tempo chuvoso…tempo de filmes!

São várias as estratégias possíveis para contornar tantos dias cinzentos, chuvosos e nada apelativos a passeios ao ar livre como os que temos tido neste outono/inverno. Se o ficar no aconchego do lar é algo que sabe muito bem, ir ao cinema, por exemplo, também se revela uma excelente opção.

Aparecendo em cartaz muitas películas que me despertavam interesse, visualizei oito filmes no último mês. Um verdadeiro record que atingi aos 67 anos! E fiz algo que não acontecia desde a minha juventude: ir a duas sessões num mesmo dia!

Sozinha ou acompanhada, é sempre um momento que me agrada imenso. Vejo alguns filmes na televisão, mas nunca com a motivação sentida perante um grande écran para os apreciar devidamente.

Um leque de filmes distintos como os oito que nomeio abaixo geram obviamente emoções/reacções diferentes. Contudo, gostei de todos, ficando apenas um ligeiramente abaixo da média. Mas não digo qual foi, isso não é importante.  

Esses filmes foram os seguintes:

ONDE ATERRAR, de Hal Hartley

Acompanha as decisões de um realizador que se reforma e resolve procurar emprego num cemitério, resolução que a par de outras atitudes gera inquietação entre familiares e amigos. E leva a muitas reflexões sobre a morte e o luto, apresentadas com humor e muita inteligência.

JOVENS MÂES, de Luc e Jean-Pierre Dardenne

A história de cinco adolescentes que enfrentam gravidezes/filhos não planeados, oriundas de família pouco estruturadas e que se encontram numa casa de acolhimento. Com personalidades e percursos diferentes, vão tomando opções diferenciadas na busca de soluções e de equilíbrio.

O PROFESSOR DE INGLÊS, de Peter Cattaneo

Baseado num livro de Tom Michell em que este relata a sua experiência pessoal, conta a história de um professor que encontra um pinguim numa praia do Uruguai, que o leva para o colégio interno onde leciona inglês e como a presença do animal vai interferir na relação de todos e na dinâmica da escola.

LAGUNA, de Sharunas Bartas

Um filme de memórias, onde o próprio realizador e a filha mais nova revisitam um dos lugares onde a filha/irmã mais velha viveu antes de falecer em 2021. É uma viagem através de uma natureza em estado bruto e de grande beleza, mas principalmente uma viagem ao íntimo, à dor e ao luto que a situação exige e que tentam ultrapassar.

PAI MÃE IRMÃ IRMÃO, de Jim Jarmusch

Na diversidade que somos, três histórias centradas em relações familiares e onde todo o tipo de atitudes se encontram, seja a disfuncionalidade, a falsidade ou a cumplicidade. A palavra ”família” pode ser realmente imensa e ter muitas vertentes.

MIROIRS NO.3, de Christian Petzold

A história de um instante que gera um encontro e como o afecto pode ser o ponto de partida para ultrapassar um trauma familiar e levar a uma nova forma de encarar o futuro.

FAMÍLIA DE ALUGUER, de Hikari

Um filme passado em Tóquio – uma sociedade que encontrou métodos sui generis de responder aos problemas existenciais/solidão dos seus habitantes – e onde se conta a história de um actor ocidental que com a sua sensibilidade e emoções genuínas altera a forma como olha para si próprio e consegue transmitir uma nova perspectiva aos outros.

SONG SUNG BLUE, de Craig Brewer

Baseado numa história verídica, é um filme que nos mostra como a música, a família e especialmente o grande amor entre um homem e uma mulher têm força e podem ser resilientes para ultrapassar os imprevistos/tragédias que a vida sempre oferece. Tudo isto envolto nas belíssimas músicas de Neil Diamond que marcaram a minha geração.

A maioria está ainda em cartaz, pelo que aconselho todos. Isso pode parecer-vos estranho mas, não sendo crítica nem especialista em cinema, sou apenas uma apreciadora que gosta de ver filmes que, de uma forma ou de outra, a põem a pensar, questionam e geram emoções. E todos eles me proporcionaram isso.

Com chuva ou com sol…e com filmes ou sem eles… desejo a todos um excelente fim-de-semana!🤗

a amendoeira

Gosto de apreciar a passagem do tempo nas dinâmicas da natureza e nos ciclos a ela associados. Esse tempo reflecte-se em tudo e materializa-se também no nosso olhar, seja nas imagens que o espelho nos devolve…seja nos netos que vemos crescer a uma velocidade estonteante…seja nos filhos que já não crescem mas continuam tranquilamente a amadurecer.

Neste viver, há quase três décadas que espalho o meu olhar por um baldio vedado que existe perto de minha casa e onde as estações do ano se manifestam naturalmente. Quando para aqui viemos era uma delícia ver coelhos a saltitar naquele espaço, algo que deixou de acontecer talvez pelo aumento do tráfego na estrada que passa perto…ou apenas porque muito muda em quase trinta anos.

