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uns idiotas me pararam
uns idiotas me pararam
e me disseram umas poucas e boas:
que eu não caminho direito
e nem bato continência como devo
que a minha contra-mão é perdida
e só eles dominam os arcos do mundo.
só eles sabem
e eu nem sou a revelação de um segredo.
contra eles eu só carrego a nudez do dia
e um desejo à esquerda da terra.
romério rômulo
ordem do dia
ordem do dia
chamei os amigos à ordem do dia
e decidi revelar-lhes o estanho da cara:
quanto de mim é um anjo
e quanto assombração e pedra.
ficaram as vergonhas, todos os silêncios
e as vidas dos silêncios.
desmontei das sombras
e me afundei nas aguadas.
os cavalos, sobrados em pelo,
caminharam sobre a terra do cão.
romério rômulo
meu anjo do sertão, 1
sobre mim há um olhar de só paixão
e um olhar bem maior que me odeia
manuelzão traz cavalos numa peia
com as éguas, estrelas do desvão
sua mão me defende e me rodeia
fui benzido nas águas do sertão.
romério rômulo
dig it, Seamus Heaney!
dig it, Seamus Heaney!
na poesia
debruçar sobre as vogais
os cerrados
e revolver as mulas da infância
quanto tempo gastei meu corpo bêbado
sobre os montes de terra
com as ferragens cozidas
pelos modos das gentes do meu povo
quantas guerras fiz
no meu braço de arame
que comia hóstias, corpos de santos
e moças fora do tempo
quantas sílabas contive nos dentes
com todos a me cobrar
a dívida da história.
são outros os perdões que eu mesmo peço.
romério rômulo
a orelha dura de van gogh
a minha carne é extrato em ferro
de uns demônios que destroem, loucos
os pavimentos do mundo e me cancelam
umas linguagens mortas, destratadas
pelo desejo de uma mão dobrada
que lhes entregue o morto a cada noite
quando romper o escuro é permanência
quando subir tapumes é maldade
ao me sobrar o canto iluminado
pela boca febril de caravaggio
pela orelha dura de van gogh
neste fantasma de casa que me cerca.
romério rômulo
vila, 1
esta vila é uma verdade
plena de matos e pedras
rica de ouros e águas
espraiados pelos corpos
que ontem se viram escravos
nos atos mais comezinhos
onde cada ponte leva
onde cada água afunda
a memória dos algozes
do ouro por sucumbir
em lanhos, facas, machados
nos próprios ossos das gentes?
quanta carne se abriu
nos cantos desta cidade
que a fizeram roer ossos
e quebrar-se pelas pedras
entremeadas, devotas
com verdes caldos de lama?
o seu corpo é do diabo
a sua alma é fundida!
romério rômulo
anjo ruivo
há
um anjo ruivo
que decide a noite
escava gavetas
faz o translado dos dentes
cuida das pontes
arranca os medos e os berros
um anjo ruivo
que varre e acerta bandolins
aperta poetas vadios
diz o nome dos bois
arranca os aços da vida
um anjo ruivo
que lava
a poesia ressecada.
romério rômulo
fragmento, 1
fragmento, 1
quando eu morrer amanhã, não interrogue
da só devassidão dos meus ofícios
eu deixo um girassol, como van gogh
e um afro-samba travado de vinicius.
romério rômulo
lampião e maradona, fragmento
lampião e maradona, fragmento
sou um cabra danado de vazio
cada furo que faço é um arrepio.
cada poça de água, ceará
bem-me-quer, mal-me-quer
mas não me dá.
romério rômulo
mote para dezembro, 1
eu deixo a casa vazia
meus cavalos d’além mar
um caravaggio nos ossos
um maradona no olhar
um goya feito do avesso
meu corpo sem endereço
se dezembro me matar.
romério rômulo
não consigo me livrar desse poema
tenho medo.
o medo de viver sob essa pele,
o medo das mulheres que me absolvem do pecado,
o medo do câncer que termina em morte.
medo das estradas sem caminho,
do envolver o espanto do meu olho
e derivar os poemas da noite.
medo dos cachorros é o que tenho.
tenho medo dos cavalos,
da beleza que destilam
quando eu não consigo a coragem de vê-los.
tenho medo do olhar,
de todos os olhares:
a vida lhes pulsa o meu medo
e só me cabe retê-los um pouco.
o grande medo,
o medo que estarrece,
o medo que me promete a explosão da carne,
é o medo da pele que me come
e eu não vejo.
não sei da vida,
não sei da morte e suas atrofias
e me revelo no medo.
tenho medo da loucura,
das mentiras e verdades que me roem,
do meu sono e da minha insônia.
o suicídio é um alento carregado de medo:
o medo do fracasso.
