Julho 21, 2008

Apologia do brilharete.

Março 14, 2011

Sentados à sombra de uma azinheira, numa alva planície urbanística de uma típica localidade do norte do mediterrâneo, Pedro N. de O e Paulo S. deparam-se com o esplendor da natureza que os rodeia. Este estupor perante as coisas existentes, as quais são percebidas nesse momento pelos sentidos de ambos, deve-se a uma falha na conexão internet, que os obrigou a deixar de lado o facebook por alguns momentos. Confrontados com a grandeza e beleza das coisas não virtuais, Paulo S. é perturbado pela a actividade de algumas mónadas que o levam a questionar a origem de todas as coisas, e eventualmente a constituir uma nova cosmogonia ou teologia da criação.

 

 

Pedro N. de O.: Que belo dia querido Paulo S. Regozijo das aves que cantam, e do vento que acaricia os campos, beijando a terra cultivada pelo homem, como se de uma bênção celestial se tratasse.

 

Paulo S.: De facto está um belo dia. Mas este melhor seria se me pudesse desfazer uma dúvida que me aflige.

 

Pedro N de O.: Mas que dúvida te aflige. Não serão antes as dívidas que afligem em vez das dúvidas?

 

Paulo S.: Que quer dizer com isso meu senhor?

 

Pedro N. de O. : Pretendo eu questionar se a dúvida, em lugar de nos provocar aflição, não nos poderá ela trazer prazer, pois nos faz procurar, ou seja agir no mundo e na vida, levando-nos à procura, ao empenho, e movendo-nos. Dinamiza-nos.

 

Paulo S.: Não compreendo.

 

Pedro N. de O.: Pergunto se não seria a vida sem dúvidas uma grande nóia. Ou como dizem os jovens uma tremenda fatelice?

 

Paulo S.: Talvez o fosse, mas porque o afirma?

 

Pedro N. de O.: Ainda não estou a afirmar, estou somente a questionar. Diz-me então, o que te parece de uma vida na qual não nos confrontássemos com a dúvida.
Paulo S.: Diz no sentido em que tivéssemos respostas para tudo,  já previamente registadas em nós?

 

Pedro N. de O.: Sim.

 

Paulo S.: Penso que poderia ser uma grande seca, mas poderia ter algumas vantagens.

 

Pedro N. de O.: E agora te pergunto: e na vida gostas de falar, encontrar-te com amigos e discutir sobre assuntos diversos? Como por exemplo a regionalização; a manif. dos à rasca; ou de coisas mais contemplativas como o potencial de um decote e o como este pode enfatizar a beleza de uns seios?

 

Paulo S.: Claro que sim.

 

Pedro N. de O.: E então não te parece que se já tivéssemos respostas para tudo, então essa prazerosa actividade de diálogo com os outros seria impossível ou pelo menos inútil?

 

Paulo S.: Sim, se já tivéssemos respostas para as dúvidas o diálogo seria de facto inútil.

 

Pedro N. de O.: Então concordas que se já tivéssemos as respostas às nossas dúvidas, a conversa que estamos a ter não teria acontecido, e que por isso teríamos sido privados do prazer de comunicar um com o outro?

 

Paulo S.: Sim, tendes razão.

 

Pedro N. de O.: E concordas que uma coisa típica do dasein, que como sabes é um ser no mundo com os outros, é a de dialogar e de crescer no mundo com os outros?

 

Paulo S.: Não poderei estar mais de acordo com o pensamento da ontologia Heideggeriana e afins.

 

Pedro N. de O.: Nesse caso concordas que este método socrático-dialógico é fundamental para o ser-aí-no-mundo-do-paleio-com-os-outros?

 

Paulo S.: Evidentemente que concordo. Mas e se não estivesse de acordo?

 

Pedro N. de O.: Se não tivesses de acordo far-te-ia outras questões. Mas estás?

 

Paulo S.: Estou.

 

Pedro N. de O.: Então, para terminarmos em paradoxo ide em paz com as tuas dúvidas que a conversa acabou por hoje.

Circo de Viana: o triângulo das Bermudas do pensamento

Évora-Novara-Exeter

http://vaiumagasosa.blogspot.com/2010/02/gasosa-convida-34-paulo-s.html


«Para mim, o kantismo é um modo de vida, antes de ser uma doutrina. É um conjunto de gestos e de atitudes, mais do que uma colecção de textos ou um sistema.

Pensar é levar uma vida de pensador. Já uma palavra que exprime esta definição: ascese, que no sentido ancestral não significa mortificação mas prática, exercícios e regras de vida.

Viver sem mulher é uma ascese. Viver com uma mulher, também.

