poema-esboço

fiz café,
como quem acende vela.

minhas mãos serviram –
roupa, prato, silêncio.

e então,
a palavra caiu sobre a mesa:
um rótulo breve,
como se fosse eu sozinha a tempestade.

(engoli doce de madrugada,
o amargo ficou).

não sei se é amor
ou apenas a minha mania
de bordar rendas
em muros quebrados.

mas sei que o corpo entende antes:
quando chora no escuro,
é porque já sabe.

bum

e eu

que só queria amor

entrega pura

escopos trincando a fina parede protetora do peito

até esqueci que muito pouco te leva de mãos dadas

até a beira de um abismo qualquer

assim,

despretensiosamente no meio do dia

ou da noite

.

ignorei todos os sinais

pulsantes do lado de fora

e de dentro

deixei o coração correr louco

feito cavalo selvagem a céu aberto

quis adiantar os relógios

aumentar a velocidade da fala dos que cruzaram comigo ao longo do dia

corri

fiz festa

entrei no chuveiro com roupa e tudo

e agora,

o que faço com isso?

.

nexo

queria eu

o tempo

e uma máquina de moer lembrança ruim 

lembrança ruim moída é praticamente coisa inofensiva

não dói do jeito de quando as partes estão juntas

.

moídas 

as lembranças ruins perdem forças…

…queria mesmo era me sentar, ao fim da tarde, numa varanda larga cheia de rede, olhando prum vale verdegoso, e do alto de uma cadeira de balanço cor de nuvem

observar a moeção acontecer

insone

Me sinto cansada 

Cada dia mais

Mais do mesmo

A cabeça pesa dói

O corpo reclama dói

A consciência longe recebe o pedido de desistência quase que diariamente 

As pessoas presas

Absortas em seus telefones 

Zumbis pós modernos preocupados apenas com mediocridades 

Seres dançantes 

Animaizinhos fofos em performance 

Estéticas privilegiadas exibindo seus dotes

Absurdos com milhares de seguidores 

Sinceramente 

Não sei o que fazer com isso tudo 

De novo a insatisfação tá pesando 

Daquele jeito de alguns anos atrás 

Me sinto sozinha 

As sugestões que me chegam me embrulham o estômago 

O freio do ônibus arranca e me devolve ao assento de uma forma que me irrita 

Não há escolha 

Deslizo rapidamente batendo os joelhos no banco da frente 

Me arrasto de volta 

E respiro fundo 

Esse pesadelo não tem fim