Nesse baldio existem alguns arbustos, pedras de dimensão variada e existe uma amendoeira solitária. Nunca a vi ao pé, mas conheço bem essas árvores pois no Algarve onde cresci são comuns e faziam parte da paisagem.

Em Novembro de 2024 decidi começar a fotografá-la e acompanhar o seu ciclo anual. A reportagem não é sistemática, ou seja, não aconteceu nem todos os meses nem foi à mesma hora do dia, o que seria igualmente interessante para acompanhar as alteraçõesa da sua sombra. Fotografei-a quando me lembrava ou se reparava que já estava diferente.

Se a foto acima refere o seu estado em meados de Novembro, em pleno outono mas aparentemente com pequenos rebentos a surgirem, nas duas fotos abaixo captadas respectivamente em Janeiro e Fevereiro de 2025, na primeira o seu tronco está bem rodeado de flores amarelas (provavelmente erva-azeda), e na segunda já apresenta muitas flores nos seus ramos. De uma forma geral as amendoeiras atingem o auge da floração na altura do Carnaval, entre Fevereiro e Março.

Foi exactamente isso que aconteceu, como se pode ver a seguir. Captada no final de Fevereiro estava linda com as suas flores branco-rosado. Beleza muito efêmera, já que as chuvas intensas que caíram nessa altura do ano ajudaram à queda rápida da maioria dessas flores e ao aparecimento de muitas novas folhas como revela a segunda foto obtida em meados de Março.

Entretanto chegou a primavera e no final de Março a folhagem já era bem visivel, manto que se adensou e estava bem compacto em meados de Maio. Nessa altura as flores silvestres que a rodeavam eram diferentes, cheias de energia e em tons de lilás. Talvez fosse soagem…ou borragem…espécies comuns nesta época do ano e que produzem flores com esse tom. Ou outra qualquer, não sei.

Em Junho, o aspecto da amendoeira não sofreu grande alteração, mas o mato que a envolvia era bem diferente. Já com grandes zonas secas, o baldio foi alvo da única visita que recebe anualmente. Provavelmente por ordem dos proprietários e cumprindo, julgo eu, a legislação que obriga a preparar os terrenos de forma a prevenir incêndios, vários homens com roçadeiras deixaram-no rapado e sem cor.

No final de Julho pedi ao meu companheiro para, com a sua lente de maior alcançe, tentar detectar/fotografar se a amendoeira tinha frutos, algo que não era minimamente visivel. Encontramos apenas três ou quatro frutos, o que é curioso porque floriu bastante.

Fui investigar e percebi que nesta espécie a auto-fecundação é rara, pois existe uma incompatibilidade genética com o seu próprio polén ou com árvores da mesma variedade. Necessita de reprodução cruzada por agentes polinizadores (vento e principalmente abelhas) com polén de árvores de outra variedade, aspecto que é sempre levado em conta em áreas de cultivo. Estando ela isolada e sem companhia, a polinização não acontece e os frutos não aparecem.

Sem grandes alterações nos meses de agosto e setembro, começou a perder a folhagem no final do verão e em novembro, precisamente um ano depois da foto que inicia este post voltei a fotografá-la.

Talvez pela muita chuva que tem caído neste outono na generalidade do país, a amendoeira estava nitidamente mais verde que em novembro de 2024.

A natureza não é realmente uma máquina nem se rege pelas datas do calendário. Tem especificidades que dependem essencialmente da metereologia, seja da humidade/chuva que alimenta os solos seja das horas de sol efectivo/directo que os dias lhe vão proporcionando.

Ali, ano após ano, não há interferência de terceiros, não há adubos nem podas. A amendoeira está por conta própria e reflecte as dinâmicas dos elementos de que depende: terra, ar, água e luz do sol.

O meu olhar e atenção não têm qualquer importância na sua vida e muito menos no seu futuro. Provavelmente continuará ali mais tempo do que eu estarei neste respirar, uma vez que se encontra num dos corredores de acesso/segurança ao helioporto de um hospital. Porém, olho para ela com o mesmo carinho que partilho com as muitas plantas que tenho em casa. A única diferença é que não lhe posso tocar.

de novo #5

Talvez não tenha muito sentido começar um Novo Ano com um post da série “de novo” e com um regresso ao passado através da partilha de um poema escrito e publicado no final 2017. Oito anos depois e apesar do turbulento estado do mundo neste início de 2026, ainda o sinto vivo e actual porque revela esperança, luz, atenção e foca-se no acreditar.

