Indecifrada

Não, não me pede para compreender-te.
Não desejo mais entender a vida
ou pensá-la exaustivamente.

Passamos pela vida.
A vida nos trespassa.
E tu és meu enigma.

A vida, devo apenas vivê-la.
E a ti, devo muito mais viver-te:
até o último instante, indecifrada.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 24/01/2026

Riscado

Agora escrevo assim: risco a esmo
Sobre absolutamente nada e até mesmo
Sobre a busca do melhor dia logo à frente,
Sobre a bruma que me invade insistente.

Escrevo sobre nada, eu insisto.
E desse mesmo nada eu me invisto.
Não escrevo sobre a beleza deste dia,
Não penso no futuro nem respiro nostalgia.

Risco a esmo estes versos despojados.
Risco desta alma o derradeiro, ingente fado:
Risco estes versos para esquecer a breve Morte.
Risco ao acaso o meu rumo, o meu azar e a minha sorte.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  12/01/2026

Oi amor

Oi, amor
Tudo bem?
Isto não é vida, amor.
E este amor não é vida.
E este amor e esta vida
Sequer são amor.

Oi amor.
Se me escutas, responde.
Sequer sei quando, ou onde
Aquele trem me dividiu
Em opiniões tão opostas
No Terminal da Despedida.

Oi amor.
Espero não estares sentida
Por algo que não prometi
E que aguardas
Com a chegada das chuvas.

Oi amor.
Creio que não me ouves.
Creio que não me vês.
Decerto sequer me pensas.
Tu dormes.
Decerto sequer me sonhas.

…Oi amor. 
   

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  10/01/2026

Nosso amor

É xadrez a tampa desse pote.
É xadrez a toalha sob os limões.
É xadrez o jogo desta vida
Onde sou rei encurralado
Num derradeiro xeque-mate.

Frita o frango.
Faz uma xícara de arroz
Com uma colher de sopa de sal.
Deixa em fogo baixo.
E reza, reza por nós.

Eu vou lutar, mas
A vida não deveria ser uma arena.
De onde vêm esses golpes,
Essa ansiedade,
Essa dor que arde na alma?

Mas talvez não seja o mundo.
Talvez seja aqui dentro, vês?
Vês esta tempestade?
Mas também há um sol serenamente
Brilhando: nosso amor.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 06/01/2026

Relax

Respirei profundamente.
Foi como ar puro
alimentando fogo de forja.
Por um momento
o cinza tornou-se cores.

Por um momento,
através das grades da janela,
entrou a luz
e tudo se tornou
mais vívido,
mais nítido,
mais claro.

E a mosca
perdida na vidraça
me esclareceu
o quanto podemos nos perder
em errantes voos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 28/12/2025

REFLEXÃO 3


A morte não é nada.
Pior é o que pode vir depois.
Pior ainda é não poder escolher o traje.

Restos

O espelho reflete a parede
às minhas costas.
A parede reflete a luz
sobre ela jorrada
de um ponto no teto.

O teto se abre exibindo
o mecanismo do tempo,
suspenso no fundo dos olhos
com que miro
alguém no espelho.

Tanto tempo repousaste
sem perceber que te ias
levado pela corrente.
O que de ti restou
agora te mira desse espelho.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 27/12/2025

Letargia

Neste Natal cantam os galos.
Rasgam o sossego com seus gritos.
É cinza o tempo que escorre,
É cinza esta dor que me consome a alma.

Os galos advertem.
Acumulei em demasia
As paixões de todo descartáveis
E neguei o que em mim ainda ardia.

As poças entre as pedras da rua
As vejo através das grades do portão
E as folhas e o cão e minha alma
Adormecem em cinzenta letargia.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 25/12/2025

E alguma esperança

Dormi.
Sonhei sonhos de sais.
O dia foi mais outro
E uma tristeza sem corpo
Nem conteúdo
Habita as horas
Que me preenchem vasos,
Alvéolos e interstícios.

A cada hora que passa
O mundo me é mais estranho.
Quanto mais o mundo conheço
Mais desconheço a mim mesmo.

Os sonhos dizem algo
Que não sei discernir.
O sono renova o ânimo
E a vida passa
A cada sonho que seca.

Tudo está fora dos eixos,
Eis o que os sonhos nos dizem.
Mas o ânimo é uma gangorra.
E agora os sais são bem vindos.
E alguma esperança.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  26/12/2025

Liberdade 2

Nada sei.
Sequer sei se há algo para ser sabido.
Algo que de fato importe.
Os homens naufragaram no seu conhecimento.
Subverteram a Verdade
Em arrogante Gnose
E perversas ideologias.
Pretenderam alcançar as alturas do Sol
Com asas de cera
E tomaram a queda como vôo livre.

Ah, Liberdade…
Toda queda é livre
E pular é livre escolha.
Autossuficientes,
Acreditam-se mais leves que o ar
Até que o dureza do solo
Os desperte tardiamente do delírio.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 21/12/2025

Botas

Sob as solas de minhas botas
Gritam caminhos por mim trilhados.
Eles se abraçam aos meus passos
Como lama e escarro jacente
Nas calçadas e sarjetares do mundo.

Desci com minhas botas
Às latrinas do mercado
E encontrei a resposta para a pergunta
Que jamais fiz:
O que procuro?

A resposta sempre esteve
Aqui, bem aqui dentro
E no inenso vazio à minha volta.
Mas não hei de lançar
Pérolas aos porcos.

Hoje percorro outras vias.
A carga ainda é pesada
E as botas me apertam —
Pés cansados
De inúteis caminhadas.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 20/12/2025

Veias

Rumo em dor lenta, dor 
De sentir chama no peito. 
Brasa, aperto, medo e ânsia, 
Proximidade e distância, 
Ardente dor, ardentes tempos 
De muita seca e chuva em demasia. 
E a alma afaga 
Afogadas esperanças 
Que ventos varrem dos caminhos 
Dessas vidas transeuntes. 
 
Rocha vermelha. Muita pedra 
Para um só coração. 
Que a dor de viver fragmenta 
E torna em pó 
Que corre em veias 
De pedra 
De gelo 
De desespero. 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Cachoeirinha,  20/12/2025 

Ruas


 
Tenho a nítida impressão de que a rua da minha infância encolheu. 
De fato, o bairro todo — a cidade. 
 
Talvez meu coração tenha encolhido pela escassez de sonhos. Já não sonho, e o que resta desta vida é ranger de portas e de dentes. 
 
Busco em algum sal o sossego para a alma. Enquanto umas coisas morrem, outras vão nascendo, e a rua adormecida e ressecada apenas encolhe, descolore e se sucede em imorredoura senescência. 
 
A rua que me viu crescer há de saber da minha morte, para juntá-la à sua própria. 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Cachoeirinha,  13/12/2025 

REFLEXÃO 2

O autoconhecimento é aquele processo no qual o indivíduo, ao se conhecer cada vez mais, cada vez mais se desconhece.

Prognóstico II

Eis meu ocaso.
Sem cores.
Apenas cinza e dores.
E este velho medo.

Tarde, é tarde.
Não há tempo.
Não há modo.
Resta o medo.

O medo que aperta o peito.
O medo incerto e não sabido.
O medo fera.
O medo maltrapilho.

Aguardo o início.
O decorrer.
O desfecho.
O prognóstico.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 12/12/2025

Pronóstico II

He aquí mi ocaso.
Sin colores.
Solo gris y dolores.
Y este viejo miedo.

Tarde, es tarde.
No hay tiempo.
No hay modo.
Queda el miedo.

El miedo que aprieta el pecho.
El miedo incierto y no sabido.
El miedo fiera.
El miedo andrajoso.

Aguardo el inicio.
El transcurso.
El desenlace.
El pronóstico.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 12/12/2025

Fora da rua há muito cansei – in: Santuário

Fora da rua há muito cansei. Alguém me leve deste jardim. Há muito não sei se sou eu que passo pelo tempo ou se é o tempo assim, apressado. Espero, com esta imagem ainda forte de metal contra vida distraída, que o tempo tenha sido indolor para aquele cão. Algo, na tela do pára-brisa, voou em giro rápido, não sei, não quero, mas penso, aquele pára-choque amassado e os músculos e o corpo, trajeto no asfalto, instante eterno. O menino correu, percebi muito em um relance. Aquele motorista não teve tempo, velocidade consome. O cão desfeito. O menino, a mãe, aflição na face do menino que corre. Talvez a chuva esteja lavando agora o sangue. Talvez a lágrima esteja lavando agora a dor. O passado eterno.


Vida louca, coração de rocha vermelha.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 200?

Lírios e pássaros

Dias longe de casa.
Dias sozinho.
Chove a água que se derrama das almas
Sozinhas, caladas.

Mas sejamos como esses pássaros
E esses lírios do campo
Que não planejam nem temem
O decorrer e o fim dos seus dias.

Que passe essa chuva.
Que passe este peso.
Que passe esta vida
Como brisa carregando suave olor.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Brasília, 27/11/2025

Sucintamente

Poemas.
Prefiro-os
À toda arte prolixa.

Vê: Os sentidos não falam.
A beleza não fala.
Vê: com pouco, muito se diz.

A ti, meu olhar
E uns dois versos
Tirados do coração:

Sucintamente
Te amo.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  15/11/2025

Eu

Eu, eu, eu.
Esse eu ubíquo,
Monocórdico.
Ofusca o sol.
Obstrui a vida.
Obnubla a lua.
Dias e noites repletos de eu.
Eu que consome as horas.
Vampiriza os momentos.


Me afoguei nas águas famintas do eu.
Eu, eu te peço:
Deixa-me viver esta vida
Que é fora de mim.
Acorda.
Abre os olhos
Para vermos o mundo lá fora.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  15/11/2025

REFLEXÃO 1

A todos aqueles que admiram Lúcifer como sendo o primeiro rebelde e descontente, eu digo que ele também foi o primeiro condenado.

Dentifrício

Espelho de fronte.
Semidesperto reflexo.
Escovejo dentes
Sem qualquer sorriso.
Cuspo na pia
O branco de espuma.
Frescor que escoa
Até a quietude do ralo.
Escovejo sorriso
E o sorriso escoa.
Frescor do sorriso espelhado.
Frescor do sorriso no ralo.

pedro viegas porto alegre 11/04/2005

Extinção

Lua, te vejo diferente.
Ou sou eu que diferentemente
Te percebo
À medida que me vou passando
Pelas fases que me restam?

Lua, não é possível
Que sejas assim, tão outra.
Mais possível é que eu seja
Mais um outro de tantos
Que passaram.

Minhas últimas fases,
Lua, agora vejo com assombro.
Sob teu frio, sinto meu calor,
Meu brilho em extinção.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  10/11/2025

Regostar

Longa foi a noite
E grande a distância
Entre nossos sonhamentos
Mas a noite passa
E a aurora traz à tona
Aquilo que de nós
Sempre sonhamos

Clico-me reativando
Meus internos mecanismos
E revivido,  te revejo
E te revendo,
Te regosto.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 03/11/2025

A vida não tem replay

A vida é fita sem cortes.
A vida não tem edição.
A vida não rem roteiro.
A vida bate no peito.
A vida — bate à porta.

A vida, a vida urge.
A vida corre com a pressa
De um trem desgovernado:
Lá vai,  levando adiante
Essas vidas passageiras.

A vida e seus tropeços.
A vida e seus acertos.
A vida e seus acasos.

A vida não tem replay.
A vida não tem replay.
A vida — não tem replay.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  02/11/2025

Prata

A prata da Lua
Quisera fosse vermelha
Fosse verde ou azul
Uma cor menos crua
A prata de sempre
Do astro sem luz que espelha
Espelha e espalha silente
A luz da velha estrela
Que noutro lado do mundo
Performa o giro do dia
O dia de sempre
O giro sem rumo
A noite de sempre
A sempre velha luz fria

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 02 de fevereiro de 2002

Mais estranho do que de costume

Ela me achou mais estranho
Do que de costume
Ela, logo ela,
Que jamais me viu
E criou a intimidade
De me achar estranho.

Para mim é ela
Mais uma entre milhões
Que jamais me viram
E da qual já me farto
Justamente por jamais
Tê-la conhecido.

E já me farto
Antes que a minha estranheza
Realmente
Se aprofunde nela

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto alegre,  03/11/2004

O poeta perdeu o tino

O poeta perdeu o tino.
Agora deu-se ao vezo
De poetar ao acaso
E de vagar sem destino

Ao sabor de loucos versos
Que tira da sua pena
E canta com sua voz plena
Para ouvir o universo.

Queria ser um poeta
Feliz na minha loucura
Viajante de lonjuras
Um rei, quiçá profeta.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  29/10/2025

Desejo

Encontrei uma lâmpada
Quando andava
Sob o breu das horas mortas.

O gênio àquelas alturas
Concedia somente um desejo.

— Conceda-me inspiração.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  29/10/2025

Barro


Eu vejo a terra
E vejo tristeza.
Terra molhada de chuva,
Tristeza molhada de chuva.
Suja tristeza da terra.
A vejo triste de chuva.
A vejo chuva de terra.
Triste, vejo o que vejo:
É seca a terra em mim
E falta água que em barro
Molde uma alma, enfim.

Pedro Viegas
Porto Alegre, maio / 2002

Mimos em rimas


Mimos,
Meus mimos,
Mimos meus,
Quem me mima mais
É Deus,
Por permitir que eu viva
E aprenda a desmimar,
E quando for desmimado,
Novo monstro então criado,
Vou ensinar que o mimo
É util em versos que rimo
Por saber aproveitar
Punhaladas deste mundo
Que nada têm de mimosas
E fazem as rimas rançosas
De tanto mimar infecundo.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 27/abril/2003

 







Outubro

O vento sopra frio neste outubro de primavera.
Nesta latitude o inverno se recusa a partir,
Seus tentáculos agarram-se aos dias,
Querendo afundá-ĺos num frio eterno.

Não basta o inverno no qual a alma se encontra acorrentada, a natureza parece conspirar para tornar o mundo um sepulcro vivo.

O que falta? Mais sol? Mais sorriso?
O corpo e a alma saturaram-se de invernos, de sol, de sais.

O corpo e a alma saturaram-se desta esperança amorfa, destes tolos  versos. Eterna espera pelo inevitável.
Pensar se tornou insalubre.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 28/10/2025

Multidão

Multidão

E então alguém diz
-O que vais fazer agora?
E outra voz responde
-Não sei para onde ir.
Sou muitos neste corpo só.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, maio 2002

O aquecedor me falou

O aquecedor me falou:
— Isso é tudo 
o que temos.
Respondi 
que há muito
a pensar 
mas descremos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha, 11/06/2025

O sono de um anjo

Quisera ter palavras e usá-las
Para dizer-te que teu sono
É sono de um anjo.

Quisera ter o dom
De fazer-me alado
E estar contigo em teus sonhos.

Adormeço,
Saio ao teu encontro
E sonhamos luz.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  27/10/2025

Olho para o céu

Olho para o céu em busca de estrelas
E vejo somente a luz da cidade.
Quisera somente um instante revê-las,
Tão belas, agora ocultas na claridade.