Entre as regras de vida, existe a questão da paridade. Devemos admitir mulheres numa escola filosófica? Que podemos fazer delas? Amigas? Amantes? Esposas?»

BOTUL, Jean-Baptiste, La Vie Sexuel de Immanuel Kant (1999), A Vida Sexual de Immanuel Kant, Trad. José Mário Silva, Lisboa, Cavalo de Ferro, 2004, pp. 33-34.

A articulação do discurso, paradigma, enunciado, proposição, episteme, subjectivação/objectivação, posicionamento…

 

                                               Sim, linhas de tensão.

 

Mas, e no que diz respeito à questão antropológica, meu caríssimo amigo? O que é isso de andar por aí, com um corpo-símbolo, sacramento farmacológico/neurológico/tautológico, uma espécie de repetiçãozinha rasca de domingo à tarde.

 

Tipo… emissão constante do esquadrão classe A pela TVI há uns valentes anos, quando me encontrava de férias?

 

Ok, pode ser isso. Mas, para isso, precisamos de uma outra noção, a de tecnologias do sujeito. E acho que podemos utilizá-la para evidenciar todos aqueles procedimentos que se levam a cabo precisamente para ARRANCAR essa merda que insistem em nos colocar cá dentro.

 

Esse corpinho? Esse espírito? Essa performance?

 

Sim, essas coisas todas. Estou a falar daquilo que se faz quando queremos sair de nós mesmos.

 

Hum…compreendo… para além da alteração da performance, toda uma parafernália de substâncias da alteridade?

 

Sim, isso, outros sacramentos…Acho que é um pouco nessa linha. Trata-se de ver e de manufacturar no gesto de ignorância.

 

Ignorância?

 

Ignorância, saber…

 

Parece-me que não chega. Não-coincidir.

 

Isso chega perfeitamente. Mas é preciso que te desarticules todinho! Que nem sequer sejas capaz de dançar…eras capaz de viver com isso?

 

* * * *

 

Capaz de viver na transgressão. Ser funâmbulo, tropeçando numa corda apodrecida de cada vez que se tenta uma acção de equilíbrio. Pois é isso, estar disposto a cair, deixar de identificar aquela sombra, em queda, como duplo de alguma coisa; deixar de reconhecer a treta do fiozinho de cordel que é preciso acompanhar a cada passo, cuidadosamente; rejeitar a idiotice da performance tetraplégica e a prótese da vara branca, infinita; rebentar com o público, expectante, desejoso da queda, mas ao mesmo tempo paternalista; rasgar com os dentes aquele tecto, de circo, pútrido, inundado pelo cheiro de excrementos dos animais, manchado pelo suor de todos. Manchado.

* * * *

 

Trata-se disso? De cair?

 

Não me parece que possamos colocar as coisas de outra forma. Mas é a relação com a imagem. É a parte visível, em relação à qual nos deslocamos. É a metáfora possível para uma arqueologia da ignorância.

 

Olho para o sismógrafo. Suscita-me serenidade. O ponteiro, parado. Arqueologia? Broca auto-erótica que, ao invés da reificação, escolhe a destruição sistemática e cruel do sedimento, eleva à categoria de destino a acção desapropriante do seu próprio percurso.

para uma arqueologia do saber

(parte I)



What’s wisdom? Wisdom is that whatever happens you have a good excuse. Wisdom means you do something. If you succeed, then you have a proverb which is a form of wisdom to legitimize it, like we in Europe have a proverb, a standard one which says, Only those who risk can succeed [no nosso português “quem não arrisca não petisca”]. If you fail we have another proverb to legitimize it which says in very vulgar terms – something, I don’t have it in English – You cannot urinate against the wind. That’s wisdom for me. Anything goes basically. The basic wisdom is that differences don’t matter, what was up comes down, this eternal circulation of fortune, and so on and so on.

Robim Z.



Entre os enólogos, quando um vinho, durante a sua produção, leva água, é costume definir-se esse gesto por green snake – isto porque as mangueiras que estão nos lagares são de cor verde. Mas o que me interessa aqui salientar é a utilização da metáfora-imagem da “mangueira/serpente”. Tal como a serpente bíblica adopta o significado de mal-necessário [1], e é nesse sentido que, a meu ver, o termo green snake é utilizado: como um mal-necessário, neste caso, para com o vinho [2]. Penso que o uso da água acontece por ser vantajoso economicamente para a produção vinícola, onde a velha lógica capitalista toma forma: máximo de produção ao mais baixo custo possível (o termo “possível” é-o sem limites, excluí a parte humana). Para além da sua utilização no vinho (técnica, anexada a um saber), é a sua utilização entre os enólogos que me interessa tratar aqui.

