Hesitei, e ainda hesito, em trazer para aqui a cronografia da nossa caminhada. Receio que se esperem um rol de fotos, com riachos, pôr-de-sóis, e caminhos rurais exuberantes. Tenho disso, muito, e isso será certamente o que melhor conseguirei partilhar. Mas gostaria tanto de o conseguir fazer com as outras paisagens que esta viagem nos trouxe.
Esta caminhada que fizemos, eu e o Diogo, é uma história fantástica que nada tem como se contar. Houve coisas, a cada passada mais, que fomos descobrindo no fundo de nós, uma pulsão que desconhecíamos absolutamente e que não se alcança com palavras.
Serão elas o reflexo da longa trajetória da humanidade algures em nós? Não sei. Não as justifico nem tento descodificar. Não tenho nada de místico e por isso abdico de estabelecer uma relação com as memórias herdadas da nossa ancestralidade. Seria até o mais fácil. A estatística a justificar que 99% da nossa existência humana se desenrolou a caminhar sobre o mundo e que isso nos fará cúmplices desta natureza de modo muito mais mergulhado do que supomos, quando nos despimos dos artefactos que inventámos e que hoje a toldam. E que a força disso, nos nossos memes, nos possa arrastar, de forma súbita e imprevista, para uma inesperada viagem para dentro de nós, nesse imenso território do nosso inconsciente. Mas, como disse, eu, engenheiro das coisas físicas e mensuráveis, não cairei no logro de tentar decifrar o que não tem palavras nem uma métrica onde me possa apoiar.
Encontrámos homens de sorriso sereno que caminhavam há meses sem parar, sem nada procurar, apenas fazendo da jornada o seu desígnio, sem ponto de chegada. Visitámos um mundo vestido de cores, mar, chuva e sol, e montanhas onde viviam cavalos perdidos em estado selvagem, em que pela primeira vez nos sentimos humildes visitas e não proprietários de tudo isso. Testemunhámos famílias que pararam no fundo de uma floresta perdida e empapada de chuva para ali nos poderem oferecer um chocolate quente no frio cortante das montanhas de março. Esse planeta que nos era estranho até então, que não se compra nas agências de viagens, assim o fomos cumprindo dias a fio, com o pesar da caminhada, o descanso, as intempéries e os trilhos tormentosos, e nele fomos descobrindo a paz e a surpreendente natureza, do mundo e dos homens.
Cada passada, cada dia passado, foi entranhando esse mundo que afinal desconhecíamos. E foi-o de tal forma que essa manifestação infinita da natureza caminhou também ela, para dentro de nós. Há viagens que a gente faz, e outras que nos fazem a nós. A cada dia que parávamos, desfalecidos, mas orgulhosos, sentíamos essa pulsão. Bebíamos um copo de vinho, recolhíamos o trilho feito para dentro de nós e sorríamos em silêncio. Também nisso tive sorte. Ao poder fazer esta caminhada com alguém especial, que sabia aguardar pelo meu cansaço, que tinha o mesmo ritmo que os meus silêncios, que seguia no mesmo desvario que eu, fui também conhecendo melhor o meu filho. Nunca com tão pouco, pouco mais que umas botas e uma mochila, tive a oportunidade de conhecer tantas coisas verdadeiramente importantes.
Enfim. Sim, tentarei aqui trazer breve reportagem fotográfica, em modo cronológico, desta nossa singular caminhada. Mas não se espere muito, pois sou péssimo fotógrafo. Arriscarei até juntar alguns relatos e pequenos dislates circunstanciais que a cadência da caminhada foi estimulando. Mas fica tanto por contar, tantas coisas que não se desenham com palavras. Esta é uma história fantástica, mas que não tem forma de ser contada. Oxalá assim possa permanecer dentro de mim. Apesar de tudo, continuarei agnóstico. Lido bem só com o mundo, o homem e a minha própria natureza.
