Epílogo perfeito

Eu preciso de uma nova poesia
que encerre o ano e inicie o dia.
Busco um lugar, uma morada
para me reconectar àquela jornada.

Eis a palavra que suavemente emergiu
reverberando com doçura na manhã sutil.
Sob tal voz, poderosa e imponente
reverencio o reflexo transcendente.

Busco, sem descanso, um desfecho,
um verso, uma estrofe, qualquer trecho!
E a palavra nascente que enfim gritou
sem pedir licença, fez um lar assim que entrou…

Press Release de Dança Escarlate

Lançamento de “Dança Escarlate” convida o leitor a uma imersão poética e sombria nas profundezas da mente humana.


Um romance psicológico que mistura arte, filosofia e psicanálise em uma narrativa intensa
sobre trauma, memória e redenção.


Brasil, outubro de 2025 — A Editora Ipê das Letras lança Dança Escarlate, um
romance que promete cativar os leitores com uma trama visceral sobre o trauma, o
matricídio e a busca de sentido através da arte.
A obra conduz o leitor a uma viagem entre o real e o onírico, explorando o abismo
entre a sanidade e a loucura com uma escrita de rara sensibilidade e profundidade
psicológica.
A narrativa acompanha Diana, uma artista plástica internada em uma instituição
psiquiátrica após um evento traumático que culminou na morte de sua terapeuta —
que, em uma reviravolta devastadora, revela-se também sua mãe biológica.
Em meio a lacunas de memória e crises dissociativas, Diana trava uma luta interna
para reconstruir sua identidade e compreender os fragmentos de um passado
obscurecido pelo trauma. Guiada pelo enigmático terapeuta Cândido, ela revive
memórias, delírios e revelações através da arte — especialmente na pintura que dá
nome à obra, Dança Escarlate, criada com o próprio sangue de sua mãe.
Entre o real e o simbólico, a autora constrói uma narrativa poética e perturbadora,
na qual a arte se torna espelho da dor e instrumento de cura. Dança Escarlate é
uma jornada sobre culpa, amor, identidade e redenção — um mergulho intenso na
psique humana.
O livro já está disponível em pré-venda na plataforma online da Ipê das Letras,
pelo valor de R$ 63,00.
O lançamento oficial está marcado para o dia 24 de janeiro, às 11h, na Biblioteca Nelson Foot de Jundiaí.


Sinopse


O mundo de Diana, uma promissora artista plástica, é uma tela em branco. Após um
evento traumático que lhe roubou as memórias, ela encontra em Cândido, seu
terapeuta, a esperança de cura que a guiará por uma jornada intensa e, por vezes,
angustiante. Enquanto Cândido a ajuda a costurar os fragmentos de sua mente,
Diana encontra em Mabel, outra paciente da instituição, um caminho que a ciência
não pode oferecer. A amizade sincera que nasce entre as duas se torna o seu maior
refúgio, um laço de afeto que a puxa das profundezas do esquecimento. Mas o
passado não pode ser silenciado para sempre. Em meio a alucinações e lapsos de
memória, Diana se vê forçada a encarar verdades que sua mente havia reprimido.
Dança Escarlate é um mergulho profundo na psique humana. Uma história sobre a
brutalidade da memória e o poder redentor do amor. Uma dança delicada e perigosa
na tênue linha entre a sanidade e o abismo.


Sobre a autora


A autora apresenta em seu texto uma profunda sensibilidade poética e domínio
sobre o inconsciente humano. Sua escrita é marcada por uma linguagem literária
refinada, de forte carga simbólica e estética, revelando influências filosóficas e
psicanalíticas.
Na dedicatória, ela menciona o papel transformador da psicologia e do
autoconhecimento em seu processo criativo, agradecendo a pessoas que a
inspiraram — entre elas, seu psicólogo e figuras que a ajudaram a compreender a
coragem de “ser”.


SOBRE A IPÊ

A Ipê das Letras está na linha de frente das publicações de novos autores
brasileiros contemporâneos, transformando o cenário literário com uma abordagem
inovadora. Nossa missão é democratizar a literatura, oferecendo aos leitores uma
diversidade de obras em todos os gêneros e proporcionando oportunidades únicas
para novos autores talentosos. Acreditamos que a literatura é uma ferramenta de
inspiração e transformação, convidando todos a explorar novas ideias e emoções.
Juntos, buscamos romper barreiras literárias e criar experiências inesquecíveis.

Rede social da autora: https://www.instagram.com/fernanda_serpa_autora/


Informações para a imprensa: pr@ipedasletras.com

Recomeço em antonímia

Mãos espalmadas tocam a superfície
da insalubre água de imundície…
Cores furiosas despertam do abismo,
encharcadas de prosaísmo.