Irreconheci o céu, as constelações
De todo borrados pela luz do asfalto.
Sonharei esta noite com as imensidões,
Dançarei com as estrelas perdidas no alto.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 26/10/2025

A você que sabe viajar

A você que sabe viajar sem necessitar consumir substâncias, a você que sabe sentir a correnteza do tempo em ciclos de eternidades de aquis e agoras:

De onde venho nada tenho a dizer que seja novo.

Aqueles boulevards en France não são muito diferentes das avenidas cheias de passos calmos e lentos, nervosos e rápidos deste lado do oceano.

Dormi profundamente um sono repleto de tensa vigília. Despertei ainda mais tenso. Ainda estou aqui e ainda é agora, mas é mais ameno.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  26/10/2025

Texturas 2

A beleza da vida depende do ângulo sob o qual é olhada.

Deambulo

Deambulo plenamente
No amplexo do concreto.
No ar semirevolto,
Tepidez de plenilúnio.

Chão de ruas sujas,
Sarjetares de infortúnio.
Cresce a pressa.
Passos adensados no trajeto.

Confluem vistas para o ponto.
Vago em vias.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 22/05/2012

Melancolia 2

Voltaste?
Eis que retornas, Melancolia.
Confesso que estranhei a tua falta.
Enquanto te ausentaste
O sol brotou no teu lugar
E a palavra se fez sal de ilusão
Na minha ditosa boca
Que agora encontras tão calada.

Demoraste.
Mais um pouco
E esqueceria a tua face
Que miro tal um Narciso depressivo.
Mas esquecer-te é algo improvável.

Não mudaste em nada.
Carregas o teu mesmo véu
Com que a mim se achegas
Para cobrir-me com tuas sombras.
Reclamo? Longe disso.
Tu me és tão familiar
Quanto a destra e a sinistra.

Achega-te.
Senta-te à beira desta alma
Como quem regressa ao lar.
Não te negarei abrigo,
Ainda que teu espectro me consuma.

Diz-me, Melancolia,
Em que abismo repousavas?
Ou foste sempre eu mesmo
Em tua ausência disfarçado?

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 26/10/2025

Mirações

Miro flores, cores miro
Mirações no jardim de tantas horas.
Céu de chumbo niquelado
E ela aqui, ao meu lado:
Ela tornou-se o meu lado,
Eu me tornei o seu lado.
Por isso miro o gato no jardim.
Por isso o gato me mira.
Trocamos disparos e reparos
Com as paróquias e as comarcas.
As paredes no seu sono ereto
São paredes na rigidez do seu sono.
O sol despertou para mais um dia
De sono, de sina, de sanha.
O céu derrete-se polimérico
Sobre o mundo estarrecido.
É preciso. O quê? Desconheço.
Mas precisar é preciso.
E a cachorra aguarda sua vez
De fazer uso da palavra.
Canilóquio, pois não.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 20/10/2025

Texturas

Quantas palavras uma imagem economiza. Quantas coisas as palavras banalizam.

Resenha – O jogo das contas de vidro – Hermann Hesse

O livro O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse, não é uma leitura fácil. O autor parece chamar atenção para isso no trecho em que descreve um livro que José Servo examina: “Por fim, puxou um volume encadernado, já um pouco desbotado, cujo título, Sabedoria de um brâmane, o atraiu. Primeiro em pé, logo depois sentado, folheou o livro que continha centenas de poesias didáticas, uma curiosa miscelânea de verbosidade oca e de verdadeira sabedoria, de filistinismo e autêntico estro poético. Não faltava esoterismo a esse livro estranho e tocante, assim quis lhe parecer, mas essa doutrina arcana vinha envolta numa casca grosseira, de fabricação caseira.”
De fato, por vezes a leitura é monótona e prolixa, de uma narrativa densa mas vazia de significado. Este não é um livro para entreter, longe disso. O autor buscou algo mais, de modo que não, não é nada fácil este livro. Das poucas resenhas que li deste livro, todas foram muito superficiais e parece que ou o livro foi lido às pressas ou não se compreendeu a mensagem.
O jogo das contas de vidro foi o ponto culminante da carreira do escritor, já idoso, e lhe valeu o Prêmio Nobel de Literatura de 1946.
O livro é dividido em três partes.
A primeira, dividida em 12 capítulos, é uma biografia do protagonista.
A segunda parte é um conjunto de poemas escritos por José Servo.
Na terceira parte são narradas três “existências” do protagonista, que são exercícios propostos a ele como parte de suas atividades em Castália.


Iniciei a releitura a partir da terceira parte do livro, que narra as três encarnações anteriores de José Servo. Acabei de ler o capítulo intitulado “O Conjurador da Chuva”. Simplesmente magnífico, tanto pelo enredo como pelo conteúdo. Nada melhor que uma releitura passados tantos anos da primeira imersão neste livro. É como se agora eu compreendesse o que na primeira ocasião não percebia.
Neste capítulo aborda-se o fato de, apesar do homem primitivo não ter sido dotado do refinamento da razão, seus sentidos e intuição eram mais desenvolvidos. Aborda-se o papel que o medo da natureza, dos elementos, das feras e doenças teve na espiritualização do homem primitivo. Hoje, com a hybris científica, o homem perde inclusive o sentido da vida.
A segunda encarnação de José Servo é o tema de “O Confessor”. Neste capítulo, trata-se da encarnação de José Servo na pessoa do penitente Josephus Famulus. Um elemento presente ao longo de toda a obra é o conceito de servir ao próximo, um conceito essencialmente cristão. Näo é acaso o nome do protagonista. Um capítulo dos mais emocionantes do livro.
Um momento que chamou de modo especial minha atenção foi quando Dion Pugil falou a Josephus Famulus que o cristão não deve tentar converter os pagãos felizes, mas sim aos infelizes que buscam ajuda e que mais cedo ou mais tarde algo acontece com aquela volátil felicidade e acabam por buscar a Deus. Enquanto em “O conjurador da chuva” a ênfase foi o animismo, nos dois seguintes, “O confessor” e “A encarnação hindu” tem-se respectivamente o cristianismo e a filosofia hindu.
O capítulo “A encarnação hindu” é uma belíssima narrativa da vida de Dasa e uma ilustração sobre maia, a natureza ilusória da existência. Neste livro e nos livros Siddhartha e O Lobo da Estepe o autor demonstra influência da filosofia e da espiritualidade orientais, mais notadamente o budismo e o taoismo. Neste capítulo é dada grande ênfase para a ioga, isto é, a praticada pelos ascetas iogues.


O livro é um grande tributo ao indivíduo, à autodeterminação, ao serviço e, sim, à busca da nobreza de espírito. O livro narra a vida de José Servo, cuja trajetória  foi marcada por dúvidas, mas também pela transcendência e pelo despertar. A caminhada do protagonista foi marcada pelo serviço ao modo de São  Cristóvão,  que visava sempre servir aos senhores mais poderosos (para um cristão não há outra coisa que se possa fazer que não seja servir ao maior Senhor, já que toda obra é feita para Sua glória). José queria que sua vida fosse um transcender, um progredir, um despertar ao final de cada etapa da vida, quando o ânimo e as possibilidades parecem se esgotar. Pode parecer algo egoísta, mas é falsa aparência. Quem faz o bem visando seu crescimento somente pode fazer bem ao mundo. Outro aspecto explorado é uma aristocracia do espírito, capaz de transmutar, no período de uma vida, um mero plebeu num verdadeiro nobre. Mas a impressão que tive é que o livro fala muito mais do que está escrito.  Toda a vida de José Servo, a constante mudança dos meios na busca de uma transcendência e, finalmente, seu último discípulo, Tito,  e o triste desfecho do livro, me fizeram pensar. Havia pensado sobre o tom orientalista do livro, e se talvez Hermann Hesse quisesse expressar, desse modo, maia. Sim, as partes do livro estão interligadas, uma parte explica a outra.  Confesso que nesta segunda leitura compreendi muito melhor a obra, mas este é o tipo de leitura para se digerir lentamente com o tempo. É uma obra monumental pela sua complexidade e beleza e o autor faz jus ao Nobel recebido em 1946.


Um lado negativo no livro é a ênfase dada à filosofia e religião orientais. O cristianismo tem um pequeno lugar na obra. A moda orientalista vigorava nos tempos do autor. Como diz Jeffrey Nyquist em “O Tolo e seu Inimigo”: cui bono?

Biloca Catarina

Amoramaro

A mordo amor
Com todos dentes
Dentes cheios,
Damor tecidos
Carnes amornas,
Carnes, sentes?
Abandonado amorfismo dos sentidos
Ameno amar
Amarameno
Amor amaro
Amargo destilado dos desejos

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 20/02/2003

Amor

Semidurmo de alma e corpo,
feto sob útero de cobertas,
na penumbra de um quarto casular.

Tu me chamas para a vida,
tu perguntas o que eu tenho.
— Não sei, eu digo.
Não sei, duvido de mim mesmo.
Não sei sequer se me conheço,
não sei o que quero,
o que sou ou quem sou.

— Meu bem, talvez isto passe
com uma xícara de café.

Me traz, então.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  24/05/2025

Sono arisco

Minha cabeça dói.
O sono é arisco.
Não quero pensar.

Sono, não corra!
Quero abraçar-te
Em sereno esquecimento.

Sono, abraça-me,
Leva-me contigo
Em onírica viagem.

Algo te afasta!
Decerto são as musas
Exigindo atenção.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  21/10/2025

O dia do basta

Basta.
Não te quero mais.
Pode voar pra longe.
Sai. Vê, abri a gaiola da minha cabeça.
Dispenso as musas.
Dispenso as vozes.
Inspiração, a que vem?
Cala-te!
Quero silêncio.
Apenas paz.
Não me serves.
Eu fui teu escravo.
Cala-te, vá!
A porta está aberta.
Não te quero.
Segue teu caminho.
Bem longe de mim.
Só quero paz.
Vá inspirar o sabiá.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 21/10/2025

Amor amora

Tenro amor,
Verde amora,
Fruto colhido
Antes da hora…

Tua promessa,
Ledo engano,
Um gosto breve
De desengano.

Beijo tão verde,
Adstringente,
Verde amor,
Amor da gente

Que foi um dia
Uma promessa —
Amor amora,
Que não regressa.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  20/10/2025

Coisas, bichos e gentes

As horas, as tenho mortas.
Eis o verde sob o cinza —
sempre verde, sempre cinza.
São estas as cores das contas
desse rosário de horas.

E as vozes, sempre vozes,
a lutarem como o verde.
E os cães, sempre latidos
(os cães sentem, latindo,
suas horas serem mortas).

As gentes sentem as horas,
sua morte serem horas,
e as vozes — as vozes,
essas amigas das gentes —
as fazem esquecer as horas.

E como é fato o que digo:
as folhas verdes são folhas,
o céu é céu — e é cinza;
as gentes são gentes e vozes,
os cães são cães e latidos.

E as horas, diante de tudo
que é velho, dito e sabido,
se fazem interminável
rosário de eternidade,
permeando coisas, bichos

e gentes numa corrente comum
de manhãs e entardeceres,
noites e madrugadas
de pruriginosa insônia
e um piedoso ponto final.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 20/10/2025

Amendoim

Teus olhos.
Amendoados.
Teu todo.
Amendoído.
Teu cheiro.
Adocicado.
Teu brilho.
Teu colorido.
Teu calor.
Sinto em mim.

Que sabor de amendoim!

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 27/08/2003

Escrevescência

Escrevo, eis que ferve
O verso que nasce em mim.

Escrevo, sou escravo
Deste mal que muito agravo —

Escrevescência.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  17/10/2025

Encontrados – 3

Alguém me deseja um bom dia.

Tenho um péssimo dia.

É, não são apenas meus desejos que não se concretizam.

In: Encontrados – Pedro Luiz Da Cas Viegas

Domingo

Desperto em meio a um domingo
Feito da mesma substância
Do sábado que se foi.
Descrevê-lo seria redundar
Em motores e chilreios.

A luz deste domingo previsível
Inunda o quarto adormecido,
Onírica substância de sonhares acordados.
Quisera a vida adormecesse
Calando horas, corpos e estradas.

Mas de fato não há domingo, ou sábado, ou segunda:
A vida é uma única corrente voraz e inominada
Sem lugar para sonhos domingueiros.
E a luz que aqui adentra
É de um sol que não promete
Senão algumas horas
De outro dia condenado ao olvido.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 05/10/2025

Randomatizes IV

Há a vida e há a morte.
Há o sul e há o norte.
Há o azar e há a sorte.
Há o fico e o passaporte.

Contigo é melhor assim.
Contigo consigo
o que sem tino
não me atrevo.

Tantos cuidados.
Danço tango,
valso frevo,
veja o ranço
desse povo.
Despetalo
cinco penta
peta
lados.

Repito e digo,
desdigo, despisto.
Dois passos e um pito,
uma taça para o santo.
Uma, se tanto,
meia dose, dose cheia,
do teu doce, doze e meia,
logo após o nosso almoço.

O susto se faz tanto,
se faz pranto, entretanto,
se Atalanta,
neste instante,
puxa o carro de Cibele.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 25/08/2025

Batalha

Tu vês?
Na penumbra deste quarto
O espaço repleto de anjos caídos
Travando luta competindo
Para entrarem em nossos sonhos.

Eles querem medir nosso despeito,
Querem avaliar nosso orgulho.
Eles nos querem famelicamente.

Mas sei que teu sono é justo
Que tua alma é grande e leve demais
Para eles abarcarem.

Sim. Sei da grandeza da tua alma
E da pureza dos teus pensamentos.
Sei que és naturalmente imune
Às investidas do mal.

E eu?
Não desligo a luz.
Mantenho vigília,
Observo a batalha.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 15/10/2025

Santuário (intervalo)

(intervalo)
– Hoje dormi no trabalho. Até ronquei. Sabe, tenho andado um pouco de cavalo e tenho sentido que o cavalo parece saber onde ir.
– Sim ele deve saber de algumas coisas.
– Creio que se eu deixar o cavalo de rédeas livres eu chego a algum lugar.
– Ele deve ir pro santuário dos cavalos. Todos os animais têm o santuário de sua espécie. Se você deixar um jabuti no chão ele vai andar e andar e andar. Está indo pro santuário dos jabutis.
– E os seres humanos, estão indo para onde afinal?
– Seres humanos são profunda e irreversivelmente profanos. Fizeram tantos santuários que hoje já não sabem qual é qual, ou qual serve.

In: Santuário

Pedro Viegas & MAF

Musaluz

Musaluz aspiro convergente
Vertente, ver tanto, talvez
Inspirando espirais
Divagando decimais
Ponto traço dois pomos
Meia arroba desse grão
A hora não é a hora de agora
Eis a conta, noves fora
Renovo, revelho, vislumbro
Medusas rastafaris refratárias
Conduzindo o trem-bala
Do acaso

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  11/10/2025

Encontrados – 1

Redisse.
Resqueci do resquício
Do lembrado.

Tempo meu corrida contra parede.
Tempo meu bala perdida.
Tempo meu inútil tempo.
Corra, tempo. Não o sigo.
Paro e disparo.
No espaçoparado.
Antes não.
Depois não.
Reação, reagora.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre – ?

Encontrados – 4

Suas glândulas mandam
Mais que sua razão.
As convenções mandam
Mais que suas glândulas.
E você já não sabe
Onde está a razão.
Ou se há alguma
Verdade sob o sol.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre – ?

