Agora escrevo assim: risco a esmo Sobre absolutamente nada e até mesmo Sobre a busca do melhor dia logo à frente, Sobre a bruma que me invade insistente.
Escrevo sobre nada, eu insisto. E desse mesmo nada eu me invisto. Não escrevo sobre a beleza deste dia, Não penso no futuro nem respiro nostalgia.
Risco a esmo estes versos despojados. Risco desta alma o derradeiro, ingente fado: Risco estes versos para esquecer a breve Morte. Risco ao acaso o meu rumo, o meu azar e a minha sorte.
Dormi. Sonhei sonhos de sais. O dia foi mais outro E uma tristeza sem corpo Nem conteúdo Habita as horas Que me preenchem vasos, Alvéolos e interstícios.
A cada hora que passa O mundo me é mais estranho. Quanto mais o mundo conheço Mais desconheço a mim mesmo.
Os sonhos dizem algo Que não sei discernir. O sono renova o ânimo E a vida passa A cada sonho que seca.
Tudo está fora dos eixos, Eis o que os sonhos nos dizem. Mas o ânimo é uma gangorra. E agora os sais são bem vindos. E alguma esperança.
Nada sei. Sequer sei se há algo para ser sabido. Algo que de fato importe. Os homens naufragaram no seu conhecimento. Subverteram a Verdade Em arrogante Gnose E perversas ideologias. Pretenderam alcançar as alturas do Sol Com asas de cera E tomaram a queda como vôo livre.
Ah, Liberdade… Toda queda é livre E pular é livre escolha. Autossuficientes, Acreditam-se mais leves que o ar Até que o dureza do solo Os desperte tardiamente do delírio.
Sob as solas de minhas botas Gritam caminhos por mim trilhados. Eles se abraçam aos meus passos Como lama e escarro jacente Nas calçadas e sarjetares do mundo.
Desci com minhas botas Às latrinas do mercado E encontrei a resposta para a pergunta Que jamais fiz: O que procuro?
A resposta sempre esteve Aqui, bem aqui dentro E no inenso vazio à minha volta. Mas não hei de lançar Pérolas aos porcos.
Hoje percorro outras vias. A carga ainda é pesada E as botas me apertam — Pés cansados De inúteis caminhadas.
Rumo em dor lenta, dor De sentir chama no peito. Brasa, aperto, medo e ânsia, Proximidade e distância, Ardente dor, ardentes tempos De muita seca e chuva em demasia. E a alma afaga Afogadas esperanças Que ventos varrem dos caminhos Dessas vidas transeuntes.
Rocha vermelha. Muita pedra Para um só coração. Que a dor de viver fragmenta E torna em pó Que corre em veias De pedra De gelo De desespero.
Tenho a nítida impressão de que a rua da minha infância encolheu. De fato, o bairro todo — a cidade.
Talvez meu coração tenha encolhido pela escassez de sonhos. Já não sonho, e o que resta desta vida é ranger de portas e de dentes.
Busco em algum sal o sossego para a alma. Enquanto umas coisas morrem, outras vão nascendo, e a rua adormecida e ressecada apenas encolhe, descolore e se sucede em imorredoura senescência.
A rua que me viu crescer há de saber da minha morte, para juntá-la à sua própria.
Fora da rua há muito cansei. Alguém me leve deste jardim. Há muito não sei se sou eu que passo pelo tempo ou se é o tempo assim, apressado. Espero, com esta imagem ainda forte de metal contra vida distraída, que o tempo tenha sido indolor para aquele cão. Algo, na tela do pára-brisa, voou em giro rápido, não sei, não quero, mas penso, aquele pára-choque amassado e os músculos e o corpo, trajeto no asfalto, instante eterno. O menino correu, percebi muito em um relance. Aquele motorista não teve tempo, velocidade consome. O cão desfeito. O menino, a mãe, aflição na face do menino que corre. Talvez a chuva esteja lavando agora o sangue. Talvez a lágrima esteja lavando agora a dor. O passado eterno.
Eu, eu, eu. Esse eu ubíquo, Monocórdico. Ofusca o sol. Obstrui a vida. Obnubla a lua. Dias e noites repletos de eu. Eu que consome as horas. Vampiriza os momentos.
Me afoguei nas águas famintas do eu. Eu, eu te peço: Deixa-me viver esta vida Que é fora de mim. Acorda. Abre os olhos Para vermos o mundo lá fora.
Espelho de fronte.
Semidesperto reflexo.
Escovejo dentes
Sem qualquer sorriso.
Cuspo na pia
O branco de espuma.
Frescor que escoa
Até a quietude do ralo.
Escovejo sorriso
E o sorriso escoa.
Frescor do sorriso espelhado.
Frescor do sorriso no ralo.
A prata da Lua Quisera fosse vermelha Fosse verde ou azul Uma cor menos crua A prata de sempre Do astro sem luz que espelha Espelha e espalha silente A luz da velha estrela Que noutro lado do mundo Performa o giro do dia O dia de sempre O giro sem rumo A noite de sempre A sempre velha luz fria
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, 02 de fevereiro de 2002
Eu vejo a terra
E vejo tristeza.
Terra molhada de chuva,
Tristeza molhada de chuva.
Suja tristeza da terra.
A vejo triste de chuva.
A vejo chuva de terra.
Triste, vejo o que vejo:
É seca a terra em mim
E falta água que em barro
Molde uma alma, enfim.
Mimos, Meus mimos, Mimos meus, Quem me mima mais É Deus, Por permitir que eu viva E aprenda a desmimar, E quando for desmimado, Novo monstro então criado, Vou ensinar que o mimo É util em versos que rimo Por saber aproveitar Punhaladas deste mundo Que nada têm de mimosas E fazem as rimas rançosas De tanto mimar infecundo.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, 27/abril/2003
O vento sopra frio neste outubro de primavera. Nesta latitude o inverno se recusa a partir, Seus tentáculos agarram-se aos dias, Querendo afundá-ĺos num frio eterno.
Não basta o inverno no qual a alma se encontra acorrentada, a natureza parece conspirar para tornar o mundo um sepulcro vivo.
O que falta? Mais sol? Mais sorriso? O corpo e a alma saturaram-se de invernos, de sol, de sais.
O corpo e a alma saturaram-se desta esperança amorfa, destes tolos versos. Eterna espera pelo inevitável. Pensar se tornou insalubre.
Olho para o céu em busca de estrelas E vejo somente a luz da cidade. Quisera somente um instante revê-las, Tão belas, agora ocultas na claridade.
Irreconheci o céu, as constelações De todo borrados pela luz do asfalto. Sonharei esta noite com as imensidões, Dançarei com as estrelas perdidas no alto.
Voltaste? Eis que retornas, Melancolia. Confesso que estranhei a tua falta. Enquanto te ausentaste O sol brotou no teu lugar E a palavra se fez sal de ilusão Na minha ditosa boca Que agora encontras tão calada.
Demoraste. Mais um pouco E esqueceria a tua face Que miro tal um Narciso depressivo. Mas esquecer-te é algo improvável.
Não mudaste em nada. Carregas o teu mesmo véu Com que a mim se achegas Para cobrir-me com tuas sombras. Reclamo? Longe disso. Tu me és tão familiar Quanto a destra e a sinistra.
Achega-te. Senta-te à beira desta alma Como quem regressa ao lar. Não te negarei abrigo, Ainda que teu espectro me consuma.
Diz-me, Melancolia, Em que abismo repousavas? Ou foste sempre eu mesmo Em tua ausência disfarçado?
Miro flores, cores miro Mirações no jardim de tantas horas. Céu de chumbo niquelado E ela aqui, ao meu lado: Ela tornou-se o meu lado, Eu me tornei o seu lado. Por isso miro o gato no jardim. Por isso o gato me mira. Trocamos disparos e reparos Com as paróquias e as comarcas. As paredes no seu sono ereto São paredes na rigidez do seu sono. O sol despertou para mais um dia De sono, de sina, de sanha. O céu derrete-se polimérico Sobre o mundo estarrecido. É preciso. O quê? Desconheço. Mas precisar é preciso. E a cachorra aguarda sua vez De fazer uso da palavra. Canilóquio, pois não.
O livro O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse, não é uma leitura fácil. O autor parece chamar atenção para isso no trecho em que descreve um livro que José Servo examina: “Por fim, puxou um volume encadernado, já um pouco desbotado, cujo título, Sabedoria de um brâmane, o atraiu. Primeiro em pé, logo depois sentado, folheou o livro que continha centenas de poesias didáticas, uma curiosa miscelânea de verbosidade oca e de verdadeira sabedoria, de filistinismo e autêntico estro poético. Não faltava esoterismo a esse livro estranho e tocante, assim quis lhe parecer, mas essa doutrina arcana vinha envolta numa casca grosseira, de fabricação caseira.” De fato, por vezes a leitura é monótona e prolixa, de uma narrativa densa mas vazia de significado. Este não é um livro para entreter, longe disso. O autor buscou algo mais, de modo que não, não é nada fácil este livro. Das poucas resenhas que li deste livro, todas foram muito superficiais e parece que ou o livro foi lido às pressas ou não se compreendeu a mensagem. O jogo das contas de vidro foi o ponto culminante da carreira do escritor, já idoso, e lhe valeu o Prêmio Nobel de Literatura de 1946. O livro é dividido em três partes. A primeira, dividida em 12 capítulos, é uma biografia do protagonista. A segunda parte é um conjunto de poemas escritos por José Servo. Na terceira parte são narradas três “existências” do protagonista, que são exercícios propostos a ele como parte de suas atividades em Castália.
Iniciei a releitura a partir da terceira parte do livro, que narra as três encarnações anteriores de José Servo. Acabei de ler o capítulo intitulado “O Conjurador da Chuva”. Simplesmente magnífico, tanto pelo enredo como pelo conteúdo. Nada melhor que uma releitura passados tantos anos da primeira imersão neste livro. É como se agora eu compreendesse o que na primeira ocasião não percebia. Neste capítulo aborda-se o fato de, apesar do homem primitivo não ter sido dotado do refinamento da razão, seus sentidos e intuição eram mais desenvolvidos. Aborda-se o papel que o medo da natureza, dos elementos, das feras e doenças teve na espiritualização do homem primitivo. Hoje, com a hybris científica, o homem perde inclusive o sentido da vida. A segunda encarnação de José Servo é o tema de “O Confessor”. Neste capítulo, trata-se da encarnação de José Servo na pessoa do penitente Josephus Famulus. Um elemento presente ao longo de toda a obra é o conceito de servir ao próximo, um conceito essencialmente cristão. Näo é acaso o nome do protagonista. Um capítulo dos mais emocionantes do livro. Um momento que chamou de modo especial minha atenção foi quando Dion Pugil falou a Josephus Famulus que o cristão não deve tentar converter os pagãos felizes, mas sim aos infelizes que buscam ajuda e que mais cedo ou mais tarde algo acontece com aquela volátil felicidade e acabam por buscar a Deus. Enquanto em “O conjurador da chuva” a ênfase foi o animismo, nos dois seguintes, “O confessor” e “A encarnação hindu” tem-se respectivamente o cristianismo e a filosofia hindu. O capítulo “A encarnação hindu” é uma belíssima narrativa da vida de Dasa e uma ilustração sobre maia, a natureza ilusória da existência. Neste livro e nos livros Siddhartha e O Lobo da Estepe o autor demonstra influência da filosofia e da espiritualidade orientais, mais notadamente o budismo e o taoismo. Neste capítulo é dada grande ênfase para a ioga, isto é, a praticada pelos ascetas iogues.
O livro é um grande tributo ao indivíduo, à autodeterminação, ao serviço e, sim, à busca da nobreza de espírito. O livro narra a vida de José Servo, cuja trajetória foi marcada por dúvidas, mas também pela transcendência e pelo despertar. A caminhada do protagonista foi marcada pelo serviço ao modo de São Cristóvão, que visava sempre servir aos senhores mais poderosos (para um cristão não há outra coisa que se possa fazer que não seja servir ao maior Senhor, já que toda obra é feita para Sua glória). José queria que sua vida fosse um transcender, um progredir, um despertar ao final de cada etapa da vida, quando o ânimo e as possibilidades parecem se esgotar. Pode parecer algo egoísta, mas é falsa aparência. Quem faz o bem visando seu crescimento somente pode fazer bem ao mundo. Outro aspecto explorado é uma aristocracia do espírito, capaz de transmutar, no período de uma vida, um mero plebeu num verdadeiro nobre. Mas a impressão que tive é que o livro fala muito mais do que está escrito. Toda a vida de José Servo, a constante mudança dos meios na busca de uma transcendência e, finalmente, seu último discípulo, Tito, e o triste desfecho do livro, me fizeram pensar. Havia pensado sobre o tom orientalista do livro, e se talvez Hermann Hesse quisesse expressar, desse modo, maia. Sim, as partes do livro estão interligadas, uma parte explica a outra. Confesso que nesta segunda leitura compreendi muito melhor a obra, mas este é o tipo de leitura para se digerir lentamente com o tempo. É uma obra monumental pela sua complexidade e beleza e o autor faz jus ao Nobel recebido em 1946.
Um lado negativo no livro é a ênfase dada à filosofia e religião orientais. O cristianismo tem um pequeno lugar na obra. A moda orientalista vigorava nos tempos do autor. Como diz Jeffrey Nyquist em “O Tolo e seu Inimigo”: cui bono?
Semidurmo de alma e corpo, feto sob útero de cobertas, na penumbra de um quarto casular.
Tu me chamas para a vida, tu perguntas o que eu tenho. — Não sei, eu digo. Não sei, duvido de mim mesmo. Não sei sequer se me conheço, não sei o que quero, o que sou ou quem sou.
— Meu bem, talvez isto passe com uma xícara de café.
Basta. Não te quero mais. Pode voar pra longe. Sai. Vê, abri a gaiola da minha cabeça. Dispenso as musas. Dispenso as vozes. Inspiração, a que vem? Cala-te! Quero silêncio. Apenas paz. Não me serves. Eu fui teu escravo. Cala-te, vá! A porta está aberta. Não te quero. Segue teu caminho. Bem longe de mim. Só quero paz. Vá inspirar o sabiá.