Vou utilizar o provérbio anglo-saxónico big picture como metáfora-imagem. O esquema é simples: ver a big picture é ter a noção completa de um saber (por ex.: Alberto E. no processo da formulação da teoria da relatividade, estava a ver algo mais – nesse quadro (painting) – que os restantes físicos que o desacreditavam na altura.). Então, um grande quadro traduzido num conhecimento amplo, não reduzindo todo o conhecimento num só quadro; vários quadros para vários conhecimentos (ou áreas de conhecimento, como preferirem). Ou seja, disponho em mim, ou dando continuação à metáfora-imagem, diante de mim um quadro (que equivale a um conhecimento, um qualquer), mas só consigo ver uma parcela (ou fragmento, termo mais adequado para entender a arqueologia que tento mostrar aqui).

Vou passar da metáfora-imagem para um exemplo mais visual. O que se consegue ver desta parcela pertencente a um quadro, que neste caso, pertence a um conhecimento?:

Untitled-1
Esta parcela é o que consigo ver, e o que consigo pensar sobre certo assunto. Como se esse quadro/conhecimento tivesse dividido em linhas quadriculadas, e eu só conseguisse ver um quadrado (que é o que acontece com esta imagem em questão). Eu sei que é um quadro, mas não consigo tirar partido dele. Tal como sei que é um conhecimento (vago, Matemática, por exemplo), mas não sei o que tenho diante de mim. Só por esta imagem, não consigo perceber. Eu posso ver os olhos de uma pessoa, podem até ser os olhos mais belos que já vi, mas nada me garante que o resto da face e corpo correspondem-lhes. Aqui é onde entra a parte da ilusão e da não-satisfação com o que se vê/pensa.

Parti de um provérbio, que como Z. disse «é uma forma de sabedoria», e eis aqui a big picture que foi tratada neste texto:

guernica_blog

A Guernica (1937) de Paulo P.; o quadrado em branco é a parcela acima referenciada.

Se todos pensamos desta forma? Se assim fosse, eu não teria escrito o que acabei de escrever.



[1] Pois foi graças (termo apropriado para aqui) a isso, à serpente (que corresponde a Satanás, segundo os estudiosos da Bíblia), e ao erro de Eva, que o Mundo ficou povoado de pessoas.

[2] Numa definição básica e breve, o liquido do vinho é obtido, ou deveria ser, pelo sumo da uva, e é na fermentação – tal como o nome indica – que se dá a transformação de uma substância (uva e os seus componentes para lhes dar um aroma distinto de vinho para vinho) em outra (vinho).

Maio 4, 2009

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fonte: http://www.morenewmath.com/

Dezembro 4, 2008

[…] eu sou aquela que já não quero compreender,
porque compreender é já aceitar,
sim, eu vinha para compreender,
e compreendi que compreender era trair.

João-Pedro S. (1997)

Sobre Parasitas

Novembro 23, 2008

 

Sigo Antonino A., Jorge B. e todos aqueles que compreenderam que há aí um silêncio fátuo, dos órgãos, como discerniu Miguel S., naquele estado de completude característico do para-si. Essa para-situde do realizado é o olhar do guerreiro sobre o campo de batalha depois da carnificina. O repertório constituído por pedaços de corpos, por mercenários moribundos, pelos cheiros da Força que se misturam com os da terra revolvida e da chuva redentora e pacificadora. Depois da porneia, a melancolia. Os gestos, coreografia da ascese; o sangue, esguichado depois de cada incisão laminar, unguento balsâmico; o hematoma do corpo-a-corpo, indicador da coordenada a activar;

SABEMOS QUE ÉRAMOS NÓS QUEM FALAVA.

A dialéctica ascendente assumiu a forma de uma cebola. Cada camada que caía na terra, cada despojamento para-sitário in situ, uma epifagia. Qual a relação entre o silenciamento e o descascar?

O corpo da ténia, segmentado. Barata/rizoma que, decapitada, permanece. Presa, agarrada às paredes intestinais, como vaga sem epicentro.

Na espuma do ontem, a mística da performance do para-si concretiza as materialidades da maior das intimidades. Na hipóstase da epigonia o paradoxo rege-se pela actualidade da actualização. Pela activação dos pontos. Pela ontologia da experiência total. Qual é o terceiro excluído do religare? É toda a materialidade do aparato suscitado; todo o revestimento/pele desse corpo desligado que foi agregado; é a topografia do estado anterior e a localidade da remissão inalcançável; é a memória da não coincidência na suavidade do presente; um exosqueleto estaladiço, como uma folha outonal, que o novo ente tenta a todo o custo pisar e enterrar, tarefa frustrada pela omnipresença da voz do passado.

