Andamos meses a discutir o ministro da saúde. A discutir a falta de comunicação na política do homem a discutir o fecho ali e acolá. E faltou talvez a discussão mais profunda. Apesar dos erros e das trapalhadas será que a política gizada não era a mais correcta? Será que a reestruturação das urgências não visava melhorar o sistema de saúde? Ou será que tudo não passou de um equivoco ou de um erro completo?
Mês: Janeiro 2008
75%
Anadia
Joga-se muita coisa em Anadia neste momento, nomeadamente a linha de rumo da política de saúde do governo. O Presidente da Câmara de Anadia (Litério Marques) sabe que está a jogar um jogo perigoso com o governo. Não só quer manter a urgência permanente no hospital de Anadia como também quer fazer um hospital novo em terrenos que a autarquia quer comprar e fazer aí uma urgência médico-cirúrgica. É uma grande jogada, que pode não dar em nada como também pode dar em alguma coisa.
Se tiver azar não vai ter nada. Vai ficar como está e com o passar do tempo vai-se perceber que a contestação foi apenas uma bravata sem resultado algum. Mas se tiver sorte pode conseguir alguma coisa. É claro que o fecho da urgência de madrugada será sempre uma derrota para ele e sabendo isso não pode ceder nesse capítulo.
A nova ministra também deve ter essa noção. Tem várias hipóteses em cima da mesa. Pode suspender tudo e deixar que os hospitais fiquem como estão, ou seja, com uma consulta não programada durante a madrugada. E aí os protocolos deixarão de fazer sentido. Pode apenas ceder no caso de Anadia ou Vouzela e ter depois que enfrentar os outros municípios que já assinaram os protocolos. Ou então pode manter a posição e esperar que Anadia assine um protocolo semelhante aos outros, o que não será fácil. Ou então deixar Anadia como está, sem protocolo e sem atendimento de madrugada.
Portanto, muito se joga em Anadia e os próximos tempos vão ser interessantes. Será, no fundo, a política do governo que estará em jogo. Se ceder é um sinal de fraqueza perante a contestação popular por muita razão que esta tenha.
Ainda a saúde
Já escrevi aqui em tempos, que o problema dos comentadores que acham que o protocolo sobre as urgências em Salreu é mau, é a sugestão de que a Câmara não devia de assinar protocolo nenhum e que o hospital devia ficar entregue à sua própria sorte como no caso de Anadia.
Outro problema nestes comentadores é a recusa sistemática em fazer um balanço entre o que ganhamos e o que perdemos com o protocolo.
Já escrevi que, em termos gerais, ganhamos dois médicos das 20h00-24h00 com análises, coisa que não tínhamos, ganhamos mais algumas especialidades em termos de consulta, ganhamos uma ambulância INEM, ganhamos a intervenção da VMER de Aveiro, ganhamos um heliponto para operações com helicópteros, ganhamos telemedicina, ganhamos a requalificação das extensões de Veiros, Canelas e Fermelã.
Mantemos a possibilidade de assistência aos acidentes químicos como já acontecia a qualquer hora do dia ou da noite e perdemos a consulta não programada durante a madrugada.
Ora, no período da madrugada, os atendimentos no hospital em termos percentuais andam nos 6,3%, o que não é significativo, embora por mim até preferisse a continuação deste atendimento durante a madrugada. Já escrevi sobre isso, mas nunca vi qualquer abertura do ministério nesse sentido. Portanto, perante a posição do governo acho preferível ter um pássaro na mão do que dois a voar.
É claro que se o governo ceder em Anadia, Estarreja e outros municípios ganham legitimidade para contestar o protocolo. Por isso, é que acho que a nova ministra comete um erro se ceder. Mas em política tudo é possível. O que hoje é a política da saúde do governo amanhã pode não ser coisa nenhuma.
Políticas habilidosas
Esta notícia sobre o protocolo das urgências em São João da Madeira é um bom exemplo de uma política habilidosa para a divulgação de certos factos.
Quem fez a notícia não leu concerteza o protocolo. Alimenta apenas a habilidade do Presidente da Câmara que fez passar a mensagem que as urgências de São João vão continuar indefinidamente, o que não é verdade, como se pode ver no protocolo.
Um comentador local leu a notícia e aplaudiu obviamente. Compreendo que tenha sido induzido em erro pelo jornal, mas era escusado se tivesse lido o protocolo, antes de comentar.
Ainda o gaulês
Um dos problemas nas discussões com este gaulês, são as frases incendiárias e a alguma falta de reflexão na palavra escrita. Voltarei ao assunto em breve.