Desperto em meio a um domingo Feito da mesma substância Do sábado que se foi. Descrevê-lo seria redundar Em motores e chilreios.
A luz deste domingo previsível Inunda o quarto adormecido, Onírica substância de sonhares acordados. Quisera a vida adormecesse Calando horas, corpos e estradas.
Mas de fato não há domingo, ou sábado, ou segunda: A vida é uma única corrente voraz e inominada Sem lugar para sonhos domingueiros. E a luz que aqui adentra É de um sol que não promete Senão algumas horas De outro dia condenado ao olvido.
Há a vida e há a morte. Há o sul e há o norte. Há o azar e há a sorte. Há o fico e o passaporte.
Contigo é melhor assim. Contigo consigo o que sem tino não me atrevo.
Tantos cuidados. Danço tango, valso frevo, veja o ranço desse povo. Despetalo cinco penta peta lados.
Repito e digo, desdigo, despisto. Dois passos e um pito, uma taça para o santo. Uma, se tanto, meia dose, dose cheia, do teu doce, doze e meia, logo após o nosso almoço.
O susto se faz tanto, se faz pranto, entretanto, se Atalanta, neste instante, puxa o carro de Cibele.
(intervalo) – Hoje dormi no trabalho. Até ronquei. Sabe, tenho andado um pouco de cavalo e tenho sentido que o cavalo parece saber onde ir. – Sim ele deve saber de algumas coisas. – Creio que se eu deixar o cavalo de rédeas livres eu chego a algum lugar. – Ele deve ir pro santuário dos cavalos. Todos os animais têm o santuário de sua espécie. Se você deixar um jabuti no chão ele vai andar e andar e andar. Está indo pro santuário dos jabutis. – E os seres humanos, estão indo para onde afinal? – Seres humanos são profunda e irreversivelmente profanos. Fizeram tantos santuários que hoje já não sabem qual é qual, ou qual serve.
Musaluz aspiro convergente Vertente, ver tanto, talvez Inspirando espirais Divagando decimais Ponto traço dois pomos Meia arroba desse grão A hora não é a hora de agora Eis a conta, noves fora Renovo, revelho, vislumbro Medusas rastafaris refratárias Conduzindo o trem-bala Do acaso
Tempo meu corrida contra parede. Tempo meu bala perdida. Tempo meu inútil tempo. Corra, tempo. Não o sigo. Paro e disparo. No espaçoparado. Antes não. Depois não. Reação, reagora.
Suas glândulas mandam Mais que sua razão. As convenções mandam Mais que suas glândulas. E você já não sabe Onde está a razão. Ou se há alguma Verdade sob o sol.
Por quantos lugares devo andar para alimentar esta alma com novidades? Há alguma maravilha que me possa tocar? Ver novas misérias em outros matizes…
Meus tesouros não bastam, Minhas misérias não bastam Para compor o quadro que desejo compor. Há, sim, muita coisa guardada nos porões
Desta minha memória, Mas um poema é um poema E não um show de horrores. E o que quero é tão pouco.
Eu quero um jardim de sempre-vivas E flores miúdas que atraiam abelhas E pequenos bichos alados Trazendo coisas sem peso na alma
Eu quero um jardim repleto de formas E cheiros e cores evocando outros tempos E outros lugares de já ter estado E de já ter sido tão outro e tão sempre o mesmo.
As gérberas vivem do sol e da terra E os heliotropos e as dálias querem tão pouco Basta olhar o sol derramar-se sobre os suspiros E sentir que agora já sou tão outro e tão sempre o mesmo.
Sábado. O sol desponta. A vida adentra mais um sábado. Tu respiras serenamente adormecida. Um pombo arrulha seu hino matinal. A rodovia pulsa sussurrante. A vigília avança sem notícias: Somente os cães e os pombos recitam versos monocórdios. Motores misturam-se a miúdos chilreares — Engano-me. O mundo todo respira num só tom E parece escrever Um poema feito de sábado. E eu aguardo, insone, Fazer parte dos seus versos.
Amanhece um dia 28 de um mês de setembro (De fato, não há muito mais a dizer) Principia um outro domingo, insone, Coberto pela promessa de um dia sem sol.
A luz traz de fora as formas adormecidas E o ar traz o som dos pássaros despertos, Os mesmos pássaros, as mesmas formas De um sempre mesmo domingo.
Passam as horas sonâmbulas arrastando a data, Passam as horas, as coisas e os pássaros neste domingo. Passará o domingo e outros hão de chegar Com nuvens, com chuva, com sol, num 28 qualquer.
Há coisas a serem ditas. Há coisas a serem vistas. Mas a vida é restrita A uns momentos tão parcos De uns sóis que se põem ligeiros Em meio ao pó e a fuligem De uns sóis de ocasos de alma Em fins de tardes sem data.
Enquanto a guitarra chora Me ponho sob o horizonte Entre o céu e a terra E tudo que tenho e sou se encerra, Se cala e perde o encanto.
E pouco importam as coisas Que ainda não foram vistas Pouco importa se há coisas Aguardando serem vistas Do outro lado da rua, Do outro lado do mar, Do outro lado do espelho. Do outro lado da lua, Do outro lado da moeda, Pouco importa haver Alguma coisa a ser vista.
Enquanto chora a guitarra, Quero ficar aqui mesmo, Quero calar aqui mesmo, Nada ser aqui mesmo Eu, e minhas coisas sem nome.
decidi. vou me jogar daqui de cima. e deixar o vento espargir meu corpo em meio nuvens e sofismas.
decidi. vou embriagar meus pensamentos em musicalidade pré-cambriana. vou sugar o sangue de mil virgens maculadas e saciar a sede de ser algo assim excêntrico e sem eixo.
decidi. jogar os dados todos pela janela do acaso. a vida foi lançada após discreta edição.
decidi. lançar-me das alturas. lançado sou mais leve e me elevo às alturas mescalinas. quisera ser um xamã no deserto sob as estrelas. quisera partir e retornar partindo e retornando. decidi parar de ser e querer ser há tanto tempo qualquer coisa de ser ou de não ser. eis meu ser, eis meu não ser, eis os pesos, eis as medidas. apenas sou sem querer ser nem eu nem mais ninguém. procuro meu estofo, evito minha estafa.
decidi. ficar até o momento de partir destas paragens. permanecer suspenso pelas correntes que ascendem das massas bovinosas de onde me origino. daqui colijo o mundo enquanto não sou mundo e o mundo me mantém na dispersão que ora sou.
decidi. abrir as asas para deixar um rastro sobre a vaporosa noite. asas negras de veludo e seda me conduzem no delírio sob uma demente lua. o tempo é muito pouco e o que resta pulsa.
decidi. chorar as campas vazias dos seus mortos que o vento dispersou. ouvir cantos de lamento pelo tempo decorrido desde a queda. ouvir os cantos de louvor pelo tempo que ainda resta. olhar com olhos que vejam. ouvir com ouvidos que ouçam. calar a boca que tanto fala.
decidi. ver cada uma dessas vidas como mandala bem urdida que o tempo há de soprar no esquecimento.
decidi. deixar os olhos se tornarem espelhos de um mundo que esquece a si mesmo. deixar as palavras dissolvidas em murmúrios. serei vulto nas memórias, sem licença ou pegadas.
decidi. quando o tempo me alcançar, vestir-me-ei, de véu, de vento. decidi não mais nomear o que está morto. nomearei o indizível, o intangível, o que vibra entre o ser e o não-ser.
decidi. e ao decidir, desfiz o eu, desfiz o mundo, desfiz o gesto. resta-me o rastro. e no rastro, talvez, novo começo.
Daqui do alto imaginei poder ver melhor o mundo. Mas o mundo daqui de cima não se revela melhor Do que o mundo visto face a face.
Daqui do alto imaginei encontrar alguém melhor. Mas aquele que sou aqui em cima não é melhor Daquele que sempre trago comigo.
Daqui do alto vejo bilhões de almas como a minha, E todas essas almas querem um lugar nas alturas. Mas todos esquecemos que o céu não começa no alto, Começa dentro.
Após muito desejar, após tantos desejos satisfeitos e tantas mais decepções, após tantos domingos extintos, concluo que nada desejo, que a vida é um ruído de fundo para uma realidade incognoscível.
Cada pulso, cada espirar, é evasão de algo para além do meu campo, é um passo a passo rumo ao centro de um vórtice faminto que engole existências e expele vazio.
A cada minuto de cada grande momento, a cada cena de cada ato, a cada agitar das cortinas ao aproximar-se o final da comédia, eu inspiro, espiro e expiro.
“Materialista ateu, ele não acreditava em anjos. Os anjos não ligavam; eles não acreditavam em materialistas ateus”.
Queria escrever sobre anjos, mas eles são muito discretos. Mal ouço os seus sussurros aconselhando minha alma a não se ocupar com o tempo — mais palpável que os anjos.
Anjos não interagem com o tempo, decerto interagem com as almas daqueles que sabem ouvi-los — E eu, atolado no tempo, mal ouço a mim mesmo…
Eu queria ouvi-los para acreditar. Eu queria acreditar para ouvi-los. Quiçá eu acredite neles. Quiçá acreditem em mim.
Nada entendo da angélica fisiologia. Pudesse ao menos entender a fisiologia da esperança…
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 23/09/2025
Citação de frase dita pelo cantor Jimi Joe num dos programas “Aeroplano” da extinta e saudosa Rádio Ipanema de Porto Alegre.
Isso ocorre logo após ter visto um gato-pombo-siamês enterrar, no jardim, uma filosofia preciosa coberta por inequívoco marron glacé.
Sua consorte, a pomba-gata-siamesa, rebuçou uma teoria sobre o para-brisa do automóvel. E sinto-me feliz e esperançoso diante de tais conquistas.
Após um sonho de mil sonhos de coalhada libanesa, tudo se torna cada vez mais claro e transbordante e do púcaro que bebo, estrelada é a noite das Antilhas.
No peito do gato-pombo bate um coração à porta.
No peito da pomba-gata há um coração à janela.
Gato-pombo, pomba-gata, qual tua desiderata? qual tua raison d’être?
à noite as bruxas visitam os jardins coloridos dos sonhos das crianças de todas as idades; noite dessas te reconheço nos jardins dos meus sonhares. desconheço o que ali fazes em meio aos meus espinhos sempre vivos brincando mal-me-quer com uma pequena flor ensimesmada.
arbustos circunspectos te observam sem que notes e me dizem seres estranha, mas não seres errada, fugitiva da loucura de lá fora, de cá dentro, de lá de onde todos fogem, nos acordes de um blues espectral de cá de onde fujo junto aos giros do vinil.
à noite sonho com as bruxas dançando em volta das poções de ervas e cogumelos que jamais hei de provar. à noite eu te vejo nos jardins por mim sonhados, te reconheço sem sequer saber quem és e de ti tenho saudades e da flor que jamais te darei um dia.
agora invoco-te e me ouves, musa caleidoscópica dos meus sonhos acordados, e visitas-me em todos os sentidos, direções e intensidades. agora sou feito de sonhos acordados, de jardins que só existem em mim.
Percorria, à noite, uma alameda de velhos plátanos. Apenas os meus passos contra a estrada de terra cortavam o silêncio. Andava cercado por uma bolha de luz oriunda da lanterna, que iluminava um reduzido perímetro na densa escuridão. A luz revelava os plátanos como espectros a me observarem. Sentia-os, assim como as criaturas que neles se abrigavam, me observando de ambos os lados. Não se tratava de impressão. Eles me observavam, e uma das criaturas da noite dos plátanos avançou contra mim num voo rasante. Curvei-me para trás para impedir o impacto. Uma coruja, decerto, me confundiu com uma possível presa. Ou seria um morcego, talvez atraído pela luz da minha lanterna. Continuei meu trajeto sem mais ocorrências, exceto meus pensamentos que desde sempre me acompanham. Hoje guardo o evento como uma dessas memórias que reviro nos becos do meu passado.
Azeite e vinagre de vinho velho… Classe nitrato, bass reflex, aracnoide. Detrito latifólio no chão da mata. Flato neutro: parada para ouvir o dom de Brahma, a rapsódia dos blastos.
Croma: divindade magnificada na aberrância. Tecla em lata, batucada com lua de catraca e batente. E, domo de ronda, desopilo bronco desatado. Segue teste adiante, acuidade na hipótese de blasfêmia, gota aguda no tapume do zimbório.
Caiu uma ultra anágua, vejo vassoura, som na calçada: vendendo acelga, vai bacuri, Uiraquitã, vai!
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, 27 de outubro de 2004
Ele jamais esqueceu aquela manhã. Mesa posta, sua mãe em franca e dedicada atividade. Ele jamais imaginara até então. Num átimo, algo o enregelou. Um aperto que mais tarde ele saberia definir. Sentiu angústia. Por algum motivo soube que tudo aquilo estava passando rápido e iria acabar. Soube que coisas ruins estavam por vir, que sua mãe morreria, que ele mesmo morreria, que todo o porvir seria um vazio, que tudo naquela manhã era uma cena. Agora ele relembra aquela manhã. Jantou há algum tempo. Ouve um som calmo. Sua mãe, ainda viva, dedica-se enquanto morre. Ele mesmo já morreu várias vezes. Já conheceu alguns infernos, alguns paraísos. Ele continua imaginando. Ele jamais foi capaz de imaginar.
Derrubo a lata da filosofia e reviro seu conteúdo intragável. Resolvo não escrever pensando. Calo os pensamentos e refino o calar. E vejo o ar calmo desta sala repleto de partículas ao sabor da turbulência em que me encontro. As superfícies delimitam as formas por mim vistas e sinto mais que vejo. Sinto dores que indicam que estou vivo e desperto. E o que ouço não desmente essa impressão. Ouço o de sempre, ouço o estar determinístico, diferente do ser, do qual nada mais sei.
A lata da memória, deixo-a onde está. O final da tarde desperta algo que deveria ser calado. Talvez os finais de tarde gostem de vasculhar latas cheias de memórias. Não quero acompanhar a tarde nessa busca. Prefiro mexer nos montes de ideias improváveis que se acumulam no inconsciente.
