segunda-feira, janeiro 26

Gronelândia

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Um texto que vale muito a pena ler. 

domingo, janeiro 25

"É política no seu estado mais cru"

 "https://blasfemias.net/2026/01/25/medo-de-ventura-ou-medo-de-perder-o-controlo/#more-120066

O Mercedes e a mula

 

“A corrupção desvirtuara todas as qualidades do carácter nacional. A justiça era um mercado, no reino e na Índia; e a nobreza ingénita, que além se traduzia em ferocidade, traduzia-se em Portugal num luxo impertinente e miserável. Era uma ostentação, já não era um orgulho ingénuo… O tipo de fidalgo pobre era tão comum e ridículo, que andava nas comédias, conforme se vê em Gil Vicente… Para satisfazer a vaidade dava tratos aos estômago. E a carestia dos víveres reduzia-o a pão e água, e rabanetes, quando os havia na praça…
O pobre mordia-se de inveja, diante do luxo insultante do que tornava da Índia rico, e se passeava na Rua Nova com um estado oriental. Precediam-no dois lacaios, seguidos por um terceiro com o chapéu de plumas e fivelas de brilhantes, um quarto com o capote e, em roda da mula, preciosa de jaezes e luzidia, um quinto segurava a rédea, um sexto ia ao estribo amparando o sapato de seda, um sétimo levava a escova para afastar as moscas e varrer o pó, um oitavo a toalha de pano de linho para limpar o suor da besta, à porta da igreja, enquanto o amo ouvia missa. Eram todos, oito escravos pretos, vestidos de fardas de cores agaloadas de ouro ou prata.”

De tempos a tempos releio a “História de Portugal”, de Oliveira Martins, e não escapo à associação de ideias. Felizmente já não há escravos, a União Europeia é para muitos uma razoável Índia e o Mercedes suplanta a mula.

 

sábado, janeiro 24

Não se inventa

Porque tinha a leitura em atraso, nos últimos dias juntei à indigestão das comidas uma sobredose de notícias e críticas literárias. Culpa minha.

Passada a admiração que em rapaz sentia por tudo o que era autoridade literária, com o correr dos anos deixei que crescesse em mim um debilitante sentimento de inferioridade. É que não tenho saber para me exprimir no tom e naquele vocabulário com que o verdadeiro escritor se distingue do escriba.

Desde ontem, atormenta-me a inveja de ser incapaz de referir coisas como "a imaterialidade dos sentimentos", "a disposição encantatória" ou falar do "caminho morno da conjugalidade e da reprodução". Desconheço "universos fecundíssimos", nunca me calhou dar com "o contraponto de informações icónicas e textuais", tive de fazer uma longa pausa para destrinçar – não consegui – o significado do que seja "este mosaico informativo e formativo, às vezes deformativo também, pois a anamorfose pode ser um valor literário e o kitsch não é despiciendo..."

Isto não se inventa.


quinta-feira, janeiro 22

Quasimodo

Grande aflição dá por vezes a alguns o corpo com que nasceram. Tem ele a bênção da inteligência, um sentido estético dos mais apurados, manobra com à-vontade da fortuna naqueles círculos que o vulgo chama da alta. Porém, com todos esse motivos de satisfação, o físico com que nasceu fez dele um ser azedo, o espelho é o seu tormento.

A cabeçorra, o ar de anão empertigado que lhe dá o tronco, barriguinha, pernas curtas e cambadas, houvesse cirurgia para tal, ele há muito se teria composto. Infelizmente não há. Infelizmente também, deixando que se lhe desligasse a inteligência, supôs que o casamento com mulher bonita e elegante o aliviaria da insatisfação com o próprio arcabouço.

Saiu-lhe errado o cálculo, mais venenoso se tornou o seu modo, quasimodescas as  carrancas. Muitos anos atrás virou-se para a as Letras. Poesia e ensaio, história, crítica, conto, romance, todos os géneros tenta, em todos não passa de mediano, mas é incensado, citado como referência, fazem-lhe rapapés, que os colegas não são tolos e louvar nada custa.

É vulto da Literatura. Pequenino, mas vulto. E morde como só as víboras sabem.