Mark Zuckerberg

Mark Zuckerberg

Em Setembro de 2017, na semana anterior �s elei��es gerais na Alemanha, Mark Zucjkerberg fez um �live� no Facebook para explicar em detalhe o que estava a ser feito internamente para combater as chamadas �fake news�. Um trecho que passou despercebido � maioria das pessoas no seu longo discurso, mas que tanto Helen Lewis como Julia Lefkowitz� prontamente apontaram foi esta frase ao mesmo tempo ir�nica e assustadora: �Temos estado a trabalhar para garantir a integridade das elei��es alem�s do pr�ximo fim de semana.� O que � ir�nico � o facto de estarmos perante um executivo de uma multinacional de Menlo Park, California, a dizer que pretende assegurar a integridade das elei��es num pa�s estrangeiro. O que � assustador � que ele est� a falar a s�rio!

Esta frase ilustra na perfei��o tudo o que est� errado no estado atual da rela��o entre estas novas poder�s plataformas de informa��o da era digital e os tradicionais poderes reguladores dos pa�ses e da sociedade. Sejamos claros: o Facebook PRECISA urgentemente de ser regulado; mas a verdade � que N�O PODE ser regulado pelos m�todos tradicionais. Claro que haver� sempre algu�m que possa dizer que dev�amos voltar � era anal�gica e abandonar de todo o digital�ou que, como outros monop�lios nos passado, o Facebook devia simplesmente ser decomposto em empresas mais pequenas�para aumentar a competitividade. Mas isso, claro, n�o passa de fantasias! O problema � que, se olharmos para o conjunto de not�cias e artigos de opini�o que t�m vindo a circular a prop�sito da regula��o do Facebook, reparamos que a maior parte deles apontam precisamente nesse sentido. E isso denunciam uma incapacidade quase generalizada de perceber at� que ponto o Facebook � algo diferente de tudo o que conhecemos no passado. Eu acredito que primeiro precisamos entender realmente aquilo em que o Facebook � diferente para podermos sequer come�ar a pensar em como o devemos regular. A seguir explico porqu�.

H� pelo menos quatro coisas fundamentais que hoje em dia j� s�o perfeitamente claras sobre o Facebook e que precisamos integrar no nosso debate sobre como ele pode e deve ser regulado (coisa que raramente acontece).

1. O Facebook � uma plataforma. Ele existe para que outros agentes possam us�-lo para fazer determinadas coisas, quer seja partilhar as fotos dos seus gatos, propagar o conhecimento ou espalhar �fake news� acerca de alguma coisa. Tal como acontece numa plataforma de caminhos de ferro ou numa pra�a p�blica, cada agente � respons�vel pelos seus atos, dentro das limita��es e constrangimentos da plataforma. Claro que esses constrangimentos influenciam aquilo que cada agente pode ou n�o pode fazer na plataforma, mas n�o o determinam. Essa � uma prerrogativo dos pr�prios agentes. Se n�s atribuirmos ao Facebook o direito � ou, pior ainda, a miss�o � de permitir ou proibir determinados tipos de conte�do, na pr�tica o que estamos a fazer � a transferir a nossa pr�pria ag�ncia no processo para uma entidade externa que n�o controlamos. Uso a palavra �agente� propositadamente: o �agente� tanto pode ser um indiv�duo como um grupo ou uma fa��o. Quando celebramos as tecnologias digitais porque elas tornam mais f�cil aos indiv�duos e aos grupos ter uma voz ativa, estamos a incluir tanto os seus usos positivos como os seus usos negativos. Eu, por exemplo, sempre tive um posicionamento pol�tico mais � esquerda e sigo v�rias p�ginas grupos de Facebook associados � esquerda pol�tica em Portugal. Algumas delas poder�o at� ser o equivalente nacional (e esquerdista) do site norte-americano Breibart, frequentemente associado �s �fake news� pro-Trump. Mas eu sei disso e integro esse elemento valorativo nas minhas escolhas informativas. Eu sei aquilo em que posso ou n�o posso confiar e sei como verificar se uma informa��o ou uma perspetiva � verdadeira ou fundamentada quando tenho d�vidas. Se permitirmos que seja o Facebook a decidir se determinados agentes ou os seus conte�dos s�o permitidos na plataforma, temos que possa vir a perder essas vis�es de esquerda, alguma delas radicais. Tal qual como acontece com um norte-americano de direita a prop�sito do Breitbart, por exemplo.

 

O Capital

– “Meus senhores o novo presidente do banco, Marc Tourneill!”
– “Estes s�o todos os principais accionistas. Eis os representantes do Eliseu. Eles esperam muito de si. Diga-lhes o que querem ouvir!”

– “Meus amigos, eu sou o vosso Robin dos Bosques moderno! N�s vamos continuar a tirar aos pobres para dar aos ricos!”

– “S�o crian�as. Crian�as grandes! Elas divertem-se. E v�o continuar a divertir-se e divertir-se… at� que a bolha rebente!”

Sempre me intrigou perceber o que leva algu�m que tem muito, mas mesmo MUITO dinheiro a querer mais dinheiro. Afinal, o dinheiro, a partir de certo ponto, � apenas um n�mero numa conta conta banc�ria.
Este filme (podem rev�-lo nas grava��es do AXN Black, passou ontem �s 18h ou numa vers�o integral, mas dobrada em brasileiro aqui – para quem gosta do g�nero) d� uma resposta poss�vel: para estas pessoas o dinheiro n�o � dinheiro, � “currency”; � fichas e mais fichas para jogar num imenso casino. O gozo est� no jogo, n�o naquilo que se ganha ou perde! Isto � o que fazem as crian�as muito, muito ricas. Aprendem a jogar desde pequeninas. E nunca mais deixam de jogar.

 

O dinheiro, eis um tema interessante que ainda gostaria de estudar em profundidade um dia. O dinheiro � – como sempre foi – uma conven��o. Um s�mbolo de algo, sem nenhum valor intr�nseco. J� disse noutro ponto mas repito: o dinheiro � uma tecnologia de informa��o. O dinheiro comunica algo. Aquilo que importa no dinheiro n�o � o dinheiro em si, mas aquilo que ele comunica!

