Inércia

folhas de inverno

Tinha as mãos geladas. Tremia, embora não se visse. Ninguém seria capaz de notar que tremia. Tudo nela era interno, contido, guardado a sete chaves, nesses dias de clausura em que só “obrigada” se ausentava da jaula que construíra para si mesma e onde se alojava, por tempo indeterminado, qual fera ferida que se sentia, lambendo as feridas sem sequer se dar ao trabalho de lhe pôr pensos, ligaduras ou simplesmente de as desinfetar.

Havia muito, muito tempo que as feridas ali estavam. Adormeciam, por vezes, hibernando, parecendo ter sarado, mas com a mesma facilidade ressurgiam soltando gemidos longos, imperceptíveis, incontroláveis. Prestes a sangrar, abriam lentamente, expondo ao ar e em carne viva os seus mais profundos segredos.

Inexplicáveis eram, algumas delas.

Outras, tantas, seria suposto terem sido apagadas com o tempo, mas a memória demasiado memória de que era dotada não lho permitia. E depressa se apercebia que nada esquecia… Afinal “continuava lá tudo.”

Preferia não trazer à lembrança muitas dessas memórias; preferia não as contar a ninguém, não falar delas. As feridas que tocava cansavam-na até à exaustão e ao “burnout”, embora tivesse sido terapeuta de si mesma durante tantos, demasiados anos e se analisasse tanto, quiçá até em excesso, concluía sempre não haver sarado como desejava.

E era nestas alturas que o desejo de fuga se instalava. O desejo de refúgio, de colo…. Uma saudade absurda de mãe. Da mãe. Como se os braços dela fossem o único porto de abrigo seguro capaz de ajudar, socorrer, proteger, entender. E sentia frio. Frio. Um frio interior tão profundo e intenso que nada nem ninguém conseguiam parar.

Era no sono que mergulhava. Era no sono que se refugiava e se encolhia, deitando-se em posição fetal em busca do abrigo e da mãe. E assim permanecia durante horas, dias intermitentes, tendo por razão única para despertar a cadelinha com que partilhava a vida.

(…)

Finalmente, quando as lágrimas irrompiam em catadupa e com violência, agradecia. Muito. Estava a voltar ao cimo.

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A minh’alma

A minh’alma é feita

De retalhos

Retalhos que ninguém vê

Coloridos, desbotados

Mas retalhos

com que eu preencho

os meus dias

cinzentos

Alimento o meu corpo sedento

Cubro a minha mente cansada

Tapo o meu rosto envergonhado

Porque o mundo

O mundo

O mundo está doente

intervalos

Paramos no tempo e hibernamos

deixamos de dar notícias

também não queremos que nos falem

nem toquem, nem perguntem

nada

escondemo-nos,

até, de nós mesmos

e não sabemos porquê

ou julgamos não saber porquê

ninguém nos desperta dessa letargia

e ainda bem

ainda bem

Só depois que nos erguemos e, carregados de energia, percebemos

Estivemos a curar-nos

ou a tentar

a tentar

sempre a tentar…

vivemos em intervalos constantes

intervalos mentais

constantes

e estamos exaustos de ser

exaustos de lutar contra nós mesmos

Natal dos nossos (des)encantos

Tenho dado por mim a cogitar, novamente, no sem-sentido em que o Natal se tornou. Não… Acho que não é bem isso… O Natal não tem culpa, pobre Natal tão fofinho…. O sem-sentido sou eu a vê-lo, com o meu olhar crítico e céptico habitual.

Instituiu- se uma espécie de pressão social de que precisamos estar felizes, temos que estar felizes, juntos, muito juntos, ter uma família unida, ser generosos e boa gente… porque é Natal. Temos que dar muitos presentes, gastar o que não temos, comprar amor e felicidade. Afinal é Natal!

Mas, desagradavelmente, é Natal desde Outubro e eu não quero este Natal!

Não quero inauguração de luzes, árvores gigantescas iluminadas, nem iluminações ridículas.