E eu não consigo, não quero e não posso deixar de acreditar. É verdade que estou mais céptica do que naquela época, mas continuo ciente que cada um de nós pode ser um pequeno “farol” no restrito circulo em que nos movimentamos. Com mais atenção poderemos ser melhores pessoas. E assim, raio a raio, vamos construíndo “luz” e melhores energias para este tão necessitado mundo.

É com esse sentir que neste primeiro post de 2026 desejo tudo de bom para cada um dos meus leitores e, especialmente, doses extra de equilibrio e de bom senso para a sociedade/mundo em que vivemos.

Poema do novo tempo

Quero um poema
puro
simples
e humano,
para receber o Novo Ano.

Quero-o límpido
diáfano
de luz,
doce de sentir
e fácil de espalhar
com o meu
o teu
e o nosso olhar.

E com ele sermos faróis
fontes de luz
e de paz,
capazes de iluminar
as névoas que sempre
pairam
neste imenso habitar.

Não,
não é utopia,
apenas um desejo
semente
a receber um novo tempo,
para cultivar com amor
regar
e cuidar em cada dia!

Dulce Delgado, Dezembro 2017

pausa

É muito provavel que hoje – dia em que o outono deu lugar ao inverno no hemisfério norte – as folhas da imagem acima já não existam, deixando a árvore-mãe despida e revelando toda a sua beleza estrutural. Vestida de inverno iniciará um ciclo de repouso e de poupança de energia até à próxima primavera, altura em que voltará a explodir em rebentos e folhagem.

Para a aparente fragilidade destas pequenas folhas foi um ciclo que terminou. Muitas terão voado e caído no rio que corre por perto…. e outras caído naturalmente no solo, alimentando-o e contribuindo para a sua renovação. Se nesta árvore-mãe os ciclos são anuais, para cada folha-filha o ciclo é um pouco mais curto e dura aproximadamente nove meses. Isto significa que em árvores de folha caduca a folhagem não sabe realmente o que é o inverno já que a natureza tirou-lhes essa experiência para que a árvore possa ter uma pausa e revigorar-se. Neste campo, talvez as árvores de folha perene sejam mais justas para com as suas folhas…

Pela ordem natural da vida estarei igualmente no outono/inverno do meu ciclo. Não perco folhas como as árvores…mas tento não perder detalhes do pequeno mundo que me rodeia. Por isso, neste meu discreto lugar farei igualmente uma pausa de início de inverno. Serão duas semanas fora da blogosfera e deste écran, o que implica uma maior disponibilidade para me organizar, algo que sempre gosto de fazer no final de cada ano e início de outro. Além disso, quero estar mais presente no dia-a-dia desta época especial do ano.

Desejo a todos um Feliz Natal e que 2026 traga justiça, sabedoria, generosidade e especialmente bom senso a todos os que, sem qualquer sensibilidade, tentam controlar meia humanidade.

Até Janeiro e tudo de bom para todos!🤗

de novo #4

desenho/sketch

Na infância, professores e pais “presentearam-nos”com uma ideia que nos programou para a vida: tu tens jeito para o desenho ou tu não tens jeito para o desenho. Na prática, fomos “etiquetados” e, inconscientemente, integramos esse carimbo como um dado adquirido. Porém, e erradamente, ele parte da premissa que existe uma fronteira entre o ter e o não ter jeito, sem considerar que o acto de desenhar é uma progressão, um caminho a percorrer e um percurso semelhante ao da nossa vida, com avanços, recuos, dificuldades e vitórias.

Desenhar é orientar a nossa energia para um determinado objectivo. É aprender a ler com as mãos e com o olhar. Este processo assemelha-se muito ao de aprender a ler e a escrever, mas em vez de letras, constroem-se formas.

Uns têm o olhar mais educado, pelo que chegam lá mais depressa, já que a mão, mais tarde ou mais cedo vai fazer o que o olhar lhe diz; outros têm que educar o olhar, mas também a mão. É uma questão de tempo, de treino e, principalmente, de não desistir. Aceitando estes princípios, basta tentar e todos poderão lá chegar.

Neste momento, alguém vai estar a pensar: “tretas, eu sei que não tenho jeito para o desenho!” E eu acrescento: não, o que acontece é que nunca te deste ao trabalho de perceber o que tens dentro de ti! Encaixaste o que te disseram e nunca quiseste provar a ti próprio o contrário. Nunca te interessou perceber o processo, mesmo que possas ser uma daquelas pessoas que dizem a si próprios “gostava tanto de saber desenhar!”

Foi seguindo esta linha de pensamento, na qual acredito totalmente, que construí este post. Para tal vou recorrer ao que sinto e tenho aprendido com os anos, mas também ao que um autor com experiência neste campo, Danny Gregory, transmite no seu interessante livro The creative license – giving yourself permission to be the artist you truly are, que tem a capacidade de nos entusiasmar e que nos dá ferramentas para partir à descoberta das nossas capacidades criativas.