Lágrimas vertentes de agonia
admiram o belo lago em antonímia…
Mas o refletido corpo dali já se afasta,
admitindo que sua solidão se basta…

Pés esvoaçantes, antes relutantes,
trotam, etéreos e dançantes
para um destino sem endereço:
Mãos entrelaçadas buscam seu recomeço.

Crônica do quarto esquecido

Parte I – Clausura dourada


Observo a janela cerrada:
Ora, será que está emperrada?
Obstáculo atroz e lamentável…
Cômodo que contém o inimaginável!

Queria mesmo estar ali por dentro!
Para a tranca alcançar a qualquer momento,
soltar o cadeado, abrir de par em par
aos seus pés orar, sem me ajoelhar.

Entre as suas folhas gêmeas de madeira,
debruçar-me assim, mesmo de bobeira!
Pois a janela foi feita para se abrir,
deixar a lua ou sol ali luzir.

À namoradeira um apoio na manhã
que tira do forno o bolo de maçã…
Mas nem bolo, nem moça, nem cortina…
Nada dali eu registro na minha retina!

Clausura prenhe de curiosidade,
Será que guarda alguma beldade?
Quem ali mora, quem ousa fazer o lar?
vejo feixes de luz tentando escapar…

Noutra noite, noutra semana,
entre as frestas da venesiana,
o raio dourado,
ousado, ousado…

Olho no chão, buscando a pedrinha…
Ai, que vontade a minha!
De lançar o pequeno torpedo
Mas, ai! Eu morro de medo!

Ei, espera um pouco…
Não creio que eu esteja louco.
Já se abre o portal,
junto do meu sorriso nesse quintal!

Parte II – Janela do avesso


O sorriso jardineiro pouco durou:
Estava lá a janela aberta.
Eis que este pobre rapaz delirou
com a pupila toda desperta!

E o que vi fez-se pura magia!
Não consigo evitar dobrar o joelho!
Não era beldade, nem farta cozinha,
Era eu mesmo num mórbido espelho

Meu próprio quarto, tão bem conhecido,
Na mesma cadeira, um livro fechado.
O coração que tanto tinha batido,
Agora sabia: não era outro lado!

Não era clausura, namoradeira ou dragão,
Mas o reflexo de um tempo vivido.
O pavor não era de outro rincão,
Etérea memória dum quarto esquecido.

E o portal, com seu brilho dourado,
Não era composto de pedra ou fantasia:
Era o avesso, enfim desvendado,
Da alma que eu próprio escondia.

Delírio reincidente

A segunda-feira jaz enterrada
sob a pesada terra molhada…
E à terça-feira tomamos um brinde
comungando esse delírio que reincide…

Chegada a quarta-feira morna,
todo segredo nos retorna
para que na quinta-feira próspera,
a alma, do trauma, ressignifique sincera.

Pois sexta-feira decaímos, doravante,
tropeçando em um só acto instigante!
Sábado, à ressurreição difamada,
tornamo-nos praticamente nada…

Para que o domingo surja, alvo de inocência,
expirando cada esperança em condolência…
Mas, ora, morremos todos por bobagem,
refletindo o desejo de nossa própria miragem…

Vem comigo celebrar esse suspense escarlate!

Lançamento de “Dança Escarlate”

É isso aí, meus amigos e leitores! Está se aproximando o momento da uma das maiores realizações da minha jornada literária: o lançamento oficial de ‘Dança Escarlate’.

Detalhes do Lançamento e Tarde de Autógrafos

Gostaria imensamente de celebrar este marco com a presença de todos vocês!

Reservem a data para a nossa sessão de autógrafos. Será um momento para conversar sobre o processo de escrita, a inspiração por trás da Diana, e, claro, para dar um abraço apertado em cada um de vocês!

  • LIVRO: Dança Escarlate (Ficção Psicológica)
  • LOCAL: Biblioteca Municipal Prof. Nelson Foot (Complexo Fepasa)
  • CIDADE: Jundiaí/SP
  • DATA: 24 de Janeiro de 2026 (Sábado)
  • HORÁRIO: 11h
  • Entrada Franca

Como adquirir seu exemplar (apoio imediato).

Se você não puder comparecer ao evento, ou simplesmente quiser garantir seu exemplar desde já, o livro está em pré-venda e disponível nos principais canais. Seu apoio é fundamental neste momento!

Fico à disposição para qualquer dúvida. Meu Instagram é @fernanda_serpa_autora — sigam lá para acompanhar os bastidores e o meu dia a dia!

Um abraço carinhoso!

