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terça-feira, 18 de outubro de 2022

Borscht

        Disputado entre a Rússia e a Ucrânia, como não podia deixar de ser, proclamado como ucraniano pela UNESCO, o certo é que andei por aquelas bandas, com alguma detença e minúcia e posso asseverar que encontrei Borscht, literalmente, em todos os restaurantes, cantinas e tabernas, desde São Petersburgo, ao lado da setentrional Finlândia, até ao Lago Baikal, Irkutz e Ulan Ude, ao pé da Mongólia. E foram muitas as oportunidades que fui tendo (e aproveitando) de perceber esta sopa/refeição como um prato realmente nacional na sua diversidade, em todos os países que outrora estiveram sob o jugo da ex-União Soviética.

Claro que encontrei diferenças enormes, não só de confecção como até nos ingredientes, ao longo de quase 5000 quilómetros, do mesmo modo que entre nós, ninguém espera que um Cozido à Portuguesa minhoto seja igual ao que se come no Alentejo. Nenhum deles é "verdadeiro" ou "falso", do mesmo modo que não há Borscht "genuíno" ou "bastardo".
O que aqui irei em seguida deixar é, como sempre faço , o "meu" Borscht, o que passei a comer desde essa minha  viagem asiática e que, para além do imenso prazer que me dá, teve o condão de, 65 anos depois, me ter reconciliado com esse vegetal sempre detestado, a beterraba.
Vamos então ao Borscht!

INGREDIENTES:

Carne e ossos (vaca, porco, frango, etc.).
Beterraba
Couve
Cebola
Batatas
Cenoura
Natas azedas (facultativo)
Azeite*
Sal
Cebolinho (ou endro, ou salsa, ou coentros)

PREPARAÇÃO :

A verdadeira base que irá definir um Borscht, para o melhor ou para o pior, é o caldo de carne onde serão cozinhados todos os ingredientes.
Este caldo, ao contrário dos  caldos que tradicionalmente se usam nas cozinhas ocidentais, é um caldo intenso mas simples, carne, ossos, água e sal, nada de legumes, temperos ou ramos de cheiros.
Prepare então o caldo, fervendo ossos e a carne que for usar, com sal, durante 3-4 horas, no caso de usar carne de vaca.


Retire a carne, reserve, e coe o caldo, que fica no recipiente onde o Borscht será feito.

Na gordura que escolher, refogue levemente cebola picada,

antes de juntá-la ao caldo, escorrida da gordura,

depois faça o mesmo à cenoura,


por fim à beterraba.

Deixe retomar fervura e rectifique, se necessário, o sal e a quantidade de líquido.

É então o momento de juntar os crús: batata em pequenos cubos e couve repolho (coração de boi) em juliana grossa.


Deixe cozer. 
No fim, tudo bem cozido, adicione a carne desfiada,

mexa bem e está pronto o Borscht.

Sirva, se quiser, com natas azedas batidas e salpique com um sabor verde a seu gosto. Lá, usa-se muito o endro, que por cá é por vezes difícil de encontrar. Eu uso o que tenho à mão (que nunca é endro), neste caso usei cebolinho.
Estava deliciosa!

NOTAS:

*Por terras eslavas e asiáticas, usam-se diversas gorduras locais, óleos vegetais diversos, por vezes banha ou até a ôlha gorda que sobrenada o caldo quando as carnes usadas são gordas. Claro que nunca usam azeite, que de resto nem conhecem... mas eu conheço e como estou na terra dele, foi com azeite que experimentei, gostei, e passei a usá-lo desde aí. Use a gordura que quiser.








