Sobre a terra cansada de chuva, os nossos passos caminham para o seu além. Corremos, sem tempo e sem fôlego, contando as horas e os minutos que nos conduzem e submetem. Sem isso, não sabemos ter um destino e uma direcção que o encontre. Cada um de nós é um filho de Saturno, aquele que, no terrível quadro de Goya, ele agarra, rasga e devora.
Olhamos à nossa volta e tudo se desencantou. Ouvimos as vozes que dão voz ao espectáculo diário do mundo e é como se muitas palavras iniciadas por “d” se juntassem para nos dizer o que ouvimos: dívida, défice, despesa, desperdício, desemprego, desigualdade, desânimo, desilusão, descrença, desdcrédito, depressão, desistência, desgraça, desorientação, dúvida, difamação, desonra, dissimulação, desinteresse, desencontro, descida, desvalorização, decréscimo, derrocada, decadência, declínio, descalabro, desgosto, dor, doença, despedida.
Do ecrâ brilhante e sombrio das televisões, onde se exibe como se fosse uma novela numérica, a crise saltou sobre as pessoas, dando razão àquelas palavras antigas de Plauto que Thomas Hobbes fez suas e que Jorge Luís Borges gostava tanto de citar: “Homo homini lupus” ( “O homem é o lobo do homem”). Por todo o lado, há uma nuvem baixa de instintos que farejam, despedaçam e assassinam, como se a selva fosse o habitat que mais nos convém.
Fala-se com alguém e logo se escuta um susto, uma ansiedade, uma inquietação, um lamento, uma queixa. E não encontramos argumentos que contrariem essa aflição ou a razão que a gera. Somos até levados a concordar com ela, a avolumá-la, a acrescentá-la. Churchill dizia que era optimista porque isso lhe seria mais útil do que ser pessimista. Mas, na câmara escura em que o mundo se tornou, tudo se fez revelação do negativo, radiografia do esqueleto, reverso da vida. Como ensinou Nietzsche, “se olharmos o abismo, ele retribui-nos o olhar”. É disso que agora não queremos fugir.
Saio de casa e vejo um vulto quebradiço que anda sem saber para onde. A roupa acompanha a resistência enraivecida do corpo que cobre. Olho o homem nos olhos desmesurados, tento adivinhá-lo. A sua cólera alcança o Universo e é uma injúria. Grita: “Já não sei o que hei-de fazer para conseguir viver. SÃO TODOS UNS FILHOS DA PUTA!” Não lhe pergunto nada, não lhe respondo nada. O seu brado não precisa de perguntas nem de resposta. É uma resposta a todas as perguntas que já foram feitas. É uma pergunta a todas as respostas que já foram dadas. Ele não pára de gritar, e a sua voz é o eco da sua voz: “FILHOS DA PUTA! FILHOS DA PUTA! FILHOS DA PUTA!”!
O vulto continua a andar na rua molhada. Passa à frente de um restaurante da moda. Saem clientes da porta que se abre, enquanto o porteiro faz uma vénia risonha, estendendo a mão para receber a gorgeta. Esses que saem sorriem e ficam a conversar no passeio, antes de irem para os carros. Nas suas roupas há uma felicidade. Nos seus gestos há uma elegância. Só as caras são baças ou brutas. O homem em fúria observa-as, fita-as, enfrenta-as. Diz: “Vocês vão morrer também. Pensam que não morrem, mas morrem. E vão morrer mais depressa do que julgam. Para mim, morrer nunca é cedo. Para vocês, viver nunca é tarde. É essa a minha vantagem.” Roda sobre si mesmo. Pergunta: “Já viram a merda que fizeram?! Foderam o mundo e agora nós é que pagamos!” Um casal com ar altivo sai do restaurante e ouve estas palavras iradas. A mulher transforma a altivez em prudência, dizendo baixinho ao marido: “Não ligues, não respondas. É um doido!” Ele ouve-a e grita com uma voz rouca, que ás vezes soa sub-humana, outras vezes sobre-humana: “Sou doido, mas vocês é que foderam isto tudo. Tem sido uma festa! E AGORA AINDA QUEREM QUE A FESTA CONTINUE. À nossa custa. Com a nossa desgraça!” Diz isto e dá uma corrida. Aproveita um automóvel que chega e arruma-o. Estende a mão ao condutor. Recebe uma moeda. Atira-a para o chão gritando: “Eu não sou arrumador de carros. Fiz isto só para baralhar. Quero que vocês todos se fodam! Arrumem vocês os carros, seus cabrões!”
Faz gestos agressivos, violentos, descontrolados. Fala de Deus – e do Diabo. Diz: “Deus morreu, mas o Diabo não! Vocês são o Diabo. E o mundo que nos dão é o Inferno. O Diabo é o único que é feliz no Inferno. Por isso estão felizes. Mas vão pagar isto um dia! Vão pagar!” Subitamente aparece qualquer coisa na fala daquele homem que perturba a tarde. É como se as suas palavras de maldição viessem do coro de uma tragédia grega. Ou fossem a ameaça de um profeta judeu. De repente, Atenas e Jerusalém estão ali, naquele clamor, naquela rua antiga da cidade que foge do rio.
Oiço-o e caminho. Mesmo à distância continuo a ouvi-lo. O homem rouco e raivoso continua a gritar. As palavras que grita têm nelas uma praga. Atiradas ao mundo, são um um excremento que torna tudo sujo – real.
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