Ilha de mim

Eu nunca fui uma ilha do que me resta:
compacta ou extensa, sou terra honesta.
Soma de meus pares e amores,
sou mapa de mim, rascunhada nos bastidores.

Profunda em sentimentos de torpor,
coleciono cada grito surdo de dor.
Deste pequeno relevo preservada,
faço-me ponto periférico, inundada.

Minhas ilhas vulcânicas explosivas,
por vezes são ensimesmadas, intuitivas,
rompem arquipélagos, fragmentos debochados,
pedaços de barro persistentes e encharcados…

Nego, recuso lá no alto a lua,
posto que sou raiz crua.
Inexisto num manifesto displicente.
Se não cheguei a ser ilha, serei toda continente!

Palavra silente

No branco silêncio da manhã brumosa
o caderno torna o verso em prosa.
Página amarrotada boceja palavra incompleta,
marcando com drama a escrita em tom violeta.

O divã, que colhe a palavra silente,
acolhe também todo sorriso inocente.
Não lance ainda as pedras em autoflagelo:
Monta com elas do seu buda um castelo!

E se a palavra insiste em calar,
o inconsciente sintoma quer despertar…
A alvorada, antes com a bruma angustiada,
aquiesce agora, ecoando a fala compartilhada.

Réstia de chá

Jaz a xícara, solitária e fria,
com a réstia de chá seco, ali no fundo.
É como se me tivessem tolhido o mundo,
mas por quais motivos, eu ainda não sabia…

Faltou-me para o descanso a coragem,
falhei ao estagnar, falhei ao esperar…
e uma penumbra fez-me os olhos cegar…
Às portas do meu castelo, via-me em miragem.

Mas ai do tolo que, com um sorriso insiste!
Ele tenta me convencer: ‘está tudo bem’…
‘Bem, ou mal, realidade de quem?’,
brado em angústia com o dedo em riste!

Em meio às lágrimas, já sem voz,
entreguei ações sem qualquer tempero,
dobrei a roupa, despida de esmero,
pois a réstia herbal era meu próprio algoz.

O espelho quebrado: A literatura e a descoberta da voz feminina silenciada

I. Introdução: É tudo página virada?

“Se o corpo de uma mulher tem seu próprio idioma, por que a linguagem que usamos é apenas a sombra da fala do homem? “

— Uma provocação inspirada em Hélène Cixous.

Vamos refletir qual o papel da mulher na literatura e na poesia dentro de uma sociedade paternalista que, historicamente, definiu a subjetividade feminina sob a ótica masculina?

A escrita da mulher é uma manifestação, um grito de liberdade. É ali, já nos seus mais tenros rascunhos, que a escritora inexoravelmente irá descobrir a sua própria voz através da expressão literária, principalmente com o uso da poesia. O Eu-Lírico se faz necessário para devolver a identidade da mulher, que se insere entre seus pares com a voz mais segura e confiante.

O processo de auto-análise se dá através da escrita? Não necessariamente em todos os casos, mas para mim, sim. É um processo poderoso para a quebra da censura em uma emergência do inconsciente.

Ao buscar incessantemente, através de rimas, o sentido oculto nas palavras, busco a verdade subjetiva em cada página. Mas é justamente ao virar essa página que a subjetividade se faz um problema, a partir do momento em que um contexto frequentemente define a mulher como um “enigma”, um desvio ou uma falta.

O que por gerações e gerações foi interpretado como ausência na voz feminina é, na verdade, um ponto de intensa resistência e até mesmo sobrevivência, especialmente no universo da poesia. A mulher não é o objeto misterioso; ela é o sujeito que foi culturalmente silenciado. Escrever é ressignificar sentimentos.

II. O enigma feminino em xeque: A visão tradicional

Enquanto o homem fundamenta o sofrimento feminino com alegações de que sejam histeria ou fingimento, estabelece-se uma subjetividade dominante, que não permite a leitura real e a validação do sentimento feminino.

Silenciadas, seguimos uma inércia de torpor nesse limbo sem adequadamente sermos compreendidas na literatura. Enquanto houver mais relevância a discussão se Capitu traiu ou não Bentinho do que o comportamento obsessivo do masculino, por exemplo, continuamos caindo em armadilhas de interpretações de terceiros.

Nessa estrutura engessada, a experiência feminina muitas vezes foi marginalizada. Personagens femininas literárias em romances do século XIX foram interpretadas com sintomas do colapso, não como protestos.

O silêncio se caminha para o contexto de uma resistência feminina apenas quando consegue se desvencilhar do olhar clínico masculino, que raramente reconhece a verdade que se originou em um silenciamento cultural mais amplo.

