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adaptação de “DETOUR‐SPOTTING for white anti‐racists” de Joan Olsson
Descrição da Realidade e Consequências
Um esclarecimento do significado implícito e consequências de cada padrão comportamental.
Não enxergo cor
“Pessoas são só pessoas; eu não enxergo cor.” Ou “eu não vejo você como chinês”.
Descrição da Realidade e Consequência
Afirmações como essas presumem que pessoas não-brancas são exatamente como nós, brancas, e têm os mesmos sonhos, princípios, problemas, queixas que nós temos. “Não enxergar cor” anula os valores culturais, normas, expectativas e experiências de vida de pessoas não-brancas. Mesmo se um indivíduo branco ignorasse a “cor” de uma pessoa, a sociedade não o faz. Ao dizer que não enxergamos sua “cor”, nós estamos também dizendo que não enxergamos nossa condição branca. Isso nega as experiências de racismo da pessoa não-branca e nossas experiências de privilégio. “Não enxergar cor” também pode ser uma defesa quando sentimos receio de discutir racismo, especialmente se se presume que qualquer conversa sobre raça ou “cor” é racista. Como minha amiga Rudy diz, “eu não me incomodo que você reconheça que sou negra”. Possuir consciência sobre diferenças raciais não equivale a racismo.
O Indivíduo Batalhador e a Teoria da Força de Vontade
“A América é a terra das oportunidades, construída por indivíduos batalhadores, onde qualquer pessoa com garra pode obter sucesso se ela tiver força de vontade”.
Descrição da Realidade e Consequência
O “indivíduo batalhador” e a “teoria da força de vontade” são dois dos principais slogans da propaganda social dos EUA. Eles têm permitido que geração após geração diga “Se você obtiver sucesso, é um mérito seu, mas se você falhar, ou se você é pobre, isso é sua culpa.” A crença nessa propaganda é baseada na total negação do impacto tanto da opressão quanto do privilégio sobre a chance de qualquer pessoa de obter sucesso.
Racismo Inverso
- “Pessoas não-brancas são tão racistas quanto pessoas brancas.”
- “A ação afirmativa teve importância anos atrás, mas hoje em dia ela é apenas racismo inverso. Agora é discriminação de homens brancos.”
- “O movimento pelos direitos civis era adequado, valioso e necessário quando começou. Mas agora chegou ao extremo. As condições sociais são igualitárias agora. O movimento pelos direitos civis não está mais batalhando por igualdade, mas sim por vingança.”
Descrição da Realidade e Consequência
- Primeiramente, vamos definir racismo: Racismo = Preconceito Racial (pessoas brancas e pessoas não-brancas têm isso) + Poder Institucional Sistemático (pessoas brancas possuem isso).
Dizer que pessoas não-brancas podem ser racistas nega o desequilíbrio de poder inerente ao racismo. Certamente, pessoas não-brancas podem ter e por vezes têm preconceito contra pessoas brancas. Isso faz parte do seu condicionamento social. Uma pessoa não-branca pode agir a partir do seu preconceito e insultar, ou até ferir uma pessoa branca. Mas há uma diferença entre ser ferido e ser oprimido. Pessoas não-brancas, como classe social, não possuem o poder social institucional para oprimir a classe de pessoas brancas. Um indivíduo não-branco ao abusar de uma pessoa branca – embora isso seja claramente errado (nenhuma pessoa deveria ser insultada, ferida, etc.) –, está agindo a partir de um preconceito racial pessoal, e não racismo.
- Essa forma de negação se baseia na falsa premissa de que as condições sociais são agora igualitárias. Quando se espera que as pessoas que possuem privilégio e um precedente histórico deste repentinamente (considerando-se o tempo da evolução social) compartilhem parte desse poder, isso é frequentemente taxado de discriminação.
- Isso foi dito por Rush Limbaugh, que obviamente não é um anti-racista, mas esse comentário está carregado de medos das pessoas brancas em relação a pessoas não-brancas, especialmente se “elas” obtivessem controle. Implícito aqui também está a suposição de que ser pró-negro (ou qualquer outro grupo sistematicamente oprimido) é ser anti-branco. Uma acusação ilógica semelhante é feita a mulheres que lutam pelo fim da violência contra mulheres e meninas. Mulheres que trabalham pela melhoria das vidas das mulheres são frequentemente acusadas de serem anti-homens.
Coloque a Culpa na Vítima
“Nós divulgamos a vaga por todo lugar, mas simplesmente não há pessoas não-brancas qualificadas para esse trabalho.” Ou “Se ela tivesse um pouquinho mais de autoconfiança…” Ou então “Racismo internalizado é o verdadeiro problema aqui.” Ou “Ela utiliza o racismo como estratégia para tirar o foco de sua incompetência.” Ainda, “Ele fica procurando por racismo em todo lugar.” (Como se o racismo fosse algo tão oculto ou difícil de trazer à superfície que pessoas não-brancas precisassem procurar por ele.)
Descrição da Realidade e Consequência
Todos os comportamentos de “culpar a vítima” possuem duas coisas em comum. Primeiramente, eles fogem ao problema real: o racismo. Segundo, eles removem da situação os agentes do racismo, pessoas e instituições brancas, que intencionalmente perpetuam ou se mostram coniventes com o racismo. Enquanto o foco permanecer sobre as pessoas não-brancas nós poderemos minimizar ou desconsiderar suas reações, e nunca precisaremos enfrentar diretamente o racismo e nossa própria responsabilidade ou conivência.
Inocência por Associação
“Eu não sou racista, porque eu tenho amigos vietnamitas, ou meu/minha companheir@ é negr@, eu faço doações para a Casa Latina, ou eu marchei com o Dr. King.”
Descrição da Realidade e Consequência
Esse desvio ruma à negação erroneamente equipara interações pessoais com pessoas não-brancas, independente do nível de intimidade, com anti-racismo. Ele presume que nossas associações pessoais nos livram magicamente de nosso condicionamento racista.
O Cavalheiro Branco ou @ missionári@ branc@
“Nós (pessoas brancas) sabemos exatamente onde construir seu novo centro comunitário.” Ou “Sua juventude (leia-se pessoas não-brancas) seria mais bem atendida se fosse para nosso centro de treinamento.”
Descrição da Realidade e Consequência
É uma suposição paternalista e racista que pessoas brancas “bem intencionadas” saibam o que é melhor para pessoas não-brancas. Decisões feitas por pessoas brancas em nome de pessoas não-brancas, como se elas fossem incapazes de fazê-las por elas mesmas. Essa é outra versão do “coloque a culpa na vítima” e “@ branc@ está em seu direito”. Essa suposição transfere os problemas para as pessoas não-brancas, e admite as “soluções” das pessoas brancas como as únicas “adequadas”. Mais uma vez, o poder de auto-decisão é tomado das pessoas não-brancas. Independente das motivações, é ainda uma questão de controle branco.
A Isenção Branca
“Ele é um cara muito legal, só teve algumas experiências ruins com coreanos.” Ou “Esse é só o jeito que o tio Adolf brinca. Ele é muito educado com o zelador negro do seu prédio.”
Descrição da Realidade e Consequência
Nós ficamos presos aqui em mais uma versão de nossa reação de culpa. Nós tentamos perdoar, defender ou encobrir ações racistas de outras pessoas brancas. Nós somos particularmente suscetíveis a isso se a outra pessoa é próxima de nós, da família ou amiga, e se nós sentimos que suas ações refletem as nossas.