Sempre-vivas

Por quantos lugares devo andar
para alimentar esta alma com novidades?
Há alguma maravilha que me possa tocar?
Ver novas misérias em outros matizes…

Meus tesouros não bastam,
Minhas misérias não bastam
Para compor o quadro que desejo compor.
Há, sim, muita coisa guardada nos porões

Desta minha memória,
Mas um poema é um poema
E não um show de horrores.
E o que quero é tão pouco.

Eu quero um jardim de sempre-vivas
E flores miúdas que atraiam abelhas
E pequenos bichos alados
Trazendo coisas sem peso na alma

Eu quero um jardim repleto de formas
E cheiros e cores evocando outros tempos
E outros lugares de já ter estado
E de já ter sido tão outro e tão sempre o mesmo.

As gérberas vivem do sol e da terra
E os heliotropos e as dálias querem tão pouco
Basta olhar o sol derramar-se sobre os suspiros
E sentir que agora já sou tão outro e tão sempre o mesmo.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 10/10/2025

Sábado

Sábado.
O sol desponta.
A vida adentra mais um sábado.
Tu respiras serenamente adormecida.
Um pombo arrulha seu hino matinal.
A rodovia pulsa sussurrante.
A vigília avança sem notícias:
Somente os cães e os pombos recitam versos monocórdios.
Motores misturam-se a miúdos chilreares —
Engano-me.
O mundo todo respira num só tom
E parece escrever
Um poema feito de sábado.
E eu aguardo, insone,
Fazer parte dos seus versos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 04/10/2025

Outro 28

Amanhece um dia 28 de um mês de setembro
(De fato, não há muito mais a dizer)
Principia um outro domingo, insone,
Coberto pela promessa de um dia sem sol.

A luz traz de fora as formas adormecidas
E o ar traz o som dos pássaros despertos,
Os mesmos pássaros, as mesmas formas
De um sempre mesmo domingo.

Passam as horas sonâmbulas arrastando a data,
Passam as horas, as coisas e os pássaros neste domingo.
Passará o domingo e outros hão de chegar
Com nuvens, com chuva, com sol, num 28 qualquer.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 28/09/2025

Medo

o que há
o que falta
eu transcorro
eu não permaneço
o que corre nestas veias
eu me decomponho
eu me liquefaço
eu me diluo
o que falta
o que há

tempo, tempo,
vinho, vinho,
carne,
dor,
dor,
mil vezes dor,
mil vezes carne,
quisera o vinho
parasse o tempo, tempo

mil vezes tempo,
o vinho, as veias,
os olhos morrem
virtude e vício
o artifício
o desespero

dor, dor,
mil vezes dor,
alguma luz
incerto túnel
perdida ilha
nau condenada

não há porto
nem paradeiro
não há destino
somente a água
somente a cheia
somente a morte

dor, dor,
não há calor
é frio de alma
é profundeza
é agonia
não há mais volta
a um condenado

quisera o vinho
parasse o tempo
quisera o tempo
não fosse algoz
não há mais tempo
não há mais vinho

apenas dor
dor, apenas dor,
dai graças
por esta dor
eis o teu dom
toda esta dor

a tua dor,
o teu tormento,
teu desespero,
clamai aos céus
por esta dor,
glórias e glórias

quisera o vinho
me desse a mão
e me levasse
a um lugar
sem esta vida
somente dor

semente dor
de um novo mundo
sem mais desejos
sem mais memórias
sem mais saudades
somente dor

é este o mundo
é esta a vida
sem mais palavras
sem ilusões
é este o mundo
dor, é esta a vida

vida, uma estaca no peito.
o medo, o medo,
me apega à vida
vida, esta estaca no peito,
medo, medo,
esta cola que me apega.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 03/10/2025

É preciso

É preciso

É preciso fazer força
Para não forçar o caminho;
Esperar a onda certa
E não pular na areia.

É preciso ouvir o silêncio
Soprando aos meus ouvidos.
É preciso pisar tão leve
Que o chão não me perceba.

É preciso querer menos
Para ganhar o que é justo.
É preciso deixar a Musa
Encontrar-me por si mesma.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 01/10/2025

Coisas sem nome

Há coisas a serem ditas.
Há coisas a serem vistas.
Mas a vida é restrita
A uns momentos tão parcos
De uns sóis que se põem ligeiros
Em meio ao pó e a fuligem
De uns sóis de ocasos de alma
Em fins de tardes sem data.

Enquanto a guitarra chora
Me ponho sob o horizonte
Entre o céu e a terra
E tudo que tenho e sou se encerra,
Se cala e perde o encanto.

E pouco importam as coisas
Que ainda não foram vistas
Pouco importa se há coisas
Aguardando serem vistas
Do outro lado da rua,
Do outro lado do mar,
Do outro lado do espelho.
Do outro lado da lua,
Do outro lado da moeda,
Pouco importa haver
Alguma coisa a ser vista.

Enquanto chora a guitarra,
Quero ficar aqui mesmo,
Quero calar aqui mesmo,
Nada ser aqui mesmo
Eu, e minhas coisas sem nome.

Pedro Luiz da Cas Viegas
Cachoeirinha, 30/09/2025

Vertentes

Tanto tempo sem ver-te
Tornou meus olhos vertentes
Do Arroio da Saudade
Afluente da Tristeza

A Tristeza é rio que corre
Para o Mar das Muitas Dores
Mar para onde os amores
Levam quem de amores morre

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoerinha, 27/08/2025

Decisão

decidi.
vou me jogar daqui de cima.
e deixar o vento espargir meu corpo em meio nuvens e sofismas.

decidi.
vou embriagar meus pensamentos em musicalidade pré-cambriana.
vou sugar o sangue de mil virgens maculadas e saciar a sede de ser algo assim
excêntrico e sem eixo.

decidi.
jogar os dados todos pela janela do acaso.
a vida foi lançada após discreta edição.

decidi.
lançar-me das alturas.
lançado sou mais leve e me elevo às alturas mescalinas.
quisera ser um xamã no deserto sob as estrelas.
quisera partir e retornar partindo e retornando.
decidi parar de ser e querer ser há tanto tempo qualquer coisa de ser ou de não ser.
eis meu ser, eis meu não ser, eis os pesos, eis as medidas.
apenas sou sem querer ser nem eu nem mais ninguém.
procuro meu estofo, evito minha estafa.

decidi.
ficar até o momento de partir destas paragens.
permanecer suspenso pelas correntes que ascendem das massas
bovinosas de onde me origino.
daqui colijo o mundo enquanto não sou mundo e o mundo me mantém na dispersão que ora sou.

decidi.
abrir as asas para deixar um rastro sobre a vaporosa noite.
asas negras de veludo e seda me conduzem no delírio sob uma demente lua.
o tempo é muito pouco e o que resta pulsa.

decidi.
chorar as campas vazias dos seus mortos que o vento dispersou.
ouvir cantos de lamento pelo tempo decorrido desde a queda.
ouvir os cantos de louvor pelo tempo que ainda resta.
olhar com olhos que vejam.
ouvir com ouvidos que ouçam.
calar a boca que tanto fala.

decidi.
ver cada uma dessas vidas como mandala bem urdida
que o tempo há de soprar no esquecimento.

decidi.
deixar os olhos se tornarem espelhos de um mundo que esquece a si mesmo.
deixar as palavras dissolvidas em murmúrios.
serei vulto nas memórias, sem licença ou pegadas.

decidi.
quando o tempo me alcançar, vestir-me-ei, de véu, de vento.
decidi não mais nomear o que está morto.
nomearei o indizível, o intangível, o que vibra entre o ser e o não-ser.

decidi.
e ao decidir, desfiz o eu, desfiz o mundo, desfiz o gesto.
resta-me o rastro.
e no rastro, talvez, novo começo.

Pedro Luiz da Cas Viegas
Cachoeirinha, 28/09/2025

A dor e o poeta

Neste momento uma música evoca
um outono de folhas soltas.

Vento.
Alguém dorme.

Meu coração repleto
de vazio tão denso.
Como o frio de uma tarde
com seu vento.

Um céu grisalho sobre um mundo
tão real e tão etéreo.

O que sinto, será sonho
ou fruto deste mundo?
(É chama, é bruma, é sombra feita na alma)

Quem me aguarda nestas brumas
sob esse céu?

A música muda com as horas
e com os dias
e já não é outono.

A primavera traz suas cores
sob um céu ora cinza
ora rubro abrasador.

Ela me aguardou.
Sempre esteve aqui.

Poderia falar sobre esta dor
e a dor falar de mim.
Mas nos falamos diariamente
e diariamente combinamos
não nos deixarmos sem o outro.

Que seria de mim sem ela.
O que seria ela sem mim.

Tardes de outono,
noites de primavera.

Tu continuas adormecida
e deixas-me a só com ela.

A noite é longa.
A madrugada é criança.

Vem.
Vamos nos conhecer melhor.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 29/09/2025

Miopia

Vejo as flores da paineira
Como tela impressionista.
Um borrão desta janela;
Minha lente ilusionista.

Pintura que os meus olhos
Criam, assim, à distância
Ao transformarem beleza
Em colorida aberrância.

Transformo, pois, em poema
As distorções deste dia
Para não se tornar em pena
O peso desta miopia.

Porto Alegre, 03/04 – 01/06/2012

Daqui do alto

Daqui do alto imaginei poder ver melhor o mundo.
Mas o mundo daqui de cima não se revela melhor
Do que o mundo visto face a face.

Daqui do alto imaginei encontrar alguém melhor.
Mas aquele que sou aqui em cima não é melhor
Daquele que sempre trago comigo.

Daqui do alto vejo bilhões de almas como a minha,
E todas essas almas querem um lugar nas alturas.
Mas todos esquecemos que o céu não começa no alto,
Começa dentro.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 28/09/2025

Último ato

Após muito desejar,
após tantos desejos satisfeitos
e tantas mais decepções,
após tantos domingos extintos,
concluo que nada desejo,
que a vida é um ruído de fundo
para uma realidade incognoscível.

Cada pulso, cada espirar,
é evasão de algo para além do meu campo,
é um passo a passo rumo ao centro
de um vórtice faminto
que engole existências e expele vazio.

A cada minuto de cada grande momento,
a cada cena de cada ato,
a cada agitar das cortinas
ao aproximar-se o final da comédia,
eu inspiro, espiro e expiro.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 22/09/2025

Fisiologia angélica

“Materialista ateu,
ele não acreditava em anjos.
Os anjos não ligavam;
eles não acreditavam
em materialistas ateus”.

Queria escrever sobre anjos,
mas eles são muito discretos.
Mal ouço os seus sussurros
aconselhando minha alma
a não se ocupar com o tempo —
mais palpável que os anjos.

Anjos não interagem com o tempo,
decerto interagem com as almas
daqueles que sabem ouvi-los —
E eu, atolado no tempo,
mal ouço a mim mesmo…

Eu queria ouvi-los para acreditar.
Eu queria acreditar para ouvi-los.
Quiçá eu acredite neles.
Quiçá acreditem em mim.

Nada entendo da angélica fisiologia.
Pudesse ao menos entender
a fisiologia da esperança…

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 23/09/2025

Citação de frase dita pelo cantor Jimi Joe
num dos programas “Aeroplano” da extinta
e saudosa Rádio Ipanema de Porto Alegre.

Aplauso

Sinto algo bom e é bom este sentir algo bom.

Isso ocorre logo após ter visto um gato-pombo-siamês
enterrar, no jardim, uma filosofia preciosa
coberta por inequívoco marron glacé.

Sua consorte, a pomba-gata-siamesa,
rebuçou uma teoria sobre o para-brisa do automóvel.
E sinto-me feliz e esperançoso diante de tais conquistas.

Após um sonho de mil sonhos de coalhada libanesa,
tudo se torna cada vez mais claro e transbordante
e do púcaro que bebo, estrelada é a noite das Antilhas.

No peito do gato-pombo
bate um coração à porta.

No peito da pomba-gata
há um coração à janela.

Gato-pombo, pomba-gata,
qual tua desiderata?
qual tua raison d’être?

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 22/09/2025

Musa caleidoscópica

à noite as bruxas visitam os jardins coloridos
dos sonhos das crianças de todas as idades;
noite dessas te reconheço nos jardins dos meus sonhares.
desconheço o que ali fazes em meio aos meus espinhos sempre vivos
brincando mal-me-quer com uma pequena flor ensimesmada.

arbustos circunspectos te observam sem que notes
e me dizem seres estranha, mas não seres errada,
fugitiva da loucura de lá fora, de cá dentro,
de lá de onde todos fogem, nos acordes de um blues espectral
de cá de onde fujo junto aos giros do vinil.

à noite sonho com as bruxas dançando em volta das poções
de ervas e cogumelos que jamais hei de provar.
à noite eu te vejo nos jardins por mim sonhados,
te reconheço sem sequer saber quem és
e de ti tenho saudades e da flor que jamais te darei um dia.

agora invoco-te e me ouves,
musa caleidoscópica dos meus sonhos acordados,
e visitas-me em todos os sentidos, direções e intensidades.
agora sou feito de sonhos acordados,
de jardins que só existem em mim.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 25/09/2025

Vinil

rodam memórias no vinil.
ouço suspirar o velho quarto,
imortal como as lembranças
que se negam a partir.

rodam sonhos no vinil.
a vida roda num delirar vertiginoso
e a alma nua não abarca
sua grandeza.

rodam silêncios no vinil.
a agulha tateia o inaudito
e cada estalido da poeira
é segredo antigo que o tempo não apaga.

rodam ausências no vinil,
o quarto respira lembranças.
os velhos livros são incenso
e a alma vertiginosamente dança.

dança o vinil como dervixe
consagrando o meu êxtase
ao labirinto das memórias,
ao delírio dos meus sonhos,

ao silêncio da minha alma,
às ausências tão sagradas
incensadas em saudade.

Pedro Luiz da Cas Viegas
Cachoeirinha, 25/09/2025

Memória

Percorria, à noite, uma alameda de velhos plátanos.
Apenas os meus passos contra a estrada de terra
cortavam o silêncio.
Andava cercado por uma bolha de luz oriunda da lanterna,
que iluminava um reduzido perímetro na densa escuridão.
A luz revelava os plátanos como espectros a me observarem.
Sentia-os, assim como as criaturas que neles se abrigavam,
me observando de ambos os lados.
Não se tratava de impressão.
Eles me observavam, e uma das criaturas da noite dos plátanos
avançou contra mim num voo rasante.
Curvei-me para trás para impedir o impacto.
Uma coruja, decerto, me confundiu com uma possível presa.
Ou seria um morcego, talvez atraído pela luz da minha lanterna.
Continuei meu trajeto sem mais ocorrências,
exceto meus pensamentos que desde sempre me acompanham.
Hoje guardo o evento como uma dessas memórias que reviro
nos becos do meu passado.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 25/09/2025

Saudade sinestésica

Há memórias sinestésicas
De saborosas cores
E há dores anestésicas,
Vede a dor das flores

Que sofrem arrancadas,
Chorando seu perfume
Sobre tua pele amada,
Da qual perdi o lume.

