
Acordei atordoada, enquanto alguém me balançava apressado. Não consegui ver seu rosto, mas sabia que era uma mulher. Ela correu para longe, se juntando a uma multidão que estava mais à frente. Me senti confusa, não conseguia ver onde eu estava. Como acabei naquele lugar? Dormindo no chão? Eu estava deitada em uma rua de paralelepípedo, como nas cidades antigas. A rua tinha muita poeira assim como toda a cidade, quase como se fossem vizinhos de um deserto. O sol estava a pino, me cegando, aumentando a sensação de calor abafado que senti logo depois que acordei. Onde eu estava?
Ainda sentada no chão, observei os prédios ao meu redor. As calçadas eram curtas, castigadas pelo tempo. Dava para ver muitas partes quebradas e com grandes buracos. As paredes dos prédios também pareciam velhas. Não era possível distinguir a cor exata da pintura em meio a tanta poeira, mas eu conseguia enxergar imensas rachaduras em suas estruturas. Minha audição estava prejudicada, mas aos poucos ela foi retornando e então pude me dar conta do caos. Tive que me levantar depressa, pois outra multidão veio correndo da esquina mais próxima que estava atrás de mim. O semblante de seus rostos era de puro desespero e somente alguns ousavam olhar para trás. Corriam por suas vidas, corriam como se não houvesse mais nada para fazer. Vi quando algumas mulheres se esconderam em becos, protegendo algumas crianças. Apesar da correria, não consegui ver o que os perseguia, mas o medo deles era tão intenso que me contagiou, fazendo com que eu começasse a correr também. Corri até a esquina que estava a minha frente, que grande parte das pessoas ignorava e seguindo pelo caminho a frente. Olhei mais uma vez ao redor. Onde eu estava?
Comecei a prestar mais atenção nos detalhes. Todas as casas menores pareciam antigas, construções barrocas, arcaicas, como se eu estivesse em outro século. As roupas das pessoas também eram diferentes. Alguns pareciam vestir algo próximo do algodão ou linho, gastos pelo uso e completamente sujos pela poeira local. Os homens nitidamente vestiam calças costuradas a mão, enquanto as mulheres usavam vestidos artesanais. As mais velhas usavam panos em volta da cabeça, como um lenço. As crianças também vestiam roupas semelhantes, mas algumas meninas também usavam calças. Me senti em um filme antigo, em um livro, mas aquilo era real. Tudo era real. Continuei caminhando, observando tudo, porém ninguém parecia notar a minha presença, tamanho desespero que eles sentiam. Meu passeio foi interrompido por um tremor. As rachaduras dos prédios mais altos aumentaram e muitas pessoas tentavam se esconder, correndo de um lado para o outro sem direção certa. Terremoto? Será que era disso que eles fugiam? O tremor durou pouco, mas as pessoas continuavam deixando suas casas. O quarteirão era grande, mas era possível ver a outra esquina mais à frente. Tentei interagir com algumas pessoas. Perguntar que lugar era aquele afinal, mas ninguém me dava ouvidos, apenas me olhavam com pânico e se afastavam. Me senti uma verdadeira aberração.
Então, houve mais um tremor. Procurei abrigo, mas não conseguia encontrar até sentir alguém me puxando pelo braço para debaixo de uma tenda. Lá estava uma moça de cabelos ruivos junto com um rapaz negro e alto. Ninguém disse uma só palavra até que o tremor parasse. Depois, quando as pessoas voltaram a sair e a correr, pude finalmente conversar com alguém. A moça se apresentou como Olívia e o rapaz se chamava Daniel. Eu tentei questioná-los, porém eles que começaram as perguntas:
– Quem é você? O que está fazendo aqui? – Perguntou a moça ofegante.
Lhes respondi meu nome, e lhes disse que estava procurando o caminho para casa.
– Você lembra como chegou aqui? – Perguntou o rapaz com um tom esperançoso.
Eu não sabia, e só pude perguntar a eles o que era ali, pois eu não sabia como havia chego naquele lugar e muito menos como sair.
– Mais uma condenada… – Respondeu a moça enquanto mexia em alguns tecidos no fundo da tenda.