Eu Fui um Índio Numa Vida Passada
“Depois daquela ‘sessão espiritual’ eu realmente sei como é ser um índio. Eu encontrei meu verdadeiro caminho espiritual.”
Descrição da Realidade e Consequência
Isso é uma apropriação espiritual ou cultural e impõe uma ameaça severa à integridade e sobrevivência das culturas nativas. A fim de preencher um vazio espiritual, algumas pessoas brancas são atraídas para dentro da onda New Age para escolher entre uma variedade de pacotes espirituais nativos usualmente postos à venda. Uma vez que a prática espiritual de nativos é inseparável de sua história e comunidade atual, ela não pode ser isolada desse contexto para servir a pessoas brancas em busca do sentido da vida. A apropriação de partes determinadas das culturas nativas romantiza as vidas de nativos, ao mesmo tempo que invisibiliza suas lutas. Suas terras e sustento tomados, pessoas indígenas agora presenciam pessoas brancas tentando roubar sua espiritualidade. Ao invés de nos livrar do nosso racismo branco e encontrar um caminho espiritual, nós nos mostramos coniventes de mais uma forma com os ataques genocidas às culturas nativas.
O Isolacionista
“Eu pensei que nós tínhamos resolvido essa questão (racismo) quando ela surgiu em pauta ano passado.” Ou “Nós precisamos lidar com esse incidente específico. Não complique ressuscitando incidências irrelevantes do passado.” Ou “Isso só está acontecendo hoje porque o noticiário de ontem à noite mostrou a polícia espancando um jovem negro.”
Descrição da Realidade e Consequência
São feitas tentativas de isolar um determinado incidente de racismo de um contexto mais amplo. Nós culpamos um incidente de racismo ocorrido fora de nossa organização e divulgado pela mídia a fim de racionalizar um incidente interno e evitar enfrentar a realidade do racismo em nossa sociedade. Quando tentamos solucionar uma acusação de racismo dentro de uma instituição, frequentemente vemos o incidente como se estivesse no vácuo, ou como uma aberração, isolado do padrão histórico de racismo. O racismo é tão institucionalizado ao ponto que cada “incidente” é mais um sintoma do padrão. Se nós continuarmos a pensar incidente por incidente, crise por crise, como se eles não estivessem interligados, a resolução genuína estará cada vez mais distante de nosso alcance.
Desdobrar-se Para Concordar
“Claro, eu concordo com você.” (Dito a uma pessoa não-branca até mesmo quando discordo.) Ou “Eu tenho de ficar do lado da Betty nisso.” (Betty sendo uma mulher não-branca.)
Descrição da Realidade e Consequência
Nossa culpa branca se manifesta quando condescendemos a pessoas não-brancas. Não as criticamos, discordamos, contestamos ou questionamos como faríamos com pessoas brancas. E mesmo quando discordamos, não o fazemos com a mesma convicção que demonstraríamos com uma pessoa branca. Nosso racismo é demonstrado na forma de um padrão diferente de tratamento para com pessoas não-brancas. Se este é nosso padrão, então nunca poderemos ter um relacionamento genuíno com uma pessoa não-branca. Pessoas não-brancas percebem quando estamos nos comportando assim. Nossa sinceridade, compromisso e coragem serão questionados com razão. Nós não podemos alcançar um nível mais profundo de confiança e intimidade com pessoas não-brancas que tratamos dessa forma.
Mas E Eu?
“Mas e eu? Está vendo como eu fui ferid@, oprimid@, explorad@…?”
Descrição da Realidade e Consequência
Isso diminui a experiência de pessoas não-brancas através da apresentação de nossa própria história de dificuldade. Perde-se uma oportunidade de aprender mais sobre a experiência de racismo de uma pessoa não-branca, ao mesmo tempo que minimiza-se a sua experiência ao tentar torná-la comparável ou menos dolorosa que a nossa.
Ensine-me, Por Favor
“Eu quero parar de me comportar como um racista, então por favor me avise quando eu fizer alguma coisa que você considera racista.”
Descrição da Realidade e Consequência
Pessoas brancas com frequência presumem que somente podemos aprender sobre o racismo com pessoas não-brancas. Nós também presumimos que pessoas não-brancas possuem energia e/ou o desejo de nos ensinar. O meu entendimento é o de que a maioria das pessoas não-brancas está cansada de educar pessoas brancas sobre racismo. Nós ficaremos empacad@s. Nós ficaremos frustrad@s e impacientes com nós mesm@s e outras pessoas brancas nessa jornada. E permaneceremos empacados se não buscarmos ajuda de outr@s anti-racistas branc@s. Nossa tendência tem sido a de pedir para pessoas não-brancas nos ajudarem. Nós deveríamos buscar outras pessoas brancas ANTES de procurar pessoas não-brancas. Talvez, à medida que nos tornamos aliados confiáveis, nós construiremos relações genuínas com algumas pessoas não-brancas que nos oferecerem suas reflexões quando ficarmos empacados. Isso fica a seu critério, não nosso. Nós não podemos presumir que pessoas não-brancas deveriam se sentir tão gratas por nossas tentativas de posicionamento anti-racista, que elas estarão dispostas a nos guiar no momento em que estivermos prontos para sermos guiad@s.
Branco Sobre Outro Branco, E Com Tom Moralista
“O que há de errado com aquelas pessoas brancas? Elas não conseguem enxergar o quanto racistas estão sendo?” Ou “Eu não suporto ficar perto de pessoas brancas que são tão racistas.” E estão chovendo no molhado: “Vocês estão perdendo seu tempo conosco, nós não somos as pessoas que precisam desse treinamento.”
Descrição da Realidade e Consequência
Nós nos distanciamos de “outras” pessoas brancas. Vemos apenas os intolerantes confirmados, supremacistas brancos declarados e pessoas brancas fora de nosso círculo social como “verdadeiros racistas”. Nós rebaixamos outras pessoas brancas, criticamos seu trabalho ou comportamento, ou então os repudiamos. Nós [honradamente] nos consideramos pessoas brancas que evoluíram para além de nosso condicionamento racista. Esse é outro nível de negação. Não há “pessoas brancas excepcionais”. Nós podemos ter participado de muitos workshops anti-racismo; podemos não estar gritando xingamentos racistas ou discriminando pessoas não-brancas ativamente, mas nós ainda vivenciamos privilégio baseado em nossa cor de pele. Nós nos beneficiamos desse sistema de opressão e vantagem, independente de quais sejam nossas intenções. Esse distanciamento serve apenas para nos separar de aliados em potencial e limitar nosso próprio aprendizado.
O “Certificado de Inocência”
Às vezes nós buscamos ou esperamos de pessoas não-brancas algum reconhecimento público ou privado e apreciação de nosso anti-racismo. Outras vezes nós procuramos por um “certificado de inocência” que nos diga que estamos entre as pessoas brancas “boas”.
Descrição da Realidade e Consequência
Se nosso comprometimento como aliados depende do reforço positivo de pessoas não-brancas, estamos fadados ao fracasso. A primeira vez que uma pessoa não-branca estiver descontente com nossas ações, nós poderíamos responder, “Bom, se as pessoas para quem eu estou fazendo tudo isso não querem minha ajuda, então por que me dar ao trabalho? Eu desisto.” Claramente, estamos contestando o racismo por “el@s”, não por nós. Nós não estabelecemos nosso interesse próprio, como pessoas brancas, em lutar contra o racismo. Até que o façamos, não poderemos continuar nessa jornada de vida.