Talvez seja um pouco tarde para Dur�o Barroso propor uma federa��o de estados europeus. Essa ideia devia ter sido proposta h� v�rios anos e devia ter sido sancionada pelos povos europeus, algo que eles nunca quiseram fazer. �Todos sem excep��o. Com os resultados que agora se v�em.

Al�m disso, uma federa��o de estados europeus – com sede “real” em Berlim, naturalmente – n�o seria incompat�vel com o �nico prop�sito que se consegue perceber por detr�s do projecto europeu da Alemanha. A Alemanha, como qualquer pot�ncia de m�dia dimens�o, est� assustada com a emerg�ncia de novos p�los econ�micos no mundo e decidiu que vai recuperar a competitividade econ�mica europeia baixando os sal�rios das zonas pobres do sul da Europa. Uma esp�cie de “uma uni�o, v�rias economias”.

Durante alguns anos, a intelig�ncia econ�mica colectiva alem� achou que podia gerir o “problema chin�s” fornecendo tecnologia ao gigante adormecido para que ele continuasse a operar as suas fabricas de m�o-de-obra barata. Mas os chineses n�o s�o parvos – nem t�m voca��o para capachos – e decidiram que eram eles que mandavam. Nesse momento, a Alemanha achou que a �nica alternativa era fazer dos gregos, portugueses, irlandeses, eventualmente espanh�is e italianos, juntamente com alguns povos de leste, uma esp�cie de “chineses da Europa”. Tanto quanto se consegue perceber, � esse o projecto europeu da Alemanha.

E � um projecto nobre! Preservar a Europa � um projecto nobre! E preservar a Europa � hoje – olhe-se como se olhe – preservar a sua competitividade na economia global de m�ltiplos p�los. � isso que Alemanha quer e isso � bom para a Europa. O problema � que a receita escolhida pode n�o resultar. A crise europeia pode ser mais profunda do que parece. Pode acontecer que n�o seja apenas uma crise financeira e se calhar tamb�m n�o � s� econ�mica. A crise europeia pode ser civilizacional e ter chegado com meio s�culo de atraso.

Primeiro que tudo, na Europa – obviamente! – �n�o h� uma crise grega, nem uma crise portuguesa, nem espanhola, irlandesa ou italiana. Por uma raz�o muito simples: � que na realidade, na Europa, n�o existe uma economia grega, portuguesa, espanhola ou italiana. H� apenas a economia europeia. N�o h� muitos espa�os econ�micos no mundo mais integrados e unificados que o espa�o europeu.�Quanto�mais n�o seja por causa desse detalhe fundamental que � a moeda �nica. A Europa est� mais integrada, a muitos n�veis, que a federa��o norte-americana, e nem sequer � uma federa��o! Portanto, paremos a conversa quando algu�m falar da crise portuguesa ou da economia portuguesa. Hoje, em 2012, nenhuma dessas duas coisas existe.

A decad�ncia europeia

A Europa dominou o mundo durante s�culos. Desde a idade media, passando pelos descobrimentos e at� �s duas guerras mundiais. Que diabo!, a Europa at� “se exportou” para outros continentes antes de se envolver em duas guerras civis europeias sucessivas. Na altura, a Europa era podre de rica – uso a palavra “podre” propositadamente – e muito mais “integrada” do que normalmente percebemos. Por isso � que se envolveu em tantas guerras fratricidas. As guerras s�o uma esp�cie de jogos florais das sociedades modernas. S�o tanto um luxo como os torneios medievais o eram para as sociedades de ent�o. Enquanto imp�rio expansionista, a Europa acabou algures entre a primeira e a segunda guerras mundiais. As guerras em que se envolveu – e em que envolveu o mundo – foram o seu canto do cisne.

Depois da 2� guerra mundial o mundo ficou dividido em dois blocos geopoliticos com capacidade de aniquila��o m�tua. E isso congelou a hist�ria durante 50 anos (ali�s, houve quem confundisse o fim do congelamento da hist�ria com o fim da hist�ria). Nessa �poca nada floresceu porque nada podia florescer fora do controlo de Washington ou de Moscovo. Havia muito pa�ses no mundo com vontade de crescer e com a “energia vital” para o fazerem. Mas, obviamente, nenhum foi “autorizado”. Durante esses 50 anos foram os EUA que “seguraram” a Europa e os seus padr�es de vida. N�o porque gostassem dela, mas porque precisavam de a ter ali, naquele lugar, como tamp�o � amea�a russa.

Quando o muro de Berlim caiu e os EUA ganharam a guerra fria, o mundo descongelou e a globaliza��o seguiu o seu curso natural. E, por “seu curso natural” entende-se isto: as na��es com condi��es naturais (recursos) e energia colectiva (vontade) come�aram a crescer – ou seja, a multiplicar a sua riqueza – mais do que qualquer velha pot�ncia do mundo anterior � bipolariza��o (Alemanha, Fran�a, Inglaterra, EUA, etc).

A energia colectiva necess�ria para um povo�prosperar�� certamente algo dif�cil de definir e delimitar do ponto de vista te�rico. Mas h� um elemento que de certeza faz parte do “pacote”: uma popula��o jovem e ambiciosa. Isso � – entre outras coisas – aquilo que existe na China, no Brasil, na �ndia, na �frica do Sul, at� na R�ssia. Mas n�o existe na Alemanha. E tamb�m n�o existe numa hipot�tica Europa federada com “trabalho barato” no sul da Europa. Dito de outro modo: podemos chamar a esta crise europeia muitas coisas – financeira, pol�tica, econ�mica, etc – mas na verdade ela � civilizacional e n�o � uma crise; � a continua��o de um processo de decad�ncia que j� se tinha iniciado muito antes da Guerra Fria. A Europa est� a morrer. E est� a morrer porque a sua popula��o est� velha e acomodada. N�o s�o s� os portugueses, por exemplo, que est�o acomodados aos benef�cios sociais – entre outros – que agora lhes querem retirar. Os alem�es tamb�m lhes est�o acomodados. E os franceses, e os italianos, etc, etc.

Globalizar o humanismo!

