Meia-noite

|29 Setembro 2018 23:44 | baseado em áudio literário – empírico.

Você é algo que

eu não tenho

eu não tenho o dia de viver

como se eu tocasse um gelo que me ferisse

que não estivesse mas ferisse

que o sol me consumisse


Eu corro

não é para esquecer

é para esquecer o lembrar

o lembrar de viver

Como se eu imergisse

em uma parte da minha mente

e lá é um lugar

um lugar que existe

esse lugar que eu faço um viver

Um reduto Um refúgio

mas de lá eu vejo muitas coisas impossíveis

que não consigo dizer não consigo abraçar

não consigo trazer não consigo materializar

Eu consigo viver o sonho como se fosse

uma queimadura removida

Eu consigo colocar uma cor impossível

Aquela cor Aquela imagem

é um alento para um pequeno momento

que sangra Se esvai

exatamente como o tempo

que corta

Corta e o gelo não estanca

A dor consome A dor me some

Me acorda

Eu não desfaleço

Consciente eu fico sabendo

o tempo todo o tempo todo

tá ali

E eu fico esperando

um pássaro

Eu fico esperando diluir de uma nuvem

e a nuvem não vem (a nuvem não se vai)

O céu sempre tá com o meu lençol

E eu quero te dizer – eu quero

coisas que não posso

Não consigo

(São palavras do acontecer)

São palavras de algo

que eu pudesse viver de verdade

e elas pertencem a esse momento

impossível

Elas pertencem a um tipo de percepção

física

Eu às vezes sofro Eu às vezes

como se

Eu vivo como se eu voasse

mas é interessante que

eu fico pensando que

(Esse momento é completamente novo)

e é como se tudo tivesse acontecido agora

mas não

(faz tanto tempo)

Era um tempo enevoado que

eu tinha uma sensação diferente

e uma parte dessa sensação que sempre houve

ela sempre permaneceu

cristalina

translúcida

Ela é como o

Antídoto da sede

Ela é o Antídoto do sal

O Antídoto de veneno

Só que

não está presente nunca

é algo que eu ando e a imagem se adianta ainda mais

e eu nunca chego

Eu percebo que eu tento viver

viver dentro dessas lacunas de vazio

que sempre existiram

E das minhas palavras eu faço Morada

eu faço Paisagens eu faço

Amor Abraços

eu faço um chorar Eu faço

um afago que

poderia ser um instante seguinte

que eu penso que pode acontecer

que eu sonho Que eu desejo como uma sobrevivência

mas que

Não

(Ele não ocorre)

Eu me sinto ainda presa

Presa dentro da mesma

sensação

Como se eu já tivesse que ter nascido e eu ainda

‘tô presa ali – eu ainda não nasci

(De certa forma é uma falta de liberdade

de certa forma é a própria liberdade)

Eu tava com vontade de dizer

De dizer sobre as cores do desenho

de como eu senti naquele momento aquela imagem

que já esteve presente para mim em outra situação

em outra grafia

E como uma linguagem diferente

como se eu tivesse acabado de falar em outro idioma

É como se eu percebesse

um universo diferente novo

que está através de um espelho

através de uma cortina invisível

bem no espaço ocupando algo concomitantemente com aquilo

que era

(É algo estranho)
É um pensamento que eu larguei

que ele foi por aí sem rumo  (Não era intenção)

– Porque eu fujo dessas palavras –

eu fujo porque eu quero dizer

_                          pessoalmente

E que poderia ser de uma forma

possível

que poderia dizer talvez nem metade

ou só uma primeira palavra

E que engolisse um chá ao invés de qualquer outra coisa

E que pudesse haver riso ao invés de pranto

Que a saudade se fosse

(Desaparecesse como cinzas lavadas da chuva)

Eu queria – quando voltava do meu caminhar –

com um sol me dando quase uma visão delirante

eu imaginava dentro daquela irradiação

do chão pra cima como um fogo invisível

aquele bafo fazia eu saber que

aquele fogo existia ali

e eu pensava – que você poderia ‘tar na minha porta

Que eu poderia fazer uma coisa diferente

Que eu poderia colocar uma mesa no terraço

e que o vento ia bagunçar a toalha

que poderia entornar a xícara

poderia virar um bule

Mas que entre palavras poderíamos ser interrompidas por

Sorrisos – Engasgar com qualquer susto

E poder olhar cada uma com seus olhos

_                                      pro mesmo lugar

_               e que o olhar fosse e voltasse

_           trazendo uma percepção similar

que como uma coberta compartilhada

pudesse Resguardar – Resguardar de um vento frio

Resguardar de um desalento De um sofrimento

E eu pensava o almoço

um almoço completamente idiota

E que tudo não havia e que não havia absolutamente

_           nada

Era como realidade da minha geladeira

Não havia nada

E aqui quase Meia-Noite

eu fico na minha sensação lúcida

de um momento de transição

como se eu fosse pular uma corda pro dia seguinte

apenas com a certeza que acordarei de noite com dor

e que a passarinhada vai ‘tar lá

todo dia

todo mesmo momento

tentando me convidar de novo

prá esse lugar

pro lugar de dentro da minha mente

onde eu Me escondo Me descubro Me refaço

Me sustento e Eu mesma

Me abraço

E nesse lugar sempre

_                 (você está)