Parece-me pouco provável que algum ministro da saúde sensato neste país, cometa o erro de criar uma urgência básica em Anadia aberta 24h. E parece-me pouco sensato porque se algum ministro o fizer está a dar razão a Anadia e a criar um problema com os outros municípios que assinaram protocolos de boa fé no pressuposto de que uma urgência básica estava fora de questão.
Anadia não é mais do que Estarreja, Ovar ou São João da Madeira. Portanto, não tem que ter que mais desse ponto de vista. Se isso acontecer, os restantes municípios vão ter razões para pedir o mesmo.
O que aconteceu em Aveiro está a ser averiguado. São dois casos, um de falha aparente no sistema de triagem (o que pode acontecer em qualquer urgência) e outro de abandono no corredor, que deve ser averiguado a fundo. Tanto um caso como outro devem ser apurados, mas nem seriam precisos estes dois casos para saber que Aveiro tem problemas em termos de urgência.
Portanto, há uma luta que deve ser feita para que a urgência de Aveiro tenha melhorias. E aí acho que todos os autarcas devem reclamar por isso. É o que Estarreja tem feito junto da administração regional de saúde e vai continuar a fazer.
Agora dar a entender que o PSD de Estarreja menospreza a vida humana é um exagero e uma daquelas frases incendiárias que não leva a lado nenhum.
O gaulês
Automatix é o ferreiro da aldeia gaulesa de Astérix. Conhecido pelas suas discussões com Ordenalfabetix é um homem de temperamento explosivo e de lutas frequentes. Um homem de bravatas. Há grandes semelhanças entre Automatix e o Abel Cunha. Uma delas é a tendência para incendiar as discussões.

O Abel comenta aqui que os gauleses de São João da Madeira souberam resistir ao Ministério da Saúde assinando um protocolo, que parece que salva as urgências de São João e que para isso é preciso saber trabalhar e resistir.
Ora, o que estes gauleses conseguiram foi um protocolo que adia por um ano, o fecho das urgências durante a madrugada. Daqui a um ano, o protocolo vai ser avaliado e se estiverem cumpridas as 3 condições previstas no protocolo (o que é provável), a urgência fecha de noite e os doentes passam para o hospital da Feira.
É claro que Castro de Almeida joga aqui no tempo. Mas daqui a um ano, se o que está previsto for cumprido, a urgência fecha simplesmente. Ora, parece que o Abel Cunha vê aqui uma grande vitória dos gauleses de São João de Madeira, quando o que temos é um protocolo, onde o resultado final é também o fecho das urgências de madrugada.
Como no caso de Estarreja, acho que Castro de Almeida fez bem em assinar. É um bom protocolo, embora também com a previsão do fecho de madrugada. Mas melhora o hospital, como acontece no nosso caso. Vamos ver agora o que vai acontecer com a mudança do ministro?
A aldeia gaulesa
Pouco a pouco, Anadia tornou-se uma espécie de aldeia gaulesa na luta contra o ministro da Saúde. É uma luta que não vai dar em nada. O ministro não pode recuar em Anadia e isso é mais que evidente. Se o fizesse tinha todas as outras Câmaras (com protocolo) a pedir o mesmo. Daí que a luta de Anadia, (embora compreenda as razões) é uma luta inglória que não vai levar a lado nenhum.
Há quem ache que nós também devíamos ser uma espécie de aldeia gaulesa. Ora, eu acho que não, pois o que importa para nós é melhorar o hospital que temos e é para isso que serve o protocolo assinado. E já agora o PS local esteve bem na defesa do protocolo e na suspensão do fecho da consulta nocturna em Salreu, enquanto Aveiro apresentar problemas. Aliás, é algo implícito ao protocolo.
Coimbra
O que é para mim Coimbra? Uma cidade é certo, um alto de casas e universidade. Ruas estreitas, lembranças de outros tempos. O rio, sempre presente. E Santa Clara e o observatório com o seu ar antigo e velho. Há qualquer coisa de mim ali. Uma saudade, um querer voltar.