Então, o silêncio se torna um ato carregado de significado: Não é um vazio, mas o local onde a mulher aprendeu a “engolir sapos”, resultando em exaustão psíquica, ansiedade e depressão. Para que a voz emerja, é preciso desestabilizar a própria linguagem. Mas como fazê-la emergir e ecoar?

III. A poesia e a emergência do Eu-Lírico

Se o silenciamento cultural nos obriga a “engolir sapos” e a falar a “sombra da fala do homem”, é imperativo que a libertação surja através de uma forma que rejeita a lógica e a narrativa rígida. É aqui que a poesia se revela como o gênero da revolução.

A poesia, por sua natureza, lida com o que é pulsional e rítmico (o semissimbólico, na teoria). Poesia é fragmento, é a interrupção sintática, é a ousadia gramatical, epifania respiratória que torna obsoleta a argumentação legal.

O Gênero da Revelação

Em um verso, a mulher pode subverter séculos de silêncio. Um poema permite que a emoção bruta e a experiência corporal (o idioma do corpo que Cixous menciona) se manifestem sem a necessidade de justificar-se perante a Lei do Simbólico. O verso não pede permissão para ser. Ele simplesmente é.

Ele concentra o trauma ou a epifania em palavras que possuem seu próprio peso, tanto daquilo que é dito quanto o que é omitido. O silêncio do verso, portanto, é um silêncio ativo, cheio de sentido, e não um vazio imposto.

O Eu-Lírico como Identidade Devolvida

O ato de escrever poesia é a mulher deixando de ser o “objeto misterioso” para se tornar o Sujeito Pleno que se narra.

Eu-Lírico poético, ao se expor, transforma a experiência individual em um lugar de fala universal. Minha dor, meu desejo, minha rotina, que eram considerados banais ou vergonhosos pela cultura dominante, tornam-se o centro do universo poético. A poesia valida a experiência individual e devolve à mulher sua identidade, permitindo que ela se insira entre seus pares com uma voz mais segura e confiante.

Traços de Resistência no Verso

A subversão não está apenas no tema, mas na forma. Os traços de resistência no verso incluem:

  1. A Fragmentação: Quebras de linha e o uso intencional de espaços e pontuação para simular a dificuldade de respirar ou a censura que precisa ser superada.
  2. O Coloquialismo e o Corpo: O uso de uma linguagem doméstica e direta que ressignifica o cotidiano, tirando-o da esfera da submissão e elevando-o à arte.
  3. A Imagem Brutal: O uso de metáforas viscerais e honestas que vêm de um lugar de “não-censura” — o inconsciente finalmente falando por meio do corpo.

O poema, assim, torna-se a prova material de que o silenciamento falhou. O grito estava lá o tempo todo, mas precisava de uma forma desobediente para se manifestar.

IV. Poemas, cartas e o ato de citar: ressignificando vozes

Se a poesia é o lugar da ruptura, podemos rastrear essa subversão em como as autoras usam o verso — ou a ausência dele — para fazer o silenciamento fracassar. Aqui, a literatura se apresenta como a evidência viva do que discutimos.

O exílio na reclusão e a força do fragmento

A crítica de Hélène Cixous a James Joyce nos apresentou o conceito de exílio não apenas como geográfico, mas como uma escolha radical. Para a mulher, o exílio mais comum é o exílio interior, a reclusão forçada em seu próprio lar e mente.

Emily Dickinson, a poeta reclusa do século XIX, transformou esse exílio em um manifesto. Seu silêncio autoral sobre a vida pública foi a forma mais extrema de resistência ativa ao palco literário masculino. Seus poemas, escritos em segredo e repletos de traços (dashes) e maiúsculas inconvencionais, são o puro fragmento, o grito condensado:

“Eu morro por alguma Beleza —

Mas mal ajustei as Placas —

Quando um que morria pela Verdade, chegou

Calado — no Cômodo ao lado.

Ele perguntou com respiração suave

Por que eu tinha falhado —

Por ‘Beleza’, eu disse. Ele — por ‘Verdade’ —

Fomos Irmãos, então — e nos encontramos — “ (Emily Dickinson, tradução livre)

Neste verso, a Fragmentação (traços, interrupções) não é um erro, mas a linguagem da censura superada. O poema se recusa a ser uma narrativa linear e, com isso, valida a experiência da mulher que se move entre a beleza (o esperado) e a verdade (o proibido). O silêncio da vida se torna a força do verso.

A conquista do coloquial e a escrita do corpo

Se Dickinson usou a reclusão para explodir a forma, outras poetisas usam a linguagem doméstica e o corpo para conquistar o lugar de fala no cotidiano.