Não há o momento que você não esteja

Mas seu silêncio fala muito alto pra mim

e me machuca

Sua distância me faz ter que me distanciar da vida

da realidade

E quando eu penso que coisas possíveis

Coisas que Cada tempo Cada gosto

(Poderia se permitir)

É que essas coisas eu não consigo descobrir o que elas são

Eu começo a olhar – elas se desfazem

_                                                 no vento

Eu não consigo nunca saber um desfecho

de uma história que não começa nunca a acontecer

(São impressões estranhas)

São elucubrações estranhas que eu registro aqui

que eu sei Eu sei que eu senti essa falta bruta

lá ‘trás  e eu não sabia muito direito

E como meu pé ‘tá preso em outro lugar

Sem tempo Nem espaço

com meu coração veio marcado De uma coisa que

por mais que ande por mais que Eu respire

eu não consigo me livrar

E nenhum saber é suficiente

prá paralisar o tempo num momento

bom

de reencontro de uma possibilidade

(fosse qual fosse)

Fosse um pouquinho Fosse um quase nada

e fosse Tudo

fosse mais do que Tudo

É uma curiosidade saber… o que seria

Eu precisava de um pouco

E independente disso que eu sentia

Das sensações que eu queria viver

Das palavras que eu queria dizer

_                               bem de perto

fosse qual fosse a xícara

eu fico pensando que

há outras coisas na minha vida que

também por hora me fazem feliz por hora me fazem

_              Pura angústia

Por hora me fazem ver que eu não Tenho

nenhum lugar

que seja como esse reduto Esse refúgio

E aí eu tento me superar escrevendo coisas

que por um tempo eu olho (não gosto)

por outro tempo eu olho (e adoro)

e acho que aquilo diz algo importante

_          Do meu coração

que tem uma verdade tão profunda que

não sei quantas pessoas tem capacidade de

saborear aquilo

E às vezes que fico um belo de um tempo sem olhar para nada daquilo

Sem querer ver Sem querer Saber Lembrar

Porque aquilo me traz de volta pro momento da criação daquilo

e nem sempre eu consigo

ter aquela mesma ótica

e às vezes eu fico me reperguntando Tentando relembrar Redescobrir

o que que O que que aquilo fez sentido

o que que eu senti

e de repente eu lembro como eu me senti

às vezes é uma dor

às vezes é um amor tão grande que

é uma coisa que extrapola os limiares que eu tenho

de Vida de Tudo

E às vezes eu acho uma coisa Tão fanTástica

como qualquer descrição bonita

de um lugar Maravilhoso

de uma situação ideal onde você se sente pleno

Se sente completo

Às vezes é assim e Por vezes já tá assim além

Além daquilo que eu consegui guardar daquele Lugar…

Sagrado

Eu ‘tou aqui olhando as coisas às vezes esse poema aqui

chama BeijoTe

eu não sei como que eu escrevi algo assim

mas eu gosto de um trechinho que ele diz:

‘BeijoTe  em linha de contorno BeijoTe sussurros de concha acústica Pés de borboleta’

Eu vejo que neste pequeno trechinho tem a ver com um desenho – né – linha de contorno

É a pessoa ideal idealizada

e o sussurro no ouvido – né? –  concha acústica

ao mesmo tempo é o lugar de mar

que você coloca a concha e

fica com aquele barulho

um som parecido com  o mar mas é

como se você tivesse noutro mundo

E aquilo me faz lembrar

da experiência que eu tive lá em Macchu Picchu

Os pés de borboleta é leveza do toque

Eu escrevi umas coisas aqui que

Eu achei incrível ter colocado

Eu coloco uma sexta estação

que não seria

que Seria algo mais do que um verão

Porque existia aquela meia-estação

que é o Veranico que é

O calor forte no Inverno

mas eu coloco como uma estação Quente

no próprio Verão

E eu falo do sono porque

eu me refugio no sono

prá tentar vivenciar alguma coisa

prá tentar descobrir e ter mensagens espirituais

e tudo e tam’ém para cogitar

todos os textos que eu faço

Eu

gostei de dizer essa palavra como uma coisa só

porque ela é uma coisa só

é como se existisse um ato nesse poema

É o ato de dar esse Amor

sem propriamente receber

Aí tam’ém eu comento que

‘escultura torneada que sustenta o olhar’

é como eu quis descrever o pescoço

e eu falo ‘amendoar’ é formato de olho

de Amêndoa

um formato muito interessante Admirável

e engraçado que eu coloco aqui

como se você tivesse

‘BeijoTe nas imagens que te farei enxergar’