Precisamos perceber que o “problema europeu” n�o � uma crise financeira, econ�mica ou pol�tica, para interiorizarmos que a solu��o tem que ser – se-lo-� inevitavelmente – historicamente muito relevante, vasta nas suas envolv�ncias e consequ�ncias, e criativa, no sentido de ser algo que quase de certeza neste momento n�o estamos a ver. A mim parece-me que, por complexa que seja a dita “crise”, a solu��o para a decad�ncia hist�rica da Europa passa provavelmente por esta medida muito simples: abrir incondicionalmente todas as suas fronteiras!

H� milh�es de jovens por esse mundo fora ansiosos por construir uma vida nova e com a energia para enfrentarem os obst�culos que se levantem ao seu caminho. Que raio!, h� pessoas que se metem em balsas que n�o sabem se alguma vez chegar�o a algum destino para irem � procura de uma vida melhor. Isso – essa coragem, essa vontade de melhorar – �� exactamente o que a Europa n�o tem e precisa! N�o ser� certamente a �nica, mas � decerto uma das condi��es para evitar a decad�ncia europeia. Por inveros�mil que possa parecer, isso � exactamente o que os europeus t�m que perceber. E � inveros�mil porque, para que tal coisa fosse poss�vel, era�necess�rio que os europeus – aqueles que c� est�o – tivessem a coragem hist�rica de aceitar os imigrantes como seus iguais. O que significa partilhar com eles os seus recursos. E talvez hoje seja a �poca de testar uma solu��o historicamente original como esta. Num mundo�globalizado�talvez seja hora de suprimir as diferen�as e aceitar o “outro” como parte de n�s. �Depois da globaliza��o dos fluxos financeiros, do com�rcio e da distribui��o de mat�rias primas, talvez esteja na altura de globalizar o humanismo. E “globalizar o humanismo” significa n�o apenas exigir que os nossos cong�neres que se manifestam Bagdade, Teer�o ou Pequim tenham os mesmos direitos c�vicos que n�s, mas tamb�m aceit�-los como iguais ao nosso lado, sejam eles argelinos, sudaneses, brasileiros, turcos, romenos ou de qualquer outra proveni�ncia.

Talvez esta seja a oportunidade hist�rica de a Europa voltar a ser vanguardista. Para isso, � preciso preencher muitas condi��es, mas a primeira delas � que os europeus consigam ser menos mesquinhos do que foram h� uns anos quando outros pol�ticos europeus antes de Barroso falavam de uma hipot�tica federa��o europeia…

Hoje a Gr�cia enfrenta um momento hist�rico em que tem que decidir o seu futuro. Mas, bem vistas as coisas, isso pode ser apenas um detalhe – facilmente ultrapass�vel – no quadro geral das coisas. Como ali�s tem acontecido desde sempre, na Europa, com todas as “manifesta��es de vontade” nacionais.

Desde o in�cio desta crise sempre me perguntei porque raz�o a Alemanha recusava t�o terminantemente desvalorizar a moeda europeia e as raz�es hist�ricas sempre me pareceram insuficientes para o explicar. Por outro lado, n�o � plaus�vel que o governo alem�o aja por crit�rios n�o racionais. Muito pelo contr�rio: talvez seja dif�cil de os encontrar ou de os perceber, mas DE CERTEZA de h� motivos racionais para a pol�tica europeia da Alemanha.

H� algumas semanas li um artigo de opini�o num grande jornal europeu – n�o me lembro de quem nem em que jornal, sorry! – que dizia mais ou menos isto: a raz�o pela qual a Alemanha quer�impor�medidas de austeridade nos pa�ses do sul � para for�ar a redu��o de sal�rios nesses pa�ses e dessa forma aumentar a competitividade do espa�o econ�mico europeu face aos pa�ses emergentes. Uma esp�cie de – n�o “um pa�s, dois sistemas” – mas sim “uma uni�o, v�rias economias”. Ou, se quisermos, uma Europa a v�rias velocidades. Claro que se pode dizer que isso n�o � poss�vel porque n�o h� fronteiras financeiras – a moeda � a mesma e portanto a tend�ncia para o nivelamento de pre�os e sal�rios � inevit�vel – ou porque n�o h� fronteiras demogr�ficas – as pessoas podem migrar de um pa�s para outro. Mas, mais uma vez, isso s�o apenas detalhes, que se resolvem quando e se o problema surgir. Vincular um pa�s a um plano da austeridade que o obriga a pagar regularmente uma d�vida monstruosa num prazo de 10 ou 15 anos � garantir que durante esse tempo esse pa�s – a comunidade eleitoral – ter� que aceitar politicamente um quadro de excep��o com sal�rios mais baixos. � esse o “frame of mind” actualmente vigente em Portugal. N�o o �, obviamente, na Gr�cia. Manter um pa�s dentro da uni�o pol�tica mas fora da uni�o monet�ria – que � o que a Europa vai fazer com a Gr�cia – � uma “pequena-grande” variante desta estrat�gia.

Esta parece-me de longe a melhor explica��o at� hoje para o comportamento aparentemente estranho da Alemanha no quadro europeu. Mas � apenas uma parte da explica��o.

Se h� coisa que os alem�es sabem � que os pa�ses emergentes est�o e v�o continuar a �crescer muito acima m�dia�europeia�e que isso prejudica a competitividade alem�. �Tradicionalmente, repunha-se a competitividade de um pa�s atrav�s da desvaloriza��o da sua moeda, que n�o � mais do que uma forma de reduzir todos os custos de produ��o, incluindo os sal�rios. Acontece que, no quadro europeu, isso afectaria tamb�m os sal�rios dos trabalhadores alem�es. Com os planos de austeridade desenhados para os pa�ses do sul da Europa (que, parecendo diferentes s�o no essencial a mesma coisa: como reduzir massivamente os sal�rios tentando manter a moeda �nica) a Alemanha procura preservar a competitividade alem� (e europeia!) sem afectar os seus pr�prios sal�rios.

Mas – e esta � para mim a quest�o mais interessante – embora pare�a uma manobra de ataque �s economias do sul, esta � na verdade uma manobra de defesa por parte da Alemanha! Primeiro, � uma manobra de defesa dos sal�rios dos alem�es. E, depois, � uma manobra de defesa da integridade da pr�pria Alemanha. Ou seja, a Alemanha est� � rasca e �a sua obsess�o com os planos de austeridade dos pa�ses do sul�demonstra-o claramente.