Em Adélia Prado, a poesia se recusa a ser “elevada.” Ela traz a linguagem direta da casa, da fé e da sexualidade feminina — temas que a sociedade classifica como banais ou pecaminosos — e os eleva à categoria de arte. A poeta ressignifica o cotidiano, desafiando a estrutura de que apenas o drama masculino merece ser escrito:

“Uma coisa é estar casado, outra é acordar

e dar de cara com o mistério.”

(Adélia Prado, trecho de “Com Licença”)

O coloquialismo de Adélia Prado é um ato de agência: ele afirma que o maior mistério reside no trivial, no corpo feminino, na rotina que a sociedade tentou silenciar.

Por sua vez, Ana Cristina Cesar atua a resistência na brutal honestidade e na quebra do pacto de privacidade. Sua prosa poética, muitas vezes confessional e íntima, usa a ambiguidade e o tom de diário para nos confrontar com o desejo e a fragilidade sem máscaras:

“Meço a beleza das mulheres

por sua capacidade de ser

infeliz.

E me dou dez.”

(Ana Cristina Cesar, trecho de “A Teus Pés”)

Imagem Brutal e a autoexposição de Ana Cristina Cesar são a emergência do inconsciente falando por meio do corpo. Ela recusa o papel de mulher feliz e submissa e usa o Eu-Lírico para nomear a sua dor, transformando-a em verdade poética inegável. A poesia aqui é o ato final de ressignificação de sentimentos que não puderam ser ditos em nenhuma outra esfera.

V. Conclusão: recosturando a subjetividade

A jornada do silêncio ao verso é a própria narrativa da sobrevivência feminina. Começamos com a provocação de Hélène Cixous sobre o “idioma do corpo” e a “sombra da fala do homem,” e descobrimos que o caminho para a voz plena não está em obedecer à gramática patriarcal, mas em desobedecer à sua lógica.

A poesia, por ser o gênero que mais permite o contato com o pulsional, com o que é rítmico e com o fragmento, torna-se o lugar seguro para o risco. Nela, o silenciamento cultural não encontra mais uma parede, mas sim um eco que amplifica e condensa a experiência. As formas de resistência — a reclusão ativa de Dickinson, o coloquialismo de Adélia Prado e a honestidade visceral de Ana Cristina Cesar — são todas provas de que a voz da mulher, uma vez liberta no Eu-Lírico, é incontrolável.

A mulher deixa de ser o “enigma” de terceiros e se torna a narradora de sua própria verdade.

“Penso, portanto, que todo homem precisa de uma mulher que o poemise.”

Que o ato de ler e escrever poesia feminina não seja apenas um exercício literário, mas um ato contínuo de validação. É a poesia que humaniza a cultura, quebrando a rigidez das estruturas e convidando todos a ouvirem o que estava no verso, esperando pacientemente pela sua página virada. O silenciamento fracassou; a poesia venceu.

Clamor de edelweiss

Dama branca das lágrimas de gelo,
flor aveludada, abandona o zelo.
Se o caçador não mais quer a caça em mãos,
serve apenas a montanha, em favores vãos.

Ao despertar, a rainha melancólica sucumbiu
entre as paredes que o destemido construiu.
Mas a queda do bravo era inevitável:
Leontopodium alpinum testemunhava, inefável…

No peito nascia-lhe a dor pungente,
descongelada no trágico acidente.
Teu derradeiro admirador ali jaz,
entre as rochas mais sólidas, sem paz.

Jovem leal, coração destroçado,
cobre-o agora o manto prateado.
Mas na relva gentil que o viu cair,
a edelweiss clama para ele jamais desistir!

Puta de mármore

Alma afogada em carestia
larga doces lágrimas, se angustia!
Elas regam teu regresso à casa.
Apressa os pés compassados no coração em brasa.

No canto do lábio, ainda velado,
teu sorriso brota desengraçado…
Ao destino enfim chega, mas não é lar:
agora já salgado, o fino choro volta a abismar.

Puta de mármore, semi-feliz,
verte um milagre a quem te bendiz.
Nua toda por fora, exibe o corpo polido,
abandona dentro do olho o pranto ressequido.

Canto sem epíteto

Ó, ansiedade, fina como a seca areia,
não serve de consolo nem à mais bela sereia,
tampouco se pode moldar qualquer escultura
pois sem forma, expõe-se fraca e prematura.

Tilintante coração, que salta fora da costela,
expulsa cruelmente o sono da donzela…
Faz da angústia um trem desgovernado
que corre à margem dos trilhos, indomado!

A aurora, no entanto, traz repouso,
despertando-a do abismo profuso.
Sim, o felino cessa seu miado angustiante…
Mesmo miúdo, é mais altivo que o tal rocinante.

E a mocinha à sereia já se une,
às tristezas todas tornando-se imune…
Canta o canto, em gracioso dueto
no perfeito momento, carente de epíteto.

