Ônibus

São Paulo. Duas da tarde. Uma quarta-feira, final de Abril. Dia frio, cinzento – mais frio e cinza é o tempo no ônibus que me leva para longe, a despeito do calor da poltrona e da música em meus ouvidos.

Passo sozinho em frente ao Ipiranga. Por baixo da ponte dos Bandeirantes. O Clube Esperia. A placa que aponta Congonhas – e Universo; fosse esse ônibus um avião, acho que ainda assim a distância pareceria a mesma.

Há algo sombriamente sedutor nessa melancolia do abandono. Nesse voltar sozinho para casa, desacompanhado, sem alguém a me mostrar o caminho.

Passa a Arenha Anhembi. O nome me lembra você. Quero um trago do teu cigarro, um gole da tua bebida, um beijo da tua boca. E o ônibus segue, ignorante de meu desejo de ficar.

O motorista leva, sem ter conhecimento, uma quantidade infindável de corações saudosos. Toda viagem. Diariamente.

O motorista carrega, inocentemente, as ilusões e desilusões, sonhos e medos de todo um mundo – uma lotação por vez.

Estroboscópico

Abraça. Conchinha. A coluna incomoda. O que é maior: o conforto em deitar-se assim, ou a estranheza que sente na lombar? O conforto. O prazer. O calor. A promessa de que está tudo bem. Passa o tempo. A noite. Escuta os carros na rua, vê as luzes passando correndo pelas frestas da janela. As luzes se arrastando na parede.

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Monstro

Vira na cama. Toma a garota com força, a coloca deitada sob ele. Dista o rosto uns bons quinze centímetros. A encara, chorando; ele também está a beira das lágrimas. Vê o monstro. O monstro tem a pele suave, os olhos inchados, a boca doce, os cabelos da cor de sua libido. O monstro é tudo aquilo que tem feito sentido nos últimos tempos. O monstro é o que faz as manhãs terem sentido, nos breves segundos em que tece a primeira dose de honestidade do dia. O monstro.
– … Escuta aqui, Ana. Eu não quero que você repita isso. Não repita o que a sociedade vomita em você todo dia! Não repita esse vômito, esse nojo, esse preconceito asqueroso que todos os dias é reproduzido e regurgitado em você! Faz o que quiser, mas não isso. Não se joga por baixo desses merdas, Ana. Não você. Não você.

Grisalhos

“Estou com um fio de cabelo branco”, escuto alguém dizer, em desespero, frente ao espelho. É como se o fio fosse um lembrete violento e gritante da efemeridade da vida, e, seu hospedeiro (afinal, o fio só pode ser um parasita maligno), um doente terminal. Momentos após o triste comentário, duas outras almas, presumivelmente amigas da vítima, tentam remediar a situação; “não dá nem pra ver”, “é um só, deve ser estresse”, “daqui a pouco ele cai e não volta, e fica tudo normal”.

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Destinos Improváveis

Estávamos nós em um ônibus desses que mal serve para fazer trajeto urbano, subindo uma serra sinuosa logo no final da madrugada. O céu brilhava, uma mistura incrível de laranja, rosa, amarelo, e anil – e isso mais do que me bastou para tirar o foco da precariedade do ônibus. O caminho todo foi estonteante. Minha namorada então me diz que não se atreveu a olhar para trás em momento algum do percurso; sentira o corpo eletrizar-se e carregar toda uma energia positiva que nunca sentira de maneira tão forte, e decidiu que não olharia, durante a viagem inteira, para o que deixávamos às nossas costas.

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Tempo

Tenho tempo; quanto tempo? Tento o momento a todo o tempo. Temo o tempo, tendo medo ao momento; momento breve, breve vento. Atento, olhando o tempo, breve vento ou sonolento, entendo:

O tempo passa.

Dançando

“Eu constantemente tenho esse sonho. Somos dois, eu e uma mulher. Estamos dançando no topo de uma torre, na ponta de nossos pés, em sincronia, grudados; o espaço é pouco e é tudo muito alto. A torre parece estar em meio ao nada. Posso ver outros picos saindo da escuridão, da névoa que fica abaixo, mas nunca outras pessoas, nunca o piso. Apenas nós dois, dançando no topo daquela torre. Até que alguém erra o primeiro passo, e nunca fica claro qual de nós; alguém erra o passo, desequilibra, e cai. O outro segura. Mas como já disse, o espaço é pouco. Segurar o outro é apenas isso: segurar. É impossível que os dois voltem ao topo. Então ficamos na eterna promessa de voltarmos à dança, de voltarmos a estar em equilíbrio. Tudo que somos, no entanto, é a promessa. Sem ela, voltamos apenas ao belo ato, mas desprovido de sentido, de impedir o inevitável: para alguém ficar sobre a torre, algum de nós precisa cair.”