é como se trouxesse a pessoa prá dentro

de um lugar imaginário Onde só eu consigo existir

que eu não consigo transpor tudo aquilo Dentro do que eu

escrevo do que eu desenho – tudo o mais – mas como se fosse possível

levar essa pessoa prá ver isso E é engraçado que

Que eu falo de tocar o pé como uma espécie de

carinho diferente

E eu falo ‘Lírios Brancos’ simbolizando os dentes

e copos-de-leite Aqui eu descrevo toda parte

como se fosse Dentro da boca É um Jardim

que eu falo de jardim secreto

É uma percepção apenas

figurada que eu coloco aqui De encontro

eu falo da mudança dos mares mas é

como se houvesse um encontro É engraçado isso

É uma descrição simbólica do beijo

porque eu falo do gosto eu falo do toque eu falo

da sensação e Eu falo

do céu da boca

(eu falo de uma sensação de ouvir o coração)

Ouvir o ritmo mesmo

e é como se esse sonho essa imagem poética tivesse

ouvindo a Voz Tão Sonhada

Eu fiz umas descrições aqui em baixo

mas eu estou fazendo comentários agora que

não constam aqui

Há muitos textos que eu gostei

Mas há alguns textos que eu ainda não fui capaz

De chegar assim Dizer coisas que seriam muito

viscerais

Algumas eu disse Eu faço uma hipótese nesses últimos textos aqui

Eu faço um texto Não é cintilação É outro

Acho que é a revelação Não sei se é o ofuscamento

ou a revelação

O engraçado que Eu falo de tomar uma foto

eu fiz um esboço e eu queria fazer um desenho

não sei se era para este texto (estralo a língua e suspiro lentamente)

Eu tinha em mente fazer um desenho que tivesse umas

iluminações da luz no rosto que

Fossem em tons amarelo Como pequenos líquidos derramados

nos lugares que dariam aquele

Aquela luz Aquele brilho de luz na cara

Eu pensava fazer um desenho assim Eu fiz

um esboço

e desenhei também um

É o rosto dormindo que é um desses textos que

eu já não sei qual deles

Eu confesso que eu estou meia cansada

e eu fiquei aqui tentando preencher um pouco de um

momento aqui prá qu’eu não me

Angustiasse

E eu senti que você sumiu de tudo

como se

distanciasse de uma situação – não sei – se

porque está se sentindo mal Se porque não quer

que eu interprete como uma outra questão

Sinceramente

eu não sei se você tá por perto mas

eu não tive como ter nenhuma percepção sentindo tantos

Problemas que

se avolumaram esses dias Coisas tão chatas que hoje

depois de um momento bom que eu tava pensando

em ter um Resto de dia Melhor eu fui comer

e quebrou um dente assim

Do Nada

Eu não acreditei Eu acabei de

resolver um problema assim

e eu fiquei assim – Tipo Paralisada – assim

E como de outra vez eu fiquei com dor

Fiquei receosa Até que não – Eu falei –

Segunda-feira eu vou resolver isso

eu vou ter que resolver isso

Assim sabe? Tanta coisa que

vem ocorrendo que me telefonam para marcar o médico

eu não conseguia

pegar um papel Eu fiquei assim Atarantada

com um milhão de ideias na cabeça

e pondo em prática assim uns cinco por cento

E começou tanta ideia e tanta coisa tanto problema

tudo simultaneamente

que eu falei – eu preciso me acalmar – ficar um dia tranquila

Eu fiz isso Sexta-feira eu ConseGui

Mas é muita ideia na cabeça que

também gera um pouco de

Angústia

(eu queria que sobrasse algo prá mim)

Que em algum momento você pudesse

dizer algo que Sentiu de Algum

texto

Sem nenhuma pretensão Que isso fosse

algum tipo de – Sei lá – não seria encostar em mim

mas seria dizer

(com certeza isso encosta em mim)

talvez por isso que você nunca manifeste

Isso não é assim que me tira do Eixo

Acho que sou eu mesma

independe porque as faltas são

exageradas  Os Problemas da minha vida

são grandes

E como qualquer pessoa que

Ama Verdadeiramente

você quer que a felicidade se estenda

que ela Reverbere ela Aconteça e que ela Esteja

que ela Brilhe A pessoa e que ela também esteja perto

Seja visível Que ‘ocê quer um pouco daquilo

mais do que Si Mesmo

Amizade é uma coisa Possível Sempre É possível

então eu fico num puta desespero Por quê?

Que

Não?

Por que que não?

Por que não?

Eu não sei que Punição é essa

(Ah eu vou desligar)

Vou tentar descansar que meu poema Aguou

Tava tentando escrever Não era Não era ainda sobre

proporção mas eu tava Colocando isso na fonética

nas tônicas Na quantidade de sílabas

Eu comecei pirar em fazer a quantidade de versos

e dizer uma coisa

Que Eu Não Estava Conseguindo

Mara Romaro

[até 37:35]