Talvez alguma música auxilie. Busco no entulho do inconsciente algo bom para reciclar. A madrugada torna-se manhã tão rapidamente. A manhã torna-se tarde tão rapidamente. A tarde torna-se noite tão rapidamente. A infância, torna-se mocidade tão rapidamente. A mocidade, torna-se maturidade tão rapidamente. A maturidade, torna-se velhice tão rapidamente. A velhice… a quero ocaso de luzes e cores.
Sentado no frontispício da rotunda telepática, vi um casal de pombos-gatos-siameses fazendo juras de amor em esperanto espiral. De meus olhos brotaram leite de magnólias recém colhidas do jardim da terceira casa decimal.
Assim mergulhado em líquidos equacionamentos, ouvi o relógio cuspir temporários origamis cujas dobras evocavam tempos verbais inacessíveis.
O pombo-gato macho subiu ao meu colo ronronando disparates a respeito do meu fígado metafísico intragável. Rangendo, os origamis temporais convidavam ao ninho arquetípico e eu, e pombo, e pomba nidificamos num enunciado surreal.
Verbo e vértebra fomos nós ao longo da estação onde passavam alados trens de couro marroquino e essência de fumo cubano.
Eis o fim de um domingo,
domingo herdeiro de domingos ancestrais,
deixando herança para o próximo domingo,
herança essa ser domingo,
para passar como todos os domingos
têm o costume de passar.
Há tantos lugares por onde
meus domingos não passaram
e onde deveria eu passar,
se não trancasse meus domingos
em gavetas de horas desoladas.
Quisera um boteco enfumaçado
e uma mesa de sinuca,
meio bitter com cachaça,
alguma música de alma
e um papo sobre nada.
Mas a razão de ser é a solidão
entremeada de silêncio
em meio ao mais animado alvoroço.
Solidão de ouvir a própria voz,
impregnada na carne desde sempre morrente.
Voz que não se faz entender,
uma muda vontade
de algo que jamais se soube
e nem as músicas mais soturnas revelam.
Da rodovia, o murmúrio incessante. Ouço aves de passagem.
A turba comemora com fogos — pois comemorar é preciso, seja o que for.
Ouço esta dor que me chama para dançar uma dança de dor.
Dançamos, eu e a dor, mais o vinho — esse vizinho do sonho.
Mas é forte a dor e fraco o vinho: não há sonho, nem danço.
No impasse — entre viver o poema e sofrer a dor plena — ocupo um espaço sob a ponte, junto a um rio que já não é rio, mas outra ordem de rio: um torpor, um fastio, não correr para o mar, não correr sob pontes.
Sob a ponte eu rio, sob a ponte sou rio, que no leito sorrio.
Bebo um vinho mais magro que vinho. A esmo escrevo entrevendo pauís entrevados de versos na entropia da lama. Restos de estros no mapa estral do poeta: mutismo de anestro poético.
Sonhos disformes surgem antes mesmo do sono e a vida se acumula em montes feito trouxas pelos cantos e dispositivos inertes.
Beberia fogo de serafino conhaque para queimar algo incerto pelos baixios da garganta e nos porões da inconsciência.
Quem sabe algo saltasse dali, baratas de prata e bronze, ouro de tolo ou tolice de ouro.
Mas é vinho meio água meio vinho, meio vinho meio mágoa, meio mágoa meio trégua pedida pro corpo das dores pedida pras dores sem corpo dores doidas, doídas, dementes.
Relaxa, desacelera. Correste o dia todo — sem alcançá-lo, contudo.
O mundo dá voltas que a vida não abarca e nossos passos não suportam. O dia se foi. E tu ficaste.
Paras num sopetão, mas teus pensamentos seguem como se a vida fosse um único dia cortado por noites: ora sonho, ora vigília de sonhar acordado na velocidade do sono num quarto escuro de lúcidos sonhos.
Relaxa, apaga. De onde vem essa faina? Todos os sais da ciência não a mitigaram.
Será teu ascendente? Nem acreditas nos astros. É fome de vida? É fome de sonho? É fome de fama?
A estas alturas do banquete da vida, nos licores finais, qual é teu propósito?
És algo tão absurdo, tão sem prognóstico… Mal te conheces.
Numa dessas vertiginosas desacelerações do meu espírito, adormeci. Adormecido, vi à janela a mulher vestindo o casaco do sol a tocar um tamborim verde enquanto cantava:
Deixe brilhar o sol Deixe o sol entrar Abra sua alma Não é difícil assim
A lua é assassina À caça de almas tristes Feche a sua alma Não a deixe entrar
A morte veste um casaco De pele de prata minguante Feche a janela Para essa tristeza
Deixe brilhar o sol Deixe o sol entrar Abra sua alma Não é difícil assim
Pele de onça no varal. Casinha de cão. O cão no jardim. Orquídea abriu-se, bela. Doce pé de laranjeira. Três Marias, madressilva. Um poema no quintal. Viver era lá. Viver é aqui. Viver será viver onde e quando viver-se.
Quantas vidas, quantas bruxas retornarão das cinzas do passado que enterrei, dos sortilégios que engendrei?
Quantas semprevivas arranquei para a sala das ilusões.
Quanto riso efêmero. Ilusão, ilusão, vento que não se alcança.
II
O passado invasor emerge para assombrar o dia com sua doçura, com seu amargor. O mal que fiz retorna acusador para assombrar a vida, Satã que engendrei.
III
Do mal que fiz a mim não poupei os anjos que me deram a mão;
fui generoso no dividir o que deveria ser guardado, fui mesquinho com o que deveria repartir.
Mas aprendi e decerto ensinei com a dor que dispersei e que colhi.
IV
Pudesse suprimir todos os erros ou ao menos as memórias, certamente repetiria tudo, tolamente.
Assombrada pelos ecos do passado, a alma calejada é mais prudente.
V
Calarei o vil Satã acusador. Trarei gérberas e semprevivas para a mesa dos meus sonhos, consagrada Àquele que redime.
VI
Das ruínas do que fui construo meu novo altar. Minhas dores, relíquias; meus erros, fundamentos.
A vós, ó Pai, consagro teu novo filho.
VII
Dai-me, Pai, a graça de trilhar o caminho estreito; de guardar para Ti as minhas primícias.
E agora, minha alma, o que eu preciso agora? O que tu buscas, o que queres, o que te falta? O que eu preciso talvez seja algum sono. Há momentos em que tudo se põe tão claro que a alma cai em um letárgico desânimo. Mas não quero dormir. Dormir é como um ensaio da morte. E não desejo morrer. Enquanto há vida há esperança de viver. Viver. Liberta-te minha alma, e sai à procura, deixa que a música que é vida te transporte, liberta-te dessa letargia, voa pelas avenidas repletas de neon, percorre os clichés dos desertos desolados, sobe as torres, desce aos porões, encontra um amor imaginário, performa desencontros e, desencontrada, procura um messias e uma terra prometida. Procura, procura, pois cessar a busca é a morte de uma alma. Busca nos livros, na música que transporta, na trama cibernética, nos templos, nos tugúrios, lupanares, busca tua verdade onde for possível. Busca no cálice de vinho, na aguardente, no absinto. Busca onde for possível. E jamais encontrarás o que já está contigo. Tudo bem, minha alma?
Sobre as pedras, o musgo e o limo Não pensam sobre ser musgo ou limo, Não pensam sobre o tempo. Pensar sobre o tempo e sobre si mesmo É coisa de almas. De almas que desconhecem que pensar não muda o Fado, Somente fá-lo pesar.
Vive a flor sem saber da sua existência. A vida somente pesa sobre a vida que pensa Demasiado na vida. São leves as vidas sem alma, As vidas das flores, do musgo e do limo.
Um peso sem forma é o pensar que pesa nas almas Que se curvam pensando na vida e no tempo. Aprender a arte da flor, a arte de ser, Tão somente viver, Floramente liberto, Do que foi, Do devir.
Ele aprendeu muito cedo a andar. De tanto andar em círculos, fartou-se. Por isso poemas de pés no chão o irritavam. Ele queria aprender a voar E suas asas o prendiam à terra. Ele queria navegar por oceanos de sonho E seu barco encalhava no fundo lodoso. Ele queria aprender a ver o que não foi feito para ser visto. E ouvir o que se fazia mouco aos ouvidos.
Ele visitou todos os clássicos, toda a poesia, tradições, crenças, ritos e épocas. Mas havia algo que ele não explorara, algo que o inquietava, Que o punha perplexo e insatisfeito com sua vida De pés sobre o chão.
Certa vez seus olhos e seus ouvidos se abriram Por um imperceptível momento. O suficiente para que ele preferisse Voltar a andar em círculos.
Eu te saúdo, inimigo de sempre. Há tanto nos conhecemos, E quanto mais nos conhecemos, Mais nos tornamos estranhos.
Muito compartilhamos neste vicioso pareado. Muito conhecemos um do outro — Razão do nosso mútuo desprezo.
Muito exigimos, nossa mútua rigidez. Muito permitimos, nossa mútua indulgência. Muito nos decepcionamos. Muito nos corrigimos. Muito enlouquecemos. Muito sobrevivemos.
Eu te saúdo, meu insólito inimigo, Pois partilhamos nossa insolitude.
Dever-te-ia desprezar, Mas um inimigo assim não se despreza; Se cultiva como espelho que é.
A rua escura não sente a escuridão que a esconde. As palavras não sentem o que falam, Tão somente palavras, tão palavras Nas bocas que as dizem. Que as escrevem. Cuidemo-nos delas, cuidemo-las.
O gato no escuro desconhece ser um gato no escuro. O gato no escuro desconhece as palavras. As palavras não o ameaçam. Ele não ameaça as palavras. Pois ele é somente um gato no escuro. Tampouco a luz ou sua ausência ameaça as palavras. Palavras não têm luz própria, astros errantes que são.
Soltei as palavras para tomar o ar da noite. Deixem que brinquem, que briguem entre si.
Escura é a noite, Vênus perseguida pelos ecos Siderais de cotovias translucentes. Dobra-se o tempo em discreto origami, Suas dobras cingem esse momento.
Vigio as horas e as horas me vigiam. O conflito dos ponteiros se faz nas horas mortas Contorcidas nos espasmos pendulares Da incerteza dos humores oscilantes.
As palavras, para onde foram as palavras? Ei-las. Coloco-as no estojo para evitar extravagâncias. Quanto a mim, sem elas, Pouco posso E me retiro.
Não adormeci esta noite. Dormindo apenas sonho E desperto, aguardo-Te.
Vigio a noite e os meus pensamentos Dirijo-os a Ti, que me deste Este dom de pensar.
Vigio a noite de minha alma Aguardando a alvorada Que só Tu me trazes.
Que eu não pense na vida — Que eu viva a vida por Ti; Que eu não chore o ontem — Que eu me console em Ti; Que eu não tema o amanhã — Que eu confie em Ti.
Eu queria alcançar as grandes alturas; e querendo, sequer pude me erguer. Talvez queira muito, talvez eu precise contentar-me com pouco — que é tudo o que posso querer, o tudo que tenho.
Mas eu nada tenho — nem a mim me pertenço. Queria voar, tão grande altura; no entanto, preciso dar-Te a mão para não rastejar.
Meus passos, sem Ti, são sem direção, meus pensamentos, conturbados. O fim não tarda, e nada vai comigo — sequer esta carne, estes ossos.
Guia-me, para não ser iludido pelos ventos do mundo, pelas coisas debaixo do sol. Seca estas lágrimas de autopiedade; dá-me, em troca, lágrimas de amor por Ti.
Veja, será um pássaro? Um avião? Como um raio atravessando os céus, Como um foguete cortando o espaço, Como uma bala perdida num subúrbio, É a felicidade, Essa coisinha fugidia, Arisca e volátil, Coisa quântica, Incerta como um gato na caixa.
Ninguém jamais a conteve. É mais fluida que o ar. É feita de pura ilusão. E no entanto é tão boa Que todos querem uma pitada. Não importa o preço Dessa especiaria.
Tempo. Há em todo lugar. Às pencas, ramos curvados ao peso do tempo. E todos o fazem escasso. Talvez por ser impossível fazer tanto num mesmo momento. O momento é sempre agora. E agora nunca há tempo para tudo. Tempo para atravessar abismos entre eus e vocês. E o tempo, essa coisa una e múltipla, nos consome enquanto se consome.
Que tal uma conversa? Assim, falar de nada, sobre o tempo — aquele, das chuvas, sobre o amor das pombas sobre o muro…
Assim, falar de tudo, tudo que mais importa, e pouco importa tudo. E o que importa o tempo, se ele não se importa e tudo termina de um modo ou de outro…
E tanto faz passar o tempo pelo qual passamos sem assunto, sem paciência, sem mais tempo.
Atire aos porcos o que lhes apetecer. Não. Porcos não comem pérolas. Se o fazem é puro impulso. Roxa de frio a mão não se move, Não se fecha, não se abre. Nem agride ou acaricia. Dentes são dentes em qualquer boca.
O traço da face e o traço no papel. O tiro que traça o rumo ao alvo. O destino traçado, o caminho. Coentro, páprica, cravo, cominho. Moenda moendo o grão. Uva e vinho. Farelos e restos no prato.
De resto o que resta ou não presta. Calado consente, Olho fechado não sente. Sol natimorto. Lua demente. Cai o breu de bruma Qual véu de alguma Noiva sem noivo, Sem dó ou piedade. Beleza, candura ou maldade. Cheirinho de flores no jardim? O chá esfriou, o chá de jasmim.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre – outubro/2002
Dezoito horas. É este o momento. O mundo parece estertorar. A tarde parece gritar em desespero E um vazio abissal toma meu ser. Somente enquanto escrevo Sinto algum calor, Um certo conforto.
Verão, inverno, Não importa a estação, Esta é a hora, É a vez de ficar suspenso Sobre o abismo Ouvindo ecos e gritos. Esta, esta é a hora Do grande vazio, Do grande murmúrio Do gemido do mundo Cansado, cansado…
Mas isto só pode Ser coisa da minha cabeça. O mundo não para Às dezoito horas.
