Archive for março, 2010
pedra e ovo
certamente
o ouvido se faria, de um selvagem,
espera mais que louca e repisada.
transcendo na espera o piso firme,
a indulgência. a pedra e o ovo
são, os dois, feitos morada.
(pedra e ovo)
[Per Augusto & Machina]
trato
sou fazendeiro do ar,
do mar, índia, portugal,
de natal, das trevas, minas.
sou fazendeiro da noite,
sou fazendeiro esquisito,
mais pra feio que bonito,
menos do bem que do mal.
claros delírios, donzelas
verdes azuis amarelas,
nascentes do meu jardim.
fazendeiro de fazendas,
mistura de pano e rendas,
de bois, jumentos e éguas.
cada passo eu piso léguas
da fazenda que há em mim.
(“bené para flauta e murilo”, edições dubolso, 1990)
menino, menina
1.
o teu caudal de rua, a veemência do corpo
em ser faminto. o olho branco de osso,
um hábito de aranha, ralo de fomes.
tua emenda, fisga de impropério,
corpo lavado de esgoto, rasgo selvagem da boca.
uma boneca em cascalho te cinge o rosto.
um caminhão de rumos te afasta vida.
2.
quanto homem, mulher, se mata no teu antro?
pétala mordida de chão, um lábio solto
no ar, resvalam prumos.
(menino, menina)
[Per Augusto & Machina]
manga, uma oval
a manga, uma oval escalavrada
tem olho de cadela reticente.
seu cio só trafega por metades.
nêspera, extrato da soberba,
apresenta fagulhas pelo corpo
vazio de possíveis argonautas
abelhas de lazer e mel rompidos.
o vírus do metal, jaboticaba,
ponto puro em corpo fibrosado
madeira que estatela sobre línguas
o quanto de um corpo pode ser
maduro e leite. garrancho sobre orvalho,
um tonel doce, abrangência pura
de açúcar, cana, veia e sangue
instalados na faca só de mortes.
quando gritos se instalam sobre os lanhos
da cicatriz doente, um puro véu
arremete batalhas mais sangrentas
de dente seco sobre pele e vírus
o corpo da maçã, um puro podre
de pedra e pecado solidário
homem e mulher se fazem seu extrato.
( manga, uma oval)
[Per Augusto & Machina]