Não quero música de Natal na rua, sempre a mesma aliás, com os mesmos sininhos e coros irritantes, ano após ano após ano…

Não quero ter que me lembrar da família que preciso esquecer. Porque os reis do Natal eram os meus pais e esses já partiram.

Não quero pensar que, depois da ausência da mãe, os melhores natais passei-os a sós, tendo uma cadelinha por família.

Não quero falar nem lembrar do vazio do Natal. Do vazio em que nos deixam os que fingem amar-nos e a quem nos demos sempre tanto.

(…)

A alguns de nós esta quadra festiva desagrada tanto a ponto de entrarmos em burnout por não querer ou não saber dizer não a ajuntamentos, festas daqui e dali, e a conta a pagar é,portanto, a contrariedade e o adoecer mental.

Outros, quando decidem ficar sós, porque Natal é também liberdade de escolha, reflexão, pausa, encontro consigo mesmo, são rejeitados e/ ou altamente criticados. Porque desrespeitam a família, porque se acham superiores, porque … Isto quando é precisamente no seio da pseudo-família onde não se faz Natal!

O Natal constrói -se durante um ano inteiro. Se se espera por esses 2 dias para o fazer, só pode acabar em desastre ou numa farsa.

Onde fica o amor no meio de tudo isto?

Eu cá pertenço aos sem família, por mau feitio, loucura, diferença ou não sei… e pertenço aos que não construíram família. Um ser duas vezes desprezível e inútil.

Querem saber uma coisa?!

Eu amo o meu Natal. Tranquilo, musical, espiritual, cuidado em cada detalhe do que me transmite.

Sem pressas, sem horas, eu não festejo uma comezaina. Celebro antes um estado de espírito e o aniversário do nascimento daquele que veio para fazer a diferença: amar incondicionalmente.

(…)

Será que quando nasce uma criança, os pais, a família, os amigos a recebem com tanta festa?! Com tanto amor, mas com esse amor incondicional?!

C. Santos

24 dez. 2022

o engraxador de sapatos

‘Tava eu cá fora fumando o último cigarro antes de fazer o meu check-in, xingando a bagagem, porque a mochila vivia caindo e minha coluna vertebral já não está p’ra festas faz muito, quando fui interrompida por uma voz melodiosa:

-Boa tarde, Sióra! Quer que eu engraxe seu sapato? Vai ficar bonitinho, bonitinho!

(‘tou calçando ténis)

-Não, obrigada!

-Ah, eu limpo, Sióra!

-Não! Muito obrigada, Seu moço! Eu não quero que você engraxe meu sapato! Eu posso até te dar uns trocados… Mas já não tenho muito, sabe?! É que ‘tou indo embora, gastei quase todos meus reais… Mas eu não quero que você engraxe meu ténis!

(Dou a ele uma mixaria. Me desculpo.)

-Ajuda sempre, ele falou. Agradecido! Ah, agora eu vô mêmo engraxá o sapato da sióra!

-Ah, não, por favor! Te agradeço, mas não!

Explico por que não quero.

Conto das memórias da infância e do jeito que eu via engraxador ser tratado. O jeito que o cara sentava lá, esticando a perna, olhando de alto, mola na calça, quase pontapeando o engraxador curvado. O cenário do arrogante e do subserviente.

Conto a ele que pobre engraxava seu sapato e que meu pai sempre engraxou o dele. E eu o meu.

Falo da nobreza de qualquer trabalho, mas não quero que ele se curve perante mim. (Além disso não engraxo meu tênis, mas não falei isso a ele).

Conversámos um pouco, ofereço uma bala a ele (bala alls falamos aqui, ele disse) e sorriu, com um sorriso invejável, exibindo uma dentadura que só negro costuma ter. Eu sorri também, gostei do “bala alls”. Nós portugueses dizemos “halls”, os que dizemos, claro, mas eu nada disse.

Jefferson. 27 anos. 3 filhos. O último conheceu só com 1 ano e meio.

Conversas cheias de reticências, mas sem porquês. Sem medos. Sem vergonha.