Há risos também Às dezoito horas E também há promessas Às dezoito horas. E há coisas para encontrar Nos meandros das dezoito horas.
Não posso, Não posso parar às dezoito horas. Às dezoito horas é o momento De me unir ao grande bolo fervente E alegre do mundo. Esse bolo faminto, Surdo, cego E feliz, feliz, Feliz.
Dores de ossos fora do lugar. Eu inteiro estou fora do lugar De onde não deveria ter saído. Se esta escuridão fosse um vinho Eu a beberia seca, tinta, Como sói ser a escuridão. A noite ofega ventania. As rodas singram rodovias, Cargas, vidas, vidas-cargas. Minha vida é minha carga, o meu peso. Peso meu que pesa sobre a terra, Céu que pesa sobre meus ombros. Rodo, voo e navego em rotas espirais Como os insetos em torno às luminárias estivais. Mas no momento todos dormem Em sonhos de casulos. Navego agora buscando as águas de Morfeu Em conformada calmaria. Meu peso pesa. O mundo pesa. A vida pausa.
II
Pausa o peso mas a dor não pausa E a espera corre com o tempo Que percorre toda superfície, Interstício e vilosidade da existência. É preciso alguém que segure o eixo Para a Terra permanecer No seu transe de dervixe. Quem segura o Sol? Quem segura a Lua? Convém calar e caladamente ser, Pois saber isto ou aquilo Não mudará nem isto nem aquilo.
III
A vida é ciranda de luz e de trevas. Sobre os ombros pesa o mundo. Sobre a alma pesam as dores. As dores ensinam E os gemidos recitam O que a dor ensinou. Há tantos poetas com cargas aos ombros. Há tantas odes à dor. Há tantas dores, há tanta poesia Falando da vida que pesa no mundo. Se a vida fosse mais leve O mundo não pesaria tanto. A dor é inerente à vida. Geme quem vive.
IV
Foi-se outro dia, eis a noite. Nova noite, a carga de sempre. Algias e analgésicos, companheiros da labuta. À noite as formigas levam cargas. Decerto são elas felizes. Decerto tomam analgésicos. Decerto não. As formigas e seu propósito. O meu é segurar este céu? Há o céu de cair Se por acaso eu relaxe?
V
Os titãs também dormem. Atlas repousa em travesseiros De nuvens do céu aos seus ombros. E se a acídia tomasse Atlas? Lançaria o céu à Terra? Decerto Atlas é um poeta Para quem a descrença é mote Em vez de desmotivo.
Sonho em sono, Sonho acordado E meu céu é fardo e dádiva.
Apesar do sol que ilumina e aquece este dia E empurra para longe o inverno, Os seus braços secos me envolvem E puxam para a escuridão. Quero a luz e o sol e desejo a vida Mas o inverno rebrota em cada estação dos meus dias.
Há algo que me orbita e me obscurece. Sou a sombra do que devia ser. Assim sou visto e sentido Por toda alma que me vê e sente. Melhor não ser visto nem sentido. Melhor a sombra e o subsolo.
O que dizer da fé, O que dizer da ciência, Que tanto prometem, O que dizer de mim mesmo. O que são os sorrisos que me sorriem? O que são os sorrisos que sorrio? A quem louva o bater do meu coração?
II O sol sabe ser sol apesar das nuvens escuras. A lua sabe ser lua mesmo ao lado do sol. Mas o inverno me abraça Num sufocante não ser Quem eu deveria ser, E me estranho mesmo diante de mim No mais radiante dos dias.
Vá, inverno, me abandone Ao sabor da primavera. Deixe a brisa e as flores renovarem Minha alma.
III
Mas saem verões e entram primaveras, Sucedem-se estações e renasceres, Jamais floresço, Morro morte após morte, Só me resta este corpo em franca decadência. Quem dera eu vivesse Como o mais simplório dos tolos. Seria feliz, mais feliz do que sou.
IV
Ó, vida, eu a temo! Tu és peso, dura carga, És um covil de feras, vida! A temo, a estranho, de ti eu me enfado. Vida, por que me abraças? Tu e a velha dama lutam por mim. Tu te tornaste amarga pois sabes Que ela sempre vence no fim. É a ordem das coisas, tola vida. Vida e felicidade são fugazes lampejos De uma eternidade desconhecida. Esperança é tudo que resta. Esse cimento tão tênue. Esse doce alento.
V
Aprendi a rir da ciência. Quem me ensinou foi a vida. Quem me ensinou foi a dor.
Aprendi que minha fé é mui fraca Quisera não desesperar, Quisera falar de esperança. Quisera sentir um calor Que aquecesse minha alma. Mas aqui dentro é frio, Aqui, neste meu coração.
Quisera acabasse o inverno Do qual saio para logo entrar Com ou sem sol, Com ou sem festa. Quisera não congelar Os corações que me veem.
VI
Pruridos na alma, Pruridos no corpo. Olhar para o passado É olhar só trevas e tristeza Onde também houve luz e alegria. São estas lentes, Esta alma míope Que míope olha o passado O presente e o futuro. Míope, ora confia de mais, Ora confia de menos. Míope, ora se dedica demais, Ora se dedica de menos. Míope, ora espera demais, Ora espera de menos. E de tropeço em tropeço Se desencanta com a vida.
VII
Minha fé é um grão de mostarda. Um grão de areia. Cabe na ponta de uma agulha. Mesmo assim o Pai disse para pedir Mesmo com essa minúscula fé.
Cura-nos, Cura-nos, Cura-nos! Ó meu bom Deus, Vos peço: A nós, tolos e feras, Cura-nos!
Langor de tarde chuvosa. É como roteiro de monótono filme. Meridiano verídico me divide. Ossos e anexos este quem sou. Vida, essas cenas de Plauto, Enganos e desenganos, Ser quem penso, Ser quem pensas, Pensarei? Corta para os canilóquios dos quintais E para a copada da jabuticabeira Que vejo com meus ouvidos tinitosos. Pausa para a dor, A praxe da carne fraca Fortalecida no sofrer. Dormir, dormir, Dormir, morrer. Tudo é descanso, afinal. Mas não quero descanso. Quero ver onde vai dar esta vida. Esta trilha, esta picada No liame do devir.
II
Mas o tempo não é linha, É fumaça de incenso, suave espiral, Galáxia girando no centro Da xícara do pingado. E o pardal cessou o seu discurso. Terei eu sido seu único ouvinte? As coisas têm suas horas. As horas têm suas coisas.
III
Setembro, tu pareces acreditar ser o último, Pareces o cair de cortinas Diáfanas sobre o tempo. Setembro responde sendo setembro. Eu continuo sentindo aromas de cafés não feitos, A pele à flor dos meus nervos.
IV
Talvez o mês ou o tempo Ou algo sem nome Me fale através deste langor. A jabuticabeira já não fala, É um novo silêncio. Até o silêncio se renova em setembro. O silêncio suspira, O silêncio clama por existência. O silêncio dos quintais e casas vazias, Dessas aldeias de setembro. Mas não sou silêncio. Uma multidão fervilha em mim, Lutando para não ceder ao langor deste entardecer.
V
Levanto-me da cabeceira. Quero ver se há pôr do sol. Quero desejar-lhe boa viagem. Mas não. A tarde é nuvens densas. Vão-se dias, ficam nuvens e noites De torpor acumulado. O céu rosna contrariado Despachando memorandos pluviais. O fundo é o mesmo: Tínitus e motores. Há coisas que mudam e Há coisas que não mudam. Eu mudo, emudeço e me desrumo. O vórtex se faz no zênite e subo, Subo rumo ao ralo universal.
VI
Deságuo numa nova noite. A noite é nova e o langor é antigo. E toda noite envelhece com o tempo E o tempo anoitece e logo morre Como as vidas que consomem tempo. Ou é o tempo que consome vidas? Morrer e renascer só é possível vivo. O tempo vive quando há vida. O tempo morre? Quantas mortes morre uma vida? Corta para um trovão. Morre a noite. Langor e madrugada. Aguardo o dia, Outra vida Ou outra morte.
Vejo uma rosa singular no jardim das coisas plenas. Mas os espinhos da roseira não permitem que eu a toque. Apenas olho de longe, pois arrancá-la aos seus espinhos é arrancar sua plenitude.
— Memento mori! Cale-se. Não me diga do que lembrar. Não me ensine a sofrer. Cale-se. Já nasci com saudades. Já nasci lembrando Que o fim é a meta, Que tudo é breve Como um dia de festa Como um sorriso Como um sonho Numa noite a queimar Feito incenso que O vento leva. Por isso cale-se, e:
Não terei sido lido nem por ti? É preciso renovar a minha casa. Serei eu mesmo numa casa renovada? Não terei cansado desta minha casa? Cansado de mudar para ser sempre o mesmo. De fazer sempre o mesmo, De me fazer um personagem. Pois não sou isso, Sequer sou algo, Nada sou, Sou isso, nada, Nada que sou, Nada disso.
Cai a tarde. Dois prédios cinzentos cortam mais da metade do horizonte rubro que agoniza e cuja luz respinga sobre este rosto apagado. Estes prédios cada vez mais escurecem — eu vejo pela janela —, o horizonte apaga-se aos poucos. Um risco, derradeira centelha, um pássaro passou aqui pelo quarto andar.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, outubro/2002
A razão não mais fala, os versos não mais fazem sentido lacrados numa garrafa para quebrarem nas ondas de uma ilha perdida num oceano perdido de um paraíso perdido.
Desliguem, desliguem as máquinas! Interferem, invadem, adulteram minha boa e sã irrealidade. De Pã mal posso ouvir a música que a Nova Ordem tornou abjeta. Até o Crucificado foi proscrito. Desliguem, desliguem os aparelhos. Quero subir para longe desta vida.
Suas almas vestem tal véu de pureza, palavras suaves, gestos de luz. O chão sagrado pisam com firmeza mas os corações, ninguém os traduz.
No templo, são santos de ocasião, na rua, espinhos em pele de flor. Pregam amor: eloquente paixão, enquanto julgam, guardando rancor.
No templo não pisam pensando em Deus, mas como num palco para brilhar. Fornecem razão pra tantos ateus
Que se motivam no seu torpe exemplo Por causa deles se põem a zombar Das maravilhas que brilham no templo.
***
Mas há quem ore sem querer aplauso, que vive a fé sem palco ou papel. E mesmo entre zombarias e caos, guarda o divino em piedoso anelo.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 24/08/2025
Dada a relevância espiritual e humana do tema abordado, o soneto, embora formalmente completo, exigiu um desdobramento lírico. Assim nasceu o pós-soneto — quatro versos adicionais que não quebram a estrutura clássica, mas a expandem com reverência, oferecendo ao leitor um respiro de esperança após a crítica.
Me sinto numa gaiola cercado de coisas que devo pagar. Cercado de compromissos e de mandamentos. Me sinto numa gaiola.
Sim. Eu sei que pago para viver em uma gaiola e sei que a liberdade do pombo paga seu preço na boca do gato. Cul-de-sac.
Lá fora vejo, além das paredes e cabos que conduzem vaidades, o céu envolvendo o poente e as luzes espalhadas em tons de cobre morrente misturadas ao azul que se despede.
O pôr do sol é tão lindo. Quisera o pôr da vida fosse assim.
atraca a morte dos meus tempos tão queridos no cais soturno, vertedouro dos destinos. vês, já é tarde, embarcarei com minha acídia eis que vem a dor, vera dor que antes não havia
e no convés da ausência tudo silencia, tudo é sombras nesta nau sem ter vigias. amava as trevas, não esboçava um sorriso agora vejo que pranteei sem ter preciso.
o barco aporta numa terra nua e fria sinto agora a dolorosa realidade hei de chorar por toda a fria eternidade
hei de sofrer o suprassumo da agonia sinto, sinto, é o destino, está tão perto o golpe é forte, minha vida, eu desperto!
Voo baixo. Muito abaixo desses sonhos. Muito abaixo das estrelas Dos céus de maravilhas. No meu voo, Deliro no silêncio em meios tons. Voo leve junto a pálidos floresceres. Quase toco as superfícies desses seres. Que famintos admiram estas asas. Ouço o bramido desses seres. Tremem minhas asas E logo ganho altura. Volto para os céus de maravilhas Enquanto meu sonho não acaba.
Temo, por vezes temo
o autor destes versos.
De onde brotam?
Uiva nas frestas da veneziana,
Sopra, esquece, dissolve, envelhece.
Leva a razão ao algures.
Lança a razão ao abismo.
Escrutina minha alma.
Como será sua face?
Decerto mente o espelho,
Decerto mente a si mesmo,
Decerto mentem estes versos.
Numa noite de calor, entrou pela porta da cozinha, encontrou repouso sobre um armário. Ensaiou timidamente seu cantar revelando sua visita inopinada. Então iniciou um silêncio de cigarra. A hora agora é doce. Aguda. E a cigarra permanece muda. Pois não há nada a explicar.
esta cabeça que dói, que dói por esta tarde, por este dia, pelo que foi e pelo que há de ser ou não ser. por alguma questão desimportante ou de sumiça importância. sim, por algo ela dói, pois há um peso no mundo e esta alma pesa feito sibilo incessante.
preciso retirar esta barba. é como esculpir pedra bruta que pulsa enquanto pensa pesando, enquanto pesa pensando pensamentos sem peso, peso sem pensamentos, pensamentos que esmagam, pensamentos que vagam, bolhas de vento que são.
pulsa profundamente esta pedra sob esta barba como a cabeça solene e sonolenta de um busto sob os pombos da praça, amantes de bustos e cenotáfios.
pulsa profundamente esta carne sob esta lâmina.
pulsa. pulsa a pedra. pulsa a carne. vive a lâmina.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Gravataí, 2012 Cachoeirinha, 19/08/2025
Brilhou mais uma vez, impávido, o Sol. E tudo cá embaixo esteve o mesmo, assim como acima ou além dele e, acima e além de tudo mais, sempre foi, tem sido e há de ser, sempre e sempre: A mesma querida e inevitável mesmice universal.
Hoje não vi o Sol descer do palco. Eis as dúvidas: Porventura terei perdido algo? O que teria encontrado? Uma revelação? Como abarcar tantos possíveis? (Eis um impossível)
Viver o que é possível ou ver todos os pores do Sol, eis a questão.
