iRead # Mensagem para o Dia do Migrante e do Refugiado

«Porventura não é desejo de cada um melhorar as próprias condições de vida e obter um honesto e legítimo bem-estar que possa partilhar com os seus entes queridos?» Este é um dos questionamentos que o papa lança na mensagem para o Dia Mundial do Migrante e Refugiado de 2016, revelada hoje pelo Vaticano.
No texto intitulado “Os emigrantes e refugiados interpelam-nos. A resposta do Evangelho da misericórdia”, Francisco lembra que no Evangelho «o encontro e a receção do outro entrelaçam-se com o encontro e a receção de Deus: acolher o outro é acolher a Deus em pessoa».
«Todos os dias, porém, as histórias dramáticas de milhões de homens e mulheres interpelam a comunidade internacional, testemunha de inaceitáveis crises humanitárias que surgem em muitas regiões do mundo. A indiferença e o silêncio abrem a estrada à cumplicidade, quando assistimos como espectadores às mortes por sufocamento, privações, violências e naufrágios», salienta.
(…) «Cada um de nós é responsável pelo seu vizinho: somos guardiões dos nossos irmãos e irmãs, onde quer que vivam. O cultivo de bons contactos pessoais e a capacidade de superar preconceitos e medos são ingredientes essenciais para se promover a cultura do encontro, onde cada um esteja disposto não só a dar, mas também a receber dos outros. De facto, a hospitalidade vive do dar e receber», acentua. (…)
01/10/2015 © SNPC

iRead # Somos analfabetos do silêncio | JTMendonça

[Silêncio. Até muito recentemente eu odiava o silêncio ou pelo menos odiava o que ele para mim significava: um misto de medo de solidão (o sentimento de estar só, desacompanhada…) e de estar (fisicamente) sozinha. Basicamente,  não gostava de estar comigo 🙂 Só há muito pouco tempo, e conduzida em especial pela espiritualidade inaciana, me iniciei no desafio de fazer silêncio. Continua a ser um desafio, mas já há dias em que entro em casa e não vou a correr ligar a TV… já há dias em que faço programas sozinha em vez de procurar companhia para. Estou crescida, não estou??? Este texto do JTM levou-me a recordar em certa medida este meu processo de descoberta do silêncio e a fazer uma avaliação (também muito ao estilo inaciano) de como anda o silêncio na minha vida.]
(…) As nossas sociedades investem tanto na construção de competências na ordem da palavra (e pensemos como a escolarização está ao serviço da capacitação dos indivíduos em ordem a um funcionamento eficaz com a palavra) e tão pouco nas competências que operam com o silêncio. Somos analfabetos do silêncio e esse é um dos motivos porque não sabemos viver na paz.
O silêncio é um traço de união mais frequente do que se imagina, e mais fecundo do que se julga. O silêncio tem tudo para se tornar um saber partilhado sobre o essencial, sobre o que nos une, sobre o que pode alicerçar, para cada um enquanto indivíduo e para todos enquanto comunidade, os modos possíveis de nos reinventarmos. Mas para isso precisamos de uma iniciação ao silêncio, que é o mesmo que dizer uma iniciação à arte de escutar.
Na sociedade da comunicação há um défice de escuta. Numa cultura de avalanche como a nossa, a verdadeira escuta só pode configurar-se como uma re-significação do silêncio, um recuo crítico perante o frenesim das palavras e das mensagens que a todo o minuto pretendem aprisionar-nos. A arte da escuta é, por isso, um exercício de resistência. Ela estabelece uma descontinuidade em relação ao real aparente, à sucessão ociosa do discurso, à enxurrada que a telenovelização do quotidiano (seja ele político, económico ou cultural) comporta. A escuta constitui uma cesura, um corte simbólico, uma deslocação.
Pense-se em como o silêncio dá a ver o património de uma amizade. E a pergunta é: como percebemos que dois desconhecidos são amigos? Pela forma como conversam? Certamente. Pelo modo como se riem? Claro que sim. Mas ainda mais porque nitidamente acolhem o silêncio um do outro. Entre conhecidos o silêncio é um embaraço, sentimos imediatamente a necessidade de fazer conversa, de ocupar o espaço em branco da comunicação. Com os amigos o silêncio nada tem de embaraçoso. O silêncio é um vínculo que une.
José Tolentino Mendonça | 13/06/2015 © Expresso

Notícias das más # O massacre de Garissa no Quénia e a também existente perseguição aos cristãos

No passado dia 2 de Abril um grupo somali com ligações à Al-Qaeda entrou na Universidade de Garissa no Quénia e foi atirando sobre as pessoas que ia encontrando pelo caminho. Morreram 148 estudantes cristãos. Outros tantos encontram-se feridos com gravidade.
Esta é uma notícia a que vergonhosa e hipocritamente os media não deram e continuam a não dar qualquer destaque editorial. Alguns noticiários limitaram-se a passar a notícia em nota de rodapé, enquanto outros passaram uma micro reportagem de 10 segundos. Parece que esta notícia não é digna de destaque semelhante ao que foi dado ao não menos grave atentado no jornal Charlie Hebdo ou à incompreensível tragédia da queda do avião da Germanwings… Mas porque será? Porque se passou em África? Porque as vítimas não eram europeias? Porque morreram cristãos e não muçulmanos? Bem sei que nós os ocidentais europeus somos uns privilegiados por termos nascido no hemisfério Norte, mas que também por cá já temos que viver com muitos e graves problemas e vicissitudes… Mas a meu ver nada justifica esta discriminação negativa dos media.
Posto isto, registo uma vez mais com agrado o facto de o Papa Francisco se mostrar atento às periferias, às verdadeiras periferias, aquelas para quem ninguém quer olhar, ou não tem tempo, ou desconhece, enfim. Na sua Mensagem Urbi et Orbi de Domingo de Páscoa o Papa Francisco reforçou as suas preocupações em relação aos cristãos perseguidos por causa da sua fé, lembrando ainda todos os “que sofrem injustamente as consequências dos conflitos” em curso. O Papa Francisco pediu ainda “que uma oração incessante suba de todos os homens de boa vontade para os que perderam a vida — penso particularmente nos jovens que foram mortos na quinta-feira na Universidade de Garissa, no Quénia”, disse o líder católico, aludindo de novo aquele massacre, como já fizera na Via Sacra de sexta-feira. Assim de repente não me recordo de ver nem ouvir qualquer outro líder mundial lamentar este atentado.