a coragem
é o arremedo
da minha clave escondida.
de todos os medos
arranquei meu dia
e não consigo me livrar desse poema.
romério rômulo
dados, lance 1
se bem me esqueço
nascer é tropeço
se bem me lembro
morrer é dezembro
tudo é um jogo
de terra e fogo
a embebedar
a água e o ar.
romério rômulo
o dezembro de Kafka, 1
a neta de Kafka
foi colhida nas máquinas de um senhor de 12 anos.
retrato brusco,
desde então há um risco no meu olho
meus cavalos mostram impotência
as vestais se amputam na pele
o absinto desova suas águas.
censurada
essa mulher é a pedra do meu rim.
devem ser razões do próximo dezembro.
romério rômulo
dezembro 1, 2
1.
neste dezembro eu vou pisar o estio
com toda a truculência do vazio.
2.
me declaro cavalo e pecador
temporais de um corpo inexistente.
em dezembro me caso por amor.
romério rômulo
o corte da terra
a vida, solidão, toda impotência
caminha numa pele de novelo
onde ela rasga a carne em desmantelo
a demonstrar ao mundo abstinência.
pudera ser mais torpe e mais estrada
nos meus cavalos, encantos, aguaceiros.
a vida se acabou em quase nada.
romério rômulo
éguas, aquedutos e estradas
as musas de concreto sublevadas
são éguas, aquedutos e estradas.
por veias e vielas eu já soube:
fui o último poeta que lhes coube.
em cammonds, cabrais e águas lusas
os meus cavalos se matam nessas musas.
romério rômulo
tarefa, 1
recolho a tarefa concreta
de levar a poesia ao descalabro
e à liberdade.
visto a tarefa concreta
de aspergir de poesia cada osso
e o pão devido.
sem a tarefa cumprida
estarei inútil.
romério rômulo
à clara moça dos poetas
sou casto pelo corpo e suas névoas
na rouquidão das guerras que nos partem
nas armas mais sutis que nos magoam
o corpo e a alma das vertentes podres
só me abalam em terras arrasadas
de aço chucro, de cimento aspro.
você é a clara moça dos poetas.
romério rômulo
musa, 15
montei o mal em pelo
cadenciei a vida
a força que me aguenta
deixei a minha raiva na sua venta
no calo mais feroz da madrugada
a musa que me coube foi domada!
romério rômulo
a vida, augusto!
os cordéis da morte me perturbam.
saiba eu quando virá a companheira
quero revê-la, à tarde, por inteira
como agregado de cal à própria sorte.
a vida, augusto, já contém a morte!
(“per augusto & machina”, 2009)
romério rômulo
o mais armado dos homens, 3
sou o mais limpo dos homens.
as orelhas, vão do corpo, abelhas
têm perfumes, extratos e odores
que mais parecem um ramal de flores
no trovejar do mundo em centelhas.
romério rômulo
menestréis, 1
os menestréis do mundo são bem poucos.
uns arrebentam amores enlutados
outros se encantam nas paixões, já loucos.
romério rômulo
o mais armado dos homens, 2
meus olhares são frases depravadas.
minhas chamas no mato, minhas fadas
arrebatam o tronco das manadas
de bois, todos eles meu tormento.
as suas carnes pacientes eu invento
a debelar as fomes povoadas.
romério rômulo
lilith, 1
essa mulher tirou o bem do mal.
seu nascimento explica o mundo e as sobras.
eu sou o bêbado da fonte principal.
romério rômulo
maradona é o aço do sertão
1.
chamei um cancão de fogo
cangaceiro arrematado
pus maradona no jogo
pra fazer logo o melado
o homem já sabe tudo
num violão de veludo
toca bem tango e xaxado.
2.
no olhar sagrado do cancão
maradona é o aço do sertão.
romério rômulo
e só, é tudo
me decidi te ver
inteira, nua
uma mulher que é vento
e que é rua.
me decidi te amar
em meu quebranto
uma mulher que é sopro
e é espanto.
me decidi dizer-te
e fiquei mudo
uma mulher que é só
e só, é tudo.
romério rômulo
poesia, 5
eu não faço poesia
e encerro o assunto
é preciso o mundo
a roda do mundo
a mão humana do mundo
a poesia só vale
se trouxer comida mas mãos.
romério rômulo
curva, 1
a poesia é seca
tem alma de deserto
pele curva
a poesia é suja.
quem não quer a missão
saia de perto.
romério rômulo
rivotril 14, 15
14.
cappuccino amanhece desabado
pelas cores da pátria mãe gentil
com as veias no lance deste dado
o meu tubo letal de rivotril.