Suas palavras chovem sobre a alma um sussurro de possível e impossível ao mesmo tempo,
nos questionando sobre o pôr do sol que vemos todo dia,
sobre a mesmice que parece fixa,
e sobre os momentos em que a alma tenta abarcar todas as possibilidades…
Em seu texto, encontramos o silêncio do universo sussurrando: viver o momento, apesar de todos os impossíveis.
ele queria morar na praia, banhar sua melancolia, confabular com o silêncio, ouvir as vozes caladas.
queria ouvir a conversa da água, do vento e da areia, sobre as intempéries da alma, sobre as angústias de Netuno, sobre os desejos das sereias e sobre a loucura dos homens.
queria ouvir a Lua em segredos com o vento rebentando o mar na orla bramindo como um lamento pela insaciedade do tempo.
ele ouviu no silêncio o que não ouvira antes e compreendeu ser imenso o seu derisório instante.
Independente, sou frasco sem rótulo. Meu conteúdo coletei pelo mundo, Colhi dos meus bens, Colhi dos meus males. Meu escárnio eu guardo Para os que defendem a liberdade Através da rigidez da falsa moral, Através de leis arbitrárias, Aplicadas nos bretes Onde as tribos se reúnem.
Bretes onde lobos reúnem ovelhas Para o abate voluntário.
Sou livre, E a liberdade é solidão. A solidão é silêncio. O silêncio nos faz ouvir Nossa própria voz. A Sua voz.
Independente, aprendi a ouvir Sem dar ouvidos. Aprendi a falar Sem dizer tudo. Aprendi o otimismo Sem o tolo entusiasmo.
Mentimos. Tememos a revelação. Tememos a nós mesmos. Tememos a nossa fé. Preferimos condenar-nos à falsa luz de sorrisos vãos e a falsas esperanças.
Não desejamos remover as montanhas que carregamos sobre nossos próprios ombros. Sísifos que somos, insistimos, insistimos, insistimos. Talvez seja uma pena que pagamos, talvez seja por medo, talvez apenas masoquismo.
Somos surdos. Cegos. Insensíveis. Mentimos a nós mesmos. Mentimos arte, mentimos fé, mentimos amor em todas as instâncias, mídias, lugares e momentos.
No quadro havia um artista Que pintava um quadro E olhava ocupado Eu surgindo no quadro Onde eu olhava o artista Que eu pintava num quadro Onde havia um artista Que pintava um quadro E olhava ocupado Eu surgindo no quadro Onde eu olhava o artista Que eu pintava num quadro… … E percebi que fora do quadro Eu era pintor e pintado.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, 15/02/2005 Cachoeirinha, 13/08/2025
Não nego que sou rocha, Não nego que sou gelo, Não nego meus defeitos Que são tantos quanto a areia.
E, como ela, aceito tuas pisadas E marco tuas pegadas Que o tempo logo leva.
Minha solidez Desfaz-se com o tempo Desfaz-se com a saudade.
Ah, essas pegadas tuas em minh’alma! Já não sou pedra, sou barro Que grudou nos teus sapatos.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 13/08/2025
Pegadas: a conversão pela saudade
Neste poema, o homem duro e impenetrável — rocha, gelo, pedra — revela sua transformação profunda, impulsionada pela saudade que sente. É essa ausência, esse vazio, que o desmancha, assim como o tempo que apaga a solidez, e o torna mais vulnerável.
Ele se vê agora como a lama grudada nos sapatos da amada — um símbolo de entrega, conexão e mudança interior. A saudade não apenas distancia, mas também converte, moldando-o em algo novo, mais sensível e aberto ao afeto.
Assim, o poema explora a força da saudade para transformar até o mais endurecido dos corações.
Os dias passam em vertigem. Em vórtice, queda livre. Almas estateladas no presente. Restos enterrados no passado. Enquanto sonham com o futuro.
O futuro é uma incerteza. Certo é o futuro que se foi Passado afora. Certo é o futuro que se faz Presente. Incerto é sonhar o futuro – utopias. Tolice é fazer do futuro um fantasma.
Certo é o presente que consome nossas vidas: O presente aniquila. O presente envelhece. O presente nos mutila.
Bem ou mal, o tempo hoje não é o mesmo. Corre, dá vertigem… É como um misericordioso golpe. Misericórdia divina Estes dias, Estes anos Tão mais curtos?
detenho, retenho, agora contenho
tudo o que detive e retive e agora vive
feito meu pensamento, meu elemento
num lento crescer de estalactite
pendente no teto, de gota em gota crescente.
algo latente, vejo novelo de fino arame,
que em fio de cobre teço, concebo,
o tecido, limalha fria na pele
em choque, armadura suada,
detenho, retenho, agora suspendo em óxido.
suspeito, suponho: a rocha e a metalidade da alma
retém humores, converte, reverte
e desfaz-se em pátina e poeira fina
que o desencanto leva para longe
do alcance da vontade de viver.
aos olhos desatentos a alma que sofre é bela,
tal sua pátina e a delicadeza do pó.
o sofrimento também faz belos poemas.
No caminho da pausa
Que tanto procuro,
Encontrei alguém parecido comigo
Que disse ter visto alguém
Parecido comigo
Que disse ter visto
Alguém muito mais
Parecido comigo
Falando com alguém tão parecido comigo
Que resolvi dobrar à esquerda,
Talvez à direita,
E sair desta sala
Feita de espelhos —
Que não falam comigo.
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 14/02/2005
Cachoeirinha, 07/08/2025
Aqui estou. De onde vim ou quando, nada sei. Aqui é bom. Tantas rochas nuas. E silêncio, silêncio. Até minha alma cala-se entre estas rochas e tenho paz.
Aqui não vejo a luta pelo sol que as flores travam entre si. Aqui não há fome de amor. Somente as rochas que o tempo decompõe na areia que o vento leva. Para onde? Pouco me importa.
E você? Ainda se importa? —É que ainda não conheceu a tepidez do frio das rochas.
Os limites respeitados. Os limites ultrapassados. Velocidade e paciência. Eu trafego no limite e o mundo me ultrapassa. E a paciência, ah esta paciência que se faz desesperança… que se faz indiferença… que se faz e me desfaz.
Paciência é o solvente do amor próprio. Impaciente, ultrapasso o sinal. E xeque-mate, cul-de-sac.
Nestes becos da alma procuro, aguardo, desespero.
Ó meu Pai, Abba, este cálice com que me embriago seja meu cálice, seja meu óbice, meu refrigério,
posso escrever posso pensar passo a passo. penso e escrevo sobre os passos que dei sem pensar. meus passos, meus atos, escritos na areia gravados no ferro traçados no pó. penso escrever. penso pensar. penso a passo evitando o tropeço.
Esta sala é repleta de portas Que dão para salas repletas de portas Que dão em jardins De caminhos bifurcados Terminados em salas Que são repletas de portas Repletas de olhos mágicos Que mostram as salas Repletas de portas que olham Para o lado de fora Do lado de entrar No teu coração.
Nesta sala Que é feita de portas Que não fecham por fora Que não abrem por dentro Já não sei quem eu sou. Já não sei quem tu és. Já não sei o que vejo. Exceto, talvez, este surdo desejo.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, 14/02/2005 Cachoeirinha, 07/08/2025
Monstros somos, temos tanto e tememos os próprios pensamentos e, tremendo, não enfrentamos sozinhos nossas horas plenas, mudas, ouvindo as próprias vozes
que de dentro nos vêm em tentação vozes vindas de alhures, maldição de incerto monstro em nós adormecido, parasita a toldar-nos os sentidos.
Débeis, consentimos e a voz consome vaga, tênue lucidez da alma em chamas; e sofro, pois o monstro tem meu nome.
Monstro, vejo que o mundo não me poupa nem àqueles imersos em tal trama: Acorda a besta quando a fé é pouca.
Já sentiste algo assim? Estar aqui e em nenhum lugar, olhar para o mundo e não ver nada, olhar para o céu e não ver nada, olhar para o abismo do espaço e não ver nada.
Olhar para o espelho — e não ver nada. Olhar para as gentes e não ver nada.
Esperar, alimentar ilusões, mas nem o mundo, nem o espelho, nem todos os santos nem todos os demônios têm algo a dizer — Apenas têm fome de ti.
Esqueces a beleza da poesia, aqueces tua alma na terra fria. De fato, não importa ser dia ou noite quando a morte quer exibir sua foice.
Um dia tornei-me senhor. Senhor dos meus próprios versos. E, assim, senhor tornei-me. Senhor do meu próprio desterro. Alguém me aconselhou a ter cuidado com as palavras, a cuidar das palavras. Tanto fiz que me dominaram. Senhor dos meus versos, deles tornei-me escravo.
Vibram vozes.
Vibram vivas, vibram.
Vibram vozes de cigarras.
Acompanham outras vozes
que, sem corpo, me acompanham
na quietude desta tarde —
tarde que vibra com as vozes,
neste ocaso em que caímos.
E neste vibrante silêncio eu penso
no que as palavras dizem
e por que tantos dizeres,
sem vírgula, ponto, um suspiro,
cardados no único fio
— do verbo ser.
Eu e as cigarras absortos
Numa somente palavra
Sem pensamento
Palavra cálida que a tarde espalha
Enquanto as horas
Circulam o licor dos vasos meus
Sou continente de algum minério
A palavra é o filão de onde
Para onde, anaconde,
Um abraço
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 2012
Cachoeirinha, 19/06/2025
Uma praça de gramado ruim. Eucaliptos parasitados. Um pai, um filho e cachorra. Carne morrente de algum modo sorri no passeio da tarde.
Yucca gloriosa, jacarandás e alguma outra coisa. A carne dobrou a esquina grisalha pacientemente empurrada e idosa. A cachorra se vai, filho e pai.
Me cansei deste banco. A vida me arrasta adiante. Serei cachorro. Serei pai. Serei filho. Sou carne morrente desde que me tenho por gente.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto alegre, 14/02/2005 Cachoeirinha, 05/08/2025
O poema Um fevereiro subverte as expectativas que o próprio título sugere. Tradicionalmente associado à explosão de cores e à celebração do Carnaval, o mês de fevereiro aqui aparece como palco de uma cena sóbria, cotidiana e melancólica. A paisagem é urbana e desgastada — “gramado ruim”, “eucaliptos parasitados” —, e os personagens são figuras discretas que encarnam a passagem do tempo: um pai, um filho, uma cachorra, uma figura idosa numa cadeira de rodas.
O eu lírico observa e participa desse pequeno teatro da decadência com a lucidez de quem reconhece em si mesmo a mesma “carne morrente” que o cerca. A ambiência é morna, quase neutra, mas o efeito é devastador: o poema sugere que mesmo sob o calor e o ruído festivo de fevereiro, a finitude é quem governa o verdadeiro carnaval da vida.
A obra dialoga com temas existenciais, niilistas, urbanos e gótico-sombrios, oferecendo uma leitura introspectiva da condição humana em sua vulnerabilidade mais silenciosa. Uma praça qualquer abriga, assim, o desfile sem máscaras da morte cotidiana.
Tu, vida, és boa.
O homem comum tem seus bons momentos
mas lhe pesam os maus —
Aquelas horas que não se esquece:
Momentos de pavor, de perda e angústia;
Momentos de pura dor, desilusão, desconcerto.
Ó, momentos,
horas do diabo.
Ó dias, ó tentações,
anos inteiros...
Toda a vida — sob o maldito jugo.
Valei-me todos os santos,
inspirai-me, iluminai meus momentos derradeiros,
para que possa seguir em luz
mesmo nos piores dias.
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 31/07/2025
Faz frio nesta época e nestas profundezas. Algo dorme aqui. Sempre dormiu. Quem aqui jaz já sorriu.
O metal desses sinos matou em idas eras. Hoje dobra sobre os túmulos dos que dormem sorrindo. Hoje durmo. Desde sempre dormi. E aguardo o sono de todos os sonos.
Eu vou lutar. Eu vou lutar. Eu vou lutar. Eu vou matar. E morto, verei a face que me olha do fundo deste meu breu.
Num certo momento ouço a tarde falar.
Sua voz me chega das tipuanas
em arbórea letargia.
O ar ondula, morno e úmido,
como se esperasse um gesto —
um toque,
um sopro,
uma palavra acesa.
As sombras se alongam preguiçosas
e o sol, dourado e espesso,
escorre pelos muros.
Seu calor emana em calidez
de brisa, suave toque a evocar
tua espera.
No fundo das janelas,
há silêncios que suam.
No instante em que a cortina se move,
sei: és tu que atravessa a tarde.
Teu nome, soprado pelas frestas,
desmancha as últimas horas
num lento convite ao abandono.
Cigarras embalam a passagem
do tempo que festejamos
na calada de nossos entardeceres.
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 28/07/2025
Vespertina
En cierto momento escucho hablar a la tarde.
Su voz me llega de las tipuanas
en arbórea letargo.
El aire ondula, tibio y húmedo,
como si esperase un gesto —
un toque,
un soplo,
una palabra encendida.
Las sombras se alargan perezosas
y el sol, dorado y denso,
se escurre por los muros.
Su calor emana en calidez
de brisa, suave toque que evoca
tu espera.
En el fondo de las ventanas,
hay silencios que sudan.
En el instante en que la cortina se mueve,
sé: eres tú quien atraviesa la tarde.
Tu nombre, soplado por las rendijas,
deshace las últimas horas
en lento convite al abandono.
Las cigarras arrullan el paso
del tiempo que celebramos
en el silencio de nuestros atardeceres.
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 28/07/2025
Traduza esta página:(As traduções são feitas pelo Google e não garantimos sua fidelidade poética.)
A vida em sépia
ressuma a nostalgia.
Quando fui à capela que ardia
em glória dourada e singela,
sinos batiam p’ra ti,
Minha doce, amada Reni!
No altar dançavam as chamas
das velas consagradas ao Altíssimo.
Fiéis cantavam hinos em uníssono,
e tudo soava como fosse p’ra ti,
Minha sagrada, amada Reni!
O silêncio se fez oração.