iRead # 15 doenças que podem afectar a Igreja

O Papa Francisco afirmou hoje que a Cúria Romana é como um “pequeno modelo de Igreja” que tem de se alimentar e curar para não ser “formalista”, apresentando um “catálogo” de 15 possíveis doenças que a podem afectar.
“Sentir-se imortal”, “martismo”, “petrificação mental e espiritual”, “excessiva planificação”, “má coordenação”, “alzheimer espiritual”, “rivalidade” e “esquizofrenia existencial” são algumas das “doenças” que, para o Papa, podem afectar na Cúria Romana.
“Uma Cúria que não se autocrítica, que não se actualiza, que não procura melhorar está num corpo doente”, disse o Papa aos cardeais e superiores da Cúria Romana na audiência de apresentação de cumprimentos natalícios, recordando que ninguém é “imune” ou “indispensável”.
Na apresentação do “catálogo” das doenças ou tentações, Francisco referiu que a figura bíblica de Marta inspira o mal da “ocupação excessiva”, o “martismo”, que afeta os que estão “imersos no trabalho”, esquecendo que “descuidar o necessário repouso leva ao stresse à agitação”.
O Papa referiu-se aos colaboradores que têm um “coração de pedra”, que sofrem de “petrificação mental e espiritual”, perdendo a “serenidade interior, a vivacidade e a audácia” e se transformam em “máquinas rotineiras”.
Francisco referiu-se também o perigo do “Alzheimer espiritual”, que conduz a “uma diminuição progressiva das faculdades espirituais que, num largo ou curto espaço de tempo, provoca muitas desvantagens à pessoa tornando-a incapaz de desenvolver uma atividade autonomamente, vivendo num estado de absoluta dependência dos seus pontos de vista, muitas vezes imaginários”.
No discurso aos presidentes dos vários departamentos da Cúria Romana, Francisco referiu que quando a “aparência” ou as “cores das vestes e as insígnias” se tornam “o primeiro objetivo da vida” é sintoma da “doença da rivalidade e da vanglória”.
“É a doença que nos leva a ser homens e mulheres falsos e a viver um falso ‘misticismo’ e um falso quietismo’”, assegurou o Papa.
Francisco recordou ainda o perigo da “esquizofrenia existencial”, que “atinge muitas vezes aqueles que, abandonando o serviço pastoral, se limitam às coisas burocráticas, perdendo assim o contacto com a realidade, com as pessoas concretas”.
O Papa retomou, no encontro de Natal na Cúria Romana, a condenação das “murmurações” e dos boatos, considerando que corresponde a uma “doença de pessoas cobardes que, não tendo a coragem de falar diretamente, falam pelas costas”.
Ao enumerar 15 enfermidades que podem afetar a Cúria Romana, o Papa referiu também o perigo de “divinizar os chefes” que pode contagiar quem é “vítima de carreirismo”, a doença da “indiferença diante dos outros” provocada pela perda da “sinceridade e calor das relações humanas” e risco de permanecer com “cara de enterro”, falando com rigidez, dureza e arrogância”, sobretudo aos “considerados inferiores.
A “acumulação”, o “círculo fechado” e o “exibicionismo” foram outras doenças apontadas pelo Papa, afirmando Francisco que nesta última o apóstolo transforma o “serviço em poder”.
“Irmãos, estas doenças e tentações são naturalmente um perigo para todos os cristãos e para toda a Cúria, comunidade, congregação, paróquia, movimento eclesial, etc. e podem desenvolver-se tanto a nível individual como comunitário”, esclareceu o Papa.
“São doenças e tentações que enfraquecem o nosso serviço ao Senhor”, assegurou Francisco apresentando o “catálogo” como ajuda à preparação do sacramento da reconciliação nas vésperas do Natal.
22/12/2014 © Agência Ecclesia

Opiniões que gostei de ler # Os novos cátaros

“Há quem se escandalize por encontrar, na Igreja católica, pessoas cristãs que têm dúvidas de fé, ou que atentaram contra a vida dos seus filhos por nascer, ou que esmoreceram na esperança, ou que vivem em uniões não abençoadas pela Igreja, ou que não conseguem ainda amar e perdoar o próximo, ou que seguem tendências contrárias ao uso natural do corpo, ou que são alcoólicas, ou drogadas. Confesso que rejubilo com essas benditas presenças, em que abunda o pecado e sobreabunda a esperança, não só porque são almas predilectas de Deus – as ovelhas pelas quais vale a pena deixar todo o rebanho – mas, sobretudo, porque me sinto confirmado na unidade e catolicidade da minha fé eclesial.”
P. Gonçalo Portocarrero de Almada | 04.09.2014 © OBSERVADOR
Texto integral aqui.