quinta-feira, 11 de maio de 2017

Outro caldo-verde

                 É impossível falar de uma receita de caldo-verde, tantas são as maneiras de fazer e servir essa deliciosa sopa de couve-galega cortada em juliana finíssima.
Desde os que se resumem à couve escaldada em água a ferver com um fio de azeite, do Norte serrano, aos encorpadas num caldo em que a batata é dominante, até alguns modernaços feitos com coentros em vez de couve, com ou sem rodela de chouriço ou salpicão, com ou sem broa a acompanhar, há poucas sopas mais reconfortantes e icónicas na nossa cozinha.
Fornecendo uma grande quantidade de sais, vitaminas e fibras de excelente qualidade alimentar, o calcanhar-de-Aquiles dos caldos verdes é a grande quantidade de hidratos de carbono que são introduzidos pela presença mais ou menos abundante de batata no caldo. Criaram-se então, para os amantes da linha e das dietas, versões em que a batata era substituída por courgette e/ou couve-flor, o que dava um caldo verde já bastante satisfatório mas um tanto ralo e transparente que fazia sempre ficar a lembrar o sabor bom da batata.
É para evitar essa dificuldade que hoje aqui deixo esta versão de caldo-verde ligeiro, totalmente dietético e a poder-se consumir sem moderação, mas a apresentar um caldo denso, branco e espesso, um caldo a fazer logo lembrar os velhos caldos-verdes de batata, mas sem pecado!
O efeito (e o sabor) obtém-se com o uso de uma couve mal-amada entre nós, a couve-rábano, também conhecida por couve-nabo, seja da roxa ou da verde.
Por dentro parece um nabo mas com sabor neutro e estrutura densa que se adapta na perfeição para estas funções de base de sopa.

Ingredientes:

Couve-galega em juliana finíssima (caldo verde)
Couve-rábano
Couve-flor
Cebola
Alhos
Sal e pimenta
Azeite

Preparação:

Descasque, e parta em pedaços a couve-rábano e a cebola e coza-as com a couve-flor, os alhos, sal, pimenta e azeite.

Passe no copo liquidificador ou com a varinha até obter um puré liso e junte-lhe o caldo verde.
Deixe cozer até a couve estar a seu gosto,
rectifique o sal e sirva apenas com um fio de azeite virgem ou com o que quiser.

Neste caso, optei pelas pequenas azeitonas galegas de sabor ácido e único e por rodelas de chouriço de carne previamente assadas no microondas num prato inclinado,
de modo a intensificar o sabor e extrair a maior parte da gordura e tornar a sopa melhor para a linha.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Sopa de catacuzes com feijão e presunto

         É daquelas sopas telúricas que fazem uma refeição inesquecível nos tempos frios.
Ao prazer do sabor único soma-se o prazer do uso de uma planta dessas que nascem sem licença num ermo qualquer
onde acabam como pasto de alguma ovelha que ali ande ou simplesmente arrancadas como erva daninha.
São assim os deliciosos catacuzes, que já foram alimento de pobre em tempos de miséria, despontam viçosos por todo o lado quando chega Janeiro e que, juntamente com as acelgas, urtigas, beldroegas, dentes-de-leão e tantas outras “ervas”, vão fazendo as delícias da meia dúzia de entusiastas destas maravilhas que, sem ninguém as semear ou cuidar, vão estando disponíveis, grátis, para quem as conheça e queira apanhar.

Ingredientes:

Gordura de presunto
Cebola
Louro
Alhos
Catacuzes
Pimentão fumado
Sal e pimenta
Feijão catarino ou manteiga, cozido
Pão duro

Preparação:

Frite em lume moderado alguns pedaços de gordura de presunto,
de modo a extrair a gordura e formar pedaços de torresmo, que deve reservar.
Refogue nesta gordura a cebola picada, os alhos, a pimenta e o louro.
Quando começarem a alourar, junte então os catacuzes cortados em juliana grossa, o pimentão fumado
e deixe murchar com a panela tapada, juntando alguma da água onde cozeu o feijão.
Adicione por fim o feijão
e a água que for necessária, tempere de sal e deixe ferver mais uns minutos.

