Hello again, World, ou um novo começo

O recomeço deste blog vem num domingo, 31 de março, às vésperas daquele 1º de abril em que Bolsonaro deseja comemorar a ditadura de 64.

O dia foi longo e bastante repleto de afazeres. Nada a ver com a situação política em si, mas com o trabalho. Passei boa parte da tarde fazendo provas (para depois corrigi-las), readequando planos de ensino, datas, atividades valendo nota… E, de modo geral, o dia foi marcante quanto à tecnologia da informação.


Durante um certo tempo, mais ou menos de 2012 a 2014, mantive este blog como espaço de compartilhamento de informações e reflexões. Foi um ótimo momento de aprendizado e coleta de links, exemplos e ideias daquilo com que trabalhava naquele momento. Mas aí as coisas passam e novos momentos precisam de novos começos. Como desde então tenho tentado mas não conseguido me adequar ao Medium (apesar de achar uma plataforma interessantíssima) resolvi voltar para este espaço e transformá-lo num lugar mais acolhedor propriamente dito.


O que isso tudo tem a ver com este domingo? Bem, curiosamente me ocorreram algumas coisas que me fizeram pensar sobre o excesso de informações (e de experiências) ao nosso redor:

  • pesquisei várias referências ao longo do dia – livros, artigos, links diversos…
  • instalei o Google Podcasts, a partir de um link enviado por um amigo. Até então usava outro aplicativo, o Player FM, muito bom mas meio poluído. Não sei se vou mudar de fato para o app do Google, mas pelo menos este já possui uma interface mais simples. E já está atrelado à minha conta pessoal.
  •  instalei o aplicativo do Kindle no celular. Já usei o Kindle no tablet e tenho o próprio dispositivo físico, um antigão, que nem é de tela touch. Mas por conta de um livro específico, queria tê-lo no celular para ler durante uma viagem.

O que tudo isso tem em comum? Algumas curiosidades, todas mais ou menos baseadas no desempenho:

  • as referências buscadas se aliam umas às outras numa teia de aranha típica da web (!). A Amazon tentou me vender, como sempre, vários livros em conjunto, como se tentasse, nessa tacada única, aprimorar meu conhecimento.
  • O Podcast do Google apresenta, além da usual funcionalidade de aumentar a velocidade de reprodução, uma outra opção de cortar momentos em silêncio. Mais um modo de ganhar tempo.
  • O aplicativo do Kindle sabe diferenciar um livro técnico de um romance, apresentando interfaces e funções diferentes a depender do livro aberto. Além disso, uma ótima informação de quanto tempo falta até terminar o capítulo (o que também não é uma novidade em si).

Obviamente, não apenas a Amazon veio com recomendações na sua loja: tanto o Google apareceu com sugestões de podcasts quanto o Kindle também veio com uma bandeja de opções de leituras. É claro que acabo o dia exaurido, especialmente por conta de tanta informação, tanta busca por desempenho. Como sempre desde há muito, aliás.

A questão que sempre vem a calhar é: quando terei (ou teria) tempo e disposição para tanta coisa? Terei de ouvir os podcasts no banho ou em deslocamentos para conseguir dar conta? Os livros, como vou conseguir ler tantos se não param de chegar recomendações? O dinheiro para tantas assinaturas, contas premium etc., onde vou arranjar se a hora do meu trabalho não é mais valorizada?


Por sinal, não há como, nesse exato momento, não lembrar da obra de Byung-Chul Han: em Sociedade do Cansaço, o autor sul-coreano mostra como vivemos numa sociedade que busca não mais a alteridade mas apenas a diferença, a qual não teria em si mesma o caráter de estranheza, mas tão somente uma carapuça de exotismo. Impregnados de experiências de positividade (no sentido de sempre ter o mesmo em mãos), os sujeitos do mundo atual estariam fatigados por um cansaço produzido dentro de si e não mais vindo de fora, numa supressão da metáfora da imunologia, a qual pressupõe um agente externo como fonte de esgotamento. Desse modo, o próprio sujeito é o agente endêmico de si mesmo.

A violência da positividade que resulta da superprodução, superdesempenho ou supercomunicação já não é mais “viral”. (…) A rejeição frente ao excesso de posivitividade não apresenta nenhuma defesa imunológica, mas uma ab-reação neuronal-digestiva, uma rejeição. Tampouco o esgotamento, a exaustão e o sufocamento frente à demasia são reações imunológicas. Todas essas são manifestações de uma violência neuronal, que não é viral, uma vez que não podem ser reduzidas à negatividade imunológica (p. 16-17).

E ainda noutro ponto, diz:

O que causa a depressão do esgotamento não é o imperativo de obedecer apenas a si mesmo, mas a pressão de desempenho. Visto a partir daqui, a Síndrome de Burnout não expressa o si-mesmo esgotado, mas antes a alguma consumida (p. 27).

Pelo que lembro, Han não chega a falar dessa mesmice de experiências do ponto de vista do turismo, que tem sido uma forma, desde sua massificação no século XX, de experimentar o exótico a partir de uma perspectiva empacotada, lustrosa, segura e diferente dentro de limites. Mas, bem, a questão não é tanto essa. A questão aqui é queria ter um novo começo deste blog e me apeteceu tomar essa fatiga mental-espiritual a partir desse excesso de conteúdos parecidos e de busca por bons desempenhos. Que nos vejamos mais adiante, sob diferentes perspectivas, então.

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