Todos n�s suspeitamos o que � que aconteceria se a crise (ou seja, redu��o de sal�rios) chegasse � Alemanha nos mesmos termos em que chegou � Gr�cia ou est� a chegar a Portugal. Penso que os pr�prios alem�es t�m medo disso. Ali�s, devemos meditar se o que preservou a democracia e a a paz na Europa foi mesmo a uni�o econ�mica entre os v�rios�pa�ses, como tantas vezes � repetido, ou foi afinal o per�odo longo de prosperidade que ela permitiu e cuja�factura�agora pagamos. Os c�nicos dir�o que � sempre assim: a paz e a democracia n�o emergem por si e s�o sempre fruto da prosperidade. E vice-versa, naturalmente!

� disso que os alem�es t�m medo! E os outros povos tamb�m!

Eu n�o vou!

Mas afinal o que � que eu tenho contra o Rock in Rio? Bem, na verdade �s�o pelo menos 3 coisas:

1. O Rock in Rio n�o � um festival de m�sica. � um festival de patrocinadores. Tudo aquilo existe para servir os fins comerciais a que se prop�e. N�o tem nada a ver com objectivos art�sticos. Eu at� aceito que os patrocinadores se associem a um evento musical; o que n�o aceito � que a m�sica se associe a um evento de patrocinadores. E isso… � o Rock in Rio! O Rock in Rio � um evento no qual a m�sica importa menos do que o marketing. E isso � uma boa raz�o para n�o gostar do Rock in Rio.

2. �O cartaz do Rock in Rio � prejudicial � m�sica. Por cada Bryan Adams que 70 mil pessoas ouvem h� pelo 10 novos artistas que n�o encontram o seu p�blico. Se em vez que programar o Bryan Adams para 70 mil espectadores a organiza��o programasse Bon Iver numa pequena tenda para 5 mil pessoas, isso seria melhor para as pessoas e melhor para a m�sica. Pelas mesmas duas raz�es: porque Bryan Adams est� esgotado e Justin Vernon est� no peek da sua criatividade m�sical. Eu daria tudo para ter visto os U2 em Vilar de Mouros em 82, quando transpiravam toda a energia de “Boy” ou “I will follow”; mas n�o daria nada para os ver em Coimbra, com pouca m�sica, mas uma espectacular parafern�lia de luzes, gruas e guindastes que se destina afinal a esconder precisamente a falta do essencial. Tal como no Rock in Rio. Isso � altamente prejudicial ao que realmente importa: a m�sica. E essa � outra boa raz�o para n�o gostar do Rock in Rio!

3. O Rock in Rio abusa dos artistas que nele participam. Por interpostas pessoas: as que l� v�o! � claro que eu gosto de “Supersticion” ou “Master Blaster Jammin’”! Como poderia n�o gostar?! Mas, tal como Bryan Adams ou Bruce Springsteen, h� muito que Stevie Wonder esgotou a sua criatividade musical. Porque � mesmo assim: n�o se programa e n�o se controla; ou sai, ou n�o sai! H� quem diga que dentro de n�s temos apenas um livro. Porque raio da raz�o � que haver�amos de ter mais do que 2 ou 3 discos? H� muitos novos artistas cheios de energia criativa: � esses que dev�amos estar a ouvir. Mas afinal porque � que isso � um abuso em rela��o a Stevie Wonder, Bruce Springsteen ou Bryan Adams? Qualquer deles preferia estar com os netos ou a jogar golfe com os amigos. Em vez disso, v�o ter que tocar, pela nonag�sima mil�sima vez aquelas can��es que j� nem conseguem ouvir. Entre uma ou duas vezes em cada concerto e 5 a 10 vezes em ensaio, conseguem imaginar quantas vezes � que Stevie Wonder j� tocou e cantou “I just called to say I love you”? N�o ser� um abuso pedir-lhe que o fa�a outra vez? E ficar “ofendido” – como j� tem acontecido… – se n�o o fizer? Claro que Stevie Wonder n�o foi obrigado a vir actuar � Zona J. Mas veio porque a organiza��o conseguiu montar um evento de marketing �t�o poderoso que lhe consegue pagar um cachet “irrecus�vel”. E consegue-o fazer, porque os 70 mil que l� v�o pagam bilhete ou compram telem�vel ou abrem contas no banco. � isso que “obriga” os artistas – alguns deles pelo menos – a fazerem algo que na verdade n�o teriam muita vontade de fazer. Isso � um abuso e � portanto mais uma raz�o para n�o gostar do Rock in Rio.

� por estas raz�es – nem mais nem menos – que eu n�o gosto do Rock in Rio. E, obviamente � por isso que… Eu n�o vou!

A prop�sito da crise grega, voltei a ouvir uma express�o que j� n�o ouvia h� anos: “a esquerda democr�tica”.�O tempo � outro e o contexto � certamente diferente, mas a express�o – curiosamente – � a mesma.

Lembro-me bem de qual era o sentido com que era usada h� 20 ou 30 anos em Portugal. Falava-se da “esquerda democr�tica” por oposi��o a uma esquerda que implicitamente (implicitamente na express�o e explicitamente no discurso) se considerava “n�o democr�tica”. Claro que sempre me fez confus�o a forma como esse “n�s-vs.-eles” impunha uma defini��o de democracia. Como se esta fosse uma palavra monoss�mica, quando na realidade � uma da palavras mais poliss�micas que existe. Isso sempre me pareceu injusto e intelectualmente abusivo, mesmo quando a acep��o de “democracia” era aquela com que eu concordava. N�o h� uma “democracia”; h� v�rios tipos de “democracia” porque h� muitas acep��es diferentes da palavra “democracia”.

Curiosamente, a express�o “esquerda democr�tica” quase desapareceu do discurso pol�tico durante os �ltimos 15 a 20 anos. De certa forma porque o discurso pol�tico em Portugal interiorizou que os partidos � esquerda do PS , do PCP “para l�”, n�o contavam para aquilo que muitas vezes se chamava “o arco da governa��o” (que�inclu�a, naturalmente, a tal “esquerda democr�tica”). De certa forma gerou-se um consenso, a que os pr�prios certamente chamariam “consenso democr�tico” (l� est�!), sobre o�modelo�de sociedade que estava a ser constru�do e no qual as regras do “jogo democr�tico” (algumas regras formais mas muitas informais) desempenhavam um papel conciliador e unificador.�Durante anos discutimos a pol�tica dentro do contexto desse consenso e raramente saindo dele.

