UM PEQUENO AFASTAMENTO TEMPORÁRIO Por Cláudio El-Jabel
“Entre o tempo que escapa e o silêncio que veste, deixo-me ir só para voltar inteiro.”
Sempre tem uma hora para tudo na vida, chegou a hora de mim mesmo me testar, soprar essas poesias para outro lugar; então farei uma pausa para rever tudo, separar por ordem cada estilo, tentar não abandonar meu blog, mas terei pouco tempo para me dedicar.
Coisa apenas de momento, só para me organizar, pretendo molhar outras histórias, rever todas as memórias, como o tempo em que chovia, terminar o livro de Sophia; enfim, uma tarefa quase herculana, mas sei que valerá a pena.
Vejo tudo como filme de cinema, cada palavra, cada respiro, cada lembrança, cada cena, é algo que devo deixar de esperança; palavras sopradas ao vento, todas com certeza em seu talento, sua visão e observação.
Algumas julgadas, sim, Deus me permitiu o julgamento, deu-me ferramentas e esse talento de soprar palavras ao vento, de mexer com cabeças de muitos e pôr para pensar por alguns segundos, minutos, sei lá.
A intenção sempre foi essa: gerar um diálogo oculto, mostrar ao mundo a visão que tenho também dos absurdos; dos amores, da natureza, do tempo, não querer ser melhor que ninguém, nem me comparar a qualquer escritor.
Mas há comparações, eu sei, e não são poucas. Então eu deixo soprar, faz parte da vida.
Assim que eu terminar toda essa imersão, com certeza volto com toda força, toda vontade que sempre me acompanhou.
No momento prefiro deixar meu boa noite, colocar uma Lua brilhante com todos vocês, esperar ver todos mais uma vez; por não ser despedida, apenas um afastamento, para que eu possa ter tempo.
Já briguei demais com ele, devo aceitá-lo da forma que é, curto para umas coisas, longo para outras; sabe como é, vai ser assim como um trocar de roupas, — como quem veste o silêncio para respirar de novo.
“Entre amebas e tronos, o lodo decide — quem limpa, vive; quem acumula, apodrece”.
Cansado de esperar, de ouvir dizer, de nada poder fazer.
Quando o mover montanha é difícil, o que podemos fazer sobre isso?
As mazelas se formam por irmandades, se juntam, se unem, para se defender das verdades.
Nada de certo os interessa, o que vale é o dinheiro no bolso, e tem que ser na hora certa.
São acumuladores de riquezas, não as usam, pois não sabem como desfrutar, só o que fazem é acumular.
Gente vazia de alma, ainda se apresenta com toda calma, sabendo que o nosso braço não vai alcançar.
Se julgam os donos do mundo, se veem em outro lugar, não sabem olhar à sua volta, ver o tanto de gente carente do mínimo, uma necessidade de apenas dignidade, coisa que se faz quando se tem vontade.
Uma vez os compararam a amebas, mas na biologia até elas têm nobre função: é através delas que se faz do lixo a digestão.
Consomem bactérias e algas insurgentes, podem consumir também o corpo da gente, mas sua função é de limpeza, equilíbrio, não de avareza.
E nem — desfilam surpresas, delas sabemos ao certo o que vai ocorrer; já dos governos, não se sabe o que temer.
“Entre o ponto e o gesto, a palavra também se borda com ternura e lembrança”.
Me peguei fazendo crochê, acredite, quando era pequeno, ia com minha mãe ao curso do Clube, onde ela aprendia a fazer crochê e tricô.
Era uma época em que os chamados fuxicos estavam em moda — eram conchas, toalhas, almofadas, porta-pratos, flores e tudo mais. E eu, como acompanhava e tudo via claro que aprendi também.
Na verdade, era mesmo um passatempo, uma forma de entreter, gostoso de fazer para quem cria. Pena não existir mais nada que eu possa ilustrar — isso me deixa um pouco triste.
São só as memórias, e nada material mais existe. A última peça que consegui guardar foram os bichinhos e bonequinhos de meus filhos: um cachorrinho que chamamos de Pimpo e um palhacinho que chamamos de Chucky.
Sim, meu filho arrancou seus cabelos, furou sua cabeça e acentuou a cor dos olhos — ficou um boneco do terror, mas não desfaço deles. Guardo com o maior carinho.
Já mostrei para as crianças, e eles acharam um terror; nem Eric nem Sophia gostaram de ver, mesmo assim eu os guardo para ter. São objetos que trazem lembranças.
Parece que naquele tempo as coisas eram mais devagar. Hoje percebo tudo tão rápido — não vejo quase crianças brincar; ou estão com o computador ligado em jogos, ou com o celular a teclar.
Eu tinha até um livro do tempo do Projeto Rodon que descrevia cada brincadeira e como fazer — era o que aplicávamos nas crianças. Fazíamos gincanas, sorteios, e os pais sempre participando no meio.
Era pura diversão. Para os mais velhos fazíamos esportes: futebol, handebol, vôlei, basquete, tênis de mesa, corridas, queimado.
