memória

de vê-la caminhar

muito devagar

a demorar-se rentinho

à brancura

cor de leite da parede

o rosto moreno abrigado

na sombra do rendilhado

do beirado

bonequinha de modista

vestido de chita

com chapéu de palha e fita

a olhar para trás

até casa até ao portão

olhos nos olhos lá no recreio

na roda das meninas no jardim da escola

“e aqui vai o lenço aqui fica o lenço”

era quase verão

e houve semente

de para sempre

agora

quem sabe talvez um dia ela volte

ou talvez um dia te encontre

não sei onde…)

Do quintal do chefe Neves

quem sai ao portão

p’rá direita depois da curva

chega à casa da Glória

alta morena cabelo negro

sentada no poial da porta

diz que sim

noite dentro

ali ficamos à conversa

quase frente à fábrica dos sapatos

(as mulheres as raparigas

vêm e regressam

a casa perto ou longe

aldeia abaixo aldeia acima

em grupos ao fim do dia

vão para Cadima

Cabeço do Mesquita

Torre

Rio das Patas

Caminho da Estação

são do Vale

até da Izenta

eu sei lá

sorrisos

cansaços

promessas por dizer

beijo furtivo

numa dança no baile

que na Sociedade vai haver

e amanhã de novo

de novo o desenho no cavalete

os alfinetes

os cordéis

é preciso entrelaçar

e o corpo sobre o molde

o corpo a vibrar

os dedos a sangrar

no regresso a casa

com o sol

com o vento

com o frio

o cieiro

o nevoeiro

a chuva

a dúvida

o salário

o cansaço

e os filhos no regaço

ao fim do dia)

Quase frente à fábrica dos sapatos

vira-se p’rá direita

(no quintal da mercearia

o senhor Benjamim

de óculos pequeninos

redondo baixote

no intervalo de atender a freguesia

sobe ao caixote

dia após dia

às escondidas da Dona Mercedes

p’ra compor figuras

e semear as ruelas ribeiros montes árvores luzes

de uma pequenina aldeia

de encantar

de entretém

lá estão as duas fontes

a igreja

o rio que é ribeiro apenas

e o pombal

tudo mexe tudo gira

nos campo e nas hortas

é mesmo a nossa terra

é mesmo o nosso Vale

até na feira de Santarém

o senhor Benjamim foi apresentar

tal engenho tal ideia

um orgulho da nossa aldeia)

Quase frente à fábrica dos sapatos

vira-se p’rá direita

(e o Casanova

é quase certo

está à boleia

com a sua gabardina creme escuro

chapéu a condizer

faça chuva faça sol

no sovaco o jornal

talvez de ontem

talvez de antes

só não sabemos afinal

se o Casanova sabe ler)

Vira-se à direita

e o Vale

quase acaba logo ali

na tasca da Mulher do António do Padre

onde a luz esparsa

por vezes

projecta nas paredes

figuras de cavadores como fantasmas

e à volta da lâmpada borboletas nocturnas

competem com pirilampos às curvas

acende apaga acende apaga

sobre o rio das Guimárias

rio que afinal é ribeiro apenas

e que outros nomes tem até à nascente

da cabine

da eloia

da praça

dos loureiros

da quinta

de cima

de baixo

do moinho de cima

(do moleiro

que lá viveu

e um dia partiu)

ribeiro que segue para o rio Maior

por Vala mais conhecido

entre nós

desde o tempo de nossos trisavós

É na Vala que nadamos por vezes nus

e nos entretemos

a pescar a comer a dormir a conversar e a fumar

num gramado verde-fresco

junto à agua

que só nós conhecemos

(fumamos Symonarzt

inesquecível cigarro oval

que o Horácio traz da capital

letras douradas a dizer que vem de Alexandria

fumamos outra marca

qualquer que seja

até ao último cigarro

que passa de mão em mão

o que é preciso é que haja

prazer todo o dia)

Mas é junto ao rio da nossa aldeia

(que afinal é ribeiro apenas)

que nos perdemos por prazer nos canaviais

em noites de luar

de convívio de cantar de amuar

de desejar de sonhar

e tudo o mais

até que o perfume penetrante

que sai das carroças carregando uvas

se espalha no ar

fica melaço no alcatrão

e pouco a pouco ao anoitecer

ligeiras brumas se soltam das hortas

e com o fumo das chaminés

mais cedo a fumegar

nuvenzinhas lentamente sobem as encostas

é o fim do Verão a chegar.

Em breve

um a um iremos partir

do nosso Vale

não se sabe quando

não se sabe para onde.

Mas talvez um dia a gente volte

talvez um dia a gente se encontre

para falar do que se foi

e do que se fez

talvez… 

Manuel João Sá

Out, 2006

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