Resenhista: Patrícia Rocha Carvalho
O artigo ora resenhado, escrito por Heraldo Elias Montarroyos se configura como uma concatenação das ideias explícitas no livro Public Archeology (editado em 2004), que se referem aos pressupostos epistemológicos da Arqueologia Pública. Para tanto, o texto é organizado de modo a salientar diferentes dimensões para a construção de relatórios técnico-científicos da arquelogia pública.
O autor, ao introduzir o debate acerca de tais dimensões, contextualiza o quadro de paradigmas da arqueologia pública que, vale ressaltar, busca a preservação e estudo do patrimônio arqueológico, a fim de incitar a percepção de pertencimento do passado de determinado grupo ou sociedade, desencadeando, por conseguinte, uma identidade e memória social. Conforme explica o autor, dado seu caráter social/comunitário e não somente academicista, a arqueologia pública é dotada de diferentes interesses, teorias e técnicas, que certamente influenciarão a abordagem da mesma. Nesse sentido, Montarroyos menciona uma importante mudança de paradigma sofrida pela arqueologia pública a partir dos anos 70, passando do modelo histórico classificatório de reconstrução para a técnica de redescobrimento de dados antropológicos associados à História Cultural e ao Ambientalismo. Sob a ótica pós-processualista, quando o passado é interpretado como história, transforma-se em ideologia. Contudo, afirma-se que conhecer o passado arqueológico é útil para dar sentido ao presente e, que nenhuma interpretação é absoluta, mas está sempre aberta a discussões. Destaca-se, ainda, que o pós-processualismo é apenas um em meio aos muitos paradigmas existentes na arqueologia pública, dentre os quais podemos citar a abordagem histórico-classificatória, a processualista, a marxista e a neoliberal. Tal variedade teórica, decorrente dos diferentes interesses e técnicas anteriormente mencionados, representa um desafio para a arqueologia pública, que se vê diante de vários caminhos possíveis para se enveredar.
Ao discorrer sobre as dimensões Ontológicas da Arqueologia Pública, o autor define como regra dentro deste espectro a relação de simultaneidade e convergência de interesses da ciência e da sociedade em geral, visto que a mesma se situa entre o elitismo acadêmico (burocrático) e o senso comum (que pode utilizar o material arqueológico arbitrariamente), devendo, pois, negar os dois extremos a fim de cumprir seu objetivo de estudo.
No que se refere às questões metodológicas, ressalta-se novamente a necessidade de interação de interesses entre academia e sociedade, afirmando-se que a arqueologia pública deve ser praticada pelos sujeitos sociais. Para tanto, há a preocupação de formular modelos tecnológicos para a integração com a comunidade. O modelo de “déficit”, por exemplo, prevê a educação como propulsora da preservação e identificação com o patrimônio histórico. Por sua vez, o modelo de “perspectiva múltipla” sugere o desenvolvimento de tecnologias de comunicação social e atividades lúdicas; nesse caso, a internet, por exemplo, seria um recurso.
Posteriormente, o autor se volta para as questões axiológicas que se referem a um leque de possibilidades que a Arqueologia Pública pode proporcionar dentro da produção de bens culturais. A promoção da identidade social, a memória cultural, a ordem patrimonial, a preservação arqueológica, informações técnico-científicas seriam exemplos deste trabalho. Ao assumir tal postura, de tecnologia pública de informação, a arqueologia gera a expectativa de uma ação democrática que estimule a preservação arqueológica não somente com fins academicistas.
No que tange às considerações teóricas e contextuais, evidencia-se o quão importante é o intercâmbio entre a academia e a comunidade. Dentro de tal lógica, a arqueologia pública se aproxima do chamado modelo policrático, ao passo que busca conciliar o interesse comunitário com interesses privados, apelando, desta forma, para uma descentralização e uma abordagem que atenda a pluralidade social. Assim sendo, configura-se como o avesso do modelo autocrático, regido pelas elites científicas e burocráticas.
Em seguida, o artigo traz uma análise acerca das questões pragmáticas que perpassam o desenvolvimento desta disciplina. Dentre elas, destacam-se: 1) a busca por tecnologias que desencadeiem a participação social (estas podem ser informacionais, políticas, jurídicas, administrativas, negociais, entre outras); 2) questões legais para o seu desenvolvimento, que estabeleçam uma ordem político-constitucional para a proteção, estudo, fiscalização e pesquisa do patrimônio histórico-arqueológico.
Por fim, são enumerados fatores que aumentam o engajamento coletivo, os quais se podem citar a legislação, o capital moral (bom relacionamento entre arqueólogos e não arqueólogos), eficiência do Estado. Por seu turno, há também os elementos que diminuem tal engajamento, como por exemplo, a baixa escolaridade dos não-arqueólogos e a negligência fiscalizadora do Estado.
Diante do exposto, verificamos a relevância do desenvolvimento de tal vertente arqueológica, mas também se tornam evidentes os desafios que a mesma enfrenta, dada a complexidade gerada pelo duplo objetivo que se propõe a realizar: atender as necessidades acadêmicas e, concomitantemente, as sociais, de maneira democrática.