Tudo era levado ao sagrado: diversão e alimentação. Nossas voluntárias davam também atenção às meninas, explicando as coisas que devem ser explicadas.
Aos meninos, a reunião era com a gente — ensinávamos sobre as drogas, sobre não formarem gangues, sobre não cometerem, principalmente, o bullying.
Entre o ponto e a palavra, também se forma o ser.
Com muito profissionalismo e psicologia, fazíamos isso com maestria. E aprendi que educar é tecer — com paciência — o fio que une o humano.
Depois de peneirar tantos livros infantis brasileiros, desisti. Só encontrei bandalheira e informações feitas para influenciar as crianças em coisas que prefiro não comentar. Sou assim: o que não gosto, não gosto e pronto. Não entro nessa regra moderna de aceitar tudo pelo “socialmente correto”; apenas respeito quando sou respeitado, como qualquer ser humano. Mas acredito que, com crianças, devemos começar pelo que nos foi passado. Se, no futuro, elas mudarem seu perfil, isso será resultado da sociedade em que vivem e o caminho que escolheram aceitar.
O que eu procurava, eu encontrei — e é lindo, por sinal. Um livro cheio de histórias encantadoras, que pretendo ler para eles enquanto minhas próprias histórias infantis não ficam prontas.
Quero também contar sobre nossos nativos, sobre a invasão que sofreram e como se defenderam — contar a verdade, e não essa falsa cultura que carregam pelas escolas.
Desejo reviver o tempo do Projeto Rodon, onde estreie com uma terapia chamada “Em Volta da Fogueira”, na qual eu reunia todas as crianças, após as brincadeiras, para contar historinhas e responder às dúvidas que tinham. É uma saudade boa, saudade daquele tempo Rodon — e isso me move muito.
Tenho que fazer isso em menos de um ano. Eles crescem rápido demais, como pé de feijão. Mas deixarei algo deles guardado dentro do meu coração — e algo meu guardado dentro do deles.
Enfim, consegui um livro maravilhoso para ler para meus netos: “Racconti Illustrati dai Balletti”. O livro traz histórias sobre Cenerentola, Il Lago dei Cigni, La Bella Addormentata nel Bosco, Don Chisciotte, Coppelia, Lo Schiaccianoci, L’Uccello di Fuoco, Giselle, Ondine, La Sílfide, La Fille Mal Gardée, Romeo e Giulietta…etc.
“Entre dúvidas e ensinamentos, a amizade e a curiosidade iluminam o caminho”.
Andando pela estrada, à procura de entender, sempre em dúvidas que me movem, sempre aprendendo ao resolver;
Aprendi muita coisa nessa vida, aprendi a perguntar sobre tudo que me interessa, comecei com isso bem cedo, assim que comecei a falar, já perguntei a meu pai quem era Deus;
Devia ouvir tanto o por ele suplicar, que foi uma das primeiras palavras que aprendi, e quando meu pai me disse que ele vivia no céu, eu fiquei sem entender como ele flutuava, ou se tinha asas e com elas plainava;
Dali foi minha primeira inspiração de procura, mas só via pássaros, nuvens, sol e algumas vezes a Lua, que, abusada como é, muitas vezes vinha de dia para pegar um solzinho, um bronze, vai saber;
A noite era ela de novo a aparecer, muitas vezes vestida de gala, com aquela luz prateada cintilante, que a tudo iluminava, sempre com uma companheira fiel, a tal estrela guia que se via no céu;
Vim saber que não era estrela, e sim planeta, era Vênus, um pouco xereta, no mais, sim, milhões de estrelas que me pus a contar, me lembro que após umas trezentas desisti e deixei para lá;
O tempo foi passando e, já na aula de catecismo, vim conhecer um casal chamado Adão e Eva, do qual deveríamos pertencer; mas de cara somei um mais um e descobri: se mesmo eles se casando e tendo filhos, com quem os filhos deles se casaram para ter continuidade?
Sai correndo da aula da freira e corri ao Padre Fernando para saber toda a verdade; Então com calma ele me explicou, me deu aquela famosa enrolada e não me esclareceu nada;
Então eu resolvi fugir, e saí correndo lá para casa, com o Padre a me perseguir; Quando entrei dentro de casa e minha mãe soube do intento, não pensou duas vezes: com o cinto já preparado para castigar, foi segura pelas mãos do Padre, que estava bufando para me salvar;
Ele falou para minha mãe: “Não bata nele, não faça isso, ele sabe mais do que nós”; Dali em diante nos tornamos amigos fiéis, pude ser seu coroinha e preparava a missa, era uma distração que gostava de fazer;
Mas não queria saber daquelas histórias bíblicas, cada uma mais estapafúrdia que a outra; eu queria aprender sobre Deus, sobre os Santos, minha mente já estava em outros planos;
Com ele aprendi também um pouco do Latim, era uma língua oficial da igreja, e algumas missas ele as rezava no Latim; eu queria entender, e por isso meu interesse;
Depois entrei para o escoteirismo que havia na igreja, foram três anos que me dediquei, valeu muito a pena participar e aprender, me formou uma criança disciplinada, mas jamais deixei de ser criança levada;
Daí percebi que o aprendizado e a amizade, mesmo em caminhos inesperados, são luz que permanece, como o Sol que nasce para todos.