15.
cappuccino é um desvio de conduta
pelos céus encerados do brasil
minha musa, a mais filha da puta
cai de amores aos pés do rivotril.
romério rômulo
ópera, 1
no minifundio de roupa
amarrado por ingaços
caibo eu, cabem as tramas
minhas obras, meus abraços
meu muro, todo de espaços
meu palco, santo vazio
meus amores mais devassos
a seca feita no cio
as cantigas, todas lama
as águas destes meus poços.
quanta vida pela rama
na folhagem dos meus ossos!
romério rômulo
poesia, 5
há poetas que cozinham
noite e dia
na suave oficina da poesia
eu cozinho a poesia
chifre e rabo
na dura oficina do diabo.
romério rômulo
musa e vestal, 1
1.
a musa e a vestal são meus abismos.
se abro uma, contém mirabolâncias
se abro outra, descubro silogismos.
vou revelá-las em todas as instâncias
cobertas de razão, mas sem juízo.
2.
a musa e a vestal são as amantes
do meu corpo imperfeito de narciso
e cegamente refletem meus juízos
num estado de ferro e de diamante.
vou amansar uns ópios indecisos.
romério rômulo
desmontar a musa, 1
1.
eu pego da amada os parafusos
e reconheço cada, nos seus usos.
jumelos, lambrequins e outras gentes
monto e desmonto os olhos e os dentes.
daí carrego a musa em meus arreios
pra assegurar os tanques e os freios.
a vida já virou uma caçada
quem sabe dos chassis da minha amada?
2.
vou remontá-la toda, em madrugada
numa poesia de dança e gargalhada.
romério rômulo
maradona, virgulino e limeira, 1
1.
eu chamei maradona e virgulino
pra um serviço no couro do sertão
minha alma de santo e de menino
escondida num verso fescenino
se perdeu no primeiro palavrão.
2.
maradona sacou seu dom divino
virgulino vestiu de lampião
zé limeira ferveu no desatino
qualquer deles não tem comparação.
ninguém viu um encontro tão moderno
o sertão é o beco do inferno.
romério rômulo
maradona torceu o parafuso
1.
maradona torceu o parafuso
e bebeu o gol de muitas gentes
com o cântico dos cânticos cafuso
fez tremer as terras e os dentes
dos corpos a sobrar, todos confusos
por sua bala no teto dos desplantes
sob a injeção de deuses e descrentes
num pisar de anões e de gigantes
a encantar caretas e dementes.
2.
maradona torceu o parafuso
encontrou o pavão misterioso
com um gol, o mais belo e amoroso
fez cair toda regra em desuso
ao rasgar a nervura do tufão.
maradona, percebido furacão
a caber numa banda de tambores
com a alma mordida de amores
sex pistol que joga com a mão
carregado na poeira dos andores
por um santo de cícero romão.
3.
pra mirar no poeta, cão recluso
maradona torceu o parafuso.
romério rómulo
se eu fosse maradona, 25
olhando por cima d’ água
eu sou bicho mamulengo
no anzol e na anágua
plantei muito capim bengo
plantei pólvora, novelo
espinho, pele e cabelo
comprei cavalo, novilho
pelo fim toquei sanfona
de tudo comprei, meu filho
ah! se eu fosse maradona!
romério rômulo
posses, 1
no meu olhar de alçapão
na minha pele de escova
na minha mão de bigorna
no meu dedo só impulso
no meu enfado bandido
no meu riso de atropelo
no meu antro de desdém
na minha quadra de luzes
na minha vila 18
no meu cabelo de estopa
a minha casa dos contos
o meu quinto dos infernos.
romério rômulo
os meus cavalos são mesmo poetas
1.
bandeira chega em observação
pelos cavalos sábios, eles todos.
carrega as suas patas como rodos
a abater o mundo em poesia.
bandeira só faz versos na agonia.
2.
há um cavalo nos pastos, de sonetos
imbuídos das estradas mais sutis
seus olhos arrombados foram pretos
suas pisadas todas são febris
e trazem tudo sobre os atropelos
na sua fonte, noite de novelos
das águas, dos azuis, dos desmantelos.
3.
camões tem o beneplácito das sombras
de umas damas pias e gozosas
pelo seu tempo dormem nas alfombras
são umas éguas vis e saborosas.
romério rômulo
amor 5, 6, 7
5.
o amor é faca sem corte
te faz promessa, te beija
te retalha, te esquarteja
te sangra perto da morte.
6.
o amor é riso, depressão, paulada
concerne sempre a um estado puro
onde o tratado, cada vez mais duro
faz do meu corpo gado de invernada.
7.
há um amor. e ela é minha amada
temos, os dois, o mesmo endereço
tudo funciona, que na nossa estrada
um vê o outro sempre pelo avesso.
romério rômulo