Estratégias Para Disfarce
Nós utilizamos a linguagem politicamente correta vigente; ouvimos as músicas certas; afirmamos o discurso liberal; somos vistos nas reuniões certas com as pessoas certas. Nós até mesmo interrompemos comentários racistas quando as pessoas certas estão observando e quando não há risco para nós. Nós parecemos anti-racistas.
Descrição da Realidade e Consequência
Isso é a “Avon Chama”, a abordagem cosmética. Pessoas não-brancas e anti-racistas branc@s veem através desse disfarce rapidamente. Essa postura pseudo-anti-racista serve somente para se estar em conivência com o racismo e enfraquece a credibilidade de anti-racistas sinceros.
O Contador
Nós mantemos uma planilha. Se nós praticamos algum “ato anti-racista”, esperamos reciprocidade da parte de um indivíduo ou grupo não-branco, geralmente com algum prestígio ou poder que serve aos nossos interesses.
Descrição da Realidade e Consequência
“Eu te ajudo e você me ajuda” NÃO é uma busca pela justiça ou comportamento aliado. Isso somente reduz o trabalho pela justiça a algum tipo de transação comercial de poder.
Silêncio
Nós nos mantemos em silêncio.
Descrição da Realidade e Consequência
Nosso silêncio pode ser produto de nossa culpa ou medo de deixar pessoas não-brancas ou brancas com raiva ou decepcionadas conosco. Nós podemos nos silenciar porque nossa culpa nos impede de discordar de pessoas não-brancas. Nós podemos temer que um pronunciamento poderia resultar na perda de parte do nosso privilégio. Nós podemos nos silenciar por medo de violência. As razões do nosso silêncio podem ser muitas, mas a cada vez perdemos uma oportunidade de interromper racismo, ou de sermos aliados ou interagir genuinamente com pessoas não-brancas ou outras pessoas brancas. E nenhuma ação anti-racista será tomada enquanto estivermos em silêncio. [Um comentário sobre silêncio: Silêncio é uma questão/assunto complicado. Há situações quando deparada com uma situação de intervenção potencial em que eu posso escolher não interromper – por razões de bom senso ou estratégia. Anti-racistas precisam de coragem, mas riscos absurdos não fazem sentido. Quando a escolha está entre intervir nesse momento, sozinha, ou juntar aliad@s para nos pronunciar posteriormente de uma maneira mais estratégica, a segunda opção pode se mostrar mais eficiente.]
Exaustão e Desespero – Que Soe o Toque de Recolher
“Estou exast@. Sou apenas uma pessoa. Eu posso parar e descansar um pouco. Ou “O racismo é tão difundido e intrincado, simplesmente não há esperança.”
Descrição da Realidade e Consequência
Desespero é um verdadeiro inimigo dos anti-racistas. Para que nosso comprometimento seja duradouro, devemos encontrar maneiras de atenuar os efeitos. Cansaço ou abandono não ajudam a batalha. Nós podemos nos lembrar de homens que se uniram ao movimento “Reclamem a Noite”, lutando contra a violência contra mulheres – por certo tempo. Até que a atenção direcionada a eles como “homens bons” diminuiu. Até que o “glamour” da questão sumiu. Um dos fracassos históricos e frequentes dos “liberais” em movimentos por justiça social tem sido o comprometimento inconsistente e de curta duração dedicado à “questão do momento”. Se desistirmos, por qualquer razão, nós reverteremos à nossa “opção padrão”. Como pessoas brancas, nós podemos nos afastar da frustração e desespero do trabalho anti-racismo. Tal retirada não resultará em consequências significativas para nós. O racismo não permite essa “folga” para pessoas não-brancas. Um dos privilégios essenciais de ser branco é a nossa liberdade para nos afastar da questão do racismo. Se as coisas ficarem difíceis demais, nós sempre podemos dar um tempo. E nossa luta contra o racismo não se concretiza.
A Jornada Continua
Uma vez identificados, comportamentos como esses acima são passíveis de mudança. Os padrões são repetidos com menor frequência. Nós nos reeducamos e recondicionamos para evitar comportamentos racistas e para adotar ações anti-racistas mais eficientes. Pessoas não-brancas continuarão a exigir seus direitos, oportunidades e identidade plena. Mas o racismo na América não desaparecerá porque pessoas não-brancas o reivindicam. O racismo somente acabará quando um número significativo de pessoas brancas conscientes, as pessoas que podem manejar o privilégio sistemático e o poder com integridade, encontrem a determinação e tomem a iniciativa de demoli-los. Isso não acontecerá até que pessoas brancas percebam o racismo em nossa consciência diária com a mesma frequência que pessoas não-brancas. Por ora, nós temos que arrastar o racismo para dentro de nossa consciência de forma intencional, pois ao contrário de nossas irmãs e irmãos não-branc@s, a mais onipresente manifestação diária de nosso privilégio branco é a possibilidade de esquecer o racismo. Nós não podemos. O racismo continua em nome de todas as pessoas brancas. Enquanto que não há nada para celebrar sobre o racismo, há muito para celebrar em uma vida vivida na busca pela justiça.
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Lésbicas e Aborto: Qual nossa relação com a questão? Por que lesbianas deveriam lutar pelo direito de aborto, direitos reprodutivos? A lesbiana não é concebida justamente como a mulher que radicalmente se opôs à subordinação ao homem, à maternidade e até mesmo à própria categoria mulher?
Podemos começar pensando na noção das feministas de “Heterossexualidade Compulsória”, que designa a presunção da heterossexualidade como hegemonia ideológica no Patriarcado. Frequentemente imaginamos que estamos livres em nossas vidas pessoais como lésbicas, até a hora em que o sistema todo que nos hostiliza diariamente bate à nossa porta. Não estamos nós lesbianas livres do sistema de reprodução, por mais que sejamos lésbicas individualmente ou em nossa comunidade. As pressões para a heterossexualidade permanecem, nos forçando a exercer seus paradigmas no âmbito cultural, nas nossas camas, na linguagem e nos comportamentos que reproduzem os binários hierárquicos e rígidos de gêneros homem-mulher, reproduzindo os sistemas de valores supremacistas masculinos e hetero-patriarcais. Para além disso, as forças dessa mesma Heterossexualidade Compulsória agem por meios institucionais e por violências invisíveis: exclusão social, demissões de lésbicas e homossexuais, restrição de campos de trabalho públicos a transexuais, a propagação de uma idéia de bissexualidade como destino de toda sexualidade lésbica, expressa como uma inadaptação patológica ou temporária ao modelo falocêntrico de sexualidade que se presume ser o correto e natural. Nos sistemas de Saúde, vemos a predominância de uma concepção de saúde da Mulher focada em Direitos Sexuais e Reprodutivos, que visa fiscalização de suas funções como reprodutora e mãe, além de regular o acesso sexual de homens a mulheres, ‘curando’ seus problemas de frigidez, suas dificuldades sexuais e doenças geradas pelo modelo de sexualidade falocêntrico que apenas favorece o homem. Toda ginecologia veio sendo exercida para regular as falhas da prática sexual centrada no intercurso, simbologia importante ao patriarcado por significar apaziguamento e união das classes sexuais que vivem em desigualdade.