“A voracidade persiste, e a roda da sociedade nunca cessa de girar, mesmo diante da memória e da partilha”.
Ah, fiz, Fiz o que muitos dizem para não fazer, Não paguei pelo que adquiri, Ganhei, E se disserem que é pirataria, Um dane-se bem grande para essa burguesia.
Também tinha muito a compartilhar, E me filiei ao “Copy Left”, Que em sua descrição deixa claro, Partilhamos apenas o que nos pertence, Não retiramos de ninguém, Partilhar é não deixar morrer.
Me fez lembrar meus tempos de figurinhas, Quando completávamos o álbum partilhando, trocando, E esses hoje também fazem parte dessa partilha. Muitos do que partilhamos já caiu no chamado domínio público, Absurdo pensar que esse domínio nunca o foi, Mas deixo essa burocracia para depois.
Até mesmo o meu espaço que tem o copyright, Pertence ao mundo, a quem lê, Nada contra a quem faça uso comercial daquilo que cria, É direito sim de seu criador, E deve defendê-lo ao preço que for.
O que falo são coisinhas banais, Figurinhas, preto e branco, historinhas, Que ninguém quase quer mais. Lembro-me de ter lido sobre a biblioteca de Alexandria, Onde a princípio era para todos, Mas bastou uns gatunos tomarem posse do que restou, E grandes fortunas com isso se criou.
Teve um dia que levei um susto, O filme que assisti era sobre a vida de Glenn Miller, E enquanto seu talento só lhe rendia três centavos o disco, O bolso das gravadoras se enchiam.
É isso, é um fato, uma realidade, Gente comendo gente, Com uma verdadeira voracidade, E o mundo observa, impassível, a fome que nunca sacia, E assim a roda gira, sem fim, no ciclo contínuo da sociedade.
“Entre cores, perfume e espinhos, a rosa se mostra bela, viva e protegida”.
Uma vez pus-me a escrever olhando imagens, saiu algo interessante, não me lembro bem, mas as coisas fluíram de forma boa.
Uma bela imagem fala muito por si, e é vendo imagens que eu mesmo aprendi: a imagem tem movimento, tem expressão, e, dependendo do ângulo, pode se mostrar até opção.
Seja nas cores, nos tons, ela descreve com clareza. Dizem que pintar é uma arte apurada, mas eu penso que é algo íntimo.
Há formações, sim, eu sei, mas são das técnicas, não das ideias. Você aprende a pintar um vaso, e sua imaginação, uma azaleia, campos amarelos de girassóis, assim como belos lírios.
As tulipas não ficam atrás, as roseiras também não. Cada flor tem sua magia, seu encanto; eu me perco em suas perfeições.
Não sou bom de fotografar, mas percebo sempre uma a aflorar, como quem diz: “Oi, estou aqui, vim colorir seu dia, perfumar seu ar, adoçar sua boca, enfeitiçar seu olhar.”
Prazer, meu nome é Rosa, mas me olhe apenas, não me toque; sou delicada e sei me defender. Posso, com meus espinhos, vir lhe ofender, e ainda assim, deixar o mundo mais belo.
“Entre cheiro de terra, frutas maduras e água corrente, cada gesto da roça se transforma em memória viva”.
Boa lembrança que me traz essa foi minha primeira máquina de escrever. Deixei-a no Brasil com meu irmão; muita bagagem para trazer em avião.
Sinto saudades dela, de tê-la comigo. Apego material? Seria algo normal? Bem, não sei, mas sinto saudades também da enxada.
Sim, adorava capinar na minha hortinha, sentindo o cheiro da terra úmida, plantava de tudo um pouco, e colhia com gosto, sentindo a textura das frutas. A fartura era tanta que dava até para distribuir: uma abóbora aqui, uma couve ali, uns tomates acolá.
Sempre havia algo para dar. Frutas tínhamos também: manga espada, jamelão, abacate, limão, caju, amora, laranja e carambola; tinha jaca, fruta-do-conde, carambola, tamarindo, sapoti e cajá.
Sempre que alguém pedia, eu tinha alguma para dar. Havia também minha criação de galinhas, patos e marrecos; esses, por sinal, eram meus prediletos. Pintinhos, quando nasciam, eram alegria de criança; sentava-me na beira do ninho, observando as galinhas correndo pelo quintal, e só saía quando o último nascia.
Nasci para ser da roça, adorava me banhar em cachoeiras, sentindo a água fria e clara escorrer pelo corpo, o som do vento nas árvores e da água caindo, mas, para muitos, sei que tudo isso é besteira.
Ainda assim, guardo cada cheiro, cada toque, cada movimento, como se o tempo pudesse ser segurado nas mãos, e cada instante se tornasse imortal.