Empatia. Simpatia. Delicadeza.

-Agora eu tenho que ir, Jefferson.

-Vai pa longi?

-Portugal.

-A sióra é portuguesa?

– Sou, sim.

-Veio a passeio ou vive aqui?

-Vim a passeio. Uma semana. Fiquei aqui na ilha mêmo.

-Foi?! Também moro aqui… (E falou o nome do lugar onde morava, todo sorridente. Eu… esqueci. 🙈)

-Agora vou mesmo. Prazer em te conhecer.

-Espero que quando a sióra voltá eu tenha um emprego melhor…

-Mau mesmo é roubar. Se cuide, Jefferson.

E fiz um carinho no rosto dele. Dei tchau, e arrastei minha mala atrás de mim.

Comigo se arrastaram também um milhão de dúvidas. Terei eu machucado o moço, aquele jovem homem que carregava uma caixa de engraxador tão arrumadinha? Terei falado bobagem?

E segui em frente, porque tinha mesmo que ir, sempre pensando: a gente nunca sabe nada. E ficamos sempre sem saber nada. A gente age e pronto. Mas ajudamos sempre tão pouco!

Essa sou eu, a que se orienta pelo instinto e intuição. A que usa o faro, a observação e os sentidos apurados.

Mesmo assim…E com tão pouca capacidade de autoajuda, eu olho à minha volta. Tento. Tento sempre. E não me escuso ao convívio com o desconhecido.

Essa também sou eu. A que rapidamente capta o que a rodeia. Até o sotaque, aquele sotaque quente e aberto, se cola a mim e não é exibição. É algo mais.

Talvez seja família, casa, passado, presente, futuro.

Aeroporto internacional do Galeão

RJ / Brasil

17. 10.2022

tempos estranhos

Vivemos tempos estranhos

de estranhos

ou será que viemos de tempos estranhos?

Será, cada um de nós, um ser estranhamente estranho?

Eu, que sempre fui estranha,

sinto-me cada vez mais estranha aos olhos dos outros

(…)

Serão os meus olhos que me não vêem?!

Quiçá

Quiçá eu seja apenas uma estrela cadente

numa via láctea que foi de férias…

Quiçá eu seja um além e não um aqui,

um ontem sem futuro,

uma semente que flutua e não cai,

que não vislumbra solo seguro.

Quiçá eu não seja eu,

mas a memória de mim,

a incapacidade de me desligar dum ser que foi

e já não é.

Quiçá eu seja apenas

e só

uma quimera impedida de sonhar…

aniversário em vida ausente

Hoje é o dia do teu aniversário no mundo dos vivos, mamã.

Mas, como a ele já não pertences, paraste de fazer aniversários. Agora, apenas se recordam os da tua partida.

Nunca percebi muito bem esta divisão implacável entre a vida presente e a vida ausente. 

No coração de quem te ama, sabes?, tu estás viva.
Apesar de não te poder ver, tocar, cheirar, abraçar... eu guardo cá dentro a memória de ti, tão viva, mas tão viva, que tu caminhas ao meu lado, rindo e chorando, todos os dias!
Quero que saibas o quanto te sinto presente!
(...)
Não passaste dos 78 anos o que, nos dias de hoje, é partir um pouco cedo. Não te conheci na fase da velhice. Apenas a doença te venceu duma forma feroz e avassaladora, libertando-te, quem sabe?, duma vida tão madrasta...
Foi tudo tão injusto, eu sei, mas tu sabias isso muito melhor do que eu! A vida tratou-te muito, mas muito mal. Esta é a minha leitura. Quiçá a tua fosse outra, noutra dimensão... Eras uma resistente, uma guerreira.
Apesar de tudo, resignavas-te. Tinhas paciência e fé. Uma fé inabalável.
Até ao dia em que, julgo, começaste a desistir, a entregar-te...
(...)
Para tudo há sempre um dia!
(...)
Hoje quero dizer-te que me deixaste o mais precioso dos legados. A tua essência.
Tu mesma e a memória de ti fazem-me sentir privilegiada por te ter tido como mãe. 
A mulher que ama das entranhas. 
A mulher que diz na cara, na hora certa, o que quer dizer. 
A mulher que nada teme, a não ser pelos seus filhos. 
A mulher que luta com a mente, acima de tudo.
A mulher, também ela, só.
A mulher de baixa estatura que se transforma em gigante quando tem que ser. 
A mulher de mau feitio. 
A mulher sábia e inteligente. 
A mulher doce, até pelo tom de voz, de lágrima fácil, lutando sempre para a esconder. 
A mulher que se desmontava nos meus braços.