Segundo o documento Dossiê da Saúde da Mulher Lésbica, da Rede Feminista de Saúde, lésbicas também estão correndo risco de exposição à gravidez. De acordo com o relatório, apenas 23,4% das mulheres lésbicas tiveram sexo exclusivamente com mulheres em suas vidas e 36,6% relatam parceiros sexuais masculinos nos últimos 3 anos. Na revista virtual XXY, em 2009, foi veiculada a notícia de que lésbicas possuem maior probabilidade de engravidar em relação à suas colegas heterossexuais, que fazem uso de proteções. Isso pode ser lido de muitas formas; uma delas é a de que a identidade lésbica não se resume à prática sexual, mas a toda uma construção pessoal em relação com as instituições e mundo que nos cerca. A invisibilidade lésbica veio sendo a forma mais efetiva do Patriarcado esconder nossas opções de rebeldia, e de invisibilizar lésbicas assim também escondendo de outras lésbicas a possibilidade de reconhecimento de si mesmas. Muitas mulheres vivem durante anos com homens antes de saberem-se lésbicas. A repressão da sexualidade das mulheres também cumpre um grande papel ao vetar a estas o autoconhecimento, já que sexualidade representa um lócus de resistência por estar ligado à vida e aos seus próprios desejos, que nem sempre convergem com os desejos dos projetos colocados para nós pelo capitalismo e expectativas de uma vida produtiva. Os encontros heterossexuais também são mais favorecidos que os encontros lésbicos, que são vividos tantas vezes de forma clandestina. Por questões de clandestinidade, exclusão, não-aceitação familiar, dificuldades de apoio social, estigmatização, preconceito e conflitos subjetivos derivados daí, não são também poucas as lésbicas que vivem com sentimentos de auto-ódio e baixa auto-estima, que detestam a si mesmas por gerarem ‘tantos problemas’ para si e os demais, e que desejam a todo custo se encaixar na vida heterossexual – se casando, fazendo terapias com profissionais irresponsáveis, se expondo a um ato sexual que não desejam ou usando isso como uma das diversas formas de auto-agressão.
Assim, nosso conceito de Saúde não abrange toda população, e aqui nem foi sequer falado das mulheres negras, índias, do campo e trabalhadoras. Não leva em conta a integralidade corpo-e-mente e ainda se calca num modelo biologista, que não enxerga tais dados como indicativos das condições em que vivemos socialmente. Não leva em conta todas as vicissitudes em que vivem as lesbianas, e as expõe ao desamparo assistencial. Não são raras as lesbianas que nunca foram a ginecologistas, outras que relatam experiências de discriminação com profissionais e as que pensam que “nunca vão precisar” de uma consulta ginecológica e que não pegam DSTs e AIDS. Essa idéia reproduz a idéia patriarcal de que a relação entre mulheres não existe, e que estas são um grupo seleto que nunca terá relações com homens.
A Lesbianidade não é uma questão genética para as feministas lésbicas, mas sim uma questão política e, mais além, uma questão ética. Escolher uma mulher para destinar suas energias emocionais e construir projeto de vida representa um sério risco ao Patriarcado hegemônico, e todas as formas de violência e exclusão que estas vivenciam devem ser compreendidas como perseguição a essa classe de mulheres que, como diz Monique Wittig, “tal qual os escravos americanos são fugitivas para tornarem-se livres”. São boicotes ao sistema Patriarcal e àqueles que de alguma forma deste se privilegiam – mesmo que secundariamente – para eliminar o reconhecimento de um movimento de não-conformidade. As lesbianas representam uma idéia perigosa. Precisamos entender os dados de Saúde das populações como expressões de insatisfação e de inadequação, e também como intentos de eliminação de pessoas que possam subverter a ordem hetero-fascista posta. Precisamos nós lesbianas parar de reproduzir o lugar tradicional da feminilidade vitimizada, não arriscada e silenciosa – quando o fazemos cedemos à progressiva invisibilização da nossa gente.
FONTES:
Dossiê Saúde das Mulheres Lésbicas, Rede Feminista de Saúde março de 2006, Belo Horizonte-MG.
WITTIG, Monique; Ninguém Nasce Mulher; The Straight Mind and Other Essays, 1992.
RICH, Adrienne; Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence, 1980. EUA.
CLARKE, Cheryl; Lesbianismo, um ato de resistência. IN Esta Puente, mi espalda – Voces de las tercermundistas en los Estados Unidos, MORAGA, Cherríe&Castillo, Ana;, ISM Press, São Francisco-USA, 1988.
CURIEL, Ochy; Pensando o Lesbianismo Feminista, entrevista com Ochy Curiel, Instituto Humanitas Unisinos, 2006.
Jeffreys, Sheila; Lesbian Heresy, Sinifex Express; Melborne-Australia; 1993.
texto escrito para a revista lésbica Visibiles, de Lima-PERU. Versão adaptada para o espanhol em http://issuu.com/visibles/docs/final_visibles2
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Na história fomos queimadas numa greve dentro de uma fábrica e milhares foram queimadas como bruxas. Seguimos sendo perseguidas. Nós mulheres vivemos em estado de medo. E esse medo é da dominância masculina e da repressão do sistema, esse medo tem motivações políticas. Não é seguro uma mulher erguer a voz e por isso não nos expomos. Também não nos expomos porque não temos líderes e não queremos hierarquias. Não estamos aqui para comemorar, estamos aqui para recordar e para lutar. Temos rebeldias nos nossos cotidianos, enfrentando e contestando a autoridade. Mas estamos aqui em nome da Autonomia Feminista. É essa a forma de participação política e luta organizada que acreditamos.
Nós mulheres temos que ser o centro de nossas lutas. Não podemos seguir fazendo papel do sexo secundário nos partidos, ideologias e filosofias políticas, nos sindicatos e organizações, as donas de casa, cuidadoras do bem-estar destes espaços. Gênero não é um complemento. Gênero é uma questão crucial, e mais: uma questão radical. Nós não nascemos para ser complementares dos homens. Completam 100 anos do 8 de março, mas nossa luta vem há mais tempo. Muitas mulheres resistiram e foram mortas para que estivessemos aqui, seus desejos eram de emancipação de todas mulheres, e de que se acabasse a subordinação da mulher. Mas o movimento de mulheres vem reproduzindo seu papel tradicional esperado pela sociedade sexista, que as explora como mães e mulheres. Devemos honras às companheiras que nos deram uma história e um futuro, não podemos aceitar o papel subordinado, agora aos novos patrões e patriarcas acatando as ordens autoritárias dos partidos, organizações centralizadas e bandeiras políticas mentirosas que nos apagam e menosprezam.
Não seguiremos sendo bucha de canhão das revoluções que não nos contemplam. Se não posso dançar, não é minha Revolução. Nenhuma Revolução e nenhum sistema econômico mudou realmente as coisas para mulheres, embora tivessemos trabalhado em todos movimentos de libertação que surgiram. Sem nós, o sistema pára. Trabalhamos nas terras dos senhores, somos o setor mais pobre e explorado da sociedade, realizamos dupla jornada trabalhando nas casas e chefiando famílias. Somos a mão-de-obra mais barata do sistema e a mais empregada em todos setores. Nosso trabalho é invisível e não-reconhecido quando criamos nossos filhos para a nação fascista que nos obriga à maternidade. Precisamos começar a fazer algo por nós mesmas. E é a nossa luta como mulheres e o Feminismo que traz os elementos pra uma verdadeira e ampla revolução social. Um movimento de mulheres Feminista, Autônomo, Libertário, Revolucionário, Combativo e Radical nas propostas e mudanças. Queremos a extinção da feminilidade, do sistema de gêneros, do Patriarcado-Capitalismo, dos Governos e do Estado.