– Ninguém sabe como veio parar aqui moça, ninguém. Estamos aqui a pelo menos 5 anos, desde que eu me lembro. Vivíamos bem, construindo uma vida neste novo lugar apesar de tudo, mas agora acabou. É o fim. – Explicou o rapaz enquanto olhava para fora.
O fim? O terremoto seria o fim? Eu não conseguia entender. Minha cabeça começava a doer e o desespero de todos começava a me contaminar intimamente. Meu coração disparou. Não conseguia respirar direito. Queria ir embora, queria sumir daquele lugar. Se era um pesadelo, eu queria muito acordar. Não era um sonho. Não era uma ilusão. Tudo ali era muito real, principalmente a poeira que agora incomodava minhas vias e me fazia tossir sem parar. A moça me ajudou com um pouco de água levemente amarelada em uma caneca de alumínio, tirada de um filtro de barro. Ela me deu algumas roupas velhas iguais as dela e pediu para que eu vestisse. O rapaz saiu da tenda, mas voltou logo, nos apressando para fugir. Fugir de um terremoto?
– Não é um terremoto. É o fim. O fim! – Daniel começou a gritar, possivelmente deixando o desespero tomar conta de seu espírito. Desespero esse que também tomava conta de mim.
– Há uma fera, um monstro, uma besta, ou seja, lá como você queira chamar. – Começou a moça – Ele está comendo tudo o que acha pela frente. Não temos chance. Ele é tão grande que ao se mexer faz com que a terra trema. Ninguém sabe exatamente sua aparência pois, os que chegaram perto demais para saber, foram devorados, e os que conseguiram fugir descreveram somente um cheiro horrível de carne podre e uma sombra enorme quase como uma montanha, que parecia se aproximar lentamente, porém cada passo faz ele avançar quase um quilometro. – Explicou Olívia enquanto olhava para trás desesperada enquanto andávamos na rua.
Agora eu me sentia ainda mais confusa. O ar era pesado e meus pulmões não conseguiam dar conta. Eu ofegava e o medo tomava conta de mim completamente. Eu só pensava em correr. Após outro leve tremor, Olívia e Daniel começaram a correr gritando, chamando outras pessoas que estavam escondidas, mas eu podia jurar que eles estavam correndo em direção de onde a besta vinha, ou pelo menos contra a direção que as multidões surgiam. Balancei a cabeça, mas eu não conseguia pensar direito. Não havia tempo para pensar nas direções, a única coisa a se fazer era me juntar a eles que viraram a esquina a frente e depois mais uma, chegando na rua em que eu acordei inicialmente.
Parei de correr. Minhas pernas travaram e eu sentia meu corpo pesado. Nada mais fazia sentido. Olívia e Daniel juntaram uma multidão tão grande como as que passaram por mim, e enquanto todos fugiam, eu não conseguia. Meu olhar para aquela rua, a mesma rua onde e estava antes tinha apenas um foco. Uma moça deitada no chão, vestida de calça jeans e uma blusa verde. Ela estava debruçada sobre o próprio braço dormindo pacificamente. Alheia a todo aquele caos. Eu não conseguia acreditar. Eu não queria acreditar.
Uma nova força se refez em mim e então cheguei perto dela. Meu corpo inteiro foi tomado por um tremor em meio ao horror de olhar para o rosto daquela moça. Eu balançava seu corpo para acorda-la, mas ela estava com o sono pesado. Em meio ao tumulto da multidão ela começou a despertar. Abafei um grito de pavor com uma das mãos enquanto meu corpo era tomado por um tremor ainda maior de puro medo. Me levantei desastrada, com as pernas fracas, e me juntei a multidão. Eu podia sentir a sombra da criatura macabra atrás de mim, mas não era a morte eminente que me preocupava…. Não era a besta medonha que devorava cidades que me amedrontava… Não era aquela situação macabra que me dava arrepios. O que me aterrorizava, o que me perturbava de verdade naquele momento, enquanto eu corria sem direção, era saber que eu mesma me acordei no meio daquele caos. Era eu naquela rua dormindo. Era eu que havia me acordado. Era eu.
Estou correndo, sentindo o tremor da rua e o ar ficando cada vez mais pesado. A única coisa que eu sei é correr. O medo é o combustível, enquanto sinto meu corpo desfalecer aos poucos em agonia. Onde eu estou? Como vim parar aqui?
juhliana_lopes 11-01-2018