Sabes, mãe? 

Dou por mim a rir como tu, a dizer exatamente as mesmas coisas que tu dizias, a sofrer a injustiça da vida duma forma muito semelhante. Até as mazelas são as mesmas... 
E o sentido de humor?! Cada vez mais se aproxima do teu. 
Sou, cada vez mais, tua alma gêmea. Não era por acaso toda a sintonia que sempre sentimos. 
Eu adivinhava-te, tu adivinhavas-me. 
E estar longe de ti sempre foi, é, será tempo demasiado.

Aos 18 anos eu tive que sair do teu colo, voar, crescer, fazer-me mulher.
E tu soubeste dar-me asas e incentivo.
Mas nem por isso deixei de voltar para o teu colo de cheiro a pão quente, correndo, e de dar-te o meu quando foi preciso.

Feliz aniversário, mamã linda!

Com todo o meu amor, um beijo e outro e outro...
🌾🌾🌾 



A mãe aos 50 e eu aos 52

saudade

Deitei-me à sombra da saudade e chorei baixinho. Ela nada me trazia de volta, muda e quieta, saudade inerte aquela.

Levantei-me e ela seguiu-me. Pensei uma e outra vez em mandá-la aquietar-se onde estava, parada na sua arrogância de saudade, na sua quietude excessiva, quase paralizante e paralizadora, mas acabei por nada lhe dizer. “Será melhor deixá-la livre e à vontade, ou não me sai do encalço”, pensei.

Continuei o meu percurso igual ao de todos os dias, frio, tortuoso e íngreme, tentando apressar o passo para evitar que ela, saudade invasora, me tocasse, ainda que fosse ao de leve.

Cansada daquela quase fuga, olhei de relance para trás e vi que aquela saudade teimosa e insistente me perseguia.

Precisava pôr-lhe um fim. Estava a deixar-me sem ar, sem fôlego, sem energia, sem ânimo.

Por que não lhe gritava, pára, fica onde estás, desaparece, vai-te embora, deixa-me em paz, não vês que te não quero mais?!

Por que não conseguia gritar-lhe nada?!

Por que crescia apenas aquele nó na garganta e saltavam lágrimas amargas dos meus olhos de si já inchados de tanto chorar?!

Acelerei o passo. Ela começou a correr. Ultrapassou-me. “Só pode estar a gozar comigo,” pensei.

Eis que de repente a saudade se virou para trás e correu na minha direção. Abraçou-me e eu senti-me possuída por ela, invadida, enredada, acorrentada… Ali estava eu, a braços com a saudade, carpindo mágoas, dores esquecidas, passando um bálsamo que não chegou a sê-lo…

Numa fração de segundos, minutos, não sei bem, eu e a saudade eramos uma só e dos meus olhos escorria apenas o ardor de lágrimas de anos.

Eis que eu chorava também a sua ausência, o meu não permitir que ela se manifestasse, que gritasse alto bem dentro de mim, só dentro de mim…

Senti-me nua perante ela. Conhecia-me bem demais havia muito tempo. Apenas esperou que eu lhe abrisse a porta… Pediu perdão por ter que forçar a entrada, mas… Até a saudade sabe quando nos deve invadir…

E eu… Eu … Continuei a chorar, por ela, saudade… E por todas as portas que eu fechei e por todas as saudades que já tenho dum futuro que não viverei.

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