As mudanças que almejamos não serão dadas pelo Estado, nem por nossos Patrões, nem por nossos maridos nem pelos comitês centrais dos partidos que nos exploram e às nossas esperanças tal qual os capitalistas. Porque todos estes são frutos do Patrtiarcado, ou Dominação Masculina, que só consegue conceber modelos binários de dominante/dominado, senhores e escravos, patrões e empregados, sádicos e masoquistas, destruindo qualquer referência a uma possibilidade de relações horizontais, que é uma busca politica feminista em seu apelo à igualdade. Somente uma verdadeira e ampla Revolução Social trará um mundo diferente deste, do sistema do Capital e de Classes, do Imperialismo e Militarismo. Essa revolução não vai ser construída por nossos governantes, mas pela rebelião dos povos. Somos desobedientes, não serão as leis que aprisionam nem as políticas desse mesmo Estado que massacra pobres e negr@s, mata mulheres negando assistência a saúde e aborto seguro, que se silencia e é cúmplice perante o feminicídio e o tráfico de mulheres em prostituição que trarão a segurança e a liberdade que mulheres esperam há tantos anos.
Pelo fim do sistema do Capital – Patriarcado, e suas variantes Racistas, Classistas, Especistas, Lesbofóbicas e seu fascismo original.
Pela Autonomia Feminista. Nem Deus, nem Pátria, Nem Patrão, Nem Partido e Nem Marido. Feminismo já!
– Coletivo de Ação Feminista, 6 de março de 2010, em ato pelos 100 anos do 8 de março, Curitiba-PR
Here we are for the hundredth International Women’s Day on the 8th of March. We dress in black because we are in mourning and we hide ourselves because we are not safe in Patriarchy. A woman is battered every 15 seconds and 3 women are killed each week in Curitiba; we are criminalized and imprisoned if we must terminate a pregnancy by abortion, and we live in constant fear of being raped and assaulted. Women were burned to death within a factory and millions of others have been burned as witches throughout history. We are still persecuted. We women live in a state of constant fear. Our fear is due to Male Domination and the repression of its system, and the fear we are being inflicted is politically motivated. It isn’t safe for a woman to speak up and that is why we do not expose ourselves. We also choose not to do so because we don’t believe in leadership and we don’t want any hierarchies. We are not here to celebrate; we are here to remember and fight. We are rebellious in our daily lives, facing and contesting authority. Instead we are here in the name of Feminist Autonomy. That is the form of political participation and organized struggle we believe in.
We women must be the centre of our struggles. We cannot go on as the second sex within political parties, political ideologies and philosophies, unions and organizations, as housewives and caretakers of such spaces. Gender roles and sexism are not secondary. Gender roles and sexism are a crucial matter, and a radical one. We are not born to complement men. It’s been 100 years of the 8th of March, but our struggle has been longer than that. Many women resisted and were killed so we could be here; they fought for the emancipation of all women and to put an end to the subordination of women. But the women’s movement has been reproducing its traditional role expected by our sexist society, which exploits women as mothers and women. We must honor our sisters who gave us history and a future to look forward to. We cannot accept a subordinate role to our patrons and patriarchs by following authoritarian orders of political parties, organizations and political flags that erase us and diminish us.
We will not go on as cannon fodder to the revolution of those who do not contemplate us. If I can’t dance, it is not my Revolution. There has been no revolution or economic system that has changed things for women, even though we worked hard in all liberation movements that arose. Without us, the system stops. We work in the fields of the lords; we are the poorest and most exploited sector of society; we work double-shifts in our homes managing our families. We are the cheapest labor force in the system and the most exploited in all sectors. Our labor is invisibilized and not recognized as we raise our children for the fascist nation which forces us into maternity. We must do something for ourselves. And it is our struggle as women and feminists which bring us the elements necessary for a truthful and wide social revolution. A Women’s Liberation Movement – Feminist, Autonomous, Libertarian, Revolutionary, Militant, and Radical in its propositions and changes. We want the extinction of femininity, of gender roles, of capitalist patriarchy, of governance and the state.
The changes we long for will not be brought by the state nor by our patrons and husbands and committees from political parties that exploit women and our hopes, just as capitalists do. These are all offspring of the Patriarchy or Male Domination, which can only conceive binary models of dominant/subordinate, masters and slaves, patrons and employees, sadists and masochists, destroying any reference to the possibility of horizontal relations proposed by the political feminist struggle and its call for equality. Only a truthful and wide Social Revolution will bring us a world different to this one – the system of capital and classes, imperialism and militarism. Such revolution will not be enabled by rulers, but the rebellion of our people. We are disobedient; our revolution will not be enabled by laws and the politics of the same State that kills women and denies us medical assistance and safe abortions; that remains silent in the face of femicide and the trafficking of women in prostitution. The state will not bring us the safety and liberation women have longed for so many years.
We fight for an end to Capitalist-Patriarchy and its Racist, Classist, Speciesist and Lesbophobic variants with its original fascism.
We fight for Feminist Autonomy. No God, no Fatherland, no Patrons, no Parties and no Husbands. Feminism now!
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(Joanna Russ)
Poxa, mulheres odiarem homens não é horrível?
É claro que vários homens desprezam mulheres, mas isso é diferente, pois o ódio-por-mulheres não é algo sério – na pior das hipóteses é excêntrico, no melhor dos casos é fofo. Odiadore(a)s de mulheres (muita[o]s da[o]s quais são mulheres) podem se expressar por todo lugar – como sou lembrada pelo mais recente cartoon sobre mulheres motoristas –, mas odiadoras de homens têm menos oportunidades. Ódio-por-homens exige auto-controle. Ademais, odiadoras-de-homens estão em minoria na medida em que, para cada Valerie Solanas, quantos estupradores, quantos assassinos estão por aí? Quantos críticos de cinema machos acharam “Frenzy” de Hitch-cock um vigésimo tão revoltante quanto o “Scum Manifesto” de Solanas? É claro que Solanas deu um passo além e agiu, mas também o fizeram vários e vários homens – na pequena cidade onde moro houve vários incidentes de estupro no ano passado, e a resposta comum aos mesmos foram risadas.
Ademais, não é nada novo para os oprimidos serem solenemente avisados que sua entrada no Paraíso depende de não odiar o opressor; trabalhadora(e)s não devem odiar os patrões e negros não devem odiar brancos porque ódio é ruim. É um nítido caso de ambivalência. Veja: (1)Você faz algo ruim para mim. (2)Eu te odeio. (3) Você acha desconfortável ser odiado. (4)Você imagina o quão legal seria se eu não te odiasse. (5) Você decide que eu devo não te odiar porque o ódio é mau. (6) Pessoas boas não odeiam. (7) Porque odeio, eu sou uma má pessoa. (8) Não é o que você me fez que me faz de te odiar, é minha própria natureza má. Eu – não você – sou a causa do meu ódio por você.