NUNCA FOMOS NÓS QUEM FALOU.

Reactivos, intérpretes de uma agência alheia, perseguidores de uma emancipação artificial, de uma superação hiporeal, somos conscientes enquanto nos colonizamos como afectação. Como hospedeiros, terra fértil, atraímos a Vida com a nossa abertura. Nunca desenhamos verdadeiramente a totalidade morfológica. Uma fenda aqui, um rebento ali, uma poça de água fétida. Arquipélagos eventuais que nos demonstram a eventualidade da consciência. Do princípio básico de não ligação. Do princípio básico da constituição da ligação através do EU. O Eu como metáfora ocular da visão sobre si mesma, da impossibilidade da auto-consciência não mediada por uma qualquer corporeidade / alquímica areia ainda bafejada pelo rebentamento das marés.

COMO UMA JANGADA, FUNDO-ME NA ONDULAÇÃO.

COMO JEFF B., DECIDO MERGULHAR.

Faz muitos anos que foi descoberta uma epidemia por Frederich N. a qual ataca fundamentalmente um dos constituintes da mente freudiana: O superego. Curiosamente, este ultimo foi descoberto por Sigmund, depois de se aperceber onde este vírus mais males causava. Ou seja, primeiro descobriu-se o vírus da Moral, e só depois se percebeu bem onde este obtém os seus resultados parasitários.
Este vírus que se tem alastrado pelo mundo fora e que mina o superego, fortalecendo-o do ponto de vista da conduta, tem vindo a tornar-se uma pândemia.
A moral, vírus mortal, ataca o homem e a mulher, condicionando as suas pulsões vitais, de tal forma que a acção e o pensamento do homem ficam dominados por uma cegueira de pobreza intelectual gigante, ao qual cedemos como se fosse a voz da razão ou a voz da verdadeira vontade. Torna-se uma voz interior, que a muitos comanda, e que a quem já esta infectado muito difícil lhe é desobedecer.  A moral mata o dionisíaco em nós. Mata o festivo. Primeiro corrói-o, e a pouco e pouco vai-lo apagando até que o extingue. E problema é que este vírus é contagioso… mentalmente e culturalmente contagioso. Ele, e quem está do lado dele  (a industria tanató-bio-tanaticá, ou seja a industria que nos faz morrer enquanto vivos, para podermos viver a vida depois da morte) é quem mais zela pela sua propagação. A Moral pega-se, recorrendo as técnicas persuasivas do nosso querido Aristóteles… fundamentalmente usa-se um pouco de “phatos” , misturado um pouco “logos” falseado e vírus nasce. A aparente racionalidade da fundamentação arquétipa da Moral é difícil de desmontar, sobretudo, porque é confusa, mal estruturada. A sua longevidade é garantida pelo fraco espírito critico daqueles a quem afecta, é por ai que a Moral, vírus mortal mais ataca: nos fracos, para que se mantenha por mais tempo e no maior numero de pessoas possíveis. A industria farmó-bio-tanática produz então a Moral (um fármaco parasita metafísico), para que esta acabe com a vida e o prazer que nela se pode ter. É depois vendido e oferecido em rituais celebrativos da morte da vida e apelativos da vida na morte, ou até mesmo na programação inútil daquela caixa que está ligada à electricidade e a uma antena da qual recebe uma sequencia de imagens que formam narrativas que deformam (ou formatam) o intelecto na estupidez. Este vírus, dos piores da nossa (e de qualquer outra) época, propaga-se sem pudor e afecta tanta gente que não é possível contabiliza-la. Ela fundamentalmente acaba por destruir a “vontade” que nos constitui: a vontade de viver, e que nos foi representada pelo nosso grande amigo Arthur S..
Deixo então o apelo: Tenham cuidado com esta doença! Não se deixem afectar por ela! A cura é difícil, não impossível. Mas é muito chato sofrer disto, porque morre-se, continuando a viver. Extingue-se a vontade em nós, mata-se o bom da nossa vida, pensando no futuro que não existe. Prescindimos do presente por um, não futuro, mas tempo não existente. A cura existe, e é até aconselhada como vacinação: a leitura, frequente, de eloquentes autores: Ovidio; Arthur S.; Marques de S.; Plotino; Sacher M.; Benjamin P.; Adolfo L. C.; entre outros.
Salvem-se! da vida depois da morte! Pelo que parece lá não há sexo nem vinho! Que morte é essa a vida eterna?
PS: Evitar comunicar com beatas e cónegos. (exceptuando comunicação de carácter sexual).

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