Decepção social

Folheio velhos tomos em busca de inspiração,
acabo por tornar-me o avesso em auto-traição.
Mas se hoje eu ainda nem nasci,
quando foi mesmo que anoiteci?

Ora, que vergonha, que mesquinhez!
De longe se vê nos rótulos a escassez…
E a mulher, tola em devaneio,
Não acertou sequer o nome alheio!

Infelizmente, nesse clube de bobagem
desfez-se a minha miragem…
Não era digna a gastronomia,
e até o diálogo, aguado, escorria…

Tomada de sentimentos sem nome,
retornei à casa com fome.
Desprovida da paciência de matusalém,
concluí que gastei em vão o meu vintém!

Enxaqueca da alma

Desconheço se meu intrigante divã
trará virtuosa colheita ou dolorosa espera…
Incerta estou sobre dar luz ao não dito,
posto que ignoro a angustiante intuição.

Busco voz no eco das distantes montanhas
mas só o que encontro é um espelho de sombras.
Nada resta senão desvelar-me em pergaminho,
dessilenciando, assim, a verdade não simbolizada.

Navio meu, leva-me pois a desbravar
o inóspito e pulsante inconsciente
das mais turbulentas águas do pensamento,
fonte da mais abissal enxaqueca.

Seja o meu destino doce ou amargo,
aceito-o, lapidando meu eterno retorno.
Acompanho atenta os passos do sábio andarilho
sem apressar nossa dança de almas.

Minerva irascível

Como uma minerva do crânio parida
surgindo ao mundo, feminina brunida
de um pai tolo e inatingível,
a busca deste verso se faz irascível.

Indomada, sim, entre meus dedos,
a estrofe escorre num transe de arremedos,
desliza fria sob os aneis vaidosos…
Da dor nascem os contos mais ditosos!

E na ponta da lança dessa deusa liberta
é que o grito afiado surge à porta aberta:
Escorracemos aqueles que não nos suportam,
esses que com o amor já não se importam…

Colhamos aqui nossos frutos,
ignorando solenemente os insultos.
Recusamos, no entanto, a costela e a maçã,
concluindo em silêncio a arte terçã.

Sonetinho de trepadeiras shakespearianas

As insistentes folhas da trepadeira
não sufocam apenas o carvalho:
Se reparar bem no homem-espantalho
impregnar-se-á com a lamentação na capoeira.

Ai daquele que não sorri na tua alegria,
aquele que das piores derrotas se alimenta
e ainda insiste, maliciosamente argumenta,
imaginando que a dissimulada agradaria.

Pois vai-te logo embora, falso e frio amigo,
que teu vento gelado jamais me toque
depois que eu calar teu amargo palavreado.

Definha-te em ofensa, teu auto-castigo,
que teu brio mendigo se afogue,
e não receba sequer um centavo honrado.

Conjugar-me

Se no pretérito mais-que-perfeito

eu tivesse reinventado e me refeito,

repousaria sem medo na escrivaninha a pena,

pois já dizia Fernando, a alma não é pequena.

No entanto meu momento presente

adjetiva liricamente a transcrição emergente

dos pronomes que intento alcançar

quando na verdade é a dança que quero arrebatar!

Conseguirão eles minhas estrofes compreender?

Dos seus aplausos eu não desejaria depender…

Mesmo em meio a um eventual tropeço,

na melodia das rimas eu eternamente regresso.

Lúcida travessia

Entre lúcida e louca,

dona dessa memória pouca,

conduzo, displicente, a minha rotina

com os olhos ainda inchados na matina…

Trêmula, sob um coração requenguela,

atravesso a rua sem cautela.

Meu passo segue alvoroçado…

O que me espera do outro lado?

Dessa réstia de lucidez,

entorno a culpa da embriaguez…

Pois é urgente lembrar

que a rua é uma vida toda a atravessar.

Ao outro lado agora chego,

assustada com tamanho desapego

desta mulher toda renascida

na dor delicadamente esculpida.

Sombra enganada

Enganei a minha sombra,

posto que nada mais me assombra…

Então, do quarto apaguei a luz

e pousei no chão minha desgastada cruz…

Em uma oração deveras silenciosa,

sussurro uma fé pouco virtuosa,

enquanto a sombra segue perdida

sob a folha de um salmo já envelhecida.

Mãos calejadas recusam o fardo,

lágrimas secas no caderno eu guardo…

A luz está de volta, acesa,

e a sombra dos sentimentos volta a ser represa.

