18 de fev. de 2024




comecei aos poucos
empertigado
nesse estado
de intensa letargia
perdido
em meus confusos
movimentos
paralisado
em meus sentimentos

18 de ago. de 2013

zona da mata

Anoitecia.
Entre pirilampos,
a mão do menino
caçando estrelas. 
Aranha tecendo teia. 
Mundo cheirando chuva. 
Avó espiando da varanda.
Barulho na mata. Onça? 
Saci montado no redemoinho. 
Café e bolo de fubá. 
O fim das brincadeiras. 
Anoitecia.

Sociais

Disse o poeta, num tempo distante:
“Não faças versos sobre acontecimentos.”
Não. Não faremos, não. Porque nasce um sol diferente a cada dia, continuaremos contando nossas lorotas, sem versar, quando ocasiões se fizerem oportunas. Motivos para divertidas chacotas em sextas-feiras de bar. Abraços, animados encontros de ombros, notícias, futebol, paixões, cinema e amizade em tardes possíveis. Uma banda indie cuja vocalista de cabelos coloridos, segura um megafone e canta uma canção antiga com arranjo de música eletrônica; talvez um show assim, quem sabe, com nossos valiosos amigos, dividindo nossas preciosas banalidades. Era uma vez um menino de 17 anos, olhos claros e calmos, comendo a pipoca do Giannotti - aquela com queijo provolone - num canto do saguão daquela sinuosa faculdade.

ponto de ônibus

relato de um breve reencontro com um jovem trabalhador…
 lindo de ver
afastando-se na pista
tão puro o sorriso
a perder de vista
o aceno de Narciso
- Lembra de mim? gesticula
toda vida luta
todo dia labuta
Certa vez, foi assim:
um falou, outro escutou
conselho de professor
sonho virou meta
melhorar a condição,
a obra do artista


Viagens

Mãe, a mais sábia dos seres viventes, não pode ser contrariada. Tanto disse que enfiei o pé na jaca e comprei em infindáveis prestações uma máquina de lavar. Mãe choramingando pelos cantos. Levando a mesma vida amarga de sempre. Nem parece ter nome de flor. Reclama dos filhos que não lhe dão merecida atenção. E viaja entre as três direções do sudeste que mais lhe encantam. Ignora o mais lindo do Rio, que não continua. Alegra-se na Baixada. Tardes domingueiras de churrasco com tio Onofre. A sobrinha voltando do batidão funkeiro. Em Minas, menos Bicas, mais Juiz de Fora. Dona Conceição mudou-se para o Rio facilitando as coisas para a filha flor. Visitas esporádicas à tia Graça, sua cunhada, solitária em um cantinho das Gerais. Destino sempre certeiro é o Vale do Paraíba. Na Dutra, faz o sinal da cruz. Ironicamente, meu pai se deu ao trabalho de levar-me, ainda bebê, para ser batizado na Basílica. Eu, batizado na mais importante construção católica do país, a Basílica de Aparecida. Ideia tonta do velho. No interior paulista, cuida do neto. A composição do menino loiro de olhos azuis no colo da avó preta. Impressionista. Enquanto esfrego minhas roupas no tanque (porque a máquina de lavar chegará no próximo sábado), penso nisso e naquilo. Minha companheira e meus filhos adolescentes. Meu retorno ao apartamento do Jaguaré. Paz para escrever, estudar, preparar aulas, cozinhar, lavar, passar, arrumar e pensar. Solidão, silêncio, serenidade e saudade. Sanidade.

CONFLITO DE GERAÇÕES

Não sei o que faz
Nem você sabe o que faço
Enquanto o tempo passa
Uma praga
Uma traça
Que tudo consome
Tudo gasta
Na obrigação que afasta
E você não reclama
Jogado à cama
Admirando seus erros
E os pelos que crescem
Em seu corpo
Enquanto curvo-me
Às chantagens da vida
É assim que fingimos angústia
E obliteramos nossa saudade
Um do outro
Não quero mais beber
E quer começar
Descobrindo coisas
Que não me interessam
Mais.

31 de mai. de 2013

comecei aos poucos empertigado nesse estado de intensa letargia perdido em meus confusos movimentos paralisado em meus sentimentos