Em cada pedra, uma lembrança;
o som do vento, a exaltação
da alma que vive e não cansa
de amar-te, Reni.
E enquanto o tempo flui calado,
em sépia, a vida se faz encanto —
faz-se meu ardor, a ti consagrado,
luz que não se apaga, manto
da tua paz, Reni, meu eterno canto.
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 28/07/2025
Traduza esta página:(As traduções são feitas pelo Google e não garantimos sua fidelidade poética.)
Dormindo, chamei Joventina. Jamais vi, toquei, nem ouvi; jamais conheci Joventina. Delírio de sonho, decerto, sinais de um mundo entreaberto… É jovem, mulher ou menina?
E você me ouviu fazendo tais rimas com um nome de alguém que não vi. Um sonho sem cor, sem Joventina, apenas um jogo, te juro, Reni!
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 23/07/2025
Poema hipnagógico Traducción al español
Dormido, llamé a Joventina. Jamás la vi, toqué ni oí; jamás conocí a Joventina. Delirio de sueño, sin duda, señales de un mundo entreabierto… ¿Es niña, joven o mujer?
Y tú me oíste rimar así con un nombre de quien nunca vi. Un sueño sin color, sin Joventina, solo un juego, ¡te lo juro, Reni!
Seu João pode ter qualquer nome. Seu João pode ser qualquer um. Seu João é um homem bem sucedido. Seu João tem uma bela família. Até seu cão é um cão de respeito. Seu João é um homem importante. Tudo o que faz recebe aplausos. Seu João passou muito trabalho. Seu João teve uma infância difícil. Até seus vícios merecem respeito. Seu João é um homem tão útil Cumpridor de todos os deveres.
Um grande defeito, contudo, Tem Seu João:
— Ele não sabe fazer poesia.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 19/06/2025
Don Juan Don Juan puede tener cualquier nombre. Don Juan puede ser cualquier persona. Don Juan es un hombre exitoso. Don Juan tiene una familia hermosa. Hasta su perro impone respeto. Don Juan es un hombre importante. Todo lo que hace recibe aplausos. Don Juan ha trabajado mucho. Don Juan tuvo una infancia difícil. Hasta sus vicios merecen respeto. Don Juan es un hombre tan útil, cumplidor de todos los deberes.
Enquanto afino o cálamo Na ausência das ideias Meus tantos sentidos se aguçam O ar se carrega na espera Meu faro detecta o cheiro Do pão no forno vizinho Disparo do meu faro Meu faro panino
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, 19 de abril de 2003
Panadería
Mientras afino el cálamo en la ausencia de ideas, mis tantos sentidos se aguzan, el aire se carga en la espera. Mi olfato detecta el aroma del pan en el horno vecino, disparo desde mi olfato, mi olfato panino.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, 19 de abril de 2003
Lua, saibas que tua luz é alheia E por isto és tão inconstante. Dominas a noite, de brilho tão cheia, E aos poucos te apagas, minguante.
Praticamente te somes, Lua nova, Quando a luz já não te revela. E retornas aos poucos, crescente, Quando o Sol te torna tão bela.
Vês! És corpo escuro de luz não dotada. És tão dependente da luz como sou. Tens sim tanta graça pelo sol revelada, Graça noturna dos caminhos sombrios onde vou.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, 11 a 12/06/2001
Luna
Luna, sepas que tu luz es ajena y por eso eres tan inconstante. Reinas la noche, de brillo tan llena, y poco a poco te apagas, menguante.
Prácticamente te vas, Luna nueva, cuando la luz ya no te delata. Y regresas despacio, creciente, cuando el Sol de nuevo te resalta.
¡Mira! Eres cuerpo oscuro, sin fulgor, tan dependiente de la luz como yo. Tienes tanta gracia por el resplandor, gracia nocturna en los caminos que voy.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, 11 al 12/06/2001
Se viver é preciso, Sem ti, não há motivo. Parto em tua busca, Rastreio em banda larga Tua voz, teu cheiro, teu paradeiro. Desconectado, mesmo pesquiso A razão destas fases, O bem que me fazes. Pesquiso e te encontro. E sinto, fundido em ti, Teu calor, teu morno palor, Teu contato. E pesquiso, e busco, e penso O sentido que tu me trazes A falta que tu me fazes.
Contata-me, E então me arrasa.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 21 de março de 2025
Contacto
Si vivir es preciso, sin ti no hay motivo. Parto en tu búsqueda, rastreando en banda ancha tu voz, tu olor, tu paradero. Desconectado, aun así busco la razón de estas fases, el bien que me haces. Busco y te encuentro. Y siento, fundido en ti, tu calor, tu palidez tibia, tu contacto. Busco, busco, pienso el sentido que me traes, la falta que me haces.
Contáctame, y entonces destrózame.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 21 de marzo de 2025
Chuva para embalar sonos Sonos para afastar Afastar qualquer coisa Coisa da qual se fuja Fugindo da chuva Chovendo na fuga Fuga chuvosa Chuva fugaz Fuga chuvaz Chuva fugosa
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, 4 de setembro de 2001
Tudo está indiferente. Nada há de novo sobre a relva. As mesmas leis imperam na selva. O mesmo azul nas alturas. “Isto é moeda corrente”: Se uns morrem, uns nascem. Se derrete o sol, Ou o mar engole a terra, Eis o cosmos tal como sempre: Tudo em ciclos de inícios e fins.
Me passe o chá de jasmim.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, 2001.
Té en el jardín (Jazmín I)
Todo está indiferente. Nada hay de nuevo sobre la hierba. Las mismas leyes imperan en la selva. El mismo azul en las alturas. “Esto es moneda corriente”: Si unos mueren, otros nacen. Si se derrite el sol, o el mar engulle la tierra, he aquí el cosmos tal como siempre: todo en ciclos de comienzos y finales.
Ouvidos e olhos são meros sensores. O coração sim, este sente. Não mede com régua ou compasso, mas pulsa certezas silentes.
Vê o que escapa às retinas, ouve o que a fala desmente. Nos rumos da vida confusa, é bússola e balança, é guia presente
conduzindo no breu ou na bruma. Se o mundo te trai de repente e a esperança se vai e se esfuma, é dele a tua força, valente.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 17/06/2025
Observação: Poema meditativo e afirmativo, que exalta o coração como centro da verdadeira percepção e força interior. Em versos claros e ritmados, contrapõe os sentidos físicos à sensibilidade emocional, propondo o coração como guia silencioso e valente mesmo nos momentos de perda, dúvida ou ausência de esperança. A imagem final oferece consolo e resistência com sobriedade lírica.
Corazón valiente
Oídos y ojos son meros sensores. El corazón sí, éste siente. No mide con regla ni compás, pero pulsa certezas silentes.
Ve lo que escapa a las retinas, oye lo que la palabra desmiente. En los rumbos de la vida confusa, es brújula y balanza, es guía presente
conduciendo en la oscuridad o la niebla. Si el mundo te traiciona de repente y la esperanza se va y se esfuma, de él es tu fuerza, valiente.
Luar da beira do mar Luar marinho Lua marinha Lua marina Marina lua lá n’horizonte Marina distante Curvatura do mar Quase não posso alcançar Marina espelhada nas águas Brilha marina Lua no mar Meus olhos te sentem Percebem teu leve tocar Prateado na face Teu leve luar ilumina O meu lado escuro Nas ondas de prata Pensamento a vagar Pensamento marino Pensamento lunar
“MEU CUSCO OVEIRO (Autor: Luiz Carlos Barbosa Lessa)
Eu tinha um cusquinho oveiro quando eu era piazito. Ele era tão bonito, tão bonito que nem sei. Meio moleque e arteiro, Mas um baita dum campeiro! Era cachorro de lei.
Campeiraço e peleador! Nos dias de campereada Ajudava a peonada Como se fosse mais um. E num pega de cachorro Não gritava por socorro: Enfrentava o berzabum!
Onde eu andava, ele junto. Pra arrastar água, pescar, Ir ao moinho, passear, Buscar as vacas, em tudo, Mosquito sempre ao meu lado num trotezito pulado …ô guaipeca macanudo!
Bueno, encurtando o causo, eu com franqueza lhe digo que o meu mais fiel amigo nos meus tempos de piazito, o meu melhor companheiro, sempre disposto e folheiro, foi o meu cusco Mosquito.
Lá um belo dia o patrão Adoeceu de verdade. Foram buscar na cidade Um doutor pra lhe salvar. Foi essa vez a primeira Que aquele fim de fronteira Viu um automóvel chegar.
O auto surgiu e eu já estava Disparando pra mangueira, Com medo da roncadeira Daquela coisa danada. Me assustei com a geringonça Dando bufido de onça E grito de mão-pelada.
Mas o Mosquito, esse não! Achou que era um desrespeito Vir assim metendo os peito, Bem na casa do patrão. Era assim que se ia entrando?! E já se botou, acuando, pra cima do animalão.
Mas o auto não parou. O cusco espetou o rabo E, já espumando de brabo, Se atirou para a peleia. Nem le conto… Foi só um grito E lá ficou o Mosquito Esmigalhado na poeira.
Chorei muito, amigo velho. Eu perdera o meu Mosquito, Aquele cusco bonito, Tão bonito que nem sei! Depois, peguei duma enxada e, desviando da estrada, abri uma cova e o enterrei.
Quaje botei uma cruz Ali donde ele ficou… Mas um peão me alembrou que cruz é só pras pessoa. (Ele bem que merecia!… Tinha muito mais valia Que muito defunto à-toa.)
Já que cruz não tava certo, Fui até uma coronilha, Fiz uma boa forquilha E voltei pra onde ele estava. Finquei no chão com firmeza Pra que ficasse em defesa Do cusco que eu tanto amava.
E a forquilha ainda lá está Lembrando o instante de horror Em que chegou o precursor Da tal Civilização
Que um dia invadiu meu pago E chegou fazendo estrago, Entristecendo o rincão…”
Terra, terra aterradora, eis as obras que fizemos. A vós, Terra, as sobras do que comemos. Escutai das nossa vozes de tantos e tantos falares palavras que pouco dizem e silêncios que tanto calam.
Aceitai, pois, nosso legado, e tomai por oferenda: rios mortos, céus desolados, sementes que já não brotam, tantas vidas sem poesia, tristes velhos sem crepúsculo e crianças sem madrugada.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, 03/10/2002 Cachoeirinha, 16/06/2025
Comentário: Neste poema, o eu lírico dirige-se à Terra com uma voz quase litúrgica, denunciando as “obras que fizemos”: um legado de destruição ambiental e vazio existencial. A estrutura em duas estrofes contrapõe a profusão vazia de palavras e silêncios sufocantes à devastação concreta — “rios mortos, céus desolados”, “sementes que já não brotam”. A força do poema reside na conjunção entre o tom ritualístico — “aceitai, pois, nosso legado” — e a carga emocional que evoca o ciclo vital interrompido: “tantas vidas sem poesia, tristes velhos sem crepúsculo e crianças sem madrugada”. É uma ode amarga, que reverbera crítica social e filosófica, mas também convida à reflexão profunda sobre a responsabilidade humana diante do planeta e da existência, destacando a relação com a natureza.
Li sua lista de coisas para fazer antes de morrer. Seus lembretes. Sua agenda. Seu roteiro.
Divertidíssima lista. Divertidíssima essa urgência. Divertidíssima essa angústia. Divertidíssima pressa de antecipar o final.
Cá para nós, meu amigo, já não me faço concessões ou me imponho desejos pois tive de tudo um pouco e até desilusões.
Instantes os tive muito, instantes que não anotei, instantes que se esconderam entre um café e outro, entre um silêncio e um beijo.
Não fui à Grécia. Mas fui ao fundo buscar este poema perdido dentro de mim.
E me bastou.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 15/06/2025
Comentário Neste poema, a ironia inicial — “divertidíssima lista” — age como porta de entrada para uma crítica sutil ao modo contemporâneo de quantificar experiências. O eu lírico desconstrói a lógica da “lista de desejos” em favor de uma vivência mais silenciosa, verdadeira e introspectiva. A viagem interior (“não fui à Grécia... mas fui ao fundo”) se apresenta como mais autêntica do que qualquer roteiro turístico. Com um lirismo sóbrio e uma dicção firme, Listas é também um gesto metapoético: é o próprio poema que emerge do mergulho, do instante não planejado. E basta.
O poeta disse que no caminho havia uma pedra. No meu caminho não havia pedras. Havia aquelas poças onde pés descalços pisavam em despreocupada corrida na chuva em idas tardes de verão.
Algo ficou para trás. Não foram as poças, Não foram as chuvas, Não foram as tardes.
Procuro saber e pergunto a essas pedras o que ficou para trás que tanto me falta agora.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 13 a 23/04/2025
Nave, eis que regressas. De onde virás agora? Quem sabe trazes promessas Nessas luzes de outrora.
O que e quanto dizes À razão destes olhos? Serão mensagens felizes? Será o fim da história?
Tocas meu diapasão E o espaço enlaça o tempo Tuas ondas, tal vibração, As sinto, confundo e penso:
Nesse enlace o tempo passa. Tu, nave, no próprio teu descompasso, Embaraças meus sentidos Há tanto contidos na cápsula, Há tanto retidos no lapso Deste meu contínuo fluxo.
Nave, eis que te vais novamente. Para onde irás agora? Propagas tuas ondas no tempo Difunde-te no abismo da distância Feito os meus pensamentos.
Destino após destino, Levas junto meus sentidos, Levas junto minha memória. Contigo sou peregrino, Sem paradeiro ou história.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Gravataí, 27 de março de 2025
I Enquanto maceram-se os alimentos Vão se ruminando os pensamentos As azias que corroem As idéias que corrompem Regurgitam-se trituradas As mais preciosas esperanças
II Cavalo que sou Macerei do melhor E no fino manto relvado Esterquei minhas abjeções
Asno que sou Ponderei mais que o devido E por vezes descobri tardiamente O erro do caminho escolhido
III Macerado, deglutido Dia a dia ingerido À mesa do tempo que passa Repleta, farta dos eventos servidos
Macerófagos, todos juntos macerando Revirando, remoendo, desfazendo a solidez Devagar se esvai o sumo Devagar se encontra o rumo
Macerófagos macerantes Mastigam, trituram Músculos, ossos Folhas, fibras e sementes
Ruminam dúvidas, Certezas e temores Dilaceram as próprias esperanças Num macerar sem sabores
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, Junho, 2001
Na estação vazia, só ele pousava no banco corroído. Cantava em um idioma que eu entendia apenas aos domingos — ou quando a chuva fingia ser lembrança. Nos demais dias, com ou sem a chuva, ele olhava para seu lugar no banco. Olhava as pessoas nele sentadas e compunha aquelas músicas que somente naqueles domingos eu entendia. Como esperava… como eu esperava aqueles domingos.