Por que escrevi sobre trauma e memória: Os bastidores de Dança Escarlate

Por que escrevi ‘Dança Escarlate’? Esta é uma pergunta que carrego desde meu primeiro rascunho. Não é apenas sobre criar um thriller; é sobre mergulhar na memória fragmentada e no trauma silenciado — temas que surgiram de uma profunda jornada pessoal e de muita pesquisa. 

A verdade é que a escrita deste livro foi, em si, um ato de introspecção, onde a poesia e a psicanálise se encontraram. Da concepção de personagens como Diana e Cândido à própria escolha do título — que é intrinsecamente ligada a um propósito trabalhado em terapia —, cada página de ‘Dança Escarlate’ é a busca epifânica de nomear o indizível. 

Hoje, mais do que nunca, sinto essa necessidade de falar sobre o poder da análise, da memória e por que essa história precisava ser contada.

O encontro pessoal com o tema

A escrita de ‘Dança Escarlate’ não foi um processo asséptico; foi visceral. Em muitos momentos, escrevi incessantemente, por horas, em meio a crises de ansiedade e, ocasionalmente, pesadas crises de pânico. Os parágrafos pareciam trechos vívidos daquilo que eu mesma estava sentindo, com as palavras pulsando nas veias e sinapses.

É impossível falar sobre trauma sem reconhecer que todos nós carregamos ecos de feridas passadas. Para mim, escrever este livro foi um doloroso processo de auto-lapidação. Foi reconhecer, de formas nem sempre agradáveis, aquela sensação persistente de que algo está faltando ou algo está errado em nossa história pessoal.

A cada capítulo, eu me permiti ser vulnerável, me doando integralmente à narrativa. Foi nessa entrega total que encontrei a voz para o meu eu-lírico e pude tecer para o leitor uma jornada psicológica que transcende a ficção e toca a realidade da memória traumática.

A lupa da psique: Cândido e a análise

Mas como se cura algo que a própria mente se esforça para esconder? Como alguém constrói o futuro quando o passado é um borrão ameaçador? Este é o dilema central de ‘Dança Escarlate’. No livro, eu evoco o leitor a considerar que um caminho válido para lidar com isso é a análise (psicanálise ou terapia), que é o ato de fazer falar aquilo que foi silenciado, de ligar os pontos perdidos na dança caótica do inconsciente.

Cândido se apresenta não apenas como um personagem, mas como um arquétipo — a figura que representa o confronto com a verdade. Ele é a força narrativa que força os outros personagens (especialmente Diana) a iniciar o processo de elaboração.

O relacionamento ou a presença de Cândido na vida de Diana serve como uma “sessão de análise” contínua e, por vezes, dolorosa. É através dele que as feridas são tocadas e os sintomas (a ansiedade, o pânico) são colocados à luz da consciência. Na ficção, a busca pela verdade é perigosa. Mas nas diferentes escolhas que se lançam durante a história, percebemos como Cândido pode ser tanto o guia quanto o reflexo sombrio do trauma. 

Criar Cândido foi um estudo de caso em si, mas ele só ganha vida e profundidade por meio da própria complexidade de Diana, uma protagonista tão frágil quanto resiliente. 

Construindo o pesadelo de Diana

Diana é o epicentro da ‘Dança Escarlate’. Eu não poderia torná-la apenas uma vítima; ela precisava ter a força — ainda que oculta e dolorosa — de quem decide parar de fugir do próprio inconsciente.

O suspense em ‘Dança Escarlate’ não vem apenas dos eventos, mas da incerteza constante. Minha intenção foi fazer o leitor se sentir tão desorientado e questionador quanto Diana.

Dar vida a Diana foi me colocar no lugar de quem precisa dançar com suas sombras para finalmente as expulsar. É essa dança, dolorosa e necessária, que eu convido você a testemunhar.

Conclusão 

Escrever “Dança Escarlate” foi, sem dúvida, o ato criativo mais íntimo e desafiador da minha vida. Eu precisei me despir de defesas, revisitar as feridas da memória e usar a psicanálise — tanto como tema de pesquisa quanto como lente de observação — para construir um universo onde o medo e a esperança coexistem.

A jornada de Diana é a prova de que a única forma de silenciar o trauma é dando-lhe voz, mesmo que essa voz venha carregada de poesia e suspense. No fundo, este livro é uma celebração da complexa e dolorosa capacidade humana de se refazer.

O convite está feito: Se você se identifica com a luta entre o que a mente lembra e o que ela esconde, e está pronto para acompanhar Diana em sua perigosa busca pela verdade, comece sua leitura agora.

CLIQUE AQUI e mergulhe no thriller psicológico “Dança Escarlate”!