Cheirar a dor das flores
É lembrar-te nos jardins,
E nos belos ramalhetes;
Recordar que tu, enfim,
Em mim jamais morreste.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 25/09/2025

Randomatizes

Azeite e vinagre de vinho velho…
Classe nitrato, bass reflex, aracnoide.
Detrito latifólio no chão da mata.
Flato neutro: parada para ouvir
o dom de Brahma, a rapsódia dos blastos.

Croma: divindade magnificada na aberrância.
Tecla em lata, batucada com lua de catraca e batente.
E, domo de ronda, desopilo bronco desatado.
Segue teste adiante, acuidade na hipótese
de blasfêmia, gota aguda no tapume do zimbório.

Caiu uma ultra anágua, vejo vassoura,
som na calçada: vendendo acelga,
vai bacuri, Uiraquitã, vai!

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 27 de outubro de 2004

Ele jamais esqueceu aquela manhã

Ele jamais esqueceu aquela manhã. Mesa posta, sua mãe
em franca e dedicada atividade. Ele jamais imaginara até então.
Num átimo, algo o enregelou. Um aperto que mais tarde ele
saberia definir. Sentiu angústia. Por algum motivo soube que
tudo aquilo estava passando rápido e iria acabar. Soube que
coisas ruins estavam por vir, que sua mãe morreria, que ele
mesmo morreria, que todo o porvir seria um vazio, que tudo
naquela manhã era uma cena. Agora ele relembra aquela manhã.
Jantou há algum tempo. Ouve um som calmo. Sua mãe, ainda
viva, dedica-se enquanto morre. Ele mesmo já morreu várias
vezes. Já conheceu alguns infernos, alguns paraísos. Ele
continua imaginando. Ele jamais foi capaz de imaginar.

In: Santuário, Pedro Luiz Da Cas Viegas

Ocaso

Derrubo a lata da filosofia
e reviro seu conteúdo intragável.
Resolvo não escrever pensando.
Calo os pensamentos e refino o calar.
E vejo o ar calmo desta sala repleto de partículas
ao sabor da turbulência em que me encontro.
As superfícies delimitam as formas por mim vistas
e sinto mais que vejo.
Sinto dores que indicam que estou vivo e desperto.
E o que ouço não desmente essa impressão.
Ouço o de sempre, ouço o estar determinístico,
diferente do ser, do qual nada mais sei.

A lata da memória, deixo-a onde está.
O final da tarde desperta algo que deveria ser calado.
Talvez os finais de tarde gostem de vasculhar
latas cheias de memórias.
Não quero acompanhar a tarde nessa busca.
Prefiro mexer nos montes de ideias improváveis
que se acumulam no inconsciente.

Talvez alguma música auxilie.
Busco no entulho do inconsciente
algo bom para reciclar.
A madrugada torna-se manhã tão rapidamente.
A manhã torna-se tarde tão rapidamente.
A tarde torna-se noite tão rapidamente.
A infância, torna-se mocidade tão rapidamente.
A mocidade, torna-se maturidade tão rapidamente.
A maturidade, torna-se velhice tão rapidamente.
A velhice…
a quero ocaso de luzes e cores.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 24/09/2025

Finis

Sentado no frontispício da rotunda telepática,
vi um casal de pombos-gatos-siameses
fazendo juras de amor em esperanto espiral.
De meus olhos brotaram leite de magnólias
recém colhidas do jardim da terceira casa decimal.

Assim mergulhado em líquidos equacionamentos,
ouvi o relógio cuspir temporários origamis
cujas dobras evocavam tempos verbais inacessíveis.

O pombo-gato macho subiu ao meu colo ronronando disparates
a respeito do meu fígado metafísico intragável.
Rangendo, os origamis temporais convidavam ao ninho arquetípico
e eu, e pombo, e pomba nidificamos num enunciado surreal.

Verbo e vértebra fomos nós ao longo da estação
onde passavam alados trens de couro marroquino e essência de fumo cubano.

Finis.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 22/09/2025

Vindima

Pousio de terra exaurida,
aguardo a fértil luz do teu sorriso.
Tu és a chuva mansa

sobre o solo calcinado
que te absorve em silêncio —
e rediviva esperança.

Terra florescida,
somos nós brotos e flores
a cobrir a pradaria, 
viver que se descortina.

Germinaram as sementes
ao calor do teu abraço.
De ti, sempre sedento,
aguardo a próxima vindima.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  22/09/2025

Eis o fim de um domingo

Eis o fim de um domingo,
domingo herdeiro de domingos ancestrais,
deixando herança para o próximo domingo,
herança essa ser domingo,
para passar como todos os domingos
têm o costume de passar.

Há tantos lugares por onde
meus domingos não passaram
e onde deveria eu passar,
se não trancasse meus domingos
em gavetas de horas desoladas.

Quisera um boteco enfumaçado
e uma mesa de sinuca,
meio bitter com cachaça,
alguma música de alma
e um papo sobre nada.

Mas a razão de ser é a solidão
entremeada de silêncio
em meio ao mais animado alvoroço.
Solidão de ouvir a própria voz,
impregnada na carne desde sempre morrente.

Voz que não se faz entender,
uma muda vontade
de algo que jamais se soube
e nem as músicas mais soturnas revelam.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 21/09/2025

Impasse

Ouço latidos,
ecos de latidos.

Da rodovia, o murmúrio incessante.
Ouço aves de passagem.

A turba comemora com fogos —
pois comemorar é preciso,
seja o que for.

Ouço esta dor
que me chama para dançar
uma dança de dor.

Dançamos, eu e a dor,
mais o vinho —
esse vizinho do sonho.

Mas é forte a dor
e fraco o vinho:
não há sonho,
nem danço.

No impasse —
entre viver o poema
e sofrer a dor plena —
ocupo um espaço sob a ponte,
junto a um rio que já não é rio,
mas outra ordem de rio:
um torpor, um fastio,
não correr para o mar,
não correr sob pontes.

Sob a ponte eu rio,
sob a ponte sou rio,
que no leito sorrio.

Rio desde ontem,
desde antes,
desde sempre.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 21/09/2025

Vinho magro

Bebo um vinho mais magro que vinho.
A esmo escrevo entrevendo
pauís entrevados de versos
na entropia da lama.
Restos de estros no mapa estral do poeta:
mutismo de anestro poético.

Sonhos disformes surgem
antes mesmo do sono
e a vida se acumula em montes
feito trouxas pelos cantos
e dispositivos inertes.

Beberia fogo de serafino conhaque
para queimar algo incerto
pelos baixios da garganta
e nos porões da inconsciência.

Quem sabe algo saltasse dali,
baratas de prata e bronze,
ouro de tolo ou tolice de ouro.

Mas é vinho meio água meio vinho,
meio vinho meio mágoa,
meio mágoa meio trégua
pedida pro corpo das dores
pedida pras dores sem corpo
dores doidas, doídas, dementes.

Quisera fosse dopado
por este vinho tão magro.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  21/09/2025

Prognóstico

Relaxa, desacelera.
Correste o dia todo —
sem alcançá-lo, contudo.

O mundo dá voltas que a vida não abarca
e nossos passos não suportam.
O dia se foi.
E tu ficaste.

Paras num sopetão,
mas teus pensamentos seguem
como se a vida fosse um único dia
cortado por noites: ora sonho,
ora vigília de sonhar acordado
na velocidade do sono
num quarto escuro de lúcidos sonhos.

Relaxa, apaga.
De onde vem essa faina?
Todos os sais da ciência não a mitigaram.

Será teu ascendente?
Nem acreditas nos astros.
É fome de vida?
É fome de sonho?
É fome de fama?

A estas alturas do banquete da vida,
nos licores finais,
qual é teu propósito?

És algo tão absurdo,
tão sem prognóstico…
Mal te conheces.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 20/09/2025

Deixe brilhar o sol

Numa dessas vertiginosas desacelerações do meu espírito, adormeci. Adormecido, vi à janela a mulher vestindo o casaco do sol a tocar um tamborim verde enquanto cantava:

Deixe brilhar o sol
Deixe o sol entrar
Abra sua alma
Não é difícil assim

A lua é assassina
À caça de almas tristes
Feche a sua alma
Não a deixe entrar

A morte veste um casaco
De pele de prata minguante
Feche a janela
Para essa tristeza

Deixe brilhar o sol
Deixe o sol entrar
Abra sua alma
Não é difícil assim

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  20/09/2025

Viver

Pele de onça no varal.
Casinha de cão.
O cão no jardim.
Orquídea abriu-se,  bela.
Doce pé de laranjeira.
Três Marias, madressilva.
Um poema no quintal.
Viver era lá.
Viver é aqui.
Viver será viver
onde e quando viver-se.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  20/09/2025

Verso livre

Versa livre o verso
Verso livre
e vice-versa:
livre verso

Solitária
mente conversa
comigo

(estou)  fui  converso

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 27/10/2012

Ode para Reni

Ó Reni, anjo do céu mandado,
Recebe os versos que ora componho,
Para falar-te deste doce sonho:
Viver contigo nosso viver sagrado.

Teu nome é brisa que me traz alento,
Tu és estrela que ilumina e guia,
És minha musa, minha alegria,
Fonte de vida e encantamento.

És presente divino
És meu mundo inteiro.
Já não sou peregrino
És o meu paradeiro.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  20/09/2025

Meu filho

Meu filho, dedico-te estes versos livres
Pois deves ser livre em versos e vida.
Quero dizer-te que de toda a lida
Ser teu pai supera tudo que já tive.

Não te prometo um viver sem dores
Pois é a dor que valida o gozo
E o sorriso se torna mais ditoso
Quando a vida traz seus dissabores

Que teus caminhos sejam claridade
Que tua voz cultive o silêncio
E saibas que o bem imenso
Vem de Cristo e Sua verdade.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  20/09/2025

Ode à redenção

I

Quantas vidas, quantas bruxas retornarão das cinzas
do passado que enterrei,
dos sortilégios que engendrei?

Quantas semprevivas arranquei
para a sala das ilusões.

Quanto riso efêmero.
Ilusão, ilusão,
vento que não se alcança.

II

O passado invasor
emerge para assombrar o dia
com sua doçura,
com seu amargor.
O mal que fiz retorna acusador
para assombrar a vida,
Satã que engendrei.

III

Do mal que fiz
a mim não poupei
os anjos que me deram a mão;

fui generoso no dividir
o que deveria ser guardado,
fui mesquinho
com o que deveria repartir.

Mas aprendi e decerto ensinei
com a dor que dispersei e que colhi.

IV

Pudesse suprimir todos os erros
ou ao menos as memórias,
certamente repetiria tudo, tolamente.

Assombrada pelos ecos do passado,
a alma calejada
é mais prudente.

V

Calarei o vil Satã acusador.
Trarei gérberas e semprevivas
para a mesa dos meus sonhos,
consagrada Àquele que redime.

VI

Das ruínas do que fui
construo meu novo altar.
Minhas dores, relíquias;
meus erros, fundamentos.

A vós, ó Pai,
consagro teu novo filho.

VII

Dai-me, Pai, a graça de trilhar
o caminho estreito;
de guardar para Ti
as minhas primícias.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  20/09/2025

Degredo das Musas

As musas calaram-se.
Decerto buscam outros ares.
O espírito do vinho traz novas
das distantes terras para onde elas foram.

Quem diria! Estão no recôndito adormecido
daquele que tanto as aguarda.
Ditosas, sabem que são lembradas.
Atentas, sabem que são chamadas.

Mas sabem que algo sem nome
as retém no degredo,
turva os caminhos da alma,
impede os passos, cala o canto,
tornando estéreis as horas.

Nem mesmo Morfeu as trouxe de volta.
Ou a natureza nesta manhã de sábado.
O asfalto em vigília eterna, tampouco.
Sequer o tolo viver deste corpo.

Elas esperam mais que presença,
querem a vertigem da entrega,
a coragem do total abandono
ao sabor do belo absurdo.

Querem o deslinde dos limites,
querem explorar o improvável,
desejam o caos dos sentidos,
a combustão de mil sonhos,
em profusão de quimeras.

Acorda, poeta.
És tu que dorme.
Eis que elas chegam de longe
batendo à porta da alma.

Abre, pois, os portais do delírio,
pois é no risco que elas dançam
e nos teus versos que elas renascem.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 20/09/2025

Música para dormir

E agora, minha alma,
o que eu preciso agora?
O que tu buscas, o que queres, o que te falta?
O que eu preciso talvez seja algum sono.
Há momentos em que tudo se põe tão claro
que a alma cai em um letárgico desânimo.
Mas não quero dormir. Dormir é como um ensaio da morte.
E não desejo morrer.
Enquanto há vida há esperança de viver. Viver.
Liberta-te minha alma, e sai à procura,
deixa que a música que é vida te transporte,
liberta-te dessa letargia, voa
pelas avenidas repletas de neon,
percorre os clichés dos desertos desolados,
sobe as torres, desce aos porões,
encontra um amor imaginário,
performa desencontros e, desencontrada,
procura um messias e uma terra prometida.
Procura, procura, pois cessar a busca é a morte de uma alma.
Busca nos livros, na música que transporta, na trama cibernética,
nos templos, nos tugúrios, lupanares,
busca tua verdade onde for possível.
Busca no cálice de vinho, na aguardente, no absinto.
Busca onde for possível.
E jamais encontrarás o que já está contigo.
Tudo bem, minha alma?

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 18/09/2025

Tuas estrelas

Imagino estrelas
Sobre nosso deserto
Imagino detê-las
Nossos sonhos abertos

Sem chão e sem rumo
Nós fomos o norte
Eu fui teu aluno
Tu foste minha sorte

Imagino a areia
Escorrer dos teus dedos
Minha alma vagueia
Nossos tantos segredos

Imagino estrelas
Nos olhos da lua
Vou repreendê-las —
As estrelas são tuas!

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 14/09/2025

Floramente

Sobre as pedras, o musgo e o limo
Não pensam sobre ser musgo ou limo,
Não pensam sobre o tempo.
Pensar sobre o tempo e sobre si mesmo
É coisa de almas.
De almas que desconhecem que pensar não muda o Fado,
Somente fá-lo pesar.

Vive a flor sem saber da sua existência.
A vida somente pesa sobre a vida que pensa
Demasiado na vida.
São leves as vidas sem alma,
As vidas das flores, do musgo e do limo.

Um peso sem forma é o pensar que pesa nas almas
Que se curvam pensando na vida e no tempo.
Aprender a arte da flor, a arte de ser,
Tão somente viver,
Floramente liberto,
Do que foi,
Do devir.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 13/09/2025

Revelação

Ele aprendeu muito cedo a andar.
De tanto andar em círculos, fartou-se.
Por isso poemas de pés no chão o irritavam.
Ele queria aprender a voar
E suas asas o prendiam à terra.
Ele queria navegar por oceanos de sonho
E seu barco encalhava no fundo lodoso.
Ele queria aprender a ver o que não foi feito para ser visto.
E ouvir o que se fazia mouco aos ouvidos.

Ele visitou todos os clássicos, toda a poesia, tradições, crenças, ritos e épocas.
Mas havia algo que ele não explorara, algo que o inquietava,
Que o punha perplexo e insatisfeito com sua vida
De pés sobre o chão.

Certa vez seus olhos e seus ouvidos se abriram
Por um imperceptível momento.
O suficiente para que ele preferisse
Voltar a andar em círculos.