Já sentiste algo assim? Estar aqui e em nenhum lugar, olhar para o mundo e não ver nada, olhar para o céu e não ver nada, olhar para o abismo do espaço e não ver nada?
Olhar para o espelho — e não ver nada? Olhar para as gentes e não ver nada?
Esperar, alimentar ilusões, mas nem o mundo, nem o espelho, nem todos os santos nem todos os demônios têm algo a dizer — Apenas têm fome de ti.
Esquece a beleza da poesia, aquece tua alma na terra fria. De fato, não importa ser dia ou noite quando a morte quer exibir sua foice.
ilusões, sementes do desassossego. a vida cansa quando a alma não é mansa. a cada ilusão sucede um desconcerto e o tolo insiste, insiste em murros na ponta da adaga.
irá ele sossegar somente quando tiver virado pó? é bem provável que sequer assim sossegue, que passe a fazer volutas loucas ao sabor do vento quente do inferno.
sonhar com o inferno — outra ilusão! o inferno é viver no desassossego em ilusão após ilusão em inúteis desejares e projetos natimortos.
então ele parou com a poesia e com o sol na varanda.
parar: — eis uma nova ilusão
Pedro Luiz Da Cas Viegas, Cachoeirinha, 10/06/2025
Acordo após sonhos teofânicos. Repreendi o vazio com café quente, era manhã e o mundo ainda era sem forma. Disse “haja”, e houve silêncio, desses silêncios que nos olham de soslaio.
Um vulto de dúvida passou entre a louça e meu espírito. O vulto, o precipitei das alturas; a louça, expulsei do paraíso.
Untei os pensamentos com óleo de alecrim e puro orvalho, dei glória bem baixinho, pra não acordar os mortos dentro.
Fiz vigília nos olhos de quem amo, acendi um salmo de coragem, roguei que a boca do dia não me devorasse. Não pedi milagres. Pedi que a tristeza se afastasse — Vade retro!
E ela, obediente, evaporou. Sem barulho. Como quem entende que foi repreendida sem escândalo.
O homem de paletó exibiu os dados na transparência e enfaticamente concluiu: “Não levem a sério as aparências. O modelo aqui projetado é o reflexo da realidade, é matemático e comprovado, rigorosa formalidade. Não foi baseado nos gritos, no clamor da multidão ou nos reclames aflitos dos alarmistas de plantão.”
I Processamos nos nossos sistemas. Desenvolvemos nossos esquemas. Identificamos nossos problemas. Os problemas, analisados. Digestão dos fatores. Sistemas gestores digerem o que dos sentidos foi afastado. Conclusões precisas, exatas, definem destinos. Instrumentos de análise Decisões, desatinos. A vida é viável. A vida é inviável.
II Os condicionantes arrolados pelo homem de paletó definem modelos a serem adotados pelos viventes dos cafundós. Introduza no homem o conhecimento, um sistema de processamento e dê ao mapa um belo nome. Identifique o problema, mapeie o verde e o vermelho, monte um bem planejado sistema: o homem louvará o aparelho.
Amen
Pedro Luiz Da Cas Viegas Brasília, 10 de maio de 2001
Este poema apresenta, com ironia contida e ritmo lapidar, a lógica do pensamento tecnocrático: cifras e esquemas tentando domar o indomável — a vida. Em dois atos, a voz poética desmonta a pretensão científica de controle total, onde os “sistemas gestores” engolem o real e devolvem diagnósticos exatos sobre um mundo essencialmente incerto. A figura do homem de paletó encarna esse tipo de saber maquinal, alienado dos sentidos, distante do chão dos cafundós.
No primeiro movimento, o tom é quase litúrgico — e por isso mesmo cortante — ao descrever os processos de análise como digestão ritual, com ecos de racionalismo existencial. No segundo, emerge a crítica à fé cega nos modelos, aos dispositivos que prometem salvação sob disfarce de planilhas.
Sem levantar a voz, o poema se move entre o Transcendental / Filosófico, o Existencial e o Satírico, acendendo uma vela torta ao absurdo da tecnocracia como nova religião. O “Amen” final, irônico e resignado, é um suspiro — e talvez também um alerta.
No quarto do mano, algo pulsava em vermelho. Chamava-se Lúcifer. PC de guerra, reino sombrio, domínio proibido. Chegar perto? Jamais houve convite. Mexer? Quase um suicídio digital. Ele clicava e sumia em pastas com nomes cifrados, atalhos pro nada, sons distorcidos do além-linha. “Coisa de filme”, dizia. Mas juro: uma vez vi algo piscando na tela — e não era o cursor. Um dia, Lúcifer apagou. Sumiu sem drama. O canto ficou vazio. Para onde ele levava o mano? Assunto tabu. Até hoje, quando alguém menciona aquele nome, ele sorri de canto — e muda de assunto.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 06/06/2025
# Nota do autor: Sim, o Lúcifer existiu. Era o PC do meu irmão. — máquina imponente, com luzes vermelhas e aura de mistério. Apesar da fama e do nome, nada de profano aconteceu: meu mano sempre manteve a boa conduta e segue vivendo muito bem (inclusive offline).
I Ando. Ando e desando em círculos. Circulares andares. Desandares. Caminhos desandados.
II Solvente, soluto, mil soluços. Debates, embates, maciço abate. Operacionalizo e cumpro. Desgaste, rebate, estado da arte. Siglas sagradas, Rotas dilatadas.
III Contra a primavontade Demolir, advogar o diabo, Revogar o contra-senso, Avanço pós-traumatismo.
IV Primo canto, obra filha, Prima Vera, verdade mãe, Tempos frios, cansamos dias, Quentes cios, vãs alegrias?
V Mente-partícula Particularmente penso Enquanto Pensamos como um todo Dissolvidos neste meio Que translador migrante gira… No coletivo inconsciente.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, dezembro de 2002
Inesperadamente Inês me espera Com ásperas peras Seu rosto silente Que também inespera Que eu espere perante Inês desperada Inês destempera Desesperada Suas peras Seu tempero Sem peras
Vem, ó virgem diáfana e linfática! Fundir-me-ei à tua dança matemática. Arquitextura a lapidar teu frontispício. Exatos eixos, geratrizes, traço auspício.
Teu ventre cifra o infinito em segredo. Mapeio em ti o navegar do meu degredo. Curvo-me ao fulgor que de ti é emanado. Por ti louvo o profano e difamo o sagrado.
Auroras lívidas de silício e alumínio Precederão a minha queda ao teu domínio Enquanto a orbe te estender o palio ancestral Para trazeres até mim esse teu beijo sideral.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 04/05/2025
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Comentário: Sidérea desliza entre o rigor geométrico e o mistério lunar, fundindo ciência e poesia num balé cósmico. O poema evoca uma união transcendente entre o eu lírico e o infinito feminino, onde o sagrado e o profano se entrelaçam numa dança sideral de luz e sombra. É uma ode à fusão entre razão e emoção, matéria e espírito — um convite à viagem pelo desconhecido, guiada por uma virgem diáfana que cifra segredos eternos.
Sonhar, sonhar. Há muito tempo não sonho Os sais, sais da alma, contraceptivos de sonhos. Eram ricos sonhos, sonhos loucos, mundos inteiros calados. Agora, eu sonho acordado, sonhando muito, com muito pouco.
Vejo que se aproxima o final de mais um domingo. Final que não difere de outros tantos finais. Todas as coisas se assemelham aos domingos. Os finais, afinal, são tão semelhantes.
Vejo o final de um domingo que sequer começou. Domingo que viveu sua vida sem aprender a ser um domingo. Um domingo de espera, um domingo iludido. Até o sol deixou este domingo, que se fechou numa noite chuvosa.
Tatuado De repente Me vejo tatuado Com caneta Na cabeça Penseira Pensante Pescante Rosa anjo Rosa mantra Ou simples rosa Ou rosa sorriso Sorrosa sorri Joga sorriso Me joga no jogo Sorrindo
Estranho… Ela falou: Estranho, Você está estranho. Como pode você estar estranho Com todo este cheiro no ar. Emaranhado, Tudo que penso num novelo: Nove elos, Sete selos, Sete pontas do candelabro, Oito raga-mantras, Quatro cantos do mundo. Sete maravilhas, Sete segredos, Sob sete chaves. Mil reinos, Esta vida Por um seu pensamento.
Hoje é algum dia.
Há branco e azul
em algum céu deste dia.
O branco coalesce,
massa cinza e pálida
na rigidez do horizonte
e de um certo céu
de um dia incerto.
Hoje tudo parece
uma muda prece, há de ser?
Tenho andado abatido,
morto andante
em errante andar.
Ente que segue adiante,
caio, queimo, me apago,
virado pó e vapores
feito eu cometante,
feito estrela cadente.
Cometi meu viver.
Viver, meu pecado.
Vim do vazio de uma terra
onde a vida é rara
e a descrença dos crentes
é a moeda mais cara.
Este café, algo doce, doça o fel desta vida. É bem assim, como fosse a existência remida.
O olor que eu inspiro, trégua de um pesadelo. A vida passa num giro sem guia ou sinuelo.
Sorvo o preto amargo p’ra esquecer amargura, p’ra combater o letargo; quem dera desse a cura…
de um penar veterano. Preto amargo, ermida, consolo do sobreano aguardando a partida.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 31/05/2025
Comentário de Noa
Um poema breve e denso como o próprio gole do café que o inspira. Com estrutura quase clássica e métrica enxuta, “Preto amargo” funde cotidianidade e transcendência num lirismo maduro e resignado. O café — presença comum e íntima — torna-se sacramento, remédio, âncora. A imagem do “penar veterano” evoca uma existência sofrida, mas resistente, e a ideia de “aguardar a partida” encerra com elegância um poema de tom existencial, filosófico e ao mesmo tempo profundamente humano.
A fusão entre o cotidiano e o transcendental, a sutileza do tom psicológico / intimista, e o aceno ao mistério final da existência o situam com força entre os teus melhores.
Prezado, por que insistes em fazer chorar? Já não basta um mundo cheio de tragédias? Pensa, de que vale esse teu penar se o mundo é surdo para tuas misérias?
A dor que sentes já foi por demais sentida A dor que sentes já foi por demais cantada Essa desgraçada angústia pela vida é mazela amiúde comerciada.
Subtrai, portanto, tua dor desse alarido Cura tua alma, busca um sentido Não te prostre essa voz sombria
Que azíaga tua alma invade. Canta num poema à chama que arde para livrar-te dessa agonia.
Sou um autômato rococó dentro de uma esfera armilar. Da tela cheia de vísceras salgadas transborda um zinábrio armóreo de brasões que extravasam sangue azul de metileno. Engrenagens e cremalheiras movem o mundo onde golems e homúnculos dançam tango nas pupilas do meu amor adormecido em doce coma numa concha de galáxia espiral nervosamente branco opaca. Mas de que serve tudo isto? Semente de pesadelo sou desde sempre e desde sempre sou este pesadelo. E no final fui eu o Judas e sou agora a serpente encarnada expulsa e abjeta.
A chuva se foi e com o Sol todos saem à rua exibir suas monstruosidades.. Dos poros da terra irrompem miríades de algo sem nome e sem nome é o momento, é o dia, e tudo o que se sucede.
Projeto ser feliz. Sou feliz comendo os frutos da terra condenada. Sou feliz contigo, e tu és bênção e luz, oriente nestas trevas.
Temo a chuva que prenuncia a enchente. Temo cada nova noite que antecede um novo dia. Temo cada novo dia que antecede uma nova noite. Sou puro temor. Temor da chuva, temor de ti, temor do mundo. Sou o teu temor, a incerteza e a dúvida, a falta de esperança, sou. Sou exatamente isto, o não ser, o não florescer, o renascer para um novo breu a cada novo dia, a cada nova noite.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 26/05 – 14/06/2025
———————————————————————————————————————————————————————— Comentário: “Linha do tempo” é um poema de estrutura simétrica e linguagem minimalista que reflete sobre a existência como uma breve ruptura entre dois vazios eternos. O “surjo” e o “vou” assinalam o início e a travessia da consciência, enquanto “desapareço”, “pó” e “nihil” ampliam a ideia do retorno ao nada — uma espécie de eco niilista da condição humana.
Aguarde. O tempo de flores chegará depois destes tempos frios. As borboletas hão de chegar miudinhas, mas coloridas. Miudinhas para escapar dos olhares dos moleques malvados. Virão de lagartinhas miúdas que comerão poucas folhas para as donas-de-casa não as matar nos jardins. Coloridas para amenizar o cinza dessas vidas.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Gravataí, 20/09/2012 Cachoeirinha, 25/05/2025
O que surge já não surge com o mesmo viço de antes. Leio o que escrevo e não há nada a ser lido. Leio linhas vazias, sem sentido, sem fim, de efeito suprimido. O que urge já não urge, nada mais é urgente ou lindo. O que vem tarde está bem vindo, mas não há mais olhos sorrindo. O que surge já não surge com o mesmo viço de antes.
Luz noturna no silêncio que trespassa, Projeta sombras através desta vidraça. Três passos e da distância suave-fria A vejo, me observa, indiscreta companhia.
Brilho projetado nas paredes que me encerram. A noite se faz luz a tantos passantes que erram Observados do alto pela luz suave-fria, Uns percebem, outros não, na noturna letargia.