Por algum motivo, a misandria (um termo chique para o ódio-por-homens) é um tópico muito carregado. As pessoa ainda falam como se odiar homens significasse matar a todos imediantamente – como se não houvesse diferença entre sentimentos e ações. Odiadoras de homens são pessoas que sentem-se de uma determinada forma (nem mesmo o tempo inteiro, acreditem ou não); elas não são Assassinas Instantâneas. Se as misândricas fossem as bestas selvagens, descontroladas e vorazes que supostamente são, teriam sido estranguladas em seus berços. Certamente muita(o)s pouca(o)s de nós estamos seriamente com medo que ardentes batalhões de feministas misândricas virão marchando ao nascer do sol para castrar cada homem daqui à Califórnia – apesar das piadas que são ditas parecerem indicar que acreditamos nisso. Bette Friedan por acaso acha que isso realmente ocorrerá? Obviamente não. Acaso Jill Johnston? Dificilmente. Ainda assim, Jill Johnston provoca tal abuso extraordinariamente virulento que deve estar dando nos nervos de alguma forma, e Betty Friedan recentemente acusou Gloria Steinem (de todas as pessoas) de – quê? Odiar homens. Uma séria acusação.
Feministas que desejam que o feminismo seja respeitado temem que as “radicais” irão “longe demais”. Isso é, o ódio-por-homens entrega o jogo – nós não somos meramente liberais; nossas queixas são drásticas; nós estamos demandando, não pedindo; nós quebramos o molde da forma mais extensa possível; nós falamos realmente sério. (Por isso o ódio-por-homens tem sido usado como uma distração – é uma acusação bastante carregada.) Mulheres do movimento que pegam pesado publicamente contra a misandria estão com medo do backlash masculino. Elas querem a cooperação dos homens (e das mulheres), querem aceitação, querem popularidade.
Em segundo lugar, há mulheres que sentem que sua própria escolha de um estilo de vida (morar com um homem, dormir com um homem, trabalhar com homens, amar um homem) é de alguma forma impugnada ou tornada inválida por mulheres que odeiam homens. O segundo grupo, é claro, sente-se extamente da mesma forma sobre o primeiro grupo – mas isso vem acontecendo há anos. A novidade é que a escolha convencional e socialmente aprovada está agora aberta a algum questionamento. As americanas parecem estar agindo dessa forma ultimamente; não nos amamos o suficiente para valorizar nossas escolhas sem algum tipo de sanção. Então nós depreciamos as outras a fim de que elas não nos depreciem, mesmo que por implicação.
Talvez a causa mais importante do temor à misandria seja o horror de encarar a extensão pela qual misandria e misoginia são uma parte inescapável da textura de nossas vidas. Tudo bem brincar sobre “a batalha dos sexos”, mas não devemos levá-la a sério pelo paradoxal motivo de que é demasiadamente sério – todo homem é um misógino, como pode ele remediá-lo? E toda mulher é uma misândrica, como pode ela remediá-lo? A misandria, é claro, é muito muito pior do que a misoginia – conseqüentemente nos dando a pista de quem é o agressor na “batalha”. Enquanto que nem toda mulher é Valeria Solanas, Solanas é ‘toda mulher’ – isso quer dizer que ninguém pode escapar de sua situação geral. Realmente, alguns patrões são mais legais que outros. Mas um trabalho ainda é um trabalho. Realmente, o inimigo não está dando tiros particularmente em Yossarian. Mas ainda assim estão atirando nele.
Nós todas somos, a um grau muito alto e desconfortável, prisioneiras das instituições em que vivemos. Sermos forçadas a suportar coisas terríveis é ruim o bastante: nós somos forçadas a sentir coisas terríveis também – é realmente horrível perceber quantas ilusões e distorções têm sido forçadas sobre nós. É muito mais fácil dizer que tudo (como Perelman coloca) é mar e rosas, que todas as mulheres realmente adoram homens, que apenas mulheres “doentias” odeiam homens. Está chegando ao ponto de que afirmar que algo é “errado” em sentido prático e tático carrega tons de arbitrariedade (portanto a condenação de Friedan à Steinem, et al). Se você se dispõe a aceitar a existência de mulheres que de fato odeiam homens abertamente, e que elas odeiam homens ou porque chegaram a circunstâncias extremas (porém características) ou porque elas são mais esclarecidas que o restante de nós, isso significa que você deve aceitar a misandria como uma possibilidade para todas as mulheres. Se você é uma mulher, isso significa que você deve aceitar a misandria como uma possibilidade para você. (Se você é um homem, essa aceitação significa que você deve aceitar a possibilidade do ódio das mulheres como uma resposta racional a uma situação ruim, e que você não deve se alarmar com isso.) Aceitar a misandria é percerber as confusões atrozes de que nossas vidas são feitas, mesmo quando somos sortudas o bastante para escapar dos piores efeitos de nossa estrutura social. Há dois tipos de mulheres que nunca odeiam homens: as demasiadamente sortudas e as demasiadamente cegas.
Penso que nós devemos decidir que o ódio-por-homens não é apenas respeitável, mas honrável. Para ser misândrica, uma mulher necessita considerável genialidade, originalidade e resiliência. Um misógino não requer tais recursos. Nossos homens são criados para nos odiar; é o homem anti-convencional, inteligente, sensível e verdadeiro aquele que consegue sair dessa tirania e amar mulheres. Nós somos criadas para amar nossos homens – acriticamente, e temendo as conseqüências de não fazê-lo. (Eu não estou falando deste ou daquele homem em particular, mas homens enquanto grupo. A doutrina de que homens devem ser aceitos ou rejeitados enquanto indivíduos é um salva-vidas para mulheres que se horrorizam com o ódio-por-homens. Mas estas mesmas mulheres sabem perfeitamente bem que esta questão é uma questão de classe – elas mesmas argumentam que “homens” são maravilhosos, que “homens” são bons, especificamente, elas quase sempre aceitam os termos de classe do argumento , até que alguma outra pessoa as desbanque trazendo o argumento individualista de que as pessoas devem ser julgados singularmente, deslizando então imperceptivelmente para a posição de que pessoas não pertencem a grupos ou classes de fato.) São as mulheres anti-convencionais, verdadeiras, sensíveis, inteligentes e originais que conseguem sair debaixo desta tirania, e ver claramente que serem discriminadas, apadrinhadas, diminuídas, frustradas, limitadas, tratadas sem respeito e ensinadas que não são importantes dificilmente são solos férteis para o Amor.
É possível rejeitar a misandria enquanto uma tática, ou até mesmo escolher suprimí-la em si mesma, e ainda assim aceitar as misândricas elas mesmas. Isso envolve reconhecer a misandria como uma permanente possibilidade nas situações de cada mulher, e conseqüentemente em sua vida. Significa não estar nervosa sobre o que os homens vão pensar dessas mulheres horríveis e odiadoras-de-homens. Significaria criticar odiadoras-de-homens – no máximo – privadamente.
A situação das mulheres em relação aos homens não é apenas opressiva; é terrivelmente confusa. Como diz Virgínia Woolf, nem lisonjas, afeto, conforto em sua companhia, nem amor podem impedir uma mulher de ser colocada em seu lugar. (Coisas ruins acontecem não apenas quando o subordinado se engrandece, mas quando o superior irrita-se e quer alguém em quem descontar – todas nós admiramos o realismo delicado do cartoon no qual Patrão grita com Marido, Marido grita com esposa, e esposa grita com Filho. Este Filho deveria ter um Cão.)