Por isso � que torna ir�nico que a express�o regresse agora a prop�sito da situa��o na Gr�cia e das aritm�ticas eleitorais dela resultantes. J� ouvi a express�o “esquerda democr�tica” em not�cias , coment�rios e an�lises. Ainda n�o percebi muito bem quais s�o os partidos da esquerda grega que est�o dentro ou fora da chamada “esquerda democr�tica”. Mas j� deu para perceber que, subitamente, a esquerda “n�o democr�tica” (o que quer que seja que isso significa; � um voc�bulo pelo menos t�o poliss�mico como o seu oposto…) � ou pode ser maiorit�ria. Ou pelo menos t�o numerosa ao ponto de impedir o tal consenso que aparentemente vigorava l� como c�. E isso � uma situa��o nova. De repente o consenso dentro do qual a sociedade pol�tica grega evoluiu nas �ltimas d�cadas quebrou-se ao ponto de voltar a ser necess�rio usar a dicotomia “esquerda democr�tica”/”n�o democr�tica”.

E isso, em si mesmo, pode ser um indicador muito interessante. Pode significar – � apenas uma hip�tese! – que o arco temporal que medeia entre esse tempo e o que hoje vivemos se fechou. E que o processo de constru��o social que ent�o se iniciou, com participa��o de todas as for�as pol�ticas (n�o apenas partidos…) da “�rea democr�tica”, falhou! Falhou, ao ponto de voltar a ser necess�rio contar com �for�as consideradas “n�o democr�ticas” e portanto n�o pass�veis de consensos.

Deste ponto de vista, Gr�cia e Portugal (como de resto outros pa�ses da�periferia�europeia) t�m percursos hist�ricos muito semelhantes. E o que isto pode significar, no fundo, � que o movimento hist�rico profundo de aproxima��o ao norte da Europa (por aglutina��o) ter� falhado para os dois pa�ses (e outros em situa��o semelhante). E que o sonho de uma Europa homog�nea ter�ru�do�definitivamente. E isso � uma m� not�cia. Porque uma Europa desunida � uma Europa mais fraca. Hoje ainda e muito mais do que h� 50 anos atr�s.

We need to talk about Kevin

We need to talk about Kevin“, da inglesa Lynne Ramsay, � um filme complexo sobre coisas complexas.

Se gostam de narrativas lineares, com princ�pio, meio e fim, n�o v�o ver este filme.

Mas se, pelo contr�rio, gostam de hist�rias complexas, com personagens fortes, ent�o n�o deixem de ver! Tilda Swinton n�o � a personagem central deste filme; Tilda Swinton�� o filme! Toda a narrattiva � vista pela mente complexa de uma m�e com complexo de culpa. E corre � medida desordenada e aparentemente desconexa das mem�rias. Da� a complexidade. O filme passa-se dentro da mente de uma m�e perturbada; e � precisamente a� que n�s o vemos.

N�o sei qual � a estrutura do romance, mas o filme tem essa complexidade adicional a juntar � da pr�pria tem�tica e da pr�pria hist�ria. E – claro – Tilda Swinton � simplesmente brilhante.

V�o ver. Mas n�o esperem sair de l� mais esclarecidos do que entraram.

 

[ADENDA]

Faltou dizer uma coisa importante.

Na minha opini�o este filme s� tem um erro grave: a realizadora n�o resiste a tentar p�r um fim numa narrativa que n�o tem fim, nem meio, nem principio. Dev�amos sa�r de dentro da mente da protagonista da mesma forma que entr�mos: sorrateiramente e sem aviso pr�vio. Aquela pergunta b�sica – “Porqu�?” – era desnecess�ria e f�til.

“Povo sem medo do mar n�o tem medo de lutar”

A frase – de autor desconhecido -serviu a um dos cartazes de apoio � recente greve geral de 1 de Maio. A constru��o gr�fica � muito feliz: veicula uma ideia clara, com muito “lastro” hist�rico e um apelo claro � ac��o.

E, de facto, quando pensamos na aventura mar�tima de 1500, n�o podemos deixar de nos assombrar com a aparente coragem com que os navegadores portugueses de ent�o se lan�avam rumo ao desconhecido, n�o em sentido figurado mas literalmente real. � primeira vista pareceria haver aqui um fundo de coragem nacional a que o cartaz apela para resolver os problemas do presente. Mas esse pode ser, afinal um dos grades erros de percep��o da nossa pr�pria hist�ria.

A reflex�o resultou – curiosamente! – da pol�mica sobre essa “esp�cie cultural em vias de extin��o” que s�o as touradas e da an�lise das semelhan�as e diferen�as entre a Festa Brava em Portugal e em Espanha. Recordo-me que, ainda na faculdade, e inspirados pelo trabalho do professor Jorge Dias (e dos seus “Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa“) fizemos um trabalho sobre touradas em que entrevist�mos, entre outros, o matador Diamantino Vizeu.

Obviamente fal�mos sobre as caracter�sticas do toureio a p� espanhol face ao toureio a cavalo portugu�s. A determinado ponto da conversa eu disse qualquer coisa como: “sim, mas os forcados, por exemplo, revelam uma enorme coragem ao enfrentarem o touro como o fazem!

Coragem nenhuma!” – retorquiu ele – “Eles s�o � completamente loucos! E isso n�o � coragem, porque a coragem implica a consci�ncia perfeita do perigo que se corre!” Referia-se, obviamente, ao toureio a p�, em que o toureiro domina o touro ao seu n�vel, quase olhando-o olhos nos olhos, em pontas, um-para-um.

Esta ideia anda comigo desde ent�o e volta-n�o-volta emerge a prop�sito deste ou daquele assunto. Agora foi a prop�sito da crise e da nossa atitude colectiva perante ela.

