Em Setembro de 2017, na semana anterior �s elei��es gerais na Alemanha, Mark Zucjkerberg fez um �live� no Facebook para explicar em detalhe o que estava a ser feito internamente para combater as chamadas �fake news�. Um trecho que passou despercebido � maioria das pessoas no seu longo discurso, mas que tanto Helen Lewis como Julia Lefkowitz� prontamente apontaram foi esta frase ao mesmo tempo ir�nica e assustadora: �Temos estado a trabalhar para garantir a integridade das elei��es alem�s do pr�ximo fim de semana.� O que � ir�nico � o facto de estarmos perante um executivo de uma multinacional de Menlo Park, California, a dizer que pretende assegurar a integridade das elei��es num pa�s estrangeiro. O que � assustador � que ele est� a falar a s�rio!
Esta frase ilustra na perfei��o tudo o que est� errado no estado atual da rela��o entre estas novas poder�s plataformas de informa��o da era digital e os tradicionais poderes reguladores dos pa�ses e da sociedade. Sejamos claros: o Facebook PRECISA urgentemente de ser regulado; mas a verdade � que N�O PODE ser regulado pelos m�todos tradicionais. Claro que haver� sempre algu�m que possa dizer que dev�amos voltar � era anal�gica e abandonar de todo o digital�ou que, como outros monop�lios nos passado, o Facebook devia simplesmente ser decomposto em empresas mais pequenas�para aumentar a competitividade. Mas isso, claro, n�o passa de fantasias! O problema � que, se olharmos para o conjunto de not�cias e artigos de opini�o que t�m vindo a circular a prop�sito da regula��o do Facebook, reparamos que a maior parte deles apontam precisamente nesse sentido. E isso denunciam uma incapacidade quase generalizada de perceber at� que ponto o Facebook � algo diferente de tudo o que conhecemos no passado. Eu acredito que primeiro precisamos entender realmente aquilo em que o Facebook � diferente para podermos sequer come�ar a pensar em como o devemos regular. A seguir explico porqu�.
H� pelo menos quatro coisas fundamentais que hoje em dia j� s�o perfeitamente claras sobre o Facebook e que precisamos integrar no nosso debate sobre como ele pode e deve ser regulado (coisa que raramente acontece).
1. O Facebook � uma plataforma. Ele existe para que outros agentes possam us�-lo para fazer determinadas coisas, quer seja partilhar as fotos dos seus gatos, propagar o conhecimento ou espalhar �fake news� acerca de alguma coisa. Tal como acontece numa plataforma de caminhos de ferro ou numa pra�a p�blica, cada agente � respons�vel pelos seus atos, dentro das limita��es e constrangimentos da plataforma. Claro que esses constrangimentos influenciam aquilo que cada agente pode ou n�o pode fazer na plataforma, mas n�o o determinam. Essa � uma prerrogativo dos pr�prios agentes. Se n�s atribuirmos ao Facebook o direito � ou, pior ainda, a miss�o � de permitir ou proibir determinados tipos de conte�do, na pr�tica o que estamos a fazer � a transferir a nossa pr�pria ag�ncia no processo para uma entidade externa que n�o controlamos. Uso a palavra �agente� propositadamente: o �agente� tanto pode ser um indiv�duo como um grupo ou uma fa��o. Quando celebramos as tecnologias digitais porque elas tornam mais f�cil aos indiv�duos e aos grupos ter uma voz ativa, estamos a incluir tanto os seus usos positivos como os seus usos negativos. Eu, por exemplo, sempre tive um posicionamento pol�tico mais � esquerda e sigo v�rias p�ginas grupos de Facebook associados � esquerda pol�tica em Portugal. Algumas delas poder�o at� ser o equivalente nacional (e esquerdista) do site norte-americano Breibart, frequentemente associado �s �fake news� pro-Trump. Mas eu sei disso e integro esse elemento valorativo nas minhas escolhas informativas. Eu sei aquilo em que posso ou n�o posso confiar e sei como verificar se uma informa��o ou uma perspetiva � verdadeira ou fundamentada quando tenho d�vidas. Se permitirmos que seja o Facebook a decidir se determinados agentes ou os seus conte�dos s�o permitidos na plataforma, temos que possa vir a perder essas vis�es de esquerda, alguma delas radicais. Tal qual como acontece com um norte-americano de direita a prop�sito do Breitbart, por exemplo.