Sirva sobre pão duro,
acompanhado de presunto cru e dos torresmos.

sábado, 4 de junho de 2016

Sopa de Feijão-Verde e Segurelha ("barquinhos")

      Quando eu era criança chamava-lhe “sopa de barquinhos”, alusão directa à forma ovalada das finas lâminas de feijão-verde,
cada uma um navio de imaginárias frotas que iam decorando a borda dos pratos dos mais novos, eu e as minhas irmãs, a minha mãe a ralhar que a sopa era para comer e não para batalhas navais.

Mais de meio século depois, este é um sabor que continua a povoar as minhas refeições de tempo quente, quando aparece a indispensável segurelha
e o feijão-verde deixa de ser marroquino e de estufa. Como todos os pratos verdadeiramente tradicionais, não obedece a uma receita mas sim a uma ideia que lhe dá forma, a maneira de cortar o feijão, um puré de legumes com uma latitude de variação enorme, a segurelha que, quando faltava, era substituída por hortelã. É assim a cozinha tradicional na sua expressão mais verdadeira, a que vai acontecendo, geralmente numa linha familiar de imitação/inovação sem ligar às “fixações”, com que alguém num dia qualquer decidiu que era aquela a receita que ia ficar como cânone.

Ingredientes:

Feijão-verde
Batata
Cenoura
Alhos
Azeite
Sal e pimenta
Segurelha fresca

Preparação:

Leve a ferver em água e sal todos os ingredientes excepto o feijão e a segurelha. Reduza a puré.

Elimine as pontas dos feijões-verdes, agrupe-os em molhos de quatro ou cinco feijões e corte-os transversalmente em lâminas de 2-3mm de espessura (os barquinhos).


Junte ao puré o feijão laminado
e uns raminhos de segurelha fresca,
deixe cozer até o feijão estar tenro, rectifique temperos e sirva.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Sopa alentejana de sarda

     Peixe humilde, a sarda foi, juntamente com a sardinha, salgadas, e com os bacalhau e cação, secos, um dos poucos peixes que foi utilizado na cozinha popular alentejana antes da chegada das tecnologias de frio, nos anos sessenta do século XX.  
As inúmeras recolhas e publicações que entretanto trataram de canonizar a cozinha desta região, esqueceram os parentes pobres, sarda e sardinha, que também deixaram de existir nas versões salgadas e promoveram o cação, agora fresco e, claro, o bacalhau.
Fora desses roteiros normalizados que se intitulam “tradicionais”, existe no entanto uma outra cozinha, sobrevivente de épocas idas mas que teima em ressuscitar, mais ou menos adaptada e evoluída, nas aldeias alentejanas e nos tachos anónimos de quem quer lembrar sabores de infância e que, sem pompa nem luzes de ribalta, vai fazendo no dia-a-dia a verdadeira cozinha tradicional.
Para fazer esta preciosa sopa de sarda, que também se pode fazer com a “irmã” cavala, há que salgá-las previamente por 24 horas ou então comprar as que ainda sobrevivem na região saloia, vendidas salgadas, aos pares (feira da Malveira).

Ingredientes:

Sardas salgadas (ou cavalas)
Azeite
Cebola
Tomate
Pimento  
Alhos
Louro
Pão alentejano, duro
Coentros
Sal e pimenta

Preparação:

Amanhe o peixe e salgue-o com sal grosso abundante. Deixe a salgar pelo menos por 24 horas, melhor por dois dias. Ao fim do tempo de salga, deixe-o em água limpa durante uma hora por cada dia de salga, coza-o em água sem sal
e reserve o caldo obtido.
Refogue em azeite
a cebola, o tomate maduro (na sua falta, de lata), o pimento, dentes de alho, louro, pimenta e os caules de um molho de coentros
(reserve as folhas). Quando o tomate estiver desfeito e a cebola mole, acrescente o caldo, prove e rectifique o sal. Coza por uns minutos.
Junte por fim o peixe sem pele nem espinhas, bem como as folhas dos coentros,
deixe apenas levantar fervura e sirva a sopa de sarda sobre falhas de pão alentejano duro.