#DançaEscarlate #FernandaSerpa #LiteraturaBrasileira #FicçãoPsicológica #ThrillerPsicológico #Suspense #Psicanálise #Trauma #SaúdeMental #Memória #EscritaCriativa #Literatura #AutoresBrasileiros

Amadurecido poente

O sol poente fez-se hoje tardio, 

justificou-se, corado atrás do castilho,

queria apenas destacar o brilho

das pedras nuas no fundo do rio.

Foi  a única vez que se pôde ver

serenos seixos brancos repousados,

silenciosos e eternizados

no verdejante entardecer.

Despedem-se em tom pastel

do brilhante e melancólico rei.

Eu certamente jamais me esquecerei

das pedrinhas refletindo o lindo céu.

No canteiro de flores além da cerca,

tal singular imagem ainda repousa,

resistindo num corpo que ousa

habitar a mente até que se perca…

Quem apenas queria ser e só existir

sob um desejo que o devastou

entendeu por que o sol se demorou: 

ele fez-se brilhante justamente para partir. 

Deixou rastro das lágrimas de saudade,

sabendo que a dor precisa de um cenário

para dourar-se tal qual um relicário… 

Enfim a luz sem timidez, transbordou eternidade.

Farol de Alexandria

Que uses máscaras faz-se imperativo!

Até um véu há-de ser suficiente

para afugentar o vil demônio, ardentemente

num ato rotineiro, mas claramente volitivo…

Se a amiúde confias em mim,

se calças sem medo teus empoeirados sapatos,

permita também que eu costure os rasos hiatos,

e enfeite a tua lapela com um seco jasmim.

Basta-me o teu sorriso, mesmo que velado,

pois nem a insônia apaga meu verso,

e com o fervor de quem reza um terço,

ofereço genuinamente meu amor abnegado.

Desnuda-te, agora, meu alvo anjo alado,

mas deixa estar assim o rosto oculto,

e por favor, não considere insulto

se o meu canto calar-se censurado.

Pois se até mesmo de tua anatomia

quero selvagemente me assenhorar

e em teu colo dedicadamente me abundar

torno-te já o meu próprio farol de Alexandria.

Transação mortal

Eu vendi a morte,

veja só essa minha sorte!

Para um desses que no meu caminho veio

foi que eu a entreguei sem qualquer receio.

A finada de si com esmero empacotada

foi por muitos anos nas costas carregada,

era um frio e desgostoso fardo,

no espelho refletia sempre o filho bastardo.

Mas foi mesmo uma pechincha!

Toma, leva esse invólucro que já incha…

Nem troco eu aceito,

não há garantia ou qualquer defeito.

Sou verso, rasgo-me assim impetuosa

e deposito no túmulo a última rosa.

Nada que seja seu te peço em troca,

posto que em vão você sempre me convoca.

Dou à inevitável morte qualquer preço

e resgato da memória mais do que mereço.

Pronto: sou uma alma imortal

e me farei ausente no meu próprio funeral.

Epifania terapêutica

Numa manhã precoce amanheci:
Oh, não foi culpa do empolgado bem-te-vi,
tampouco o sabiá soube me acompanhar,
pois o que mudou foi meu olhar!

Nessa epifania terapêutica
pondo-me do avesso numa hermenêutica,
rumino sem fim a dolorida quinta-feira,
que em terapia desbloqueou-se uma barreira.

Supondo que inerente à dor consciente
desloquei meu desejo com um gesto diligente,
concebi a possibilidade de a culpa dirimir,
pois os problemas, veja só, insistem em existir!

E tal qual um drácula que do caixão emerge sem sono,
é o atino de que eu sou o próprio abandono.
Imortal liberdade, então, tenho à mão:
Eis que minha voz renovada ecoa um sonoro ‘não’!

Não ao avinhado mundo que já me recuso a mudar,
Não a todos meus amores que demasiava a cuidar!
Mas ainda de angústias encharcada
Faço de mim mesma a minha eu-enamorada.

Quem me dera

Um dia desses, quem me dera,
numa dessas tardes coloridas de primavera
ver-te espelhado, distorcido numa esfera,
pudesse eu ouvir da voz que não desespera
que mesmo o simples abraço me aprouvera,
meu amigo, meu colega, quem me dera!
Aprenderíamos à sombra, verdade sincera
e estaríamos curados, resgatados da cratera,
despindo-nos do trauma, desarmando a megera
deixaria eu ir toda a desgraça, quem me dera!
Mas o tempo urge e não espera…
E meu sonho se desfaz, uma quimera…
Minha avó já dizia, quem sai aos seus não degenera,
e isso já faz mais de uma era…
No entanto, mesmo na dor que impera
meu sorriso hipoteticamente prospera.
Será mesmo? Ai, quem me dera!

Crie um site como este com o WordPress.com
Comece agora