Pedro Luiz da Cas Viegas
Cachoeirinha, 15/09/2025

Ode ao maior inimigo

Eu te saúdo, inimigo de sempre.
Há tanto nos conhecemos,
E quanto mais nos conhecemos,
Mais nos tornamos estranhos.

Muito compartilhamos neste vicioso pareado.
Muito conhecemos um do outro —
Razão do nosso mútuo desprezo.

Muito exigimos, nossa mútua rigidez.
Muito permitimos, nossa mútua indulgência.
Muito nos decepcionamos.
Muito nos corrigimos.
Muito enlouquecemos.
Muito sobrevivemos.

Eu te saúdo, meu insólito inimigo,
Pois partilhamos nossa insolitude.

Dever-te-ia desprezar,
Mas um inimigo assim não se despreza;
Se cultiva como espelho que é.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 14/09/2025

Tergiversos 3

Se o meu verso é meu caro filho,
Com meu filho então eu converso
Sobre as sezões desse universo,
Sobre as manhãs e seu intenso brilho.

Nesta hora de solar primícia,
Tudo e nada é exatamente o mesmo
E o poeta tergiversa a esmo
Na intenção de fazer delícia.

No jogo louco dos versos incertos,
Procura estofo pra parecer jocundo,
Jocundamente se lança pro mundo
E mundanamente eis-te então desperto.

Se meu brilho porventura brilha
Naquele que está a ler meus versos
Neste brilho estamos nós imersos
Numa inefável e total partilha.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 14/09/2025

Extravagâncias

A rua escura não sente a escuridão que a esconde.
As palavras não sentem o que falam,
Tão somente palavras, tão palavras
Nas bocas que as dizem.
Que as escrevem.
Cuidemo-nos delas, cuidemo-las.

O gato no escuro desconhece ser um gato no escuro.
O gato no escuro desconhece as palavras.
As palavras não o ameaçam.
Ele não ameaça as palavras.
Pois ele é somente um gato no escuro.
Tampouco a luz ou sua ausência ameaça as palavras.
Palavras não têm luz própria, astros errantes que são.

Soltei as palavras para tomar o ar da noite.
Deixem que brinquem, que briguem entre si.

Escura é a noite, Vênus perseguida pelos ecos
Siderais de cotovias translucentes.
Dobra-se o tempo em discreto origami,
Suas dobras cingem esse momento.

Vigio as horas e as horas me vigiam.
O conflito dos ponteiros se faz nas horas mortas
Contorcidas nos espasmos pendulares
Da incerteza dos humores oscilantes.

As palavras, para onde foram as palavras?
Ei-las. Coloco-as no estojo para evitar extravagâncias.
Quanto a mim, sem elas,
Pouco posso
E me retiro.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoerinha, 13/09/2025

Oração 2

Não adormeci esta noite.
Dormindo apenas sonho
E desperto, aguardo-Te.

Vigio a noite e os meus pensamentos
Dirijo-os a Ti, que me deste
Este dom de pensar.

Vigio a noite de minha alma
Aguardando a alvorada
Que só Tu me trazes.

Que eu não pense na vida —
Que eu viva a vida por Ti;
Que eu não chore o ontem —
Que eu me console em Ti;
Que eu não tema o amanhã —
Que eu confie em Ti.

Oração 1

Eu queria alcançar as grandes alturas;
e querendo, sequer pude me erguer.
Talvez queira muito,
talvez eu precise
contentar-me com pouco —
que é tudo o que posso querer,
o tudo que tenho.

Mas eu nada tenho —
nem a mim me pertenço.
Queria voar, tão grande altura;
no entanto, preciso dar-Te a mão
para não rastejar.

Meus passos, sem Ti, são sem direção,
meus pensamentos, conturbados.
O fim não tarda, e nada vai comigo —
sequer esta carne, estes ossos.

Guia-me, para não ser iludido
pelos ventos do mundo,
pelas coisas debaixo do sol.
Seca estas lágrimas
de autopiedade;
dá-me, em troca,
lágrimas de amor por Ti.

Felicidade

Veja, será um pássaro?
Um avião?
Como um raio atravessando os céus,
Como um foguete cortando o espaço,
Como uma bala perdida num subúrbio,
É a felicidade,
Essa coisinha fugidia,
Arisca e volátil,
Coisa quântica,
Incerta como um gato na caixa.

Ninguém jamais a conteve.
É mais fluida que o ar.
É feita de pura ilusão.
E no entanto é tão boa
Que todos querem uma pitada.
Não importa o preço
Dessa especiaria.

Felicidade é bom.
Exceto as imitações.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 11/09/2025

O fim da estrada

Pensar, esta sede que tenho.
Não procuro vãs morais.
É para voar que eu venho.

Não me servem manuais,
Poesia é meu alento:
Com ela grito meus ais

E não peço definição,
São de longe, são de dentro,
Do mundo e do coração.

Se calo meus pensamentos
Calado busco consolo
No velho canto do vento.

Se calo minha poesia
Calo então a minha alma
Que se resseca, vazia.

E vazia uma alma é nada,
Nada coberto de cinzas,
Então é o fim da estrada,

Então é o fim da jornada,
Nada mais do que nada.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 11/09/2025

Chá de jasmim v

Tempo. Há em todo lugar.
Às pencas, ramos curvados ao peso do tempo.
E todos o fazem escasso.
Talvez por ser impossível fazer tanto
num mesmo momento.
O momento é sempre agora.
E agora nunca há tempo para tudo.
Tempo para atravessar abismos
entre eus e vocês.
E o tempo, essa coisa una e múltipla,
nos consome enquanto se consome.

Que tal uma conversa?
Assim, falar de nada,
sobre o tempo — aquele, das chuvas,
sobre o amor das pombas sobre o muro…

Assim, falar de tudo,
tudo que mais importa,
e pouco importa tudo.
E o que importa o tempo,
se ele não se importa
e tudo termina de um modo ou de outro…

E tanto faz passar o tempo
pelo qual passamos sem assunto,
sem paciência,
sem mais tempo.

— Meu chá esfriou.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 11/09/2025

Chá de jasmim II

Atire aos porcos o que lhes apetecer.
Não. Porcos não comem pérolas.
Se o fazem é puro impulso.
Roxa de frio a mão não se move,
Não se fecha, não se abre.
Nem agride ou acaricia.
Dentes são dentes em qualquer boca.

O traço da face e o traço no papel.
O tiro que traça o rumo ao alvo.
O destino traçado, o caminho.
Coentro, páprica, cravo, cominho.
Moenda moendo o grão. Uva e vinho.
Farelos e restos no prato.

De resto o que resta ou não presta.
Calado consente,
Olho fechado não sente.
Sol natimorto.
Lua demente.
Cai o breu de bruma
Qual véu de alguma
Noiva sem noivo,
Sem dó ou piedade.
Beleza, candura ou maldade.
Cheirinho de flores no jardim?
O chá esfriou, o chá de jasmim.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre – outubro/2002

Procura-se a louca poesia

Procura-se poemas p’ra ler,
poemas que sejam poemas,
não receitas de como viver —
precisa-se de sonhos apenas.

Procura-se sonhos somente,
sem regras, discursos ou lemas,
longe dos panfletos ingentes —
apenas simples poemas.

Poemas, simples poemas,
é tudo o que se procura:
leves e sem algemas —
livres como a loucura.

Procura-se a louca poesia,
a tempestade de poucos,
a fuga da calmaria —
a poesia dos loucos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 10/09/2025

Para ler e esquecer

Eis a hora de calar.
De nácar negro da noite
Faço a concha que me envolve.

Envolto, não serei escutado.
Engendrarei minha pérola
Longe dos olhos do mundo.

Não quero deixar meus rastros
Pois quero ser como tudo na vida:
Ir sem deixar rastros

Exceto singela pérola,
Poema que minha dor gerou,
Para ler e esquecer.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 10/09/2025

Dezoito horas

Dezoito horas.
É este o momento.
O mundo parece estertorar.
A tarde parece gritar em desespero
E um vazio abissal toma meu ser.
Somente enquanto escrevo
Sinto algum calor,
Um certo conforto.

Verão, inverno,
Não importa a estação,
Esta é a hora,
É a vez de ficar suspenso
Sobre o abismo
Ouvindo ecos e gritos.
Esta, esta é a hora
Do grande vazio,
Do grande murmúrio
Do gemido do mundo
Cansado, cansado…

Mas isto só pode
Ser coisa da minha cabeça.
O mundo não para
Às dezoito horas.

Há risos também
Às dezoito horas
E também há promessas
Às dezoito horas.
E há coisas para encontrar
Nos meandros das dezoito horas.

Não posso,
Não posso parar às dezoito horas.
Às dezoito horas é o momento
De me unir ao grande bolo fervente
E alegre do mundo.
Esse bolo faminto,
Surdo, cego
E feliz, feliz,
Feliz.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  09/09/2025

O sono de Atlas

I

Dores de ossos fora do lugar.
Eu inteiro estou fora do lugar
De onde não deveria ter saído.
Se esta escuridão fosse um vinho
Eu a beberia seca, tinta,
Como sói ser a escuridão.
A noite ofega ventania.
As rodas singram rodovias,
Cargas, vidas, vidas-cargas.
Minha vida é minha carga, o meu peso.
Peso meu que pesa sobre a terra,
Céu que pesa sobre meus ombros.
Rodo, voo e navego em rotas espirais
Como os insetos em torno às luminárias estivais.
Mas no momento todos dormem
Em sonhos de casulos.
Navego agora buscando as águas de Morfeu
Em conformada calmaria.
Meu peso pesa.
O mundo pesa.
A vida pausa.

II

Pausa o peso mas a dor não pausa
E a espera corre com o tempo
Que percorre toda superfície,
Interstício e vilosidade da existência.
É preciso alguém que segure o eixo
Para a Terra permanecer
No seu transe de dervixe.
Quem segura o Sol?
Quem segura a Lua?
Convém calar e caladamente ser,
Pois saber isto ou aquilo
Não mudará nem isto nem aquilo.

III

A vida é ciranda de luz e de trevas.
Sobre os ombros pesa o mundo.
Sobre a alma pesam as dores.
As dores ensinam
E os gemidos recitam
O que a dor ensinou.
Há tantos poetas com cargas aos ombros.
Há tantas odes à dor.
Há tantas dores, há tanta poesia
Falando da vida que pesa no mundo.
Se a vida fosse mais leve
O mundo não pesaria tanto.
A dor é inerente à vida.
Geme quem vive.

IV

Foi-se outro dia, eis a noite.
Nova noite, a carga de sempre.
Algias e analgésicos, companheiros da labuta.
À noite as formigas levam cargas.
Decerto são elas felizes.
Decerto tomam analgésicos.
Decerto não.
As formigas e seu propósito.
O meu é segurar este céu?
Há o céu de cair
Se por acaso eu relaxe?

V

Os titãs também dormem.
Atlas repousa em travesseiros
De nuvens do céu aos seus ombros.
E se a acídia tomasse Atlas?
Lançaria o céu à Terra?
Decerto Atlas é um poeta
Para quem a descrença é mote
Em vez de desmotivo.

Sonho em sono,
Sonho acordado
E meu céu é fardo e dádiva.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 08/09/2025

Profissão de inverno

I

Apesar do sol que ilumina e aquece este dia
E empurra para longe o inverno,
Os seus braços secos me envolvem
E puxam para a escuridão.
Quero a luz e o sol e desejo a vida
Mas o inverno rebrota em cada estação dos meus dias.

Há algo que me orbita e me  obscurece.
Sou a sombra do que devia ser.
Assim sou visto e sentido
Por toda alma que me vê e sente.
Melhor não ser visto nem sentido.
Melhor a sombra e o subsolo.

O que dizer da fé,
O que dizer da ciência,
Que tanto prometem,
O que dizer de mim mesmo.
O que são os sorrisos que me sorriem?
O que são os sorrisos que sorrio?
A quem louva o bater do meu coração?

II
O sol sabe ser sol apesar das nuvens escuras.
A lua sabe ser lua mesmo ao lado do sol.
Mas o inverno me abraça
Num sufocante não ser
Quem eu deveria ser,
E me estranho mesmo diante de mim
No mais radiante dos dias.

Vá, inverno, me abandone
Ao sabor da primavera.
Deixe a brisa e as flores renovarem
Minha alma.

III

Mas saem verões e entram primaveras,
Sucedem-se estações e renasceres,
Jamais floresço,
Morro morte após morte,
Só me resta este corpo em franca decadência.
Quem dera eu vivesse
Como o mais simplório dos tolos.
Seria feliz, mais feliz do que sou.

IV

Ó, vida, eu a temo!
Tu és peso, dura carga,
És um covil de feras, vida!
A temo, a estranho, de ti eu me enfado.
Vida, por que me abraças?
Tu e a velha dama lutam por mim.
Tu te tornaste amarga pois sabes
Que ela sempre vence no fim.
É a ordem das coisas, tola vida.
Vida e felicidade são fugazes lampejos
De uma eternidade desconhecida.
Esperança é tudo que resta.
Esse cimento tão tênue.
Esse doce alento.

V

Aprendi a rir da ciência.
Quem me ensinou foi a vida.
Quem me ensinou foi a dor.

Aprendi que minha fé é mui fraca
Quisera não desesperar,
Quisera falar de esperança.
Quisera sentir um calor
Que aquecesse minha alma.
Mas aqui dentro é frio,
Aqui, neste meu coração.

Quisera acabasse o inverno
Do qual saio para logo entrar
Com ou sem sol,
Com ou sem festa.
Quisera não congelar
Os corações que me veem.

VI

Pruridos na alma,
Pruridos no corpo.
Olhar para o passado
É olhar só trevas e tristeza
Onde também houve luz e alegria.
São estas lentes,
Esta alma míope
Que míope olha o passado
O presente e o futuro.
Míope, ora confia de mais,
Ora confia de menos.
Míope, ora se dedica demais,
Ora se dedica de menos.
Míope, ora espera demais,
Ora espera de menos.
E de tropeço em tropeço
Se desencanta com a vida.

VII

Minha fé é um grão de mostarda.
Um grão de areia.
Cabe na ponta de uma agulha.
Mesmo assim o Pai disse para pedir
Mesmo com essa minúscula fé.

Cura-nos,
Cura-nos,
Cura-nos!
Ó meu bom Deus, Vos peço:
A nós, tolos e feras,
Cura-nos!

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 07/09/2025

Pruridos

Coça este corpo, minhalma coça.
Passam as horas sem que eu possa
Conter o tédio que me inflama:
Alma e pele — são uma chama.

Coça o tempo,  saio do prumo,
Viver-coçar, sem ter um rumo.
Então percebo o absurdo:
Tantos pruridos que tem o mundo.

A alma em fuga e o corpo em dores
São mil pruridos, são mil ardores,
São mil ódios, são mil amores,
São mil fascínios, são mil pavores.

Coça o ruído na minha alma,
A tua distância, que me desalma.
O tempo é fluído que escorre e queima
E o poeta é um louco que sofre e teima.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 06/09/2025

Alento

Tu, minha florzinha,
Bonequinha de sabugo.
Eu areia na garrafa,
Meio cego, meio surdo.

