As cidades são máquinas onde as pessoas correm para consumir e competir, esquecendo do mais importante: viverem e serem felizes!
Vivemos num voraz motor da
emoção, onde tudo é urgente, intenso e exige reação imediata. O contexto serve
de justificação e a pressa torna-se geradora de ilusão — a ilusão de
proximidade, de presença, de vida plena. Muitas vezes, porém, vive-se apenas em
modo de sobrevivência.
As pessoas encontram-se presas a
rotinas mecânicas, a dias que parecem cópias uns dos outros. Repetem-se gestos,
horários, discursos e até emoções, sem tempo para questionar se ainda fazem
sentido. A pressa tornou-se hábito; a vida transformou-se numa corrida
constante.
Apesar do automatismo das
cidades, existe em cada pessoa algo vivo e sensível, que não se deixa reduzir a
algoritmos ou à lógica da produtividade. Somos corpo, emoção, relação e
pensamento. Essa dimensão orgânica lembra que o ser humano não foi feito apenas
para cumprir tarefas, mas para amar, criar, cuidar, sentir e partilhar.
Num mundo que valoriza a
eficiência acima da consciência, resistir torna-se quase um ato revolucionário.
Resistir é recusar o piloto automático, é não aceitar que a vida se resuma a
metas, objetivos e respostas rápidas. Resistir é escolher pensar, questionar e
humanizar o quotidiano.
As cidades estão cheias, mas as
pessoas sentem-se vazias. Rodeadas de gente, muitas vivem isoladas, invisíveis,
sem laços profundos. A solidão urbana é silenciosa e normalizada. Aprende-se a
sobreviver nela, mas raramente a enfrentar o vazio, porque falta tempo — e,
muitas vezes, coragem — para criar verdadeiros encontros, por vezes nem sequer
com os vizinhos do próprio prédio, onde vivemos.
As pessoas insultam-se com
facilidade, atacam-se por quase nada, competem por tudo. A palavra perdeu
cuidado, o gesto perdeu empatia. O outro deixou de ser pessoa para passar a ser
obstáculo, concorrente ou ameaça. A pressa não só acelera os passos, como
endurece os corações.
Luta-se para chegar ao topo como
se o topo fosse salvação. Empurra-se, humilha-se, passa-se por cima de valores
e de pessoas em nome de uma ideia de sucesso que raramente é questionada. Mas,
quando se chega lá, encontra-se silêncio, solidão e vazio. O topo promete tudo,
mas entrega pouco — e quase nunca entrega felicidade.
Em vez de cooperação, instala-se
a desconfiança. Em vez de diálogo, o insulto fácil. Em vez de comunidade, o
isolamento. As relações tornam-se utilitárias: servem enquanto ajudam a subir,
descartam-se quando deixam de ser úteis. E assim se vai perdendo aquilo que
verdadeiramente sustenta uma vida com sentido.
Vivemos rodeados de retórica
vazia, de discursos que prometem mundos, mas não transformam vidas. A economia
plástica molda as pessoas como produtos, transformando desejos em consumo e
relações em transações. A ganância tóxica e fria guia decisões e comportamentos,
ignorando a empatia e a dignidade humana. As consequências são pesadas:
solidão, sofrimento, indiferença, vidas partidas por escolhas que nunca
deveriam ter sido tomadas. Tudo isto acontece enquanto se corre,
apressadamente, sem tempo para perceber o estrago que se cria.
Há uma violência invisível neste
modo de viver. Não é apenas física ou verbal; é emocional e moral. É a
normalização da agressividade, da indiferença e da falta de cuidado. Pessoas
feridas acabam por ferir outras pessoas, num ciclo que se repete e se agrava. E
tudo acontece em nome de uma pressa que não conduz a lugar nenhum.
Quando não há tempo para o outro,
também deixa de haver tempo para si próprio. A pressa das cidades gera cansaço,
ansiedade e indiferença. Alimenta uma solidão silenciosa que não se resolve com
mais velocidade, mas com mais humanidade.
Talvez seja necessário reaprender
a parar. A ouvir sem pressa. A caminhar sem destino. A sentar-se num banco de
jardim, a visitar uma biblioteca pública sem olhar para o relógio. A recuperar
o valor do encontro, da conversa demorada e do silêncio partilhado.
As cidades não vão abrandar por
si mesmas. Mas as pessoas podem. E talvez o verdadeiro gesto de resistência,
hoje, seja esse: abrandar para voltar a ser pessoa.
Nota - Este artigo surgiu numa das minhas meditações e reflexões, ao ouvir a música “Cidade” de Teresa Salgueiro.
Cláudio
Anaia















