Quando o conheci, já era argentino, agricultor nas terras férteis da subtropical Misiones, a província península que parece uma vanguarda geográfica entrando Brasil adentro com pronúncia guarani, como os paraguaios do outro lado do rio. Conheci-o no velho autocarro que fazia a ligação entre Puerto Iguazú e as cataratas. Carnes sólidas, tez marcada pelo sol e um ar activo abaixo do cabelo totalmente branco.
Tinha curiosidade e gostava de contar histórias. Queria saber de nós, de onde vínhamos, que história era nossa e o facto de sermos um pequeno grupo de várias nacionalidades levou-o a contar a sua história: o avô, o pai e ele tinham todos nascido na mesma casa, na zona de Lviv, no ocidente da Ucrânia, mas cada um veio a este mundo com nacionalidade diferente.
O avô nascera no império austro-húngaro, o pai na segunda república polaca e ele na República Socialista Ucraniana antes da invasão nazi. Uma casa, três nacionalidades, a que se haveria de acrescentar outra, já longe de Lviv, quando o pai judeu fugiu com a família para a Argentina depois dos primeiros pogroms ainda antes da invasão alemã. Dos 110 mil judeus de Lviv poucos sobreviveram aos nazis.
Hoje, na argentina, os descendentes de ucranianos correspondem a 1% da população, sendo Misiones o berço da imigraçao – o primeiro assentamento ucraniano data de 1897, em Apóstoles, no sul da província, junto ao limite com Corrientes. A cultura ucraniana impregnou a alma misionera e as polcas transformaram-se em parte da herança musical da região: como o acordeonista argentino de origem ucraniana Chango Spasiuk tão bem mostrou no seu “Polcas de mi Tierra”.
As pessoas saem para a rua aos magotes. Alvos nos sorrisos bem tratados e na pele habituada à camada de cinzento. Saem com toalha de praia, saem com cestos de piquenique, saem de biquíni ou fato de banho vestido e banham-se nas águas frias do Atlântico Norte. Saem à rua com mochilas e sacos e parece que vão de viagem; e, em certa medida, um dia de Sol em Dublin é para os irlandeses uma viagem – deitam-se nos relvados bem tratados, sentam-se nos jardins bem tratados, espraiam-se nas pequenas praias, enchem as esplanadas da algaraviada bem disposta em homenagem ao deus sol – tudo como se não estivessem ali. Um dia ensolarado em Dublin parece-se muito com a felicidade. Os irlandeses, habitualmente joviais apesar de poucos para tanta chuva, transformam-se em mediterrânicos com dois ou três dias de sol seguidos. E não há quem os tire da rua, como se fosse desrespeitoso desperdiçar qualquer minuto de semelhante dádiva. Acho até que se um político qualquer oferecer raios de sol em momentos precisos e multiplicados haverá de colher alguns frutos, mesmo sabendo os eleitores da irrealidade da promessa. Iria jurar que até a Guiness é menos negra em dias assim.
