O vento te traz à minha pele
ao sentir seu sopro fecho os olhos
e me transporto àquela hora
em que me abraçou em despedida.

Quando só importavam nossos sonhos e desejos
Feliz pude sentir teu carinho
teu calor
está em minha memória
para eternamente
me lembrar sua presença.

 

eu queria me desculpar
por ter me despedido assim
envergonhada e culpada
por não ter sido forte o suficiente
por não ter resistido tamanho encanto
de doce alma

sozinha

só em mente
seus dedos entraram em mim
junto a sua paixão ardente
infinita e carregada

só em sonho
eu te amei uma, duas, três vezes
ou quanto mais a vida permite

agora em terra
só em formalidade nos abrimos
em limite
com a dor

秋の夜

Desligo o ventilador, já não está mais calor.
Por mim nem teria ligado, não tenho o hábito. Foi coisa de minha irmã, não reclamei pois sei que o desconforto dela é maior do que o meu.
Antes de começar vou ao freezer pegar alguns pares de gelo, segunda compressa do dia. Estou incapacitada de pedalar, lazer no qual eu me movimento com meu próprio esforço exercido, não dependendo de motores, moeda ou paciência.

É madrugada, não temo.
Não sinto tamanha liberdade há tempos. Recesso da universidade é tirar da cabeça um peso que me tomava energia desde o final do ano passado. A greve bagunçou o calendário, o resultado foi um verão inteiramente respirado em um campus universitário. Ao menos é minha amada Niterói o lar de tal vida.
Ultimamente estou me adentrando cada vez mais em um universo distante do que vivo. A sensação de não pertencimento é constante, não me sinto representante de nenhuma cultura.

Regresso há pouco de uma sessão de um filme japonês, chamado ‘Nossa irmã mais nova’ (海街diary). O filme se passa em Kamakura, principalmente. Cidade a qual visitei em minha estadia no Japão. A fotografia como em todo filme japonês é maravilhosa, capta de forma belíssima a natureza local e a sutileza do cotidiano vivido. Nostalgia, desejos, sentimentos aguçados nessas horas na sala de cinema.

Paralelamente leio um romance de Banana Yoshimoto (吉本ばなな) de título Kitchen.
Como dito, estou em uma fase de fascínio pela literatura japonesa.
Ao regressar do país, senti vontade e estimulada a conhecer ainda mais sobre sua cultura, procurei ler obras de autores lá nascidos. O primeiro livro que possuí nesta busca foi ‘País das Neves’ do mestre Kawabata (川端 康成). O que só me motivou a desejar ler mais e mais escritas parecidas.

Importante aliado em minha busca é um sobrado azul do século XIX que hoje em dia habita um sebo. Um sebo que vende discos em vinil e CDs; Quadrinhos, alguns mangás; livros de todos os tipos, inclusive Literatura Oriental. Se chama Baratos da Ribeiro, que hoje deveria se chamar Paulinos da Fernandes. Ao entrar, me encaminho diretamente à seção de livros do oriente, focando em nomes japoneses. Neste hábito conheci não só Kawabata e Banana, como também Mishima, Hitomi Kanehara, Endo Shusaku e outros nomes.
Como agradecer a tamanha sorte de suceder nessa busca pelo conhecimento? Eu morar perto de um lugar desses, no qual chego pedalando, com um preço simbólico eu adquiro as respostas do meu imaginário em letras ocidentais que traduzem ideogramas. Tenho ido com certa frequência checar o acervo, procurar algum título e consequentemente me surpreender.

Me agrada como os orientais usam palavras tão simples, que expressam perfeitamente os significados e sentimentos que desejam expressar. Completamente dispersa da lógica ocidental e acadêmica de se determinar uma boa obra ou autor.

Paulo-Leminski-Matsuo-Basho-A-Lagrima-do-Peixe-livro-medium-postbit-774Outra recém-descoberta é a poesia haikai ou haiku. Poemas japoneses de três linhas e 17 sílabas (5-7-5). Matsuo Basho (松尾芭蕉)é minha referência de uma estadia na terra plenamente satisfatória e proveitosa. Há ótimos livros de sua obra e estudos sobre na língua portuguesa. Meu primeiro contato foi procurando livros orientais na biblioteca da UFF. Desde que peguei o livro da foto tenho exercitado minhas palavras e olhares de forma que me traz paz e conforto.

Chegou em minhas mãos há cerca de 7 dias o livro Canção da Terra natal – 我が故郷の歌 da autora Teruko Oda. Se trata de um livro com seus haikais e haibuns, uma mulher descendente de japoneses criada no interior de São Paulo. Seu pai era apaixonado e praticante do haiku junto com sua mãe. No livro conta sobre os pais e traz alguns de seus haikais escritos na década de 50.  Um que especialmente ficou na minha cabeça, de autoria de Masako em 1948

Aguardente de coco
Bebem sem relembrar
a terra natal.

(Furusato no hanashi ni furezu yashishu nomu)

Este livro foi um achado realmente inesperado e desejado. Há poucos livros brasileiros sobre o haiku, e até então, tinha lido apenas um escrito por Leminski, um curitibano branco sem ascendência asiática, não inserido em suas tradições e vivências. Este livro é um relato que representa a comunidade japonesa que vive em solo brasileiro. São autênticos haikus aonde a natureza que os inspira é de clima tropical.

Ontem ao pedalar criei um haiku, e não hesitei em tirar o bloquinho e a caneta da bolsa sem parar de pedalar. Lá eu estava, pedalando no aterro a noite com um bloco na mão esquerda e na direita a caneta rosa.

Fim de tarde
concretos velhos
novos espelhos.

Preciso visitar a minha avó o quanto antes. Poder dize-la tudo o que desejo que saiba, que quero ensinar e apresentar. Dançar, costurar, cantar, trocar histórias. Prazeres proporcionados unicamente com ela.

O tempo corre, e não posso vê-lo passar sem exercer as vontades.
Minha vida tem sido isso aí.

morte de verão

– Acabou o pão. Isso mesmo, cabou agora. Aquela senhorinha levou o que sobrou, se quiser esperar vai sair mais em 10 minutos.

Assim começou o dia, sabendo que não teria o confortante calor que mantém o dia agradável. Sobrara apenas as migalhas, que já não sustentam os sonhos.

E agora? Com o que devo encher meu estômago vazio e perdido?

Levaram-me a esperança de seguir meus dias com gosto. Bastou uma frase para as nuvens cinzas e carregadas representarem meus olhos.