Contas, vinganças e boatos
No final de Dezembro foi discutido o orçamento da Câmara para o presente ano. Como qualquer documento desta natureza é algo de discutível. Os investimentos previstos e as opções tomadas são obviamente discutíveis. Não seria de esperar consenso, mas era de esperar alguma discussão política com acutilância. Estranhamente, o PS local limitou-se a uma intervenção centrada no problema da subida da despesa corrente. Disse que o orçamento era um desastre (não seria de esperar outra coisa) e voltou aos velhos argumentos já gastos de que o orçamento era um documento virtual, pois a execução ficava sempre pela metade (como se não fosse assim no tempo do PS). Depois falou do aumento da despesa corrente esquecendo-se de dizer que a despesa corrente está a subir pelo menos há 17 anos (tenho dados desde 1990) e que no tempo do PS sempre subiu. Mas aí nunca vi ninguém do PS votar contra ao orçamento por causa da subida da despesa corrente ou por causa da taxa de execução.
Havia no orçamento matéria para discussão. O caso do investimento nas freguesias dava uma boa discussão política. Mas foi uma discussão que passou completamente ao lado do maior partido da oposição, o que não é admirar dada a fixação nas pequenas causas particulares, como caso da árvore de Natal ou o autocarro do Andanças.
Já há tempos escrevi aqui que um partido político pode preocupar-se com a árvore de Natal, com o preço da mesma, com a ferrugem que parecia trazer, agora é bom que dissesse onde é que arranjava uma árvore igual mais barata e que provas tem de que o subsídio dado à SEMA na questão da árvore, se destina a pagar uma dívida de um ex-líder da JSD? É que um partido político credível não pode viver com base em rumores, no diz-que-diz. Tem que ser responsável nas insinuações que faz. Para afirmações extraordinárias tem que apresentar provas credíveis e sustentáveis. Não fez nada disso até agora. Não pediu a documentação à Câmara antes de falar, não falou com a empresa que vendeu a árvore para saber se era cara ou barata. Limitou-se apenas a dar eco de um mail anónimo, sem querer saber da sua credibilidade. E fê-lo apenas para criar ruído e atrito político. Nada mais do que isso.
O caso do autocarro do Andanças está na mesma linha de acção. O Andanças foi um projecto da Santa Casa da Misericórdia que durou enquanto teve o apoio da Segurança Social. Depois disso, o autocarro ficou parado e a Santa decidiu vendê-lo à Câmara Municipal por um preço abaixo do seu valor comercial, o que até foi um bom negócio para a Câmara. A líder do PS local decidiu também lançar suspeitas sobre este negócio. É claro que não teve a preocupação de se informar antes de falar, como na história dos terrenos do parque industrial. Primeiro falou e depois é que pediu os documentos. No caso em análise, nem sequer pediu os documentos. Falou de negócios estranhos, de coisas suspeitas, mas nunca se preocupou em falar com as pessoas envolvidas, com a Santa Casa ou com quem quer que fosse. Falou do que desconhecia, mas mesmo assim falou. Não me parece que seja uma atitude correcta, ainda por cima por parte de alguém que lidera um partido. Depois diz que pediu as contas do “Projecto Família”, quando a venda do autocarro à Câmara nada tem a ver com o “Projecto Família”, pois o projecto já terminou e a venda é posterior. Se tivesse pedido informação antes escusava de trocar alhos por bugalhos.
Em resumo, o maior partido da oposição anda empenhado em zunzuns, em boatos, que pouco contribuem para a sua afirmação como alternativa de poder. Em questões chave para o concelho, como a discussão do orçamento, passa ao lado. Mas o mais grave de tudo isto é a tendência da deputada Marisa Macedo em querer transformar o partido num instrumento de vingança e de perseguição pessoal. E um partido não pode ser isso. Um líder quando se candidata à liderança de um partido na oposição, tem que ser para dizer o que está bem e o que está mal, para dizer o que fazia de diferente e como fazia. E isto de forma credível e sustentada. Ora, a deputada Marisa Macedo não se candidatou para isso. Como ela própria diz candidatou-se para o PSD local dizer mal dela e candidatou-se também (digo eu) para se vingar das queixas contra Vladimiro Silva e Fernando Mendonça. Ora, um líder com um programa destes transforma facilmente um partido numa vendeta política, o que é péssimo para o próprio partido e para a vida política local.
Uma nota final. A CDU votou favoravelmente o último orçamento da Câmara. Foi a primeira vez que o fez, mas naquele simples gesto mostrou uma coisa, que mesmo sendo um partido da oposição teve a coragem de ver para além do partidarismo e de votar favoravelmente um documento que acha no essencial correcto. Sem complexos de oposição, sem partidarismos locais. E isto não inibe obviamente a CDU de discordar de outras políticas e de marcar a sua posição. Mas há coragem neste gesto e uma forma diferente de fazer política.
(In Jornal de Estarreja)