Ali�s � curioso notar as caracter�sticas peculiares do toureio portugu�s – com nobres cavaleiros dominando a “festa” do alto da sua montada e os pobres “mo�os de forcados”, assim s�o adequadamente chamados, autorizados a dar uma volta com o “nobre” quando a coisa corre bem – por oposi��o ao toureio espanhol, com os nobres l� em baixo a lutarem pela vida e a dominarem a besta. � toda uma par�bola que parece reflectir a hist�ria de ambos os pa�ses e tamb�m – � aqui que eu quero chegar – as suas diferentes atitudes perante a encruzilhada hist�rica em que ambos se encontram.

Ou seja: � bem poss�vel que a t�o famosa coragem portuguesa – aquela que nos levou a embarcar em 1500 e ainda nos leva a enfrentar uma besta de 500 quilos – n�o seja afinal mais do que inocente inconsci�ncia. E que os nossos nobres, na vida como na tourada, se mantenham higienicamente distantes de maneira a n�o sujarem os seus punhos de renda.

O cartaz era bom. Mas se calhar partiu de uma premissa completamente errada. Isso �, pelo menos, aquilo que� a realidade vai dizendo…

Camilo Louren�o � um jornalista inteligente. � inteligente quando fala de economia, mas tamb�m � inteligente quando fala de pol�tica. A intelig�ncia continua l�; o que muda � s� o tema em que ela se expressa.

Na sua cr�nica de hoje no Neg�cios Online introduz o interessante conceito da (necessidade da) “moderniza��o ideol�gica do PS”. A tese � que o PS continua agarrado ao passado, em parte por causa do seu fundador, e por isso n�o se moderniza nem aceita alternativas a “um modelo obsoleto de economia e sociedade que est� a condicionar o futuro do pa�s”.

Eu perguntei ao Camilo Louren�o o que seria afinal a “moderniza��o ideol�gica do PS”, mas ele ainda n�o respondeu. �Fiquei genuinamente curioso. N�o deve ser a hist�ria de “p�r o socialismo na gaveta”, pois, ao que parece, isso j� foi feito. Deve portanto ser outra coisa. Ser� a defesa do liberalismo? Ser� o fim do Estado Social?

Obviamente, a simples ideia de que o PS precisa de se modernizar ideologicamente � em si mesma reveladora de uma agenda liberal (e ideol�gica) que n�o nos surpreende no Camilo, mesmo quando apreciamos a sua intelig�ncia. Acontece que (pelo menos vista da esquerda…) a realidade n�o cola com esta an�lise. Hoje � mais l�cito afirmar que a direita precisa de desconstruir o mito liberal do que dizer que a esquerda precisa de se modernizar. � bom n�o esquecer que esta crise come�ou precisamente no cora��o do novo liberalismo e por causa dele. �� verdade que, por paradoxal que possa parecer, desse facto ainda n�o se tirou as devidas ila��es no campo das ideias. Mas isso n�o muda o facto em si: a presente vertigem econ�mica foi despoletada pela implos�o de Wall Street e do seu liberalismo. E portanto resolver-se-� com menos liberalismo e n�o com mais. Apontar o liberalismo como o caminho a seguir � ignorar os �ltimos 10 anos.

Mas n�o � s�. N�o apenas o futuro apontado pelos liberais n�o serve, como o passado que eles pintam tamb�m n�o corresponde � realidade. E, desse ponto de vista, esta cr�nica de Camilo Louren�o tamb�m � emblem�tica. Diz ele que o nosso “modelo obsoleto de economia e de sociedade est� a condicionar o futuro do pa�s”, como se o Estado Social fosse o respons�vel pela nossa pen�ria. At� pode ser respons�vel pelo nosso d�fice, mas � uma simplifica��o redutora afirmar que estamos como estamos porque o Estado gasta “o que tem… e o que n�o tem”. O Estado n�o � uma�mercearia�e a contabilidade � um bocadinho mais complexa do que isso (o que � o dinheiro sen�o uma conven��o? J� pensaram nisso?). E, al�m disso, Portugal � um actor muito pequenino no tabuleiro geo-estrat�gico em que a economia global tamb�m se manifesta. O nosso d�fice � apenas uma parte infinitesimal da diferen�a de crescimento anual de PIB entre os EUA e a China, por exemplo. E isso, por si s�, explica melhor a situa��o em que estamos do que os desvarios do Estado portugu�s ou os custos do modelo social europeu.

� �bvio que as nossas sociedades est�o a passar por transforma��es profundas a v�rios n�veis. Mesmo que as coisas n�o estejam ligadas – e podem estar! – o que acontece em Pequim, no Rio de Janeiro, na S�ria, em Atenas ou no Occupy Wall Street tem consequ�ncias em todo o mundo. E s�o, de momento, imprevis�veis. Por isso � que n�o faz sentido propor um discurso liberal com 10 anos! O Partido Socialista – qualquer partido socialista (ou qualquer partido, j� agora!) – ter� que se repensar a muitos n�veis, incluindo provavelmente ao n�vel ideol�gico. Mas n�o no sentido em que se dizia que o tinha que fazer antes de tudo o que aconteceu nos �ltimos 10 anos. O mundo mudou muito entretanto e, se h� certeza que eu tenho, � que vai mudar muito mais!

Hoje, uma discuss�o interessante�desembocou�- mais uma vez – nesta ideia: vamos ter que voltar atr�s v�rias d�cadas! � uma ideia recorrentemente repetida, mas errada.

Entendamo-nos: n�o h� retrocessos hist�ricos! N�o h� um �nico per�odo da hist�ria universal que seja claramente um retrocesso. Mesmo aquilo que nos pare�a um retrocesso, n�o � na realidade um retrocesso; apenas “nos parece” um retrocesso. E a hist�ria tamb�m n�o se repete; apenas “nos parece” que se repete. Mas � da nossa percep��o; n�o � da realidade.

O que h� � v�rios futuros poss�veis. E todos eles – todos! – s�o uma escolha. Mesmo aqueles que nos parecem impostos ou inevit�veis. Mesmo que seja por omiss�o.

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Isto n�o se faz!

Um partido pol�tico pode prometer coisas que n�o � capaz de cumprir, pode colocar os seus interesses acima do interesse p�blico, pode usar os poderes para pressionar os seus advers�rios e at� pode desvirtuar as escolhas democr�ticas atrav�s de informa��o selectiva.