Alguns dizem, alguns sabem que a noite a ti pertence Mas teu brilho nas alturas a muito poucos convence A não ser, talvez, àqueles que esse brilho seduz,
A não ser, talvez, àqueles que em insones vigílias A espreitam dentre as nuvens de onde o mundo espias… Lua velha solitária. Há quem venere tua luz.
pedro luiz da cas viegas Porto Alegre, 04 de outubro de 2002
Lirismo, moleque maroto, aonde tu foste? Decerto subiste à Lua. A Lua é olho no céu que me olha. Meus olhos na Lua, a Lua em meus olhos. Olhando a Lua, caí enluado. A Lua me olhando, caí aluado. Lirismo se foi a Lua enluar. A Lua aluada mandou-o voltar. Ah, apareceste? Lirismo, moleque maroto, aonde tu foste?
O escuro deste quarto anoitecido demonstrou, e então eu pude recordar a noite anterior e a noite antes dessa até os limites mais profundos do vasto abismo da memória.
Percebi o enorme torvelinho de noites passadas, escoadas no vácuo do passado, e vislumbrei as parcas noites que hão de seguir o mesmo curso.
Percebi, ainda, que a recordação da noite precedente a todas as recordações pulsava em meu esquecimento, viva, surda, pulsante como pulsa o coração no breu.
Lembrei de Funes, que lembrava de todas as minúcias.
Lembrei que quanto mais memórias há, mais se viveu e menos tempo resta.
Lembrei que a memória conspira com o pensamento para trazer a brutal percepção da aproximação do inadiável fim.
A vida tem muito em comum com esses bichos que trocam de pele. O tempo passa e deixa suas cascas vazias. O mundo descarta o que já não lhe serve. O hoje é logo esquecido como cascas vazias de cigarras presas no velho tronco de uma árvore num alegre parque. As cascas não cabem nessa alegria. As cascas das cigarras não cantam, apenas ficam para trás como roupas que já não servem. A vida. O tempo. As cascas.
O que mudará em mim O que mudará sem mim O que mudará sobre mim
Anoitece como tantas noites. Vou ao pequeno quintal onde ouço pequenas criaturas. Olho para o céu. Um denso manto cobre a Terra e dela esconde as coisas desta noite: Lua, estrelas E talvez uma mensagem lá do alto para um notívago errante.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Gravataí, 27/10/2012 Cachoeirinha, 15/05/2025
Estrelas! Olhem, estou aqui! Descubram o que há Dentro de mim. Emitam seus raios Do distante cosmos, Penetrem o íntimo Do que sou. Processem no interior Das suas massas em fusão Meu conteúdo Pétreo, etéreo, fluído.
Mas, tão brutas, Sequer sabem por que brilham, Sequer sabem que existem. E eu, consciente de existir, Sequer sei Por que motivo penso.
Sim, este sou eu: Poeira e pensamentos.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 28 de março de 2025
ao léu, à Lua, estou neste acaso após mais um ocaso imagem que se esquece ao léu, ao lume, primeiras estrelas anoiteço, vou contê-las céu noturno que oferece o voar das noctuas, que ao léu, à luz das lâmpadas da rua atrai o meu olhar errante Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 13/05/2025
A cidade me abraça em concreto protendido. Esmagado vejo sonos sobre rodas de fuligem e sacis suscitando a maciez dos teus cabelos. Pouso junto às barcas do estupor. Te procuro nas minas de oricalco do Orinoco. Tu, louca, mouca, rouca. Ronca usina. Voltam teus cabelos à cidade que me abraça. Quem não sente? Tu, minha garça, sinto, santo, sigo em frente.
Almas cadentes, ardentes almas… Ainda riscam o céu Ocasionais anjos rebeldes. Esta noite pesa sobre a Terra. Do mesmo modo peso Eu e estes pensamentos. Fosse toda rocha E todo gelo cometante Uma alma perdida No abismo firmamento…
Canso. Pois não resta opção. O corpo e a mente A fome e a faina. Há pouco fora desta massa Exceto estática.
Aponto meus sentidos para o éter Buscando um sinal De alguma ideia há muito extinta.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Gravataí, 16/11/2012 Cachoeirinha, 06/05/2025
Não temas por mim. Se há dor, ainda se vive. Dobrei a esquina. Dobrei a espinha. Dobrei os joelhos. Dobrei a dose. O requinte. O recurso. A Tua vontade. O Teu sangue. As vias congestas. Meus projetos. Teus gestos. O Teu sacrifício. Nova manhã. Um novo giro. O mesmo eixo. Pã madrugou. Neste sono Me reúno à minha face oculta. Quando será A próxima crise? O próximo ato? O fim do espetáculo?
A luz invade este quarto, mas ela não chega aqui. Não pretendo falar do sol nem deste dia fadado ao mesmo fim de todos os dias. Nem pretendo falar de mim, irremediavelmente embarcado no fado desses dias. Deus promete a Cruz e a salvação. Pã ainda brinca nos jardins do Senhor. O mercado de commodities, o mercado de pulgas, o mercado de prazeres, o mercado de ilusões. A luz invade este quarto, mas bem aqui só há trevas e este horror alegre.
risos e gargalhos tantos e sou apenas um povoado aldeão protegido por murada sólida e alta da ameaça de outros povoados protegidos por muradas sólidas e altas.
risos e gargalhos, choros, tantas graças e blasfêmias, somos tantos povoados, terapólis que encerramos nas cabeças incessantes. eis o medo, eis o sono a vontade de te ver, a saudade que se foi olha o medo que nos fica já não sei quando será o nosso primeiro oi nossa última despedida.
precisamos pensar em algo agora não há nada que se possa fazer exceto talvez dormir juntos juntos, bem juntos pensamentos unidos não sei acabou foi bom pra você?
Palavra que sei do que falo. Palavra, esqueci que sabia. Palavra, verdade que calo perdida na ponta da língua mordida (meus amigos dentes) Palavra, falei sem pensar. Palavra, o mal que sai e não volta. Palavra, um bem, um verbo bendito. Palavra de honra. Com você, a palavra.
Insone. Nesta noite, me sinto hiperbárico. Apenas ouço ecos e aguardo. Registro tudo com as luzes nascidas dos meus dedos. Registro este nada. Este nada impossível. Impossível como os cães da vizinhança, como você do meu lado a ressonar. Abro a janela e a Lua me sorri um sorriso de escárnio. Ou talvez de compaixão. Um sorriso cansado, cor de prata. Voo até a jabuticabeira. Os pássaros adormecidos não percebem. Vejo outros insones vagando pela noite em silentes voos. Logo nos reunimos ao redor da luminária pública. Nossas asas não estão presas pelo sereno, Mas nossas almas neste sonho impossível.
Comentário: Um soneto imperfeito que se desdobra em paradoxo existencial, entre o fado trágico e a esperança de aprender com os erros. A presença do corvo reforça o clima gótico e simbólico, enquanto a reflexão filosófica sobre o arbítrio e o destino conduz o eu lírico a um novo paradigma.
Entardece. Mais um ou talvez menos um entardecer. Perdi algo novamente. Outro irremediável dia. Vejo uma procissão de nuvens como urupês que brotam num céu ferruginoso. O mundo nasce, cresce e morre num suceder vertiginoso. Logo mais o sol se põe como uma gema envolta numa clara ensanguentada. É o céu de um mundo que nunca cicatriza. Logo mais encerra o dia e ao final de um punhado de mais dias Eu me vou, e além destes lamentos deixo nada, nada E mais um tanto de mais nada.
Estes tempos, este tempo… Apenas os cata-ventos se aproveitam deste tempo. Penso que sou um cata-vento: Fui feito para girar, parado. O mundo guarda segredos de felicidade que não quero desvendar.
Senhor, não permitais que eu me ponha à venda. O grande preço já foi pago pelo melhor dos compradores. Apenas os cata-ventos e as casuarinas compactuam com a revolta do tempo e do oceano.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Gravataí, 13-12-2012 Cachoeirinha, 22-04-2025
Vamos passear. Conhecer novo lugar à margem do Oceano. Mas antes, o pó. Não podemos deixá-lo para trás contendo as nossas marcas. O pó da casa deve ser suprimido para não conspirar com os móveis.
Não… não é preciso ir tão distante às lonjuras dos quasares: Perco-me aqui mesmo; eu, que sou guia e guiado, condutor e conduzido, me desvio do destino.
Conversas leves em leves noites sob a Lua, Cadeirinhas de abrir.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Gravataí 13-12-2012 Cachoeirinha 22-04-2025
“O que é isso, meu amigo? Não me temas! Agora te apegas ao que sempre odiaste… No teu leito o tempo urge: te arrependas Das dádivas que da vida rejeitaste!”
“Senhora, só vos peço algum tempo!” “Tempo? Tiveste todo, e todo o vendeste Ao rejeitar o amor, ao correr com o vento! Por que temer o fim, se da vida esqueceste?”
“Não viste? O tempo se fez rio, E não percebeste a cheia. Foste cego, orgulhoso e frio -“
“Não ouviste os ‘Carpe diem’… E viveste em ilusão sobre a vil areia. É hora. As sombras te sorriem.”
Estrelamentos no céu, padecimentos aqui. Universal urticária na sintonia das almas. Calma, não tento ser épico, jamais criei outros mundos, Mas seus ruídos me adentram em sincronismo de tínitus:
Vejo taturanas ditosas na folhosa verdejante E caramujos fluorescentes e seus sorrisos luminosos, Um bailar alucinado na penumbra do jardim E garatuja indecorosa na parede carmesim…
Ouço harpas em falanges dubstep: Pulsante paraíso dentro deste coração. Bate no compasso do presente, Plange no compasso do passado.
E você, sempre ao meu lado, Dança perdida nos astros Dança presa em torres, Nós juntos nos nossos passos.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 11 de abril de 2025
Brilha um sorriso. Raio de sol em teu rosto De Estrela Polar Desse céu que me brilhas Sorrisos de sóis Sorrisos de luas Sorrisos de estrelas Tuas galáxias
Teu sorriso: Estrela cadente Iluminando minhalma.
-Faço um pedido.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Gravataí, 28/10/2012 – Cachoeirinha, 08/04/2025
Durmo. Via Láctea, Coalho de mil luzes. Ofuscam-me Vazios entre estrelas. Estarão lá Palavras que não brilham, Girando planetárias Em profundo esquecimento? ‐—————————– Quando retornei Do profundo sono Sonhado ao giro lento De constelações Não reconheci o medo, Ele me reconheceu Em improvável déjà vu E me pediu um abraço.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Gravataí, 21/08/2012 – Cachoeirinha, 06/04/2025
Não custa ser este cascalho opaco nos espaços existentes entre brilhantes pedrarias. Darei assim algum sentido aos meus dias fazendo o respaldo fosco ao brilho que não tenho.
Vou pavimentar com a minha existência os caminhos dos passantes consagrados e serei feito do pisar desses solados que quando tenham ido eis que então eu venho.
Cimento a ligar as pedras das paredes de uma casa, raízes sob a terra segurando os taludes das canhadas, não custará estar presente e não visto, e estar vivo.
Serei na areia tua efêmera pegada, colorido grão de mandala condenada, vazio abismo, de estrelas estarei crivo.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, 30 de outubro de 2004
Você, calada, a me mirar, calado. Palavras machucam, disse o poeta Das modas efêmeras. Nada a dizer, melhor o silêncio. Viver em silêncio. Sorrir em silêncio. Falar em silêncio. Chorar. Chorar em silêncio. Rezar. Rezar em silêncio. Amar!
Somos equilíbrios de linhas, Esferas e espirais, Enferrujando austeras, Esqueléticas e enfáticas Em solidão e silêncio Satisfazendo a estética De um solitário universo.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 20 de outubro de 2016 a 30 de março de 2025
Pesa minha existência na forma de um sono e de um fastio das coisas. Os barulhos significam coisas ruins. Martelos em pregos, tábuas batendo, ecos nos arrabaldes vespertinos. Somente ruídos há na minha cabeça e nada além disso posso tirar dela: ruídos sem proveito.
Motocicletas passam como demônios alucinados pela José Montauri, viela entre tantas.
A caneleira se esforça para sobreviver no solo que não lhe é apropriado. Galhos secos cobertos por liquens coexistem com ramos verdejantes que florescem. Florescem.
Apesar de tudo, a vida é um poema. A vida é um poema. A vida é um poema.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Gravataí, 15/08/2012 Cachoeirinha, 28/03/2025
Tsunami, venha e me leve. Lave os caminhos, arrase, lave, leve. Seja breve.
Sim, eu sei, ao chegar eu sei que morro. Eu prometo, eu não corro – Inútil desatino. De longe traga nessas águas meu destino.
Traga tudo que existe nessas ondas. Nessas massas tudo trague. Nessas vagas que assombram.
Lave as orlas. Invada o mar o continente. Lave, leve as vidas desta gente.
Leve, lave as ruas da cidade. Trague, cale os piedosos penitentes. Afogue os presentes, os passados, os ausentes.
Leve os corpos afogados. Lave os fatigados pavimentos. Leve o meu corpo em meio aos excrementos.
E se faça toda fúria suave calmaria. Então retorne ao seu leito n’oceano. E se faça o silêncio logo após cair o pano. E repousem as memórias na placidez das águas frias.
Pedro Luz Da Vas Viiegas Porto Alegre, dezembro, 2001
Tsunami
Tsunami, ven y llévame. Lava los caminos, arrasa, lava, lleva. Sé breve. Sí, lo sé, al llegar sé que muero. Lo prometo, no huyo — inútil desatino. Desde lejos trae en esas aguas mi destino.
Trae todo lo que existe en esas olas. En esas masas trágalo todo. En esas vagas que espantan.
Lava las orillas. Invade el mar el continente. Lava, lleva las vidas de esta gente.
Lleva, lava las calles de la ciudad. Traga, silencia a los piadosos penitentes. Ahoga los presentes, los pasados, los ausentes.
Lleva los cuerpos ahogados. Lava los fatigados pavimentos. Lleva mi cuerpo entre los excrementos.
Y que toda furia se haga suave calma. Entonces retorna a tu lecho en el océano. Y que se haga el silencio justo tras caer el telón. Y reposen las memorias en la placidez de las aguas frías.
Pedro Luz Da Vas Viiegas Porto Alegre, diciembre, 2001
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