São Paulo. Duas da tarde. Uma quarta-feira, final de Abril. Dia frio, cinzento – mais frio e cinza é o tempo no ônibus que me leva para longe, a despeito do calor da poltrona e da música em meus ouvidos.
Passo sozinho em frente ao Ipiranga. Por baixo da ponte dos Bandeirantes. O Clube Esperia. A placa que aponta Congonhas – e Universo; fosse esse ônibus um avião, acho que ainda assim a distância pareceria a mesma.
Há algo sombriamente sedutor nessa melancolia do abandono. Nesse voltar sozinho para casa, desacompanhado, sem alguém a me mostrar o caminho.
Passa a Arenha Anhembi. O nome me lembra você. Quero um trago do teu cigarro, um gole da tua bebida, um beijo da tua boca. E o ônibus segue, ignorante de meu desejo de ficar.
O motorista leva, sem ter conhecimento, uma quantidade infindável de corações saudosos. Toda viagem. Diariamente.
O motorista carrega, inocentemente, as ilusões e desilusões, sonhos e medos de todo um mundo – uma lotação por vez.