
José Carlos de Araújo Marinho nasceu no Porto, a 1 de fevereiro de 1904 e morreu em Lisboa, a 5 de agosto de 1975. Filósofo português, considerado um dos grandes pensadores de Portugal.
Matriculou-se em Filologia Românica na primeira Faculdade de Letras portuense, ao mesmo tempo que frequentou, na mesma instituição, algumas cadeiras do curso de Filosofia. Aí contactou com Leonardo Coimbra, que o orienta definitivamente para a Filosofia, e do qual se torna discípulo. Durante o tempo em que estudou e permaneceu na Cidade Invicta, participou nas tertúlias que se faziam nos cafés do Porto, em torno de Leonardo Coimbra, Hernâni Cidade, Teixeira Rêgo e Luís Cardim, partilhando o ideário da chamada “Renascença Portuguesa”.
Terminada a Licenciatura em Filologia Românica em 1925, com a tese “Ensaio sobre Teixeira de Pascoaes”, tornou-se professor de liceu nas disciplinas de Português, Francês e Filosofia, primeiro no Porto, depois em Faro e finalmente em Viseu. Em 1928, quando foi anunciada a extinção da primeira Faculdade de Letras do Porto, foi para Coimbra, onde frequentou a Escola Normal Superior, a fim de se tornar efetivo nos quadros dos professores de liceu.
No ano de 1930, a 30 julho, após ter realizado o estágio pedagógico no Liceu Pedro Nunes em Lisboa, José Marinho foi aprovado no Exame de Estado com a tese “Teoria e Metodologia do ensino do Português e do Francês”, obtendo a classificação de 19 valores. Em 1932 terminou “Aforismos sobre o Que Mais Importa”, que havia começado no ano de 1924, e deu início a uma obra sobre Leonardo Coimbra.
Ao homem que considera o mistério da vida isso não será inútil se não fica no pávido sentimento de que não compreende, mas se do pressentimento da verdade oculta passa ao esforço por a desvendar e conceber e se da intuição dum ser possível passa ao esforço por o ser (…)
Aforismos sobre o Que Mais Importa
Em 1936 foi afastado do ensino por questões de ordem política. É preso por algum tempo na prisão do Aljube e proibido de lecionar nas escolas oficiais. Em 1940 passou a viver em Lisboa, trabalhando como tradutor e colaborando em jornais e revistas, ao mesmo tempo que dá lições particulares a estudantes de liceu. Nesta altura conclui a obra sobre Leonardo Coimbra que apenas publicará em 1945 sob o título “O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra”.
Foi, com Álvaro Ribeiro, um dos criadores do grupo da Filosofia Portuguesa que, em Lisboa, se reuniu a partir dos anos 40. O grupo era constituído pelos dois mestres e ainda por António Quadros, António Telmo, Pinharanda Gomes, Afonso Botelho, Orlando Vitorino, António Braz Teixeira e Dalila Pereira da Costa, entre outros.
“José Marinho situa-se entre os discípulos de Leonardo Coimbra, empenhado no movimento de reabilitação da «filosofia portuguesa» numa linha profundamente crítica do racionalismo moderno bem como da nossa tradição escolástica e posteriormente positivista. Neste plano de consideração, a sua preocupação marcante foi a de encontrar um espaço para a singularidade da nossa cultura filosófica sem negar a aspiração universal e universalizante da filosofia. Para Marinho, a humanidade pensa-se necessariamente em cada um dos humanos e daí a noção de uma universalidade singular e concreta, à luz da qual se tornaria possível equacionar o problema de uma filosofia nacional. Não havendo pensar radicado senão no homem situado, Marinho parte da constatação, na sua análise do pensamento português contemporâneo, de que, entre nós como na restante Europa, a razão se cinde quase sempre em formas contrapolares: uma razão «conceptual» ou ainda só «conceptiva», «que busca a compreensão e a possível harmonia dos diversos»; e uma «razão judiciosa», que encarnaria a grave responsabilidade de excluir como erróneo ou falso «o que ainda não é verdadeiro».
Esta separação conduziria ao distrofismo do pensamento português e daí não só a controvérsia que manteve com António Sérgio, mas sobretudo o elogio de Sampaio Bruno e de Leonardo Coimbra, por a seu ver se manterem fiéis ao que no pensar tende a superar aquela trágica dicotomia.”
Entre 1947 e 1954 escreve, por sugestão de Hernâni Cidade, “Nova Interpretação do Sebastianismo”. No ano de 1961 publica uma das suas maiores obras, sob o título “Teoria do Ser e da Verdade”, procurando evidenciar os pressupostos ontológicos da Filosofia enquanto processo de libertação espiritual. Em 1963 foi convidado por Delfim Santos para integrar o Centro de Investigação Pedagógica da Fundação Calouste Gulbenkian, onde permaneceu até à sua morte.

“A história, esse romance do passado, é, todavia, necessária àqueles cujo espírito se não libertou para a busca direta da verdade. O animado do sério amor da verdade já só à verdade procura; a verdade para esse não se encontra nos escritos, palavras ou acções dos passados, contemporâneos ou vindouros. A verdade encontra-a quem verdadeiramente a procura, não quem a procura indiretamente através das obras de qualquer espécie dos que outrora a procuraram“
Escreveu:
- Aforismos sobre o que mais importa (1932)
- Significado e valor da metafísica
- Nova interpretação do sebastianismo (1954)
- Teoria do ser e da verdade (1961)
- O pensamento filosófico de Leonardo Coimbra (1945)
- Ensaio sobre Sampaio Bruno
- Elementos para uma antropologia situada (1964)
- Filosofia, ensino ou iniciação (1972)
- Verdade, condição e destino no pensamento português contemporâneo (póstumo, 1976)