Já é ruim o bastante coisas ruins serem feitas a você; o pior é o duplo-vínculo que segue. O homem insiste – em geral semi-sinceramente, apesar dele ter algum indício de seus motivos, pois ele se irrita se você o questiona – que (1) ele não fez nada, você deve estar alucinando; (2) ele o fez, mas é trivial e portanto você é irracional (“histérica”) ao se ressentir ou se magoar; (3) é importante, mas você está errada em descontar nele pessoalmente, porque ele não intencionava fazê-lo de forma pessoal; (4) é importante e pessoal, mas você o provocou, em específico é sua culpa e não dele. Pior ainda, ele freqüentemente insiste em tudo isso ao mesmo tempo. Nesse tipo de situação ideologicamente mistificada, clareza é crucial. Vamos deixar várias coisas claras: ferir pessoas as deixa irritadas, irritação transforma-se em ódio quando a raiva é crônica e acompanhada por impotência, e apesar de você poder intimidar e envergonhar pessoas para não mostrarem suas raivas, a única maneira de parar a raiva é parar a dor. A cura para o ódio é o poder – não o poder de ferir o agressor, mas o poder de fazer parar o agressor.
É um erro pensar que o ódio-por-homens é uma auto-indulgência delicada; trata-se de algo muito desagradável. Tampouco é uma raridade patológica; nada poderia ser mais comum. Vá olhar para a arte popular dirigida às mulheres: revistas de romance, filmes “de mulheres”, Góticas modernas. Onde não há vingança disfaçada (como há na apresentação de estúpidos e débeis homens das velhas rádio-novelas) há abundante impotência, dor, e auto-desprezo. Eu considero odiar a outros moralmente preferível do que odiar a si mesma(o); isso dá uma espinha dorsal à espécie humana. É a primeira de todas as virtudes biológicas, auto-preservação, e necessita de mais bravura do que você pode imaginar. E antes de você desdenhar da auto-preservação e declarar que auto-imolação é maravilhoso (especialmente para mulheres), lembre-se que auto-sacrifício é uma virtude sempre forçada sobre grupos oprimidos. (Algumas mulheres tornam a “virtude” do auto-sacrifício e Amor em armas para elas mesmas: em específico, a geração de culpas “eu sacrifiquei tudo por você”, e a multidão mais-amorosa-que-vocês, que tratam uma emoção espontânea como se fossem características moralmente cultivadas. Elas são bastante impertinentes para mulheres que não amam tanto quanto elas).
Porque o ódio-por-homens é tão atroz? Porque é mais fácil para todo(a)s, machos e fêmeas, demandarem a santíssima pureza dos oprimidos do que dar uma tacada nos opressores. Já está mais do que na hora de pararmos de nos preocupar se as feministas são santas; elas não o são, bem previsivelmente. E é também chegada a hora de descartar essa bobagem perene de evitar Mudanças porque Mudanças provocarão um Backlash. Mudanças sempre provocam um backlash. Se você não se depara com qualquer resistência, não está fazendo seu trabalho político. Como diz Philip Slater em “The Pursuit of Loneliness”, “backlash” é o que acontece quando pessoas descobrem que mudança significa mudança. Declarar piamente que o feminismo é na realidade muito moderado e inofensivo não irá enganar ninguém por muito tempo. O radicalismo de uma causa não advém dos desejos individuais de uns poucos líderes bem-reconhecidos, mas da situação em que grandes, enormes números de pessoas se encontram. Feminismo é radical. Aquelas que não querem que seja “tão” radical estão se percebendo ou desnudadas, ou ignoradas; elas se tornam (de forma deprimente) as queridas de uma Ordem Estabelecida que gosta delas por todos os motivos errados.
Condenar a misandria é ter expectativas de conduta mais altas para mulheres do que para homens. É estar tão assustada com o feminismo em si que não permite que uma mancha de ordinária corrupção humana possa ser permitida dentro dele. É aceitar a idéia da opressão somente na condição de que os verdadeiros e feios efeitos da opressão sejam negados. É considerar o feminismo um movimento moral, e não um movimento político – homens são ‘ok’, mas devemos ser melhores.
Não é disso que estávamos tentando nos livrar em primeiro lugar?
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A participação dos homens dentro do feminismo é intrinsecamente danosa a todo o movimento, independente de qual seja o conteúdo do que dizem, as boas intenções ou a coerência de suas palavras. Sua participação já é em si mesmo uma mensagem: vocês mulheres não tem poder de transformar a sociedade com suas próprias mãos. Sua participação é intrinsecamente um argumento sobre nossa dependência.
Nunca se argumenta, em momento algum, que uma sociedade composta inteiramente por negros seria inviável. Todos compreendemos o quanto esta asserção é ofensiva: ‘dizer dos negros serem incapaz de gerenciar seu próprio mundo, livres dos brancos? Racismo! Concepção evolucionista’.
Mas já não é o mesmo que se afirma sobre nossa independência em relação aos homens. Mesmo quando imaginamos uma sociedade anarquista, uma sociedade comunista e/ou uma sociedade negra, poucas de nós conseguem imaginá-la livre do modelo familiar heterossexual: homens fodendo mulheres que dão luz a seus filhos. Diz-se “inviável” uma sociedade que não dependa desse modelo de reprodução – não soa “natural”
Ao não perceber esta possibilidade, feministas heterocentradas começaram a dar uma importância cada vez mais importante aos homens, valorizando cada vez mais sua presença em nossos espaços – a um ponto que chegam a priorizar suas palavras em detrimento das companheiras, por medo de “perdê-los”.
Pois de fato, não se vendo livres dos homens, como acabar com a misoginia sem que se transforme a posição dos opressores? Sensibilizar quem possui poder para que não exerça a violência, para muitas, parece mais eficaz do que fortalecer nossa própria classe oprimida – afinal, o foco em nos fortalecermos lança-nos diretamente na esfera do confronto
Feministas heterocentradas sobretudo acreditam nisso: em transformações sociais desprovidas de conflitos e confrontos. O que sobretudo ocorre nestas circunstâncias é que determinadas mulheres tornam-se reféns da participação masculina.
Uma das acusações mais freqüentemente dirigida a nós separatistas é que lidamos com Homens enquanto uma categoria abstrata, ao invés de focarmos em suas histórias “concretas e singulares”. Categoria que nos simboliza todo o medo que sentimos de termos nascido mulheres.
Ocorre que, entretanto, as feministas heterocentradas não são menos ‘simbólicas’ ou abstratas quando lidam com homens: é muito freqüente que o mesmo argumento defendido por um rapaz seja bastante mais incentivado e elogiado do que outro defendido por uma moça (situação muitas vezes não percebida pelas feministas). Então não se trata da concretude de modo algum.
A diferença é que, se para nós Homens simbolizam a violência que sofremos, as feministas heterocentradas os tomam como símbolo de algo pior: aprovação masculina.
Não são poucas as mulheres que enfrentam o medo da solidão e da loucura quando começam a erguer sua voz em torno do feminismo. Perceber que precisamos desafiar aqueles que até ontem eram nossos ‘heróis’, nossos ‘príncipes’, nos coloca em uma situação de enorme fragilidade emocional.