quarta-feira, 1 de abril de 2015

Canja de Bacalhau com Poejos e Espinafres

           A reflexão que deixo lá em baixo* como nota, nasceu da dificuldade que senti para enquadrar, ou não, esta sopa-refeição maravilhosa nesse conceito abrangente que é o de Cozinha Tradicional Portuguesa.
É que se é verdade que não há qualquer tradição registada desta “canja”, não é menos verdade que ela foi inspirada directamente em pratos e sopas bem conhecidos da tradição culinária alentejana, as poejadas, as sopas de peixe, a quem buscou ingredientes e processos para se criar e que se vão encontrando a cada passo em cozinhas como as da minha aldeia alentejana, sem preocupações de ser fiel a esta ou aquela receita mas respeitando-as todas afinal pois foram e são a sua matriz, que é isso a verdadeira Cozinha Tradicional.
O resultado é um sabor nobre, ancestral, a dar aquele reconforto que as sopas antigas dão e a desmentir no palato que seja coisa acabada de nascer.

Ingredientes:

Bacalhau demolhado, lombo alto
Azeite
Alhos
Poejos frescos
Espinafres
Arroz carolino
Ovos
Sal e pimenta

Preparação:

Cubra as postas de água fria e leve ao lume médio com sal.
Quando começar a querer ferver, baixe para mínimo de modo a que não chegue a borbulhar e deixe por uns minutos. Retire as postas e reserve à parte a água onde cozeram.
Estale no azeite os alhos fatiados, sem deixar alourar.
Salpique com pimenta moída e junte a água de cozer o bacalhau. Quando ferver, incorpore então um molho de poejos frescos
ripados e um punhado de arroz carolino. Quando este estiver meio cozido junte por fim folhas de espinafre.
Sirva com um ovo que foi escalfado à parte,
de modo a que conserve a gema cremosa.
 Nota:
*Há poucas expressões mais ingratas e dadas a confusões do que “Cozinha tradicional portuguesa”. 
É que, se com “cozinha” e “portuguesa” não há muito a discutir, já o termo “tradicional” presta-se a bem diferentes interpretações, o que faz com que existam defensores da tradição que, na prática, defendem conceitos que acabam por ser quase antagónicos.
De facto, existem duas formas de entender a tradição: Uma, que devo desde já esclarecer que é a minha, entende a tradição como um contínuo em permanente mutação, a forma como chegaram até hoje os antigos costumes mas alterados por aquilo que deles fomos fazendo, neste caso nas nossas cozinhas, sendo o modo como esses velhos pratos mudaram até hoje aquilo a que chamo cozinha tradicional. Outros acham que a cozinha tradicional é algo de museográfico, os pratos como os nossos avós os comiam e que alguém em determinada época recolheu e passou ao papel, ficando desde então suspensa a sua evolução e cristalizando a sua “cozinha tradicional” em algo que é apenas a tradição suspensa num certo tempo, ou seja, tornando essa tradição numa espécie de reconstituição histórica de cozinhas, não tradicionais mas sim de antanho. É deste conceito de tradição como reconstituição histórica que nascem as confrarias deste ou daquele prato, pão ou doce que, erigidas numa espécie de inquisição certificadora, velam para nada mude, nada se experimente em relação à sacrossanta receita que a avozinha deixou.
Não se pense pelo que acabo de dizer que não gosto ou que menosprezo esse esforço de preservação histórica de receitas, muito pelo contrário como aliás se pode comprovar à saciedade pelo aqui se publicou; o que não gosto é de ver tiranias de velhas tradições a quererem impor uma censura às inovação, experiência e criatividade que, felizmente, nunca deixam de acontecer nas cozinhas de todos nós, em todos os tempos. Chama-se evolução e é o que faz com que aquilo que era tradição no tempo da minha avó tenha passado para a minha mãe com as inovações que ela lhe fez e que a minha mãe as tenha passado a mim com as suas próprias peculiaridades criativas. 
Eu, como bem sabem os que me lêem, não me coíbo de experimentar, umas vezes com bons resultados, outras nem tanto! É dessa tradição que aqui se trata.