Há quanto tempo foi isso,
Há quanto tempo eu disse
Que quando perdesse o viço
Tu serias uma Alice

Sonhando com maravilhas
Que tu já não poderias:
Seríamos nós duas ilhas
Separadas por algias

E tantos males do tempo.
Daqueles idos, ó linda,
Restaria a nós o alento
De nós nos termos ainda.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 05/09/2025

Tergiversos 2

Há momentos em que tudo se cala.
Há momentos em que o tempo e a alma
Não têm mais nada a dizer.
Há momentos de nada querer.

Há momentos em que tudo exala
Um letargo que cresce e se instala
Dentro da alma, no corpo do ser,
Langor de horas de quase morrer.

São momentos das coisas sem nome,
São horas de fastio e de fome,
São horas de infindáveis agoras
Noites adentro, até as auroras.

Há momentos em que tudo é espera:
Eis o tempo, carrasco deveras
Nos momentos em que a alma dispersa
O tédio em poema que tergiversa.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 05/09/2025

Incertezas

Dores. Sobre dor tenho aprendido.
Antes sabia mui pouco.
Mas o tempo ensina o corpo.

Silêncio. O que sei sobre o silêncio?
Não funciona como remédio,
Mas é grande preventivo.

Riso. O riso é salutar.
Na hora e dose certa.
Do contrário o tarro talha.

Presente. É o pretérito do futuro.
Somos um fluxo que se finda
Quando formos passado.

Minhas dores.
Meu silêncio.
Meu riso.
O presente passa diante de mim
Como corisco na noite
No mesmo céu que a manhã
Me reserva ensolarado.

— E a manhã se fez tormenta.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 04/09/2025

Langor de setembro

I

Langor de tarde chuvosa.
É como roteiro de monótono filme.
Meridiano verídico me divide.
Ossos e anexos este quem sou.
Vida, essas cenas de Plauto,
Enganos e desenganos,
Ser quem penso,
Ser quem pensas,
Pensarei?
Corta para os canilóquios dos quintais
E para a copada da jabuticabeira
Que vejo com meus ouvidos tinitosos.
Pausa para a dor,
A praxe da carne fraca
Fortalecida no sofrer.
Dormir, dormir,
Dormir, morrer.
Tudo é descanso, afinal.
Mas não quero descanso.
Quero ver onde vai dar esta vida.
Esta trilha, esta picada
No liame do devir.

II

Mas o tempo não é linha,
É fumaça de incenso, suave espiral,
Galáxia girando no centro
Da xícara do pingado.
E o pardal cessou o seu discurso.
Terei eu sido seu único ouvinte?
As coisas têm suas horas.
As horas têm suas coisas.

III

Setembro, tu pareces acreditar ser o último,
Pareces o cair de cortinas
Diáfanas sobre o tempo.
Setembro responde sendo setembro.
Eu continuo sentindo aromas de cafés não feitos,
A pele à flor dos meus nervos.

IV

Talvez o mês ou o tempo
Ou algo sem nome
Me fale através deste langor.
A jabuticabeira já não fala,
É um novo silêncio.
Até o silêncio se renova em setembro.
O silêncio suspira,
O silêncio clama por existência.
O silêncio dos quintais e casas vazias,
Dessas aldeias de setembro.
Mas não sou silêncio.
Uma multidão fervilha em mim,
Lutando para não ceder ao langor deste entardecer.

V

Levanto-me da cabeceira.
Quero ver se há pôr do sol.
Quero desejar-lhe boa viagem.
Mas não. A tarde é nuvens densas.
Vão-se dias, ficam nuvens e noites
De torpor acumulado.
O céu rosna contrariado
Despachando memorandos pluviais.
O fundo é o mesmo:
Tínitus e motores.
Há coisas que mudam e
Há coisas que não mudam.
Eu mudo, emudeço e me desrumo.
O vórtex se faz no zênite e subo,
Subo rumo ao ralo universal.

VI

Deságuo numa nova noite.
A noite é nova e o langor é antigo.
E toda noite envelhece com o tempo
E o tempo anoitece e logo morre
Como as vidas que consomem tempo.
Ou é o tempo que consome vidas?
Morrer e renascer só é possível vivo.
O tempo vive quando há vida.
O tempo morre?
Quantas mortes morre uma vida?
Corta para um trovão.
Morre a noite.
Langor e madrugada.
Aguardo o dia,
Outra vida
Ou outra morte.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 03/09/2025

O afogado

Ele falava e falava
Palavras doces e amargas.
Num pretenso Olimpo
Ele falava p’ra si
E queria que o mundo ouvisse.

Ele foi envolvido
Num mar de palavras,
Sereias perdidas
Que confundiam e ocultavam
Umas às outras.

Eventualmente ele se afogou
No seu próprio mar,
Mas lamentou as palavras
Mortas e ocultas
Sob tantas palavras.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 03/09/2025

Horrores

Só pra te esquecer
Aprendi a cantar.
Só pra te esquecer
Eu bebo este vinho.
Só pra te esquecer
Encontrei um caminho.

Só pra te esquecer
Eu frequento a igreja.
Só pra te esquecer
Eu parei, ora veja:

Parei de olhar
Esse céu, essas flores,
Parei de sonhar;
Hoje vivo horrores.

— Só pra te esquecer.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 03/09/2025

Previsão do tempo

Sim, todos somos felizes.
Mas a noite cai e submerjo
Num mar destituído de orla
E destituído de sol —
Não passo de profundidade.

Por vezes sou superfície
Banhado na luz de algum sol
Ou de uma lua perdida
No campo da memória
Onde tuas vozes se tornaram ecos.

Por vezes sou vento calmo
E o tempo dobra em silêncio
No bronze que te reflete
No dobrar de um sino
No campanário do passado.

Quando te lembro
Sou tempestade
Saio do meu leito
Em meio a nuvens espessas
E raios cortam minha alma.

Quando meu tempo acalma
Volto ao repouso
Nas sombras das profundezas
Longe da brisa e do sol
Só para te esquecer.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 02/09/2025

Bandos poentes

Poente no horizonte que incendeia
A mente que observa.
Buscam refúgio no verde,
Denso verde.

Bandos e bandos suaves de suaves vôos
Convergindo, convergindo.
Eles não cantam,
não cantam.

Sobrevivem os dias, após dias,
Após dias na leveza
Na leveza de existir.
Existir ignorando.

Ignorando a certeza.
Ignorando a incerteza.
A incerta certeza
Do porvir.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 22/03/2003

Mergulho e naufrágio

Quando os minutos param
e sinto-me profundidade
sou nemo que submerjo
e confabulo com as cidades

submersas no quem sou,
abismo, silêncio e sal
que se dissolve sendo
água, barco, este mal

de me perder no Mar Sépia
nas vagas da nostalgia,
e me quebrar contra as rochas
na orla da melancolia.

Na orla quebram as ondas
trazendo restos cansados
de viagens inconclusas e
minutos naufragados.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 02/09/2025

Rosas e espinhos

Vejo uma rosa singular
no jardim das coisas plenas.
Mas os espinhos da roseira
não permitem que eu a toque.
Apenas olho de longe,
pois arrancá-la aos seus espinhos
é arrancar sua plenitude.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 31/08/2025

Tédio

O que há para dizer
neste dia que se finda?
O que há aqui de não dito
que ninguém ouviu ainda?

O que há de se fazer
antes que tudo se extinga?
Quiçá mergulhar num prazer
desconhecido ainda?

Após cerradas as cortinas
tudo é desconhecido.
A noite cai pelas quinas
num langor entorpecido.

Talvez exista um lampejo
no fundo do esquecimento,
quem sabe chama ou desejo
ardendo no pensamento.

Espio no fundo da mente
e nos desvãos da vontade:
não adianta seguir em frente,
isto é só tédio que arde.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 31/08/2025

Coisas para fazer antes de morrer

Antes de morrer
Não posso esquecer
De fechar os meus olhos
Não quero ver tanto choro
Não quero ver tanto riso

Não quero entristecer
Os mais de mil palhaços
Desse salão de ilusões
Que nascem para se perder
No meio das multidões

Nem quero deixar
Uma cara de espanto
Olhando para o teto
Esta boca aberta
Mais loquaz do que nunca

Antes de morrer
Fecharei esta boca
Calarei estes versos
Seguirei o caminho
De quem se foi antes

Hei de fechar meus ouvidos
Para não ouvir o ranger
Dos dentes que se despedem
Bastarão os meus dentes
Já gastos da espera

Antes de morrer
Preciso despedir-me do Sol
Preciso sorrir para a Lua
Preciso ver mais uma vez
Quem me viu tanto tempo

Quem me riu
Chorou
Procurou
Encontrou tanto tempo
Perdeu para sempre

Preciso de um gole de água
Talvez um gole de canha
— Aguardente de fogo
Para lavar meus pecados
Meu derradeiro batismo

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 30/08/2025

Memento vivere

— Memento mori!
Cale-se.
Não me diga do que lembrar.
Não me ensine a sofrer.
Cale-se.
Já nasci com saudades.
Já nasci lembrando
Que o fim é a meta,
Que tudo é breve
Como um dia de festa
Como um sorriso
Como um sonho
Numa noite a queimar
Feito incenso que
O vento leva.
Por isso cale-se, e:

— Memento vivere!

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 30/08/2025

Coração de passarinho

pula no peito
coração de passarinho
canta alegre no arvoredo
lá no fundo do quintal

canta pro mundo
que já começou o dia
coração de passarinho
não pode deixar de cantar

vou te pedir passarinho
para que cantes pro mundo
que o peito de um cantador
morre ao secar o canto

vou te pedir de mansinho
pra espalhares pro mundo
que coração de sonhador
se afoga nas águas do espanto

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí -2012
Cachoeirinha, 29/08/2025

Î

Chega de pingos
Disse um i encharcado
Usando um circunflexo

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 29/08/2025

Enquanto o dia não vem

Veja. Está tão próximo o dia
Como essas coisas há muito aguardadas.

É um desses dias tão próximos
Como qualquer outro dia desses

Que batem à porta de repente
Ou que entram sem bater, assim, de inopino,
De assalto.

Sente-se o olor de um incerto óleo
Ungindo os tempos que se avizinham:

Tempos de festa, tempos de tristeza;
Tempos de luz, tempos de trevas;
Tempos de viver, tempos de morrer…

Tempos de memórias antigas
Envelhecendo as coisas novas.

Tempo se desfazendo em presente
Se soterrando no passado.

Levemos leves os dias,
Para sermos levados por bem.

—Se não levamos os dias,
O tempo por mal nos leva.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 29/08/2025

Jardim de inverno

O sol aquece estas rugas,
Aquece também esta calva
Que, de fato, quase queima,
Fazendo sentir-me inteiro
Neste final de agosto.

Diluído entre as sombras,
No sol tomei um corpo,
— Este meu corpo,
Para enviar sinais de vida.

Que na primavera eu floresça
E as dores do mundo eu esqueça
Esturricado pelo sol
Vendo as flores no jardim
E as abelhas tão sedentas

Nas flores do manjericão
Enquanto floresce a arruda
Enquanto esqueço da vida
Da vida que não me esquece.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 29/08/2025

O pó sobre a mesa

Fosse minha força renovada,
Minha fé, minha esperança,
Como esse pó sobre a mesa
A todo momento limpa
A todo momento coberta
Pelos dejetos do ar…

Ah, esses momentos,
Momentos tão impossíveis!
Como posso estar aqui
Sob este peso inaudito
E ao mesmo tempo tão longe…
Já duvido do que acredito.

Eu disse “eu vou lutar”,
Eu disse “eu vou mudar”,
Mas a vida é como o pó
Que se renova no piso
Que se acumula nos móveis
E que sufoca a alma.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 28/08/2025

Sozinhos

Sozinhos.
Sempre fomos sozinhos.
E continuamos sendo.
Sozinhos nascemos
E fomos acalentados
E carregados ao colo.

Sozinhos nos primeiros passos,
Com auxílio nos levantamos
Para aprendermos sozinhos
A não repetirmos as quedas.

Sozinhos sorrimos
Para rostos sorridentes
E sozinhos perdemos
A pura e santa inocência.

Sozinhos crescemos
Em meio a outros sozinhos
Compartilhando solidões.

Sozinhos encontramos
Alguém para dividir
A solidão dos corações.
(Tão doce e tão amarga)

Sozinhos envelhecemos
Sem respostas, sem alento
E sozinhos terminamos
No derradeiro momento.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 28/08/2025

Dançando com a Lua

A noite estava encoberta,
as nuvens eram silêncio.
E tu me olhavas discreta
envolta por névoa e incenso

que de meu sonho subia.
E tu dançavas fulgente,
as nuvens por companhia
que te envolviam regente

da noite que se lançava
feita de sonhos e vento.
Na noite que me guardava
o tempo se me fez lento:

eu me sonhei ao teu lado
dançando com tuas luzes.
Em prata fui mergulhado,
agora tu me conduzes.

Dançando com o luar,
desperto na madrugada,
estou contigo a sonhar —
não sonho, penso, nem nada.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  28/08/2025

Ousadia

Da vida deixei
O que deixei de viver.
Da vida deixei
Tantos versos insones

E uma página vazia —
O que deixei de falar.
Um mudo gosto na boca.
Uma certa falta de ar.

Quero ver-te.
Tu és vertente,
Respirar, inspiração
E sem ti eu expiro.

Tu não és carne
E fez-se tanto por mim.
Tu não és ouro
E deste tudo por mim.

Inquieto espero
Que chegue o dia
Como qualquer um dia desses
Após uma vida sem ti.

Um reino por uma vida
Apenas uma me chega
Para corrigir o texto
Que sem ti ousei escrever.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 26/08/2025

Nada disso

Não terei sido lido nem por ti?
É preciso renovar a minha casa.
Serei eu mesmo numa casa renovada?
Não terei cansado desta minha casa?
Cansado de mudar
para ser sempre o mesmo.
De fazer sempre o mesmo,
De me fazer um personagem.
Pois não sou isso,
Sequer sou algo,
Nada sou,
Sou isso, nada,
Nada que sou,
Nada disso.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 2012

Da janela (Quarto andar)

Cai a tarde. Dois prédios cinzentos cortam mais da metade
do horizonte rubro que agoniza e cuja luz respinga sobre este
rosto apagado.
Estes prédios cada vez mais escurecem — eu vejo pela janela —,
o horizonte apaga-se aos poucos.
Um risco, derradeira centelha, um pássaro passou aqui pelo
quarto andar.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, outubro/2002

Desliguem as máquinas!

A razão não mais fala,
os versos não mais fazem sentido
lacrados numa garrafa
para quebrarem nas ondas
de uma ilha perdida
num oceano perdido
de um paraíso perdido.

Desliguem, desliguem as máquinas!
Interferem, invadem, adulteram
minha boa e sã irrealidade.
De Pã mal posso ouvir a música
que a Nova Ordem tornou abjeta.
Até o Crucificado foi proscrito.
Desliguem, desliguem os aparelhos.
Quero subir para longe desta vida.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 24/08/2025

A razão dos ateus

Suas almas vestem tal véu de pureza,
palavras suaves, gestos de luz.
O chão sagrado pisam com firmeza
mas os corações, ninguém os traduz.

No templo, são santos de ocasião,
na rua, espinhos em pele de flor.
Pregam amor: eloquente paixão,
enquanto julgam, guardando rancor.