Nossas educações (familiares, escolares, midiáticas) nos ensinam que todo laço com outra mulher (irmã, amiga, mãe), por mais importantes que sejam, são sempre secundários em relação à profundidade de laços que devemos construir com um homem. O sofrimento que muitas de nós vivem ao longo de um divórcio costuma ser significativamente maior do que quando cortamos laços com uma amiga – a casa torna-se vazia, todo o mundo torna-se vazio, e inclusive nossas relações com outras mulheres são consideradas “vazias”. A descrença no peso dos vínculos que podem ser estabelecidos com outras mulheres torna nossa auto-estima e auto-confiança dependentes de um universo de imagens e opiniões predominantemente masculinas, dentro do qual não temos qualquer poder real de transformação – podemos performar “esta” ou “aquela” imagem de mulher, mas não temos autonomia para construí-las nós mesmas.
Diante de toda essa fragilidade, quando surge um homem à nossa frente dizendo-se feminista, defendendo argumentos que coincidem com os de nossa luta, concordando com palavras com as quais tanto temíamos ferir as pessoas que amávamos, isso gera uma enorme tranqüilidade em nossos corações. “Afinal, existem homens bons, não preciso tremer de medo com a possibilidade de separar-me deles”.
E é com base nessa mesma fragilidade e insegurança que homens “feministas” manipulam mulheres, tornando-as reféns dentro do movimento.
Certamente, homens “feministas” lêem textos feministas. Entendem nossa linguagem, nossos conceitos. Mas, sobretudo, diferenciam (com ou sem clareza de fazê-lo) aqueles argumentos que efetivamente lhes colocam em cheque, daqueles que comodamente mudam pouca coisa.
Seus discursos e textos são nossas palavras, as mesmas, no entanto recortadas e coladas na medida do que lhes parece conveniente.
Alguns exemplos: quando nós mulheres afirmamos que o problema não é “este ou aquele homem individualmente”, mas toda uma sociedade patriarcal, dificilmente dormimos tranqüilas – sabemos que o perigo está em qualquer canto, nas pessoas que mais amamos e nos momentos que menos esperamos.
Mas quando homens “feministas” lêem e afirmam isso, certamente estão dormindo tranqüilos – vêem que o problema não está “neles”, mas no sistema, e logo que se afirmam ‘feministas’ inocentam-se de tudo o que fazem ou venham a fazer (nos limites evidentes daquilo que chamam “exercício auto-crítico”, é claro, todo homem ‘feminista’ lava as louças de vez em quando).
A sexualidade é um outro campo em que a cumplicidade deles é nitidamente seletiva: todos conhecem, de cor e salteado, maneiras diversas de criticar “o culto à menina santa e a execração das putas”, ou “o fato de que homens tem liberdade para transar com 5 numa noite, mas uma mulher que transa com um único homem na primeira noite é discriminada” – um tipo de discussão cujos exemplos sempre pressupõem um erotismo heterossexual.
Mas quando se trata de resistir ao sexo, resistir à obrigação das fodas heterossexuais, ou qualquer incentivo às práticas lesbianas, dificilmente há apoio por parte dos mesmos.
Freqüentemente existem diferenças e discordâncias dentro do feminismo, e é nesses momentos cruciais que os homens fazem um jogo perverso, utilizando a fragilidade emocional das mulheres heterocentradas: a cada conflito, elogiam e apóiam as mulheres que sustentam os argumentos mais convenientes, e subsumem seus próprios interesses como sendo de interesse delas.
Vendo-se atacadas por outras mulheres (no que muitas vezes não passa de uma discordância banal), as mulheres elogiadas vinculam-se à aliança construída, e passam a defender os argumentos masculinos mesmo quando eles não se encontrem diretamente presentes. Dessa forma, defendem do temor que implica uma separação efetiva do mundo masculino – ao mesmo tempo em que inviabilizam possibilidades reais de fortalecer-se, bem como seus laços com outras mulheres.
Por muito tempo, a impossibilidade dos homens participarem dentro do feminismo se pautou no argumento de que nunca conseguiriam entender muito bem nossas experiências enquanto mulheres. Mas essa crítica é inexata: homens letrados no feminismo percebem, e perfeitamente bem, a fragilidade na qual as mulheres se encontram – e fazem uso disso a seu próprio favor.
O problema não está em “sensibilidade” ou “percepção”, mas na posição de poder que uma sociedade lhe confere: a vida dos homens não depende do feminismo. Pra eles, basta que sua mulher receba um salário mais alto (com o qual muito ‘conscientemente’ aprenderam a não se intimidar), seja liberada sexualmente, tenha a possibilidade de abortar quando lhe for conveniente.
Com isso, não quero dizer que não existam homens genuinamente interessados na destruição do patriarcado. Esse interesse tampouco se trata de “sensibilidade” ou “percepção”, mas de implicação afetiva ao se deparar com uma realidade social que ceifa a vida de muitas pessoas que lhes são queridas – constatação que certamente não lhes garante um sono mais tranqüilo. Mas o entendimento geral dos homens que efetivamente respeitam o feminismo é de não sobreporem suas próprias questões às questões das mulheres, e respeitarem a autonomia dos espaços que servem ao fortalecimento das mesmas: suas falas nunca são dirigidas contra as “feministas radicais demais” que pedem para que se retire, criando circunstâncias que dividem o movimento, mas atuam FORA do feminismo em outras batalhas que concernem o demantelamento do patriarcado (anti-racismo, libertação animal, anti-colonialismo, etc).
Para que nós mulheres possamos construir uma autonomia efetiva, precisamos nos livrar efetivamente de todo e qualquer movimento direcionado à aprovação masculina. Não há nada que dê aos homens o direito de opinar sobre o que pensamos, como nos vestimos, do que falamos e que mundo pretendemos construir. Para que possamos viver isso efetivamente, é necessário que nossos relacionamentos entre mulheres sejam consolidados como fonte real de nossa auto-estima.
Nisso consiste sermos Lesbianas. Não se trata simplesmente de “dormirmos com outras mulheres” – algumas o fazem, outras não, mas se existe algo no que nossa identidade NÃO está centrada é sobre algum tipo de exercício da sexualidade. Trata-se do exercício cotidiano de aprofundarmos o peso de nossos relacionamentos com outras mulheres, para que a construção de nossas referências e auto-estimas esteja em nossas próprias mãos.
Todas referências que norteiam, pautam e educam o erotismo heterossexual (pornografia e prostituição) são zonas construídas e dominadas por homens. Mulheres que trabalham nestes espaços podem alcançar alguns “privilégios” individualmente, mas a construção de referências permanece submissa àqueles que possuem o poder político/econômico em jogo (no caso da pornografia e da prostituição, o cliente – homem).
Quem somos nós? Que dores e sofrimentos vivenciamos todos os dias em nome da manutenção das normas instituídas? O que desejamos com nossos próprios corpos? Por quais espelhos, por quais referenciais, desejamos nos ver e ser vistas?
Aqueles que distorcem todo tipo de imagem sobre nós mesmas para que caibamos dentro de ideais que nos fazem sofrer não são dignos de nosso amor. Lesbianas, somos mulheres que fizemos da dignidade nosso amor por outras mulheres, com quem temos poder real para construir quem desejamos ser e o mundo em que desejamos viver.
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Posse Intemporal
Fazer amor contigo
não é espelhar teu corpo nu
no vítreo do meu espaço
não é sentir-me possuída
ou possuir-te
É ir buscar-te
ao abismo de milénios de existência
e trazer-te livre.
Manuela Amaral
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