Seguem-se algumas ideias fundamentais para quem se quer descobrir neste campo:

– não há desenhos maus;

– desenhos são experiências;

– quanto mais desenhas, mais experiência terás;

– aprenderás mais com as experiências más e imprevisíveis, do que com as outras que saíram bem e tal como planeaste;

– liberta o teu ego da ideia de perfeição (talvez o mais difícil!)

– arrisca-te;

– desenha tanto quanto puderes e sempre que puderes;

– utiliza todos os papeis ou outros suportes que tiveres à mão. Se utilizares um caderno, não arranques as folhas, pois o que lá fizeste, mesmo que aches muito mau, pode ser-te útil;

– usa uma caneta e não um lápis, para não apagares nenhuma das tuas linhas. São essas que te vão ensinar a fazer melhor e a aprender;

– se te apetecer, põe algum detalhe nos teus desenhos, mas não o completes. O resto é com a imaginação;

– desenha também coisas difíceis, daquelas que pensas logo que não vais conseguir. Um dia serás capaz de as fazer;

– utiliza a caneta e os dedos para facilitar as proporções e os ângulos;

– não falhes à medida que continuas. Desenha qualquer coisa todos os dias, não interessa se o desenho é pequeno ou grande;

– bastam poucos minutos para fazeres qualquer coisa! Funciona como a ida diária ao ginásio, só que aqui exercitas outras estruturas;

– na tua casa tens centenas de objectos que podes desenhar e para os quais nunca olhaste devidamente;

– se quiseres, guarda os teus desenhos, para depois comparares e veres como a evolução é evidente; mostra-os aos outros e aceita qualquer critica com um sorriso!

– com o tempo começarás a desenhar com o olhar; e mesmo sem caneta, vais estar atento às formas;

E para terminar:

Não “olhes” para o futuro, nem cries expectativas. Vai simplesmente em frente!

Publicado originalmente em 19 de Maio 2016 – Desenhos de Dulce Delgado, Abril 2009

árvore portuguesa 2026

Volto a partilhar convosco, especialmente com os apreciadores de árvores, a votação para a eleição da Árvore do Ano 2026 – Portugal. Mais do que o aspecto visual das espécies, é importante conhecer um pouco das suas histórias antes de votar.

Podem escolher dois exemplares até ao dia 7 de Janeiro. No final o vencedor irá representar Portugal na eleição da Árvore Europeia do Ano 2026. Neste link podem ler alguns dados adicionais sobre este concurso.

Participar anualmente neste evento é também uma boa forma de conhecer algumas das árvores mais emblemáticas nascidas em solo portugês.

Boa votação!🌳

palavras

Não sou de muitas palavras
ditas,
prefiro-as escritas
no silêncio da folha de papel.

Brotam num recanto da mente
atravessam o coração
e avançam,
ora seguras ora incrédulas
por este lugar que sou.

Saem
e pousam na folha.

Aí,
terão futuro
ou talvez não,
serão luz
ou escuridão,
mas serão
sempre,
palavras de mim.

Faladas,
sinto-as surdas
e frágeis
no ruído dos dias.

Dulce Delgado – Julho 2025

Bom fim-de-semana!🤗

intenso dezembro

Entre Novembro e Fevereiro tenho o privilégio de poder assistir ao momento do pôr-do-sol a partir de minha casa. Se o seu nascer faz parte dos meus dias durante todo o ano, o acompanhar o seu desaparecimento no horizonte é uma dádiva do outono/inverno.

Na segunda-feira – primeiro dia deste ultimo mês do ano – o momento que antecedeu o ocaso estava intenso, impactante e com grandes massas nebulosas espreitando no horizonte, nuvens que em poucas horas tudo cobriram e se transformaram em chuva. Senti que o céu reflectia um pouco da confusão a que sempre associo o mês de Dezembro. Por um lado, era a aproximação desse “batalhão” de nuvens extremamente densas e por outro, os muitos rastos de condensação deixados pelos aviões em várias direcções/sentidos. A foto acima não mostra todos esses riscos, mas em conjunto contribuíam bem para o “desassossego” visual que se sentia.

Ao fazer um pouco mais de zoom na máquina fotográfica, descobri uma gaivota que voava tranquilamente e pensei: nós, humanos, somos mesmo complicados! Pensamos demais, conjecturamos ainda mais e racionalizamos facilmente as sensações. Para ela está certamente um tranquilo e maravilhoso final de dia! Apenas isso.

Momentos depois o sol escondeu-se atrás de rolos de nuvens e não mais apareceu. Deixei a janela… e voltei para o “meu” irrequieto, intenso e cansativo mês de Dezembro e pensei: será esta sensação apenas minha?

Um bom mês de Dezembro para todos!🤗