
Em Personal Knowledge, Towards a Post-Critical Epistemology[1] apresentou uma teoria sobre o conhecimento, defendendo que (a) a verdadeira descoberta não pode ser explicada por um conjunto de regras ou algoritmos; (b) o conhecimento é também pessoal, no sentido em que é construído pelos indivíduos e engloba as suas emoções e paixões (daí Personal Knowledge, enfatizando que mesmo na ciência, o intelecto se encontra ligado ao contributo do conhecimento pessoal, sendo as emoções um dos seus componentes essenciais); e (c) o conhecimento subjacente ao conhecimento explícito é mais primário e fundamental, dado que todo o conhecimento é tácito ou nele fundado.
Escreveu depois The Tacit Dimension e foi um dos primeiros a discutir e desenvolver o conceito de conhecimento tácito, identificando-o como o princípio dominante de todo o conhecimento. Na origem latina, tacitus de silencioso, expressa, por definição, uma compreensão implícita – algo que não é preciso ser dito para ser reconhecido. Nas suas palavras,,
I shall reconsider human knowledge by starting from the fact that we can know more than we can tell. This fact seems obvious enough; but it is not easy to say exactly what it means.[2](1966/1997, p. 136).
Para Polanyi, o conhecimento tácito comporta duas dimensões distintas:
(a) a técnica, inclui as competências pessoais vulgarmente designadas por know-how, relaciona-se com um tipo de conhecimento profundamente enraizado na acção e no empenhamento num contexto específico – uma arte ou profissão, uma determinada tecnologia ou um determinado mercado, ou mesmo as actividades de um grupo ou equipa de trabalho; e a
(b) cognitiva que inclui elementos como modelos mentais, emoções, valores, crenças. Estes elementos – que podemos designar por estruturas cognitivas –encontram-se incorporados em nós, de tal modo que os encaramos como dados adquiridos, definindo a forma como agimos e nos comportamos e constituindo o filtro através do qual percepcionamos a realidade. Difícil de articular por palavras, a dimensão cognitiva do conhecimento tácito molda a forma como percepcionamos o mundo.
Como será fácil de calcular, o trabalho de Polanyi (nos finais de 50 e nos anos 60) é dissonante em relação face à concepção de ciência, que visa a obtenção de conhecimento impessoal e universal e a objectividade e rigor absolutos. Defendeu que o trabalho do cientista é altamente influenciado pelos valores e emoções, facto a que se refere como coeficiente pessoal.
Desta forma, se a dimensão tácita é parte indispensável de todo e qualquer conhecimento, a ideia de eliminar os aspectos pessoais do conhecimento equivale à destruição do conhecimento em si mesmo, pois ao dizer respeito à descoberta, o conhecimento tácito constitui a base para o conhecimento explícito, e nele reside o potencial para encontrar a referida alternativa estável à objectividade absoluta. Quando procuramos explicitar o conhecimento, ou seja, converter o conhecimento tácito em explícito, fazemo-lo através da linguagem e ele passa a poder ser discutido, refletido.
“tacit coefficient of knowing”
“The tracing of personal knowledge to its roots in the subsidiary awareness of our body as merged in our focal awareness of external objects, reveals not only the logical structure of personal knowledge but also its dynamic sources.” (Personal Knowledge, p. 63)
“We must now recognize belief once more as the source of all knowledge. Tacit assent and intellectual passions, the sharing of an idiom and of a cultural heritage, affiliation to a like-minded community: such are the impulses which shape our vision of the nature of things on which we rely for our mastery of things. No intelligence, however critical or original, can operate outside such a fiduciary framework.”(p.280-281)
“in all our thoughts—whether tacit or articulate—we rely jointly on two faculties, namely (1) on the power of our conceptual framework, based on reality, to assimilate new experiences and (2) on our capacity to adapt this framework in the very act of applying it, so that it may increase its hold on reality.” (p. 334)
“complete objectivity as usually attributed to the exact sciences is a delusion and is in fact a false ideal.” (p.28)
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[1] Polanyi, M. (1958). Personal Knowledge: Towards a post-critical philosophy. London: Routdedge & Kegan Paul.
[2] Polanyi, M. (1966). The tacit dimension. London: Routdedge & Kegan Paul.(1966/1997, p. 136).