No templo não pisam pensando em Deus,
mas como num palco para brilhar.
Fornecem razão pra tantos ateus

Que se motivam no seu torpe exemplo
Por causa deles se põem a zombar
Das maravilhas que brilham no templo.

***

Mas há quem ore sem querer aplauso,
que vive a fé sem palco ou papel.
E mesmo entre zombarias e caos,
guarda o divino em piedoso anelo.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 24/08/2025

Dada a relevância espiritual e humana do tema abordado, o soneto, embora formalmente completo, exigiu um desdobramento lírico. Assim nasceu o pós-soneto — quatro versos adicionais que não quebram a estrutura clássica, mas a expandem com reverência, oferecendo ao leitor um respiro de esperança após a crítica.

Pôr de vida

Me sinto numa gaiola cercado de coisas que devo pagar. Cercado de compromissos e de mandamentos. Me sinto numa gaiola.

Sim. Eu sei que pago para viver em uma gaiola e sei que a liberdade do pombo paga seu preço na boca do gato. Cul-de-sac.

Lá fora vejo, além das paredes e cabos que conduzem vaidades, o céu envolvendo o poente e as luzes espalhadas em tons de cobre morrente misturadas ao azul que se despede.

O pôr do sol é tão lindo. Quisera o pôr da vida fosse assim.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 24/08/2025

Eu desperto

atraca a morte dos meus tempos tão queridos
no cais soturno, vertedouro dos destinos.
vês, já é tarde, embarcarei com minha acídia
eis que vem a dor, vera dor que antes não havia

e no convés da ausência tudo silencia,
tudo é sombras nesta nau sem ter vigias.
amava as trevas, não esboçava um sorriso
agora vejo que pranteei sem ter preciso.

o barco aporta numa terra nua e fria
sinto agora a dolorosa realidade
hei de chorar por toda a fria eternidade

hei de sofrer o suprassumo da agonia
sinto, sinto, é o destino, está tão perto
o golpe é forte, minha vida, eu desperto!

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 23/08/2025

Se o Sol voltasse

A chuva escorre sobre o parabrisa
Lembrando lágrimas sobre o teu rosto.
Triste passado que nos eterniza:
A tempestade de um chuvoso agosto.

Agora chove parecendo pranto
Aquele tempo que não vai mais brilhar.
Se tu voltasses voltaria o tempo
Eu saberia desta vez te amar.

O tempo passa, meu amor não volta.
É como a chuva que corre para o mar.
— Trovões e vento, eis minha revolta,

Vida de chuva, frio e ventania.
Tantas vezes chego a acreditar
— Se o Sol voltasse, tu me voltarias!

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 23/08/2025

Quase

sou pouco menos que tudo
sou pouco mais do que nada
sou meio termo, um mundo
sou meio mundo minhalma

sou quase voz que não fala
sou quase luz apagada
sou quase paz que não tarda
sou quase dor debelada

sou quase flor arrancada
sou quase amor, quase ódio
promessa quase quebrada
sou quase morte de tédio

sou quase grito contido
sou quase chama sem ar
sou quase tempo perdido
sou quase fim por chegar

eu quase disse “te quero”
mas algo assim me calou
agora eu já mal espero
descobrir este quem sou

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 22/08/2025

Expiação

são tais as vozes das nuvens,
são tais os touros de bronze
encerrando tanta dor.
o que está por suceder?

há no céu limpo trovões,
o sol se partiu às onze.
treme a Terra, um estupor,
com ela fico a tremer.

o dia se fez em noite,
a noite levou pra longe
o que restou da paixão
que nos fazia sofrer.

o sol lança suas brasas
famintas chegadas de onde
é tudo luz e calor
para tentar aquecer

o que sobrou de nós dois:
o frio dessa extinção;
o que restou de nós dois:
almas em expiação.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 21/08/2025

Céus de maravilhas

Voo baixo.
Muito abaixo desses sonhos.
Muito abaixo das estrelas
Dos céus de maravilhas.
No meu voo,
Deliro no silêncio em meios tons.
Voo leve junto a pálidos floresceres.
Quase toco as superfícies desses seres.
Que famintos admiram estas asas.
Ouço o bramido desses seres.
Tremem minhas asas
E logo ganho altura.
Volto para os céus de maravilhas
Enquanto meu sonho não acaba.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 20/08/2025

Poema espelho

Temo, por vezes temo
o autor destes versos.
De onde brotam?
Uiva nas frestas da veneziana,
Sopra, esquece, dissolve, envelhece.
Leva a razão ao algures.
Lança a razão ao abismo.
Escrutina minha alma.
Como será sua face?
Decerto mente o espelho,
Decerto mente a si mesmo,
Decerto mentem estes versos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 20/08/2025

Cigarra 2

Numa noite de calor,
entrou pela porta da cozinha,
encontrou repouso sobre um armário.
Ensaiou timidamente seu cantar
revelando sua visita inopinada.
Então iniciou um silêncio de cigarra.
A hora agora é doce. Aguda.
E a cigarra permanece muda.
Pois não há nada a explicar.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 2012

Amortecida

essas vidas pouco ricas,
essas vidas pouco plenas,
esta vida quase vida,
esta lida, quase morte.

quem tem sede dessa vida?
quem tem medo dessa morte?
quem não bebe e passa fome
meio morte, meio vida?

tanta morte matadora,
vias nortes destes suis.
vejo a vida amortecida
mais matada que morrida —
esses teus dedos azuis.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 2012
Cachoeirinha, 20/08/2025

Bustos e cenotáfios

esta cabeça que dói,
que dói por esta tarde,
por este dia, pelo que foi
e pelo que há de ser ou não ser.
por alguma questão desimportante
ou de sumiça importância.
sim, por algo ela dói, pois há um peso no mundo
e esta alma pesa feito sibilo incessante.

preciso retirar esta barba.
é como esculpir pedra bruta
que pulsa enquanto pensa pesando,
enquanto pesa pensando
pensamentos sem peso,
peso sem pensamentos,
pensamentos que esmagam,
pensamentos que vagam,
bolhas de vento que são.

pulsa profundamente
esta pedra sob esta barba
como a cabeça solene
e sonolenta de um busto
sob os pombos da praça,
amantes de bustos e cenotáfios.

pulsa profundamente
esta carne
sob esta lâmina.

pulsa.
pulsa a pedra.
pulsa a carne.
vive a lâmina.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 2012
Cachoeirinha, 19/08/2025

Tetania

a vida é séria, talvez não.
uma série de espasmos
e reações em sentido contrário
à minha vontade.

não consigo sorrir.
não consigo chorar.
eis a alma em tetania.

— vade retro!
te querer, vida?
por bem, não me queres…
por mal, não me queiras!

***

não me queiras, vida,
se é para me vestir de ausência,
se é para fingir um sentido
em cada passo sem cadência.

mal te quero, vida.
em que pese amar-te,
é bem dura esta lida
dia a dia a levar-te

como carga aos ombros
pesando na alma
aos trancos e tombos
feridas e traumas.

bem te quero, vida.
apesar dos pesares,
não incluo a partida
entre meus desejares.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 19/08/2025

Atroz

O amplexo dos teus lábios envolve os meus,
o complexo entrelaçar dos nossos seres.
Nua realidade…
O sem nexo em minha mente sucedeu

Ao saber assim de ti tantos quereres
Por este que não contempla o mesmo rumo
E apenas da bela flor deseja o sumo

Sem no entanto deixar em tua alma, indelével,
Alguma marca que te seja intolerável.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, abril/2001.

Pores do Sol

Brilhou mais uma vez, impávido,
o Sol.
E tudo cá embaixo esteve o mesmo,
assim como acima ou além dele
e, acima e além de tudo mais,
sempre foi, tem sido e há de ser,
sempre e sempre:
A mesma querida e inevitável
mesmice universal.

Hoje não vi o Sol descer do palco.
Eis as dúvidas:
Porventura terei perdido algo?
O que teria encontrado?
Uma revelação?
Como abarcar tantos possíveis?
(Eis um impossível)

Viver o que é possível
ou ver todos os pores do Sol,
eis a questão.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
17/08/2025

2 responses to “Pores do Sol”

  1. Avatar de غيث الروح

    Suas palavras chovem sobre a alma um sussurro de possível e impossível ao mesmo tempo,
    nos questionando sobre o pôr do sol que vemos todo dia,
    sobre a mesmice que parece fixa,
    e sobre os momentos em que a alma tenta abarcar todas as possibilidades…
    Em seu texto, encontramos o silêncio do universo sussurrando: viver o momento, apesar de todos os impossíveis.

    Ghayth da Alma☁️

    Curtido por 2 pessoas

    1. Avatar de Pedro Luiz Da Cas Viegas

      Muito grato pelos preciosos comentários! De fato, desejar experimentar tudo e tudo abarcar é algo que nos leva à perda da paz interior.

      Curtido por 1 pessoa

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Conversação

Conversemos, mas aviso:
Não me tomes todo ouvidos.

Falemos deste vil tempo
Que por ele percorremos,

Desta seca e desta chuva
Que por elas padecemos,

Destas dores, dissabores
Com os quais só aprendemos.

Eu te ouço — quiçá tu me ouças,
E talvez nos entendemos.

Chega o dia, chega a noite,
As dores que empreendemos.

Me ouves tanto quanto te ouço,
Mas não te sou todo ouvidos;

Nem tu me és, me parece —
Teus sonhares entretidos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí,  16/08/2025

Um sonho

Ocupas tão belamente
o meu campo de visão;
tens pra ti todo meu tempo,
meu cativo coração.

Tuas linhas, superfícies,
teus volumes pra mim são
Impossível universo
em sumular amplidão.

Tua figura, teus traços,
esmerada criação,
os padrões da tua blusa,
hipnótica tentação.

Pesa tua alma, suave,
como seda sobre mim;
não te toco, mas te sinto,
os teus lábios carmesim.

Este sonho logo acaba,
pois tu segues teu caminho;
eu desperto do meu sonho,
te murmurando baixinho…

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  16/08/2025

Versejo sem dono

Ouço a rodovia próxima
Berrando um berro contínuo,
Falando que aqui já tardo.
O sol me lambendo exímio

Em reviver este corpo
Que é presente e mais fardo —
Não me concede sossego.
Com o sol então divago:

Há tantos rumos abertos
Mas partir não é escolha.
Tudo tem um tempo certo,
Desta copada eu sou folha

Que só cai quando amarela.
Vou com o vento do outono
Pra brotar na primavera
Feito versejos sem dono.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 15/08/2025

Vida

ele queria morar na praia,
banhar sua melancolia,
confabular com o silêncio,
ouvir as vozes caladas.

queria ouvir a conversa
da água, do vento e da areia,
sobre as intempéries da alma,
sobre as angústias de Netuno,
sobre os desejos das sereias
e sobre a loucura dos homens.

queria ouvir a Lua
em segredos com o vento
rebentando o mar na orla
bramindo como um lamento
pela insaciedade do tempo.

ele ouviu no silêncio
o que não ouvira antes
e compreendeu ser imenso
o seu derisório instante.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 15/08/2025

Rebanhos

Independente, sou frasco sem rótulo.
Meu conteúdo coletei pelo mundo,
Colhi dos meus bens,
Colhi dos meus males.
Meu escárnio eu guardo
Para os que defendem a liberdade
Através da rigidez da falsa moral,
Através de leis arbitrárias,
Aplicadas nos bretes
Onde as tribos se reúnem.

Bretes onde lobos reúnem ovelhas
Para o abate voluntário.

Sou livre,
E a liberdade é solidão.
A solidão é silêncio.
O silêncio nos faz ouvir
Nossa própria voz.
A Sua voz.

Independente, aprendi a ouvir
Sem dar ouvidos.
Aprendi a falar
Sem dizer tudo.
Aprendi o otimismo
Sem o tolo entusiasmo.

E os rebanhos…
Deixei-os para os lobos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 14/08/2025

Mentimos

Mentimos.
Tememos a revelação.
Tememos a nós mesmos.
Tememos a nossa fé.
Preferimos condenar-nos
à falsa luz de sorrisos vãos
e a falsas esperanças.

Não desejamos remover
as montanhas que carregamos
sobre nossos próprios ombros.
Sísifos que somos, insistimos,
insistimos, insistimos.
Talvez seja uma pena que pagamos,
talvez seja por medo,
talvez apenas masoquismo.

Somos surdos.
Cegos.
Insensíveis.
Mentimos a nós mesmos.
Mentimos arte,
mentimos fé,
mentimos amor
em todas as instâncias,
mídias, lugares e momentos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 10/08/2025

Caminhos

Vi multifacetárias Shivas
rebrilhando sol sobre o azul.
Vi tintas de luz pinceladas,
nuvens mascavas
no céu de especiarias
do recôncavo universal.

Ainda assim, pergunto:
terei perdido algo no caminho?
O mapa para Pasárgada?
A rota para as Índias?
O elo entre o que fui e o que sou?

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 13/08/2025

Ambiências (5) – Mise en abysme

No quadro havia um artista
Que pintava um quadro
E olhava ocupado
Eu surgindo no quadro
Onde eu olhava o artista
Que eu pintava num quadro
Onde havia um artista
Que pintava um quadro
E olhava ocupado
Eu surgindo no quadro
Onde eu olhava o artista
Que eu pintava num quadro…

E percebi que fora do quadro
Eu era pintor e pintado.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 15/02/2005
Cachoeirinha, 13/08/2025

Pegadas (versão 2)

Não nego, eu fui gelo.
Não nego, eu fui duro.
Não nego, eu fui pedra.

O tempo me desfez
Numeroso como a areia
A guardar tuas pegadas.

E tu, tu retiras com cuidado
A lama que deixei
Nos teus sapatos.

Eu tenho tuas pegadas.
Tu tens a minha lama.
A chuva nos afasta

— Limpando nossas almas.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 13/08/2025

Pegadas

Não nego que sou rocha,
Não nego que sou gelo,
Não nego meus defeitos
Que são tantos quanto a areia.

E, como ela, aceito tuas pisadas
E marco tuas pegadas
Que o tempo logo leva.

Minha solidez
Desfaz-se com o tempo
Desfaz-se com a saudade.

Ah, essas pegadas tuas em minh’alma!
Já não sou pedra, sou barro
Que grudou nos teus sapatos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 13/08/2025

Pegadas: a conversão pela saudade

Neste poema, o homem duro e impenetrável — rocha, gelo, pedra — revela sua transformação profunda, impulsionada pela saudade que sente. É essa ausência, esse vazio, que o desmancha, assim como o tempo que apaga a solidez, e o torna mais vulnerável.

Ele se vê agora como a lama grudada nos sapatos da amada — um símbolo de entrega, conexão e mudança interior. A saudade não apenas distancia, mas também converte, moldando-o em algo novo, mais sensível e aberto ao afeto.

Assim, o poema explora a força da saudade para transformar até o mais endurecido dos corações.

Vertigem

Os dias passam em vertigem.
Em vórtice, queda livre.
Almas estateladas no presente.
Restos enterrados no passado.
Enquanto sonham com o futuro.

O futuro é uma incerteza.
Certo é o futuro que se foi
Passado afora.
Certo é o futuro que se faz
Presente.
Incerto é sonhar o futuro – utopias.
Tolice é fazer do futuro um fantasma.

Certo é o presente que consome
nossas vidas:
O presente aniquila.
O  presente envelhece.
O presente nos mutila.