Mas que n�o pode � torpedear a dan�a das cadeiras que mant�m o circuito a funcionar. Faz�-lo � mexer com o essencial; aquela plataforma m��nima que torna poss��vel a “s�” conviv�ncia pol��tica.

Est� o caldinho entornado!

J� passou algum tempo, mas o caso ainda merece reparo.

Para comemorar os seus 24 anos de exist�ncia, a TSF convidou Cavaco Silva para uma entrevista de actualidade. Tratando-se da primeira grande entrevista de Cavaco depois do caso da Ant�nio Arroio e das pol�micas declara��es sobre a reforma, seria de esperar que ambos os assuntos fossem abordados. Mas n�o. Em nenhum ponto da entrevista qualquer dos temas � abordado.

Obviamente podemos especular sobre uma de duas situa��es. Ou a entrevista j� estava marcada e os assessores do presidente trataram de esclarecer previamente que o assunto n�o seria abordado. Ou a entrevista foi marcada depois dos factos e na condi��o de o tema n�o fazer parte do alinhamento. A terceira hip�tese – de o jornalista terem optado por n�o perguntar ou se ter esquecido de o fazer – � absolutamente descabida.

Ora, o mundo dos media est� a mudar muito depressa e – nesse quadro – como muitas vezes repete Jeff Jarvis, “a transpar�ncia � a nova objectividade”. Neste caso, a transpar�ncia � muito… opaca. Seria interessante a TSF esclarecer porque raz�o n�o perguntou a Cavaco o que deveria ter perguntado. Mesmo que n�o o perguntar tivesse sido uma condi��o pr�via para a entrevista.

Olhando para a tend�ncia longa da evolu��o dos media – e sobretudo para a democratiza��o do acesso que a internet proporciona – s�o coisas como esta que “matam” os media tradicionais. A TSF deu apenas mais um passo no sentido da sua pr�pria descredibiliza��o.

Digo eu, que ainda sou do tempo em que o slogan da TSF era qualquer coisa como: “N�o guardamos informa��o na gaveta!” Parab�ns TSF!

Como medir audi�ncias?

Recentemente, a CAEM “inventou” um sistema de medi��o de audi�ncias�de televis�o para contornar o “zapping” e continuar a “contar” p�blico mesmo quando as pessoas abandonam a sala.

E, de repente, ficou toda a gente escandalizada porque o sistema registava televisores ligados durante 24 horas (obviamente com “audi�ncia” integral), �pessoal que via a SportTv sem ter cabo e uma percentagem n�o negligenci�vel de jogos, grava��es e canais espanh�is. Enfim, uma s�rie de coisas muito indesej�veis para o sector.

Como as hierarquias de audi�ncias mudaram, obviamente tamb�m houve reac��es dos que foram prejudicados e um monte de not�cias e coment�rios sobre o assunto que cheiram mesmo a campanha de interesses. Afinal, este � um neg�cio que vale muito dinheiro. Ainda vale muito dinheiro.

Mas, seja com a GFK, seja com a Marktest, a CAEM em breve chegar� a um equil�brio t�cnico que permita satisfazer todos os “operadores”, provavelmente com algumas televis�es ligadas “quase” 24 horas, sem canais espanh�is e com cabo s� para quem o paga. E nessa altura estar� tudo bem. Ser� uma solu��o de compromisso que permitir� a todos usar os argumentos de que precisam. Entretanto a realidade continuar� a ter gente que tem a TV ligada 24 horas por dia, pessoal que v� o cabo sem pagar e canais espanh�is.

� assim sempre que sector de neg�cio se retrata a si pr�prio. Retrata-se n�o como �, mas como gostaria que fosse.

A pol�mica tomou de assalto a internet desde que a Google anunciou para Mar�o a altera��o das suas politicas da privacidade. De repente, n�o se fala de outra coisa nos podcasts que costumo seguir – as �ltimas edi��es do This Week in Google e do Gillmor Gang s�o disso exemplo – e nos blogues de refer�ncia.

Em geral, a discuss�o acaba sempre com a pergunta: ser� que a Google se tornou mal�fica? O que n�o � uma maneira l� muito correcta de colocar a quest�o. Primeiro porque os conceitos de Bem e de Mal n�o se aplicam necessariamente (ou pelo menos n�o da mesma forma) aos neg�cios e �s empresas. E depois porque – parece-me – por detr�s deste movimento da Google, h� uma reflex�o mais profunda e importante que � preciso fazer.

Em primeiro lugar, conv�m perceber porque � que a Google decidiu unificar todas as pol�ticas de privacidade dos seus variados produtos, permitindo assim gerar sinergias entre eles. Na minha opini�o, a Google est� assustada -muito assustada – com o sucesso do Facebook. Porque n�o o esperava. � �bvio que o modelo publicit�rio associado � pesquisa parecia � partida mais eficaz do que o mesmo modelo associado a uma rede social. Porque quem usa a pesquisa procura algo – e portanto a publicidade � altamente relevante – e quem se diverte numa rede social n�o procura sen�o estar com os amigos. S�o dois contextos muito diferentes e – parecia – com um potencial comercial muito d�spar. Por isso � que a Google n�o se preocupou muito – de certa forma at� desdenhou – os primeiros tempos de crescimento do Facebook. As primeiras redes sociais da Google (o Buzz, o Wave) pareciam mais instrumentos de trabalho do que de lazer.

Acontece que – com a chegada das marcas ao Facebook – Mark Zuckerberg criou um ecossistema comercial altamente atractivo quando combinado com os seus agora mais de 800 milh�es de utilizadores (845 milh�es, anunciado hoje). E de repente a Google percebeu que aquela conversa fiada do social pr’aqui e dos social pr’ali afinal… n�o era conversa fiada. E nesse momento o Google+ j� estava demasiado atrasado em rela��o ao Facebook para poder ser “a” plataforma social tal como o You Tube � “a” plataforma de videos ou o Google Search � “o” motor de busca. Ali�s, o atraso da Google no lan�amento do Google+ � bem a imagem das suas hesita��es nesta mat�ria.