Bem ou mal, o tempo hoje não é o mesmo.
Corre, dá vertigem…
É como um misericordioso golpe.
Misericórdia divina
Estes dias,
Estes anos
Tão mais curtos?

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 12/08/2025

Sou pedra

Sou Pedro.
Sobre estas solitárias rochas — liberto-me das minhas necessidades.

Não me sorria com seus marfins imaculados.
Não me procure.
Tampouco peça auxílio — artigo que tanto me falta.

Pedra…
Tento endurecer-me.
Cegar-me.
Emudecer-me.
Insensibilizar-me.

Pedra…
Espero o tempo esfarelar-me,
num ciclo de calor e frio involuntário.

Se estou quente, procuras meu calor;
se estou frio, abandonas-me na solidão, junto às pedras,
e me condenas por ser pedra —
meu próprio alicerce.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  10/08/2025

A voz da chuva

Dizem que a chuva é boa para dormir.
Não discordo.

Mas prefiro ficar desperto
ouvindo o que a chuva tem a dizer:

“As horas,
Os dias,
Os anos,
As eras…

Hibridez anacrônica:
Astrolábio ostrogodo.

Vejo tua noite de sono: —
Não há poesia
Numa alma vazia.”

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 09/08/2025

Para longe

detenho, retenho, agora contenho
tudo o que detive e retive e agora vive
feito meu pensamento, meu elemento
num lento crescer de estalactite
pendente no teto, de gota em gota crescente.

algo latente, vejo novelo de fino arame,
que em fio de cobre teço, concebo,
o tecido, limalha fria na pele
em choque, armadura suada,
detenho, retenho, agora suspendo em óxido.

suspeito, suponho: a rocha e a metalidade da alma
retém humores, converte, reverte
e desfaz-se em pátina e poeira fina
que o desencanto leva para longe
do alcance da vontade de viver.

aos olhos desatentos a alma que sofre é bela,
tal sua pátina e a delicadeza do pó.
o sofrimento também faz belos poemas.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 10/08/2025

Súplica a Rama

pula, pulsa e soluça.
dentro da caixa, fé convulsa,
comuta o fluxo, o conduto,
e dispara um meta susto.

plana sobre o plano rente a lama,
percorre e divaga seu destino.
é longe e aguarda já tão perto,
chega, vê a chaga no aconchego.

vem, vê e vence,
mas essa força é placebo.
o que importa é o efeito,
importa o zelo,
extra ou intra leito.

Rama, ordene este caos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 10/08/2025

Flagrante reflexo

O homem em frente ao espelho
Olhava o homem
Que o olhava do espelho.

Ambos se perguntavam:
— O que estou vendo?
Não reconheço esta face
E deveria ser minha
Refletida no espelho!

Ambas as faces,
Semblante perplexo
Imagem flagrante
Flagrante reflexo.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 19/02/2005
Cachoeirinha, 10/08/2025

Ambiências (4) – Cão velho

Sou coleção de carnes morrentes
Na insistência de sobrevida,
Subvivendo e desnutrindo tudo ao redor.

Sofrimento que nada ensina ao jovem
Eternizado nesta carne que se desfaz
Domesticada qual um cão velho,
Cego, incontinente e pelado.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 14/02/2005
Cachoeirinha, 07/08/2025

Ambiências (3) – Espelhos

No caminho da pausa
Que tanto procuro,
Encontrei alguém parecido comigo
Que disse ter visto alguém
Parecido comigo
Que disse ter visto
Alguém muito mais
Parecido comigo
Falando com alguém tão parecido comigo
Que resolvi dobrar à esquerda,
Talvez à direita,
E sair desta sala
Feita de espelhos —
Que não falam comigo.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 14/02/2005
Cachoeirinha, 07/08/2025

A tepidez das frias rochas

Aqui estou.
De onde vim ou quando,
nada sei.
Aqui é bom.
Tantas rochas nuas.
E silêncio, silêncio.
Até minha alma cala-se
entre estas rochas
e tenho paz.

Aqui não vejo a luta pelo sol
que as flores travam entre si.
Aqui não há fome de amor.
Somente as rochas
que o tempo decompõe
na areia que o vento leva.
Para onde?
Pouco me importa.

E você? Ainda se importa?
—É que ainda não conheceu a tepidez do frio das rochas.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  10/08/2025

Cul-de-sac

Os limites respeitados.
Os limites ultrapassados.
Velocidade e paciência.
Eu trafego no limite
e o mundo me ultrapassa.
E a paciência, ah esta paciência
que se faz desesperança…
que se faz indiferença…
que se faz e me desfaz.

Paciência é o solvente
do amor próprio.
Impaciente, ultrapasso o sinal.
E xeque-mate, cul-de-sac.

Nestes becos da alma
procuro, aguardo, desespero.

Ó meu Pai, Abba, este cálice
com que me embriago
seja meu cálice,
seja meu óbice,
meu refrigério,

— meus limites dilacerados.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 10/08/2025

Passo a passo

posso escrever
posso pensar
passo a passo.
penso e escrevo
sobre os passos
que dei sem pensar.
meus passos, meus atos,
escritos na areia
gravados no ferro
traçados no pó.
penso escrever.
penso pensar.
penso a passo
evitando o tropeço.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 30/08/2012

Ambiências (2) — Surdo desejo

 

Esta sala é repleta de portas
Que dão para salas repletas de portas
Que dão em jardins
De caminhos bifurcados
Terminados em salas
Que são repletas de portas
Repletas de olhos mágicos
Que mostram as salas
Repletas de portas que olham
Para o lado de fora
Do lado de entrar
No teu coração.

Nesta sala
Que é feita de portas
Que não fecham por fora
Que não abrem por dentro
Já não sei quem eu sou.
Já não sei quem tu és.
Já não sei o que vejo.
Exceto, talvez, este surdo desejo.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 14/02/2005
Cachoeirinha, 07/08/2025

Randomatizes III

Lá de cima
Grita, grita, brilha
A louca, líquida Lua.

Ser tolo?
Ser tonto?
Ser tanto?

Sertões de almas secas.
Ser gota no teu oceano.
Tu sorris tuas arcadas.
Reflexo, vejo-me em teus olhos.

O sono do sentinela
É nossa insônia.
Sou atalaia.
Tu és o sono que não vem.

Centauro andaluz
Sob Lua de nitrato
Vamos, bela, bora, borato.

Bela barca, Barba Roxa!
Pigmento, pigmeu,
Teu, nosso, vosso,
De quem mais
Será esse soluço?
Ursas do norte
Em retalho de seda?

Imagino e tudo parece muito.
E sou tão pequeno,
Tão pouco.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 2025

Monstros

Monstros somos, temos tanto e tememos
os próprios pensamentos e, tremendo,
não enfrentamos sozinhos nossas horas
plenas, mudas, ouvindo as próprias vozes

que de dentro nos vêm em tentação
vozes vindas de alhures, maldição
de incerto monstro em nós adormecido,
parasita a toldar-nos os sentidos.

Débeis, consentimos e a voz consome
vaga, tênue lucidez da alma em chamas;
e sofro, pois o monstro tem meu nome.

Monstro, vejo que o mundo não me poupa
nem àqueles imersos em tal trama:
Acorda a besta quando a fé é pouca.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 06/08/2025

Vozes

As cigarras davam vozes
às copas das tipuanas.
Era como se as árvores falassem
daquelas tardes que se passavam,
aquelas tardes que passaram.

As tipuanas falavam
com a voz daquelas cigarras.
Suas vozes eram limpas
depois se tornaram roucas
e por fim silenciaram
como as coisas que morrem.

Será o fim dos tempos?
Será o fim das cigarras?
Ou serão os meus ouvidos?

Pedro Luiz da Cas Viegas
Cachoeirinha, 06/08/2025

O quintal de nossas vidas

O que é que não me diz à alma,
à minha aura, impura aura,
maculada, escura alma.

No princípio reinava o caos,
a entropia ciclópica e arcana,
o díptico plano — amar ou morrer.

Pedro, toma um suco.
Pedro, come uma fruta.
Quero fruta com casca, e suco.
Quero que tu me desveles,
para que eu me entenda.

Engasgo no rasgo bravo,
tanta falta de senso.
Ponta esférica,
pigmento azul,
a tosse rascada do cão
a cavar suas horas
no quintal de nossas vidas.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 2012
Cachoeirinha, 19/06/2025

Uma utopia

Vizinha distante Andrômeda.
Em alguma estrela tua orbita um plácido planeta onde a relva é boa e o leão
pasta junto com o urso.

Sim. Pastam juntos o urso e o leão sob um céu de sépia
em algum rincão de Andrômeda.

O homem simplesmente é homem e o mundo segue seu curso
sem grandes necessidades,

pois os frutos são frescos e fartas as colheitas
nos campos sabiamente plantados.

No mundo, a carne somente
existe para gerar conforme sua espécie
e para louvar.

E todos são felizes,
pois desconhecem necessidade.

Pedro Luiz da Cas Viegas
Gravataí -2012

Silêncio

Já sentiste algo assim?
Estar aqui e em nenhum lugar,
olhar para o mundo e não ver nada,
olhar para o céu e não ver nada,
olhar para o abismo do espaço
e não ver nada.

Olhar para o espelho —
e não ver nada.
Olhar para as gentes
e não ver nada.

Esperar, alimentar ilusões,
mas nem o mundo,
nem o espelho,
nem todos os santos
nem todos os demônios
têm algo a dizer —
Apenas têm fome de ti.

Esqueces a beleza da poesia,
aqueces tua alma na terra fria.
De fato, não importa ser dia ou noite
quando a morte quer exibir sua foice.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 13/04/2025

Senhor e escravo

Um dia tornei-me senhor.
Senhor dos meus próprios versos.
E, assim, senhor tornei-me.
Senhor do meu próprio desterro.
Alguém me aconselhou
a ter cuidado com as palavras,
a cuidar das palavras.
Tanto fiz que me dominaram.
Senhor dos meus versos,
deles tornei-me escravo.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 05/08/2025

Verbo ser

Vibram vozes.
Vibram vivas, vibram.
Vibram vozes de cigarras.

Acompanham outras vozes
que, sem corpo, me acompanham
na quietude desta tarde —
tarde que vibra com as vozes,
neste ocaso em que caímos.

E neste vibrante silêncio eu penso
no que as palavras dizem
e por que tantos dizeres,
sem vírgula, ponto, um suspiro,
cardados no único fio
— do verbo ser.

Gravataí, 30/11/2012
Cachoeirinha, 19/06/2025

Eu e as cigarras

Eu e as cigarras absortos
Numa somente palavra
Sem pensamento
Palavra cálida que a tarde espalha
Enquanto as horas
Circulam o licor dos vasos meus
Sou continente de algum minério
A palavra é o filão de onde
Para onde, anaconde,
Um abraço

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 2012
Cachoeirinha, 19/06/2025

Ambiências (1) – Um fevereiro

Uma praça de gramado ruim.
Eucaliptos parasitados.
Um pai, um filho e cachorra.
Carne morrente de algum modo sorri
no passeio da tarde.

Yucca gloriosa, jacarandás
e alguma outra coisa.
A carne dobrou a esquina grisalha
pacientemente empurrada e idosa.
A cachorra se vai, filho e pai.

Me cansei deste banco.
A vida me arrasta adiante.
Serei cachorro.
Serei pai.
Serei filho.
Sou carne morrente
desde que me tenho por gente.

Pedro Luiz Da Cas Viegas            
Porto alegre, 14/02/2005
Cachoeirinha, 05/08/2025

O poema Um fevereiro subverte as expectativas que o próprio título sugere. Tradicionalmente associado à explosão de cores e à celebração do Carnaval, o mês de fevereiro aqui aparece como palco de uma cena sóbria, cotidiana e melancólica. A paisagem é urbana e desgastada — “gramado ruim”, “eucaliptos parasitados” —, e os personagens são figuras discretas que encarnam a passagem do tempo: um pai, um filho, uma cachorra, uma figura idosa numa cadeira de rodas.

O eu lírico observa e participa desse pequeno teatro da decadência com a lucidez de quem reconhece em si mesmo a mesma “carne morrente” que o cerca. A ambiência é morna, quase neutra, mas o efeito é devastador: o poema sugere que mesmo sob o calor e o ruído festivo de fevereiro, a finitude é quem governa o verdadeiro carnaval da vida.

A obra dialoga com temas existenciais, niilistas, urbanos e gótico-sombrios, oferecendo uma leitura introspectiva da condição humana em sua vulnerabilidade mais silenciosa. Uma praça qualquer abriga, assim, o desfile sem máscaras da morte cotidiana.

Peregrina

Imagem associada ao poema Peregrina

<

Peregrina, peregrina…
Ninguém jamais te recebe,
mas levas todos contigo.
Teu passo: sombra, neblina,
tua promessa é febre,
passaporte ao jazigo.

Trazes nos olhos esse abismo,
teus dedos calam as preces
nos leitos do desespero.
Teu toque é como sismo
de final a quem padece.
A dor é como tempero

que a teu paladar agrada.
A vida nos envelhece.
Tu fazes nossa passagem.
E além o tempo degrada
o despojo que perece
na derradeira viagem.

Anseio tua chegada.
Talvez até a provoque,
para seguir meu destino.
Talvez, na tua jornada,
de passagem tu me toques,
cessando meu desatino.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 02–03/08/2025

Dias do diabo

Imagem ilustrativa
Tu, vida, és boa. 
O homem comum tem seus bons momentos
mas lhe pesam os maus — 
Aquelas horas que não se esquece:
Momentos de pavor, de perda e angústia;
Momentos de pura dor, desilusão, desconcerto.

Ó, momentos,
horas do diabo.
Ó dias, ó tentações, 
anos inteiros... 
Toda a vida  — sob o maldito jugo.

Valei-me  todos os santos,
inspirai-me, iluminai meus momentos derradeiros,
para que possa seguir em luz
mesmo nos piores dias.

Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha, 31/07/2025

És tu que bates?

Imagem gótica ilustrativa do poema

Alguém bate.
Aqui dentro, aqui.
Alguém bate.
És tu,
tu novamente?

És tu que falas
por minha boca
enquanto durmo?
És tu que semeias pensamentos
que não desejo?

És tu que há tanto
me corrompes,
me acompanhas,
me aguardas,
me anseias?

És tu,
és tu que bates,
que me despertas,
que me adormeces,
que me trazes tais pesadelos?

És tu a encheres meu peito
com lama pesada de pauis?
Tanto pareces me querer,
tanta gula, essa tua,
que se desenha nesta muda dor.

És tu a me chamar?
Monja descarnada,
cantas assim, soturna,
embalando meu tempo
a escoar, escoar…

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 31/07/2025

Meu breu

Descrição da imagem

Faz frio nesta época
e nestas profundezas.
Algo dorme aqui.
Sempre dormiu.
Quem aqui jaz já sorriu.

O metal desses sinos
matou em idas eras.
Hoje dobra sobre os túmulos
dos que dormem sorrindo.
Hoje durmo.
Desde sempre dormi.
E aguardo o sono de todos os sonos.

Eu vou lutar.
Eu vou lutar.
Eu vou lutar.
Eu vou matar.
E morto,
verei a face que me olha
do fundo deste meu breu.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 29/07/2025