Por isso, o que a Google pretende agora � utilizar o �nico trunfo que – olhando para a m�o – lhe parece ainda ter: o potencial de integra��o do Google+ com os seus restantes servi�os e sobretudo com a for�a do Google Search. N�o � uma atitude de ataque; � uma atitude de defesa. A Google n�o quer conquistar algo; quer � n�o perder o que tem. E, por isso, vai favorecer os seus produtos na integra��o com o G+ e o Search. Tal como faria qualquer outra empresa na mesma situa��o.

Ser� que – tornando-se menos “neutra” – a pesquisa do Google se vai tornar menos “inteligente”? � uma boa quest�o. E suspeito que pens�-lo foi precisamente o erro da Google. De certa forma, todos os produtos da Google – dentro do esp�rito do motor de busca original – s�o manifesta��es de “intelig�ncia”, ao contr�rio de uma rede social, que � (ou era vista), de certa maneira, como uma “coisa menor”. Se aplicarmos ao desenvolvimento das tecnologias de informa��o este quadro de an�lise – mais informa��o na rede e mais gest�o dessa informa��o � mais intelig�ncia colectiva – ent�o podemos ter uma de duas opini�es: ou consideramos que o “social” fica fora desse quadro de an�lise (que foi o que pensaram os tipos da Google); ou achamos que a “intelig�ncia social” de um programa como o Facebook � tamb�m uma forma de intelig�ncia (que foi o que percebeu – se � que percebeu! – Mark Zuckerberg). O Facebook lembra-me quando � que os meus amigos fazem anos, diz-me que livros est�o a ler, que filmes foram ver, como est�o os filhos, etc. E isso �, provavelmente, muito mais importante do que saber que figuras hist�ricas nasceram nesta data e quais os livros mais vendidos ou os filmes mais vistos. Porque n�s somos sociais antes de sermos racionais. Na verdade – pensado no paradoxo da galinha e do ovo – de certa maneira j� �ramos sociais antes de sermos racionais.

Mas h� outro aspecto – completamente separado deste – em que este alvoro�o em torno da Google suscita reflex�es interessantes. Que � este: para mim � sempre muito curioso ver a agressividade com que estas empresas – Google, Facebook, Twitter – procuram manter ou conquistar territ�rios negociais. Como se n�o soubessem muito bem o que � que na realidade fazem ou estar�o a fazer daqui a 5 anos. E na verdade � isso mesmo que acontece. A Google � utilizada universalmente, o Facebook tem mais de 800 milh�es de utilizadores e o Twitter est� presente em todos os continentes e em todas as latitudes. No entanto, nenhuma as 3 empresas parece ter um modelo de neg�cio seguro (na verdade, o Twitter ainda est� � procura dele). O Facebook, por exemplo, s� hoje entrou em bolsa. E todas as valoriza��es incrementais que ao longo dos �ltimos anos lhe foram sendo atribu�das n�o eram mais afinal do que “expectativas de valor”, tal como, de certa forma, ainda s�o hoje, mesmo com a cota��o em bolsa. Ou seja: percebe-se que qualquer destas empresas tem um potencial enorme, mas percebe-se pior qual � realmente o seu neg�cio do dia-a-dia, por compara��o com essa expectativa. Mesmo no caso da Google. Claro que a Google faz milh�es em publicidade, mas faz esses milh�es com bili�es de utilizadores e trili�es de utiliza��es. Como sabe bem quem explora um media tradicional e o respectivo website, ganha-se mais dinheiro por cada “eyeball” no papel, por exemplo, do que com 100 na web. O que isso significa � que s� a escala salva a Google (e o Facebook, que tem o mesmo modelo de neg�cio). Se n�o fosse a escala enorme em que estas empresas se movimentam – Google, Facebook, Twitter, etc – qualquer delas seria um insucesso econ�mico. Porque � que n�o h� concorrentes (reais) da Google ou do Facebook ou do Twitter? J� pensaram? � por isso mesmo: porque concorrentes mais pequenos n�o t�m escala para serem rent�veis! Para termos uma no��o da situa��o basta imaginarmos o que seria uma BP ou um Wal-Mart com mais de 800 milh�es de clientes! � esta a escala a que operam estes gigantes com p�s de barro!

Por isso � um erro dizer que estas empresas est�o a mudar o modelo de neg�cio. Wrong! Elas est�o a “pulverizar” o modelo de neg�cio! Isso sim! Como ali�s os media tradicionais sabem muito bem.� � �bvio que elas est�o a “desregular” algo, mas n�o � claro que estejam a “regular” o que quer que seja! Provavelmente ainda iremos descobrir que no futuro os neg�cios estar�o organizados de uma maneira muito diferente. Ou at� que n�o haver� neg�cios, apenas servi�os sem fins lucrativos! N�o sabemos como ser� o futuro. Mas sabemos que provavelmente n�o � isto que hoje temos: um gigante em cada sector, com uma escala enorm�ssima e uma rentabilidade min�scula.

O que parece – hoje – � que estes gigantes – Google, Facebook, Twitter — s�o mais plataformas do que empresas; s�o mais um servi�o p�blico do que um neg�cio. E � por isso – s� por isso! – que esperamos que elas estejam do lado do Bem e n�o do lado do Mal! E � por isso que tantas vezes nos incomodamos e revoltamos com os seus “termos de servi�o” e as suas “pol�ticas de privacidade”. Algu�m alguma vez procurou saber quais s�o os Termos de Servi�o e a Pol�tica de Privacidade do Pingo Doce?

Isto est� mesmo a mudar. Muito e depressa. N�o sabemos � para onde!

Ser Benfica

N�o me surpreendem as declara��es de Djal� acerca da “grandeza” do Benfica. Nos dias que correm, todo o jogador contratado para a Luz tem que dizer 2 ou 3 frases bomb�sticas para sa�rem os jornais. At� os jogadores- com o seu� c�rebro pequenino – percebem isso facilmente. O que � interessante � reflectir no que isso diz acerca dos adeptos! Isso � que � interessante!

No Benfica h� dois tipos de adeptos: os parolos, que acreditam; e os chicos-espertos, que sabem que eles acreditam! Uns e outros s�o t�picos do clube mais sul